2012 será retrospectiva do ano que passou

Fogos de artificialidade e hipocrisia abrindo o ano que vai entrar...

“É fácil fazer previsão no Brasil. É só apostar na desgraça”. A frase niilista foi proferida pelo cineasta e jornalista Arnaldo Jabor, quando lhe perguntaram, numa dessas matérias de fim de ano, qual era a sua aposta para o futuro. Sem vocação para Mãe Dináh, ele saiu com essa pérola. Bem, estou com o velho Jabor e não abro mão.  É isso mesmo, essa frescura de simpatia, gente vestida de branco, consulta à astrologia e “fezinha” na mega sena da virada é de uma estultice ululante. Não vai trabalhar não para você vê se alguém coloca o pão de cada dia na sua mesa.

A coisa que mais me irrita quando vai se aproximando o réveillon, as festas de fim de ano, são esses votos demasiados de mudanças radicais e falsa sensação de que tudo será diferente no ano que vem. Porque não vai mudar nada, tudo será sempre o mais do mesmo. As coisas vão continuar a mesma no ano que vem. O ano de 2012, será uma retrospectiva do ano que passou. Porque é impossível bater de frente com o imponderável, com a hipocrisia e a mediocridade humana.

Assim como no ano passado, nesse ano que vai entrar, o governo continuará a meter a mão no trabalhador e as autoridades públicas não irá fazer nada já que as próprias autoridades públicas é o governo. Políticos ladrões e corruptos brotarão como erva maldita no Congresso e no Senado e a indignação da sociedade será ludibriada pelas programações burras, enfadonhas e saturadas da indústria de entretenimento.

A saúde brasileira, assim como no ano passado, nesse ano que vai entrar continuará negligenciada e um monte de gente morrerá pelos corredores dos hospitais públicos, enquanto que madames da high sociate irão esticar suas bundas, seios e até o cérebro com próteses estragadas made in France no exterior ou aqui mesmo.

Assim como nesse ano que já se foi, a violência nas favelas do Rio de Janeiro e outras partes do planeta não cessará, crianças e civis inocentes morrerão de bala perdida e o crime organizado desafiará os donos do poder como sempre fez, até porque eles são parceiros e comparsas nessa hedionda do mal contra o bem.

No ano que vem, assim como no ano que já passou, terremotos, desmoronamentos, acidentes nucleares e outras tragédias de proporções épicas vão vilipendiar a rotina humana, já que tais acontecimentos tristes são resultados da própria irresponsabilidade, negligencia, egoísmo e falta de interesse do homem de evitar o acontecido, de poder e querer evitar o pior.

No ano que vem, vou continuar sofrendo com o amor não correspondido de alguém que não tem respeito pelo sentimento alheio e que encontra na máscara medíocre do poder e do dinheiro, o sentido para sua razão de ser e viver. Porque pobreza de espírito é algo que nasce e morre com a gente.

É por essas e outras que, parafraseando aquele antológico personagem do Chico Anysio, quero que o ano de 2012 exploda. E vou para cama sem ouvir os tradicionais e ridículos fogos de artifícios. Prefiro dormir ouvindo Beatles, lendo aqueles versos sinceros e pragmáticos do velho sábio poeta Mário Quintana:

“Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça…”.

* Este texto foi escrito ao som de: Let it be (The Beatles – 1970)

Top 10 – The Beatles Forever

Algumas coisas na vida me tocam de forma mágica, me fazendo sorrir, sentir feliz, mais leve e soberano, com vontade, assim, de andar sobre

Mosaicos de Beatles para sempre em nossas vidas...

as nuvens e beijar o céu, as estrelas e o Sol. Coisas encantadoras como os sorrisos angelicais das minhas

sobrinhas, o olhar cintilante da Ana Maria Campos, um filme do Antonioni ou Woody Allen, um bom livro e as inesquecíveis e eternas canções dos Beatles. E aquela velha história. Uma pessoa que não gosta dos Beatles não pode se um bom sujeito. Um dia, perguntei ao grande amor da minha vida quais eram as canções dos Beatles que ela mais gostava e estou esperando a resposta até hoje…

Bem, encanto ela não me fala as suas, deixo registrada aqui as minhas dez músicas mais marcantes do fab four, aquelas que vou levar dentro de mim para a Lua, Marte ou algum lugar mais distante, como se fossem mosaicos sonoros em meu coração e em minha alma:

