As pessoas ainda têm medo de livros

No futuro não muito distante, livros serão objetos de museus

Eu vi, não lembro direito, se no Fantástico ou no Jornal Nacional, e isso não interessa, não tem importância já que qualquer um dos dois está uma droga, com exceção, claro, da Patrícia Poeta, que andou um tempo num e noutro, mas o fato é que as pessoas até hoje ainda veem o fato de ler livro como algo extraordinário, assombroso, um escândalo. Sim, é a mais pura, crassa e hedionda verdade.

A matéria era o seguinte: uma máquina de livros alojada no centro do Rio de Janeiro. Um troço, assim, similiar àquelas geringonças de refrigerante ou salgadinhos da Elma Chips e o sujeito ia lá e, ao invés de sacar uma Pepsi-Cola, um Baconzitos, qualquer coisa do tipo, ela sai com um Eça de Queiroz, um Machado de Assis, um Graciliano Ramos debaixo do braço. E o que é melhor, tudo de graça, ou seja, ao invés de alimentar o estômago, o camarada alimenta a alma.

Bom, não sei quantas vezes passei fome por deixar de comprar o que comer para comprar o que ler. Afinal, os Titãs sempre tiveram razão o tempo todo. “A gente não só quer comida/A gente quer comida e diversão e arte”, canta a banda paulista.

Mas o tom da matéria me incomodou porque tinha um quê assim de deslumbramento, de algo espetacular. “Olha que legal, as pessoas agora estão lendo livro, não é bacana?!”.

Incrível, mas como ainda hoje as pessoas têm medo de livros. É verdade. Uma colega minha outro dia até estava reclamando sobre isso. Ela acabou de publicar um livro do próprio bolso e lamentava a dificuldade das pessoas de comprarem o artefato, ou seja, das pessoas se interessarem pelo o seu trabalho, enfim, pela leitura em si, pelo livro.

Entendo perfeitamente o que ela sente. Tenho uns primos que, toda vez que eles fazem uma visita lá em casa, ficam assim estatelados diante das minhas três instantes cheias de livros abismados, como se estivessem diante da Pedra de Bolonha ou do monólito do filme, 2001: Uma odisseia no espaço.

Eles olham, olham e lançam a pergunta cretina de si para si: “Nossa, mas tem livro… Isso deve ter custado uma fortuna né?!”, dizem à queima-roupa. E eu mordido de raiva me perguntando por que eles não perguntam algo como: “Que legal! Quantas histórias interessantes você tem aqui, né?!” ou ainda: “Qual livro, desses todos que você tem aí achou mais interessante de ler?”. Mas nada disso.

E o pior é o medo que algumas pessoas têm dos livros, algumas pegam as edições como se tivessem segurando um ovo, uma porcelana chinesa ou algo bastante delicado e valioso, o que não deixa de fazer sentindo, embora elas não saibam o significado do valor que tem uma dessas encadernações cheias de letrinhas.

E o pior não é nem isso. A tendência é ficar cada vez pior com a hegemonia do mundo virtual que fez com que algumas pessoas esquecessem que um dia já existiu papel, prensa essas coisas. Pior, no futuro, terão gerações que não vão nem saber o que é um livro, admirando um exemplar como obra de arte em museus. E as pessoas nem gostam muito de frequentar museus.

É por essa e outras que estou presenteando minhas sobrinhas com livros e mais livros e mais livros. E tem mais, quando eu morrer, não quero ir nem para o céu, nem para o inferno, mas para um sebo. Assim vou poder ler todos os livros que não vou conseguir ler em vida.

Minha eternidade não será cercada de serafins e entidades celestiais, mas de livros.

* Este texto foi escrito ao som de: Titãs Acústico MTV (1997)

Afinal, quem foi Paulo de Tarso Santos?

Tarso idealizou a vinda de Guevara ao Brasil

Paulo de Tarso, o santo, quase todo mundo conhece. Agora o Paulo de Tarso Santos, mineiro de Araxá que foi o segundo prefeito de Brasília, no início dos anos 60, na época em que Brasília não tinha governador, mas prefeito, pouca gente sabe quem é. Eu mesmo nem sabia que o cara, hoje como 86 anos, morando em São Paulo, existia. Fiquei sabendo via Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF), órgão do GDF que guarda todos os documentos referente à história, memória da cidade.