1. Help! (1965)

O primeiro disco dos Beatles que comprei foi um vinil do Help! Escutei tanto que achei que fosse furar aquele bolachão, mas essas audições intermináveis me ajudaram, mais tarde, aprender tocar quase todas as músicas do disco. Apesar do ritmo alegre, a faixa traz uma letra marcada pelo desespero e venero a versão acústica e melancólica que o Noel Gallagher do Oasis fez…

2. Yesterday (1965)

É a faixa mais marcante dos meninos de Liverpool, sem dúvida, com uma melodia de um lirismo incisivo e letra enigmática, abstrata que quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo. E pensar que o Paul, o pai da criança, a batizou originalmente de Ovos mexidos... Coisa de gênio sensível, né? No show que fez no Brasil, o velho McCa cantou esse hit com o mesmo violão que embalava a canção, nos anos 60, um luxo…

3. Norwegian wood (This bird has flown) (1965)

Foi a primeira música dos Beatles que me jogou no chão pelo sua grande beleza. Uma daquelas canções que faz a alma da gente tremer, com seu arranjo remetendo os caminhos da índia. O título é um dos mais exóticos da banda e faz alusão, metaforicamente, de uma possível amante de John. Na minha cabeça de menino de 12 anos, tentava imaginar o que seria aqueles passados de madeira noruegueses. Quer saber? Qualquer dia desses saio daqui e vou viver na Escandinávia. Talvez na Suécia ou mesmo a Noruega. Lá as mulheres têm sardas e o Sol é o da meia-noite…

4. Rain (1966)

Gravada em 1966 e lançada como Side B do single de Paperback write, a sensorial Rain evoca nuanças místicas, psicodélicas dentro de estados alterados de consciência. Depois de escutar a faixa, com todas as suas sutis experimentações sonoras, percebemos que era só um pequeno aperitivo para o que viria em ternos de vanguarda musical. E estou falando de coisas como Revolver, Sgt. Pepper e por aí vai… Mas antes de tudo, é claro que tenho adoração por chuva, um detalhe que me aproximou e muito da canção.

5. With a lillte help from my friends (1967)

Um presente da dupla Lennon & McCartney para o amigo Ringo, é a faixa que mais gosto, cantada pelo eterno baterista dos Beatles. E olhe que o páreo é duro, já que Yellow submarino é um sundae, um sundae… Conduzida por uma interpretação majestosa de Joe Cocker, tem um dos versos mais inspirados de Lennon, no seu velho estilo de fazer trocadilho com as palavras e situações: “O que você vê quando apaga as luzes?/Não posse te dizer, mas sei que é meu”.

6. Strawberry fields forever (1967)

Proustiana até o talo, Strawberry fields forever evoca sonhos e reminiscências da infância com sabor de fruta madura. Talvez uma das letras mais líricas e geniais de Lennon – ele de novo – um ser humano sensível sempre com sua alma machucada e carregada de dores interiores. Os versos mágicos são. “Viver com os olhos fechados é fácil/Tudo o que se vê são mal-entendidos”.

7. Lucy in the sky in the diamonds (1967)

Quem aí já não leu Alice no País das Maravilhas? E quem aí não traçou um paralelo de imediato entre esse clássico livro “infantil”, de Lewis Carroll, com a psicodélica canção dos Beatles escrita por Lennon (sempre ele!), após receber um desenho de escola do filho que retratava o título acima. Um dia ainda vou mergulhar num rio de chocolate e comer nuvens de algodão doce. Vou passear com as minhas sobrinhas num trenzinho feito de biscoito Passatempo da Nestlé. E minha adorável Ana vai brilhar num céu de diamantes.

8. Hey Jude (1968)

Minha existência como homem de cultura se deve a essa canção, que é assim, vamos dizer, uma espécie de mantra de delicadeza e amor ao próximo. Estava a um passo de me tornar um jogador de futebol daqueles bem desleixados, mas larguei tudo depois que escutei a versão de Kiko Zambianchi na novela Top Model. E quem aí disse que novela não é cultura.?

Here comes the sun (1969)

Sufocado pelo ego da dupla Lennon e McCartney, o tímido e discreto George Harrison teve poucos momentos de brilhantes insights dentro da maior banda de rock do planeta. Mas quando isso acontecia, deixava os outros no chinelo, sempre acompanhado por suas letras simples e melodias de uma delicadeza sem igual. Mais tarde, ao gravar seu primeiro registro solo, o álbum triplo All things must pass, mostraria que tinha talento de sobra para duelar com qualquer grande artista de sua geração.