Agora parte dessa injustiça será reparada graça à doação de todos os documentos públicos do político mineiro, conhecido por seus princípios cristãos, ao ArPDF. O acervo engloba material textual e iconográfico, além de uma entrevista feita com a sua mulher Maria Nilse, realizada por dois historiadores da instituição.

Curioso e amante da história do Brasil no período pré e pós-ditadura militar que sou me debrucei na leitura do livro, 64 e outros anos (Cortez Editora), obra que reúne depoimentos de Paulo de Tarso feito ao jornalista paraense, Oswaldo Coimbra, entre os meses de agosto e novembro de 1982. O livro, diga-se de passagem, faz parte do lote de doação feito ao ArPDF, junto com outros cinco títulos.

Bom, estou bem no começo da leitura, já que divido a atenção desse hobby, no momento, com Jorge Amado e o seu Tenda dos milagres, mas confesso de antemão que estou me deliciando, sobretudo, com as histórias de bastidores do poder que ele revela.

Sim, porque além de ter sido deputado antes deassumir a prefeitura de Brasília, por intervenção de Jânio Quadros, de quem era grande amigo, Paulo de Tarso também foi ministro da Educação no governo de João Goulart, o Jango.

Estão lá, por exemplo, relatos do dia em que ele conheceu o político paulista Franco Montoro, que o convidaria a se filiar ao Partido Democrático Cristão (PDC), das rugas no Congresso, com Carlos Lacerda, e até um bate-boca homérico com Assis Chateaubriand, o temido e poderoso dono dos Diários Associados, durante um encontro numa fazenda em Marília (SP). O motivo do quiproquó? O verdadeiro endereço do inferno.

“Vamos ficar em paz. Afinal somos dois baixinhos e os baixinhos são mesmo impossíveis”, teria apaziguado o jornalista, com seu jeitão de cangaceiro.

Outro momento marcante da trajetória de Paulo de Tarso está relacionado com a passagem do guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara pelo Brasil, época em que este foi condecorado com a Ordem do Cruzeiro. Poucos sabem, mas a ideia de trazer o segundo homem mais forte de Cuba ao país partiu dele, na época, prefeito de Brasília que não só hospedou o argentino em sua casa, como teve a honra de convidá-lo para um passeio de helicóptero sobre Brasília.

“Quando nós aterrisamos, de volta no aeroporto, não havia nos esperando, um único ministro de Estado, uma única figura oficial, sequer havia um único soldado”, recorda, explicado que a visita de “Che” foi um ato artificial, até mesmo para Jânio Quadros.

Como se vê, muitas figuras ilustres fizeram parte da história do país. Muitos ilustres “quase anônimos”, como, Paulo de Tarso Santos também.

* Este texto foi escrito ao som de: Ary Barroso 100 anos (2004)

Videoteca básica (22) Conan – O bárbaro

O feiticeiro Thulsa Doom (James Earl Jones) mostrando sua força

Houve um tempo em que eu queria ser Batman. Mas houve um tempo também em que eu queria ser o cimeriano Conan, o Bárbaro. Tanto que, ao invés de uma capa e cinto de utilidades, andava para cima e para baixo no quintal de casa com uma espada de mentira, exibindo músculos que eu nem tinha. Era a época em que os ídolos do cinema mais do que poderes de mutantes, exibiam força real, emanada do próprio braço, da própria força física. Vivíamos a era de gigante das telas como Sylvester Stallone e o grandalhão Arnold Schwarzenegger.

Cult, violento e imbatível, o herói criado nos anos 30 pelo escritor Robert E. Howard, um estranho texano que se suicidou aos 30 anos, seria imortalizado nas telonas na década de 80 graças ao roteiro de Oliver Stone (Platoon) e direção impecável de John Milius. Mas de nada adiantaria sem o carisma de pedra de Schwarzenegger que, praticamente, carregou o filme nas costas. E olha que ele receberia o, incômodo e injusto, Framboesa de ouro, ou seja, o prêmio de pior ator daquele ano.

Na trama, que segue o roteiro básico dos gibis desenhados por Frank Frazetta – gibis esses que eu colecionava -, ele é o herdeiro de uma tribo de guerreiros aniquilada pelo exército do feiticeiro, Thulsa Doom (o ótimo James Earl Jones), líder de uma seita que tem a cobra como símbolo e que seus seguidores acreditam ter mil anos. “O que é o aço comparado à mão que o empunha?”, diz ele contestando a cultura do metal que cunhou o caráter de Conan, desde guri. “Você não pode confiar em guerreiros, feras ou mulheres, mas nisso aqui você pode acreditar”, ensina o pai, apontando para espada, antes de ser assassinado.

Assim, uma vida de sofrimentos e dor se segue como o menino cimeriano passando à condição de escravo a gladiador, até chegar ao grande guerreiro que busca vingança pela morte da família. Para tal empreitada o bárbaro de força descomunal contará pelo caminho com ajuda de um ladrão oriental (Gerry Lopez), uma linda amazona (Sandhal Bergman) e um dublê de feiticeiro (Mako), o narrador da história.

A narrativa simples e com poucos diálogos é compensada pela força simbólica das imagens imponentes que permeio o tempo todo o filme, com inúmeras cenas de batalhas cheias de sangue e espada. A sequência dos três ladrões guerreiros duelando com pinturas de guerra pelo corpo, dentro do palácio do inimigo é de tirar o fôlego, assim como a cena final da batalha no campo recheado de pedras, carcaças e esqueletos de soldados mortos. Momentos de tensão e aventura embalados pela sonora wagneriana de Basil Poledouris.

Meticuloso, o diretor John Milius e sua equipe tiveram todo cuidado de criar uma mitologia própria para trama, recheando a história com uma séria de elementos pictóricos que rementem tanto à Idade Média, quanto à cultura de seculares povos guerreiros da antiguidade como os vikings, os celtas e até os romanos.

Ah, sim, e ainda ganhamos de presente a participação do soberbo e magnânimo ator sueco, Max von Sydow, na pele do imponente reio Osric, que chora a perda da filha amada pelos feitiços do temido Thulsa Doom. “Chega um tempo em que o ouro perde o brilho e o trono vira uma prisão diante do amor de um pai por sua filha”, lamenta.

Logo no começo da fita, segue a frase pragmática do filósofo niilista alemão, Friedrich Nietzsche: “O que não nos mata, nos torna mais forte”. Mas quem disse que os brutos também não amam?

* Este texto foi escrito ao som de: Appetite for desctruction (Guns N’ Roses – 1987)

A ideia de Brasília nasceu no século 19

Um dos mapas originais do francês Saint-Hilaire usado em sua viagem

A questão é que Brasília está muito associada ao sonho quase utópico de JK e aos traços e veias do arquiteto Oscar Niemeyer e urbanista Lúcio Costa. O que não chega a ser um problema. Mas acontece é que a ideia de construir uma cidade no coração do país vem dos primórdios do Brasil República, lá no governo do marechal Floriano Peixoto (1839 – 1895). Quer dizer, para falar a verdade, um pouco antes, já nas caminhadas pelo planalto central, nos idos do século 19, do francês Auguste de Saint-Hilaire (1779 – 1853).

Mas quem foi afinal Saint-Hilaire e qual a relação dele com o surgimento de Brasília? Bom, para começo de conversa basta dizer que, naqueles dias vivam-se os tempos das grandes missões, das grandes aventuras mundo afora e o sujeito chegou por aqui em 1816, acompanhando expedição extraordinária do duque de Luxemburgo.

O objetivo desse grupo de diplomatas era resolver o quiproquó entre Portugal e a França com relação à posse da Guiana que anos mais tarde se tornaria francesa, deixando claro sobre quem ganhou essa parada.

Mas o que importa dizer era que, conhecedor profundo da botânica e, provido de ferramentas necessárias para estudar a rica flora brasileira, o francês resolveu esticar sua estadia por essas pradarias e o resultado foi que registrou importantes relatos sobre os costumes e paisagens brasileiros desse período.

Ao passar pela região central do país, por exemplo, Saint-Hilaire, que tinha um texto direto e pragmático, imaginaria a surpresa das gerações futuras de, se um dia tiver a oportunidade e sorte de lê-lo, saber que ali, onde hoje se encontra um grande império urbano, fora outrora uma região com duas ou mais choupanas e nada mais.