Da fase “Beatles”, gosto da épica While my guitar gently weeps, mas Here comes the Sun é um relicário de sutileza com sua essência riponga. Toda vez que ouço essa canção, me vem à cabeça a delicadeza de ser da gatinha Ana Maria Campos.

10. Let it be (1970)

Mais do que uma canção, Let it Be é uma oração, mas uma oração não dedicada à Nossa Senhora, como muitos pensam, quando o Paul McCartney canta “Mother Mary”, mas a sua própria mãe, que se chamava Maria. É uma canção que nos faz sentir perto de “Deus”. E para quem não acredita no Ser Supremo, a canção é a ideia mais próxima desse conceito. Dúvida? Então põe o seu vinil empoeirado para tocar e deixe as que ondas celestiais tomem contam de sua alma.

* Este texto foi escrito ao som de: The Beatles (1962 – 1966/ 1967 – 1970)

Incrível, mas ainda existem ditadores

Na Coréia do Norte eles também embalsamam suas múmias...

Ontem foi o funeral de Kim Jong-il. E daí, para mim, foi tarde. E tem mais, algumas coisas ou pessoas nem deveriam existir. Kim Jong-il é uma delas. Aliás, a grosso modo, a humanidade deveria ser extinta da face da Terra, mas como “deus” é um sujeito desocupado e irresponsável, temos que ficar topando com cretino de esquina e esquina. Eu mesmo, quando acordo, me deparo com uma dessas criaturas toda vez que olho no espelho.

Bem, quando liguei na GloboNews outro dia e o Eduardo Grillo surgiu na tela com seu sorriso Kolynos (eu sou do tempo em que o telefone era preto e a geladeira era branca. De um tempo em que as pessoas usavam creme dental Kolynos) dizendo que Kim Jong-il tinha morrido perguntei com os meus botões, em desespero: “Quem diabos é isso?!”. Tudo só ficaria esclarecido depois que a reportagem disse que se tratava do ditador da Coréia do Norte. “Ah, bom!”, pensei.

“Caracoles”, taí uma coisa que não entendo e que não tem mais cabimento nos dias de hoje: Ditadores! Em pleno século 21 e o mundo ainda vive à sombra de alguns hitlerzinhos de merda aqui e acolá. Mas nesse caso, tratasse de uma subserviência descabida e démodé que me faz lembrar aquela frase do Mahatma Ghandi criticando sua própria gente: “O povo merece o governo que tem”.

E tem mais, não sei se vocês se lembram, mas tem uma cena do filme Forrest Gump que é exemplar e que eu adoro. É quando o Tom Hanks, no papel-título, com sua cara de abobalhado, resolve correr sem parar pelo mundo. Ele vai trotando, trotando sem parar e um monte de gente o seguindo sem saber porque e para onde, afinal, diabos ele está indo. O tempo não pára, a barba vai crescendo e as pessoas ao seu lado fenecendo dia após dia até que, em dado momento, ele dá um stop do nada. Afobada, a enorme turba ululante que o segue fica em polvorosa e um deles não se contenta e dispara: “Meu Deus, ele vai falar, ele vai falar!”.

Então o personagem de Hanks mira o horizonte com sua cara de pateta autista e diz as sábias palavras: “Tô cansado, acho que vou para casa”. Bem, vocês entendem o que estou tentando dizer? É isso. Esses norte-coreanos são um bando de retardados que passaram esse tempo todo sendo conduzido por um lunático que se julgava o autêntico messias, uma espécie de providência divina ou um Buda desqualificado de olhos apertados. Meu Deus, aquelas cenas do povo arrancando os cabelos, derramando prantos homéricos, histéricos diante das câmeras estatais do país são deprimentes, apavorantes. Para mim, trata-se de um teatro coletivo, pura manipulação, o circo dos horrores.

Tal qual fizeram com Stálin, Mao Tsé-Tung e outros cretinos, embalsamaram o malinha do “China” e o velaram dias a fio. Estava lá, aquela estátua de cretinice estática, adorada por milhões de fiés ao longo de 17 anos. Ontem, finalmente, resolveram enterrar o velhinho que foi uma pedra no sapato dos governos asiáticos, sobretudo, e do resto do mundo também. Agora é esperar para ver a presepada em que vamos nos meter com o filho cara de bobo do Kim Jong-il, o tal de Kim Jong-un, vai aprontar no “Poder”. Isso é, se ele não for um títere nas mãos de uma junta militar medonha e canalha. Clássica manobra em situações como essa.