Pois bem, talvez foi motivado por esses registros que, há 135 anos, o militar e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen (1816 – 1878), o visconde de Porto Seguro, juntou recursos próprios, montou no lombo de uma mula e veio parar por essas bandas daqui. Ao conhecer a região e ciente dos boatos que existiam na capital sobre a necessidade de mudanças da capital do litoral para o interior, escreveu o livro: A questão da capital: marítima ou no interior?

Todas essas informações e conceitos estavam formatados na cabeça do Marechal Floriano Peixoto (1839 – 1895) quando ele encarregou o astrônomo belga, Luís Cruls (1848 – 1908), de comandar uma expedição que encontrasse o lugar ideal para se tornar a nova capital do Brasil, a nossa Brasília. Assim nasceria a missão Cruls, que este ano completa 120 anos.

Como se vê, a ideia do surgimento de Brasília vem bem antes do sonho de JK e dos rabiscos de Oscar Niemeyer. A fagulha, a faísca para o nascimento da nova capital do Brasil nasceu muito da obstinação, curiosidade e bravura de homens que carregavam dentro de si sangue estrangeiro, experiências do exterior.

Mas como essa ideia se tornaria uma obsessão para Juscelino Kubitschek e que interesses o motivaram a erguer uma cidade no meio do nada, no coração do Planalto Central? Tudo começaria com um discurso que ele faria na cidade de Jataí, em Goiás, durante a campanha para presidente. Mas daí essa é outra história.

* Este texto foi escrito ao som de: King of the Delta Blues Singers (Robert Johnson – 1961)

Tim Burton e Johnny Depp again

No filme, Depp e Burton fazem troça deles mesmo, mas com estilo

Quando não está tocando guitarra com a Patti Smith ou astros do rock britânico como os irmãos Gallagher ou o ícone Keith Richards, dos Stones, Johnny Depp tira onda de ator e faz filmes. Desta vez, fuçou o baú do passado e resolveu retomar velha parceria que, na boa, há tempos não anda dando muito caldo, não. Sim, porque não sei você, mas ando de saco cheio dos projetos conjuntos entre o ator e o cineasta Tim Burton.

Para falar a verdade, só gostei do deslumbrante e bizarro, Edward mãos de tesouras, e do agridoce, Ed Wood. O resto foi pura embromação. Mas confesso que me simpatizei pelo debochado, Sombras da noite¸ que parece ser uma brincadeira do próprio diretor  nessa coisa dele de reciclar histórias macabras e com sua obsessão pelo lado trash da vida.

Na trama baseada em série homônima da década de 60, escrita por Dan Curtis, Depp é Barnabas, filho de um grande empresário no ramo de navios na Inglaterra que decide expandir os negócios para América. Lá, ele se apaixona por uma empregada, mas negligencia seu amor a trocando por outra. Por vingança, ela o transforma em vampiro enterrando-o vivo. E na escuridão das trevas ele permanece por 200 anos até seu caixão, lacrado por correntes da eternidade, ser descoberto por um grupo de operários, trabalhadores de uma empreiteira.

Liberto de sua prisão maldita, ele traça planos mirabolantes para sua vingança e a sede é grande. Contudo, os tempos mudaram e o seu momento de ir à forra não será assim tão fácil.

Como sempre acontece em seus filmes, Tim Burton não economiza nas cores e apresenta ao espectador direção de arte impecável, assim como figurinos imponentes. Johnny Depp, com seu jeito canastrão de ser, mais uma vez arranca risos com sua maneira trágica de interpretar os bizarros personagens desenhados pelo diretor, mas é o elenco secundário o grande atrativo de Sombras da noite.

A sempre elegante e deliciosa Michelle Pfeiffer dá um show como a vilã da trama. Helena Bonham Carter não perde o rumo na pele da invejosa e alcoólatra psiquiatra da família, revelando ter mais problemas do que seus pacientes. Mas é a jovem Chloë Grace Moretz quem se destaca ao encarna a jovem problemática fã de T-Rex e bandas hard.

É por causa dela e, só por causa dela que, por exemplo, o astro do rock freak Alice Cooper faz uma ponta de luxo no filme e aqui está uma das grandes tacadas de mestre do diretor que a de rechear suas tramas com surpresas do balacobaco. E, em se tratando de Tim Burton, Alice Cooper tem tudo a ver. Aliás, o cineasta sempre foi muito bom tanto nas piadas escondidas nas entrelinhas do roteiro ou mesmo aquela visual, bem explícita, como mostra a divertida brincadeira com o símbolo do McDonalds.

Tudo bem, o filme pode ser sim, mera reciclagem de tudo o que a dupla Burton e Depp vem fazendo nos últimos anos, mas agora eles se deram ao luxo de fazer troça do próprio esgotamento criativo da dupla e fizeram isso com estilo.

* Este texto foi escrito ao som de: The slider (T. Rex – 1972)

Olimpíadas para mim só as do passado

O esforço da atleta suíça virou símbolo do espírito olímpico

Bem, parece que as Olimpíadas já começaram, não sei, mas eu nem percebi. Minha mãe disse que é porque não está sendo transmitida pela Rede Globo. Bobagem. Não notei nada ainda porque acho que, assim como as últimas Copas do Mundo e a Fórmula 1, tudo perdeu a graça. E está sem graça por quê? Ora bolas, por conta do dinheiro, da glamorização do banal, da superestimação do ridículo, da falta de emoção mesmo.

Não sei vocês, mas no meu tempo o esporte tinha mais adrenalina, mais coração, era mais real, não tinha essa escravidão dos esportistas, dos atletas com relação ao merchandising, diante do mundo da publicidade. Hoje é mais importante o topete inacreditavelmente boçal do Neymar do que a própria vitória em si da seleção brasileira. E, na boa, eu não vou assistir ao jogo da seleção para ficar vendo esse babaca desfilado para cima e para baixo com uma toca de Daniel Boone implantada na cabeça. Qualquer dia desses tomo coragem e dou um cacete nele, tiro aquele penacho no tapa.

Para falar a verdade, as Olimpíadas de Londres nem começaram direito e já estou com preguiça dela. De modo que nem vou dar muita pelota ao evento. Primeiro porque acho a Ana Paula Padrão linda, mas irritante. Segundo porque tenho mais o que fazer.

Contudo, todo esse frenesi em torno dos jogos me fez lembrar os tempos em que eu era guri e adorava acompanhar o torneio. Mas o gozado é que os grandes momentos das Olimpíadas que vi, pelo menos para mim, foram aqueles que não estão relacionados à vitória.

Primeiro tem as imagens clássicas dos torneios que não foram do meu tempo, mas que não sai da minha cabeça como o rosto amarfanhado do maratonista tcheco, Emil Zátopek, o sujeito que treinava com coturnos do exército, assim como a do velocista negro Jesse Owens, com o gesto dos punhos fechados nas Olimpíadas de Hitler, em 1936.

Mas inesquecível mesmo para mim e, surpreendente, acredito para boa parte de quem viu e lembra, foi o choro de despedida do mascote das Olimpíadas de Moscou, realizada na extinta União Soviética, em 1980, o ursinho Misha, lembra? Era o torneio em que os Estados Unidos, com toda a arrogância que a Guerra Fria alimentava na época, boicotaram o evento, mas aquela lágrima solitária do ursinho fofo, no último dia do torneio lavou a alma de todos, tanto dos participantes, quanto daqueles que eram mero espectador.

E claro, teve a cena fortíssima da maratonista suíça, Gabrielle Andersen-Scheiss que, toda torta, surtada pelo esforço e o calor escaldante de Los Angeles, em 1984, chegou se arrastando até a linha final. Para mim, ela sempre vai ser o símbolo máximo do que significa não apenas competir numa Olimpíadas, mas em qualquer competição. Ou seja, importando, por mais clichê e banal que seja a frase, participar e não apenas vencer.

Mas como disse, não vou dar muita pelota para as Olimpíadas de Londres. Só espero que nenhum terrorista espírito de porco estrague a festa, mas sendo pobre de espírito, bem que eu iria acha o máximo um daqueles soldados insanos da al-Qaida explodir o cabelo patusco do Neymar.

* Este texto foi escrito ao som de: Modern life in rubbish (blur – 1993)

A solidão social em terras estrangeiras

Drama aborda os reflexos do plano Collor, como a emigração

Segundo longa-metragem de Walter Salles, co-dirigido com Daniela Thomas, Terra estrangeira é um filme pessimista até o osso. E não apenas pela soturna e estilosa fotografia preta e branca assinada por Walter Carvalho, não, mas também pela temática decadente que gira em torno do fiasco que foi o governo Collor, com seus mirabolantes planos econômicos. É a história de um Brasil sem perspectiva e de pessoas sem rumo em busca de oportunidade em terras estrangeiras. É, sobretudo, um filme sobre a solidão dos emigrantes.

No epicentro da trama nos deparamos com os dramas de Miguel (Alexandre Borges) e Alex (Fernanda Torres). Ele, um músico vidrado em jazz, viciado em pó que ganha a vida à noite tocando seu trompete em biroscas lisboetas. De manhã, engrossa o pé de meia com contrabando e lidando com a máfia local. Já ela rala num restaurante e nunca chega a tempo de ver as performances do namorado, quando muito, apenas a nota final do último número.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, no Brasil, o sonhador Paco (Fernando Alves Pinto) abandona a faculdade para urdi planos que o levarão por outras trilhas fora do país. Espera o momento certo chegar mergulhado em poesias ou adiando, dia e noite, a ideia de viajar até a terra natal da mãe (Laura Cardoso), em San Sebastián, na Espanha.

“Mesmo que a gente consiga pagar as passagens, como vamos sobreviver lá sem dinheiro?”, explode o filho pragmático e sem esperança.

Desnorteados, sem eira e nem beira, os personagens de Terra estrangeira, que tem co-roteiro de Millôr Fernandes, não são apenas retratos de um momento caótico de um país, mas também de toda uma geração perdida, a geração que carrega o espectro de uma ditadura que dilacerou à força o futuro da geração antecessora, e da mentira que foi a redemocratização social, pelo menos no plano econômico e social.

Também é um filme carregado de sotaques, onde os embates da herança colonial portuguesa e espanhola afetam de forma drástica a vida dos personagens, basta ver a teia de intrigas e sujeiras que o tempo todo eles estão metidos. “Gosto desta cidade branca, mas às vezes tenho medo de envelhecer aqui”, diz em transe agônico a personagem de Fernanda Torres. “A desgraça dos portugueses foi ter descobrido o Brasil”, faz troça.

Enfim, sempre achei que o Melhor Walter Salles é aquele que a gente não conhece, ou seja, o Walter Salles diretor de filmes subestimados pelo olhar do público, de filmes como, Abril despedaçado, em minha opinião seu melhor trabalho, ou mesmo desse, Terra estrangeira, à revelia da trama obscura, uma pintura como peça cinematográfica.

Não há como se encantar, por exemplo, com as imagens poderosas da fita, entre elas a sequência do enorme navio caindo aos pedaços, encalhado à beira-mar, na metáfora perfeita da dura situação dos estrangeiros que vivem no velho continente. Ou noutra, de um lirismo contundente, em que fotografias de um passado feliz, de outros verões, de verões mais auspiciosos, nadam à deriva na água do banheiro, à sombra de misteriosas luzes refletidas na parede.

E tem o final acachapante, demolidor, com um carro em fuga ao som de Vapor barato, na voz da vibrante Gal Costa, num autêntico road movie, para mostrar que a grande a vocação de Walter Salles é a estrada.

* Este texto foi escrito ao som de: Fa-tal – Gal a todo vapor (Gal Costa – 1971)

A distância entre a vingança e o rancor

Dizem que o pior vazio é o do amor não correspondido, será?

Pedro que amava Amanda que não amava ninguém. E não amava ninguém mesmo, quer dizer, só a si própria e nada mais. E era perdida em seu egoísmo, que ela, a vida toda uma menina mimada sadicamente zombava dos sentimentos ingênuos de Pedro, que nunca foi de ter nada na vida, a não ser a si próprio, algo que ele nem se dava conta, tamanha a sua falta de amor a si próprio. E ele nada mais queria na vida do que o amor de Amanda que o desprezava como se ele fosse invisível, um “nobody”.

Mas o tempo, pai de todas as injustiças e senhor da verdade, o mercúrio-cromo de todas as almas feridas, tal qual o judeu errante, tardou, mas se fez presente no momento mais inoportuno. De modo que dez anos se passaram e ao longo desses dez anos Pedro carregou dentro de seu peito o peso plúmbeo do desprezo, do descaso.

Assim, como aquela fábula do elefante indiano que nunca se esqueceu do rosto do caçador que um dia tentou matá-lo, em plena selva, se vingando dele anos depois de sua volta ao mesmo local do crime, Pedro jamais tirou de sua mente os momentos de angustia que passou na presença esnobe de sua amada Amanda.

Quis o acaso, o destino matreiro que os dois se encontrassem mais uma vez e, ironicamente, mais uma vez, na forma de amor, só que agora um amor correspondido, de comum acordo nos sentimentos e no afeto, no amor entre Pedro e Sandra, a filha de Amanda, a Amanda esnobe e sádica que não amava Pedro.

Não se sabe se por vingança ou rancor, se por puro amor verdadeiro, amor de quem se ama e respeita, o fato é que Pedro amou Sandra como se fosse a última coisa que lhe restava na vida, como se fosse a única coisa que soubesse fazer na vida, um amor que Amanda nunca teve o prazer e a felicidade de receber de ninguém, um amor que ela negou à única pessoa que a amou de verdade.

Bem, dizem que o mal do século é a solidão. Também dizem que o pior vazio é o do amor não correspondido. E dizem ainda que a pior forma de solidão é o desprezo de quem a gente ama. E, sobretudo, dizem que a vingança é um prato que se come frio, mas não acredito nesse último clichê popular.

Para mim, a vingança ou algo próximo disso é só um pássaro da noite que adormece na asa do tempo e que surge do nada, quando menos esperamos, como o castigo dos justos diante dos injustos.

Às vezes eu bem que queria fazer como o Noel Gallagher naquela clássica baladona que ele escreveu num verão londrino, ou seja, “não olhar para trás com rancor!”, mas não consigo. De qualquer forma, tenho a certeza e acredito que eu não seja vingativo, embora não duvide de minha natureza rancorosa e as duas coisas dão câncer.

* Este texto foi escrito ao som de: Mighty Joe Moon (Grant Lee Buffalo – 1994)

Em busca das nossas origens e raízes

Nem sabia que a Missão Cruls tinha passado por Pirenópolis

Acho que foi o escritor russo Léon Tolstói (1828 – 1910) quem disse que, para conhecer o mundo, é preciso primeiro conhecer a nossa aldeia. Sábias palavras do autor de obras clássicas como Guerra e paz, que nunca segui. Sim, é uma vergonha, mas conheço muito pouco, quase nada sobre as minhas raízes e origens, de modo que agora saio em busca das duas coisas desenfreadamente. Quem quiser que me siga…

Pois bem, filho de pais mineiros, nascido em Goiás, por mais que desconheça ou ache absurdo, tenho muito a ver com Brasília, a cidade que escolhi para trilhar minha carreira profissional, cidade que amo. Mas tudo que sei sobre ela é que foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e o urbanista Lúcio Costa e só. Claro, tem toda aquela história mística sobre o sonho de Dom Bosco e não sei mais o quê, só que, como não sou nem um pouco religioso, fico só com o velho Niemeyer e seu eterno parceiro.

E o primeiro passo que darei nesse sentindo é conhecer mais sobre a Missão Cruls, que foi a expedição idealizada por Floriano Peixoto para explorar e demarcar, no coração do Planalto Central brasileiro, o local onde seria a nova capital do Brasil, isso lá no distante século 19, nos idos do ano de 1892.

A missão que atravessou o país foi comanda não por um brasileiro, mas pelo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), engenheiro civil e astrônomo marcado pelo espírito aventureiro que gostou tanto daqui que resolveu se tornar cidadão brasileiro, passando a se chamar Luiz Cruls.

Acabou conquistando a simpatia de Dom Pedro II, sendo convidado para ser diretor do observatório Imperial do Rio de Janeiro. Mas tarde, já no Brasil República, caiu nas graças de outro presidente, agora Floriano Peixoto, ficando encarregado de comandar um grupo de homens que desbravasse rios e montanhas, climas inóspitos em busca de um lugar ideal para ser a nova capital do país, que viria a ser Brasília.

E porque mudar a capital do Rio de Janeiro para uma nova no coração das trevas ou seja, no meio do cerrado brasileiro. Segundo as autoridades da época, em busca de mais segurança, já que a cidade maravilhosa era desprotegida por ser litoral.

A grande jornada Brasil adentro tem início no Rio de Janeiro, em junho de 1892, com os 22 expedicionários e seu chefe levando no lombo das mulas, quase dez mil quilos de equipamentos e suprimentos. “Eu não me iludi a respeito da magnitude do assunto e da responsabilidade que ia pesar sobre nós perante o país inteiro aceitando tão honrosa quão espinhosa tarefa”, diria anos mais tarde Cruls.

Depois de fazerem a primeira parada em Uberada, o grupo seguiria para Pirenópolis, charmosa cidade goiana que se tornaria uma espécie de QG e símbolo da missão que daria origem à Brasília. É uma vergonha eu não saber isso mesmo indo tanto a esse aconchegante recanto goiano. Tem até uma foto clássica deles em frente a uma casa com muro de pedras que provavelmente já passei em frente, até encostei e nem me dei conta de que estava diante da própria história.

É, Léon Tolstoi é que estava certo mesmo. Antes de conhecer o mundo temos que conhecer primeiro nosso próprio quintal. É preciso ter humildade para reconhecer isso e antes tarde do que nunca o fazer. Portanto, aguarde mais notícias sobre a Missão Cruls e a origem de Brasília.

* Este texto foi escrito ao som de: Zé mulato e Cassiano interpretam Zé Carreiro e Carreirinho (1978)

V. Básica (21) As bicicletas de Belleville

Animação dá um passo adiante com relação aos mangás e à Disney

Assim como boa parte de vocês, aprendi a gostar de animação vendo as clássicas produções da Disney como Dumbo, Branca de Neve e os Sete Anões, Peter Pan e tantas outras. Mas foi meu amigo Pedro, não aquela da canção do Raul Seixas, mas o Pedrão, quem me abriu os olhos para outras correntes, estilos e formas de se fazer desenhos. Graças a ele e a sua sensibilidade que conheci obras surpreendentes como o francês, As bicicletas de Belleville, uma das duas animações que farão parte dessa Videoteca Básica.

Escrito e dirigido por Sylvain Chomet, o filme, indicado a dois Oscars, em 2004, conta a história de Champion e a sua avó Madame Souza. Em circunstâncias que não é revelada na trama, ele é adotado por ela e a velhinha simpática, com sua cara rechonchuda, tenta criá-lo da maneira mais tranquila e carinhosa possível.

Mas de natureza melancólica, nada parece desanuviar o semblante do igualmente gordinho, Champion, sempre tristonho, perdido em suas recordações de família, em seu mundo particular. Um dia, arrumando a cama dele, Madame Souza descobre um álbum de recortes com fotos, matérias, enfim, tudo relacionado ao ciclismo, que é uma das paixões dos franceses.

Assim, ela o presenteia com um triciclo e dali surge uma nova perspectiva na vida de ambos já que ela passa a treiná-lo obsessivamente com o objetivo de transformar seu pequeno Champion, num grande campeão do ciclismo, o orgulho de seu país. Contudo, quando chega o grande dia do tour de France, estranhos acontecimentos envolvendo dois misteriosos homens de pretos e ciclistas sequestrados, faz com que ela e seu fiel amigo Bruno se metam em surpreendentes aventuras pelas ruas de Paris.

Com seus traços grotescos, propositalmente exagerados nos detalhes, mas nada bizarros, As bicicletas de Belleville é um passo adiante do que conhecemos das animações japonesas e daquelas fitas produzidas em Hollywood. E é só acompanhar o Anima Mundi para vermos que há muita coisa boa longe da terra do Sol e da Meca do cinema.

Sempre gostei das animações europeias e o clima retro, nostálgico dessa divertida animação, com seus verdes plúmbeos e cinzas passado é encanto puro. Acho maneiro, legal mesmo a forma como o animador Chomet conduz os patrimônios de seu país, como por exemplo, os transes proustianos reproduzidos pelo faro e viagens oníricas do cão Bruno.

E não só isso, as três cantoras de cabaret do título original que perpassam a aventura de Madame Souza e o seu cão Bruno, para mim são uma caricatura bem à francesa das bruxas cegas de Macbeth, de Shakespeare, com suas sopas de sapo e sessão musical Sivuca regada com pipoca de girino.

Recheado com humor bizarro e piadas críticas que metralham inclusive a Disney, As bicicletas de Belleville mais do que tudo é uma ode ao amor materno, ou melhor, ao amor de vó e, dito isto, não há nada mais fofo do que a guerreira e obstinada Madame Souza. De modo que segue aqui minha homenagem ao dia da mãe da nossa mãe.

* Este texto foi escrito ao som de: Confidetiel (Serge Gainsbourg – 1963)