Mas quer saber, por mim, passava um trator nas fronteiras daquela joça e emendava as duas Coréias. Os dois países, unidos, têm tudo para ser um grande tigre asiático na região. A Alemanha, com a queda do muro de Berlim e a unificação, se tornou hoje numa potência mundial e um dos países mais desenvolvidos do mundo.

Mas enfim, voltando ao discurso niilista do início do texto, eu sei que a humanidade deveria ser extinta da face da Terra, mas enquanto isso não acontece, o mundo fica um pouquinho pior sem vermes como Hitler, Mussolini, Stálin, Mao Tsé-Tung, Saddam Hussein, Kadafi e Kim Jong-il no poder. Kim Jong-il, tu vai tarde, meu chapa,  pt saudações…

* Este texto foi escrito ao som de: Mixed bag (Richie Havens – 1967)

Lobão mata a mãe e vai preso

Os amigos Branco Mello e Arnaldo Antunes e a irmão Glória reivindica justiça ao Lobo mal da música brasileira

Um dos roqueiros mais originais dos anos 80, Lobão tem a língua solta, abre a boca para falar de tudo e sobre todas as coisas com a virulência e rapidez de uma metralhadora desgovernada Ra-tá-tá-tá… Um fluxo narrativo que enlaça, envolve a gente e não solta mais. Lançada em fevereiro deste ano, sua biografia 50 anos a mil tem mesma pegada. Tanto que não tem uma semana que comecei a ler o catatau de quase 600 páginas e até agora não parei de ler. Já vou lá pela página 300 e lá vai fumaça…

Altas revelações de uma das figuras mais polêmicas do BRock. Vamos começar pelo apelido Lobão, segundo o artista, surgido por causa de sua gulosice e porque adorava usar um macacão de jardineiro com uma alça só na escola. “A princípio, não sabia ao certo se gostava daquele apelido…”, revela no livro.

Filho de mãe super protetora e pai indiferente, o pré-adolescente Lobão descobre na leitura grande companheira nos momentos de angústia e solidão. Lia de tudo, de Eça de Queiroz a Asterix e, num belo dia, influenciado pelo espiritismo da mãe, deixa se fascinar pelas magias negras da macumba. Isso aos 14 anos.

“Certo dia, fazendo algumas analogias entre as entidades da rua como Pombajiras e Exus e os questionamentos de Nietzsche, entre numa de realizar uma ‘jira’ no meu quarto”, revela, explicando ser vítima de espasmo causado, segundo ele, pelas forças do mal. Ledo engano. “Após um lapso de tempo, acordo deitado em minha cama sem saber o que se passava. Minha tinha achava que era mediunidade, minha mãe estava em pânico só de pensar que eu podia ser um epilético…”, diz.

Ao ver que não tinha vocação para aluno exemplar na escola, abandona o 2º grau e mergulha de cabeça na música, mas precisamente nesse tal de “roquenrou”, assumindo definitivamente as baquetas. Era o auge das bandas com nomes enormes, pomposos que levavam um som enigmático e pretensioso, o auge do rock progressivo e eis que aquele menino epilético, invocado com macumba passa ser destaque do Vímana, banda do final dos anos 70 que tem entre os integrantes, Lulu Santos e Ritchie.

Graças a Nelsinho Motta, o grupo começa a despontar no cenário musical carioca sendo, inclusive, escalado para musicarem uma peça da Marília Pêra. “A peça era um musical biográfico e só a Marília aparecia em cena. Me lembro da noite de estreia… A Marília estava bem apreensiva com a minha entrada e não parava de me dar uns últimos lembretes, tudo com carinho…”, recorda o músico.

Sucesso profissional, discórdia em família. Um dia, após discussão violenta com pai, não titubeia e sai de casa, mas antes quebra, literalmente, o violão na cabeça do patriarca. A mãe, depressiva após a separação, comete seguidas tentativas de suicídio. No auge da crise, ameaça o filho que irá se matar se ele não der devida atenção a ela. Irritado, cansado do teatrinho materno, dá uma de Clint Eastwood e dispara: “Vá em frente, completa o meu dia”.

Não deu outra, a velha, na ocasião professora de inglês numa instituição de renome, pára de tomar os antidepressivos e tem infarto fulminante no meio de uma aula.  O filho comparece ao velório e ainda faz questão de levar uma miniatura da bandeira do Botafogo, time do coração da coroa, cantando no pé do ouvido da defunta, um clássico samba da Portela, outra paixão da vítima.

Mas a vida segue e, após uma passagem relâmpago como baterista da Blitz, a grande sensação do rock nacional no momento e as atribuladas gravações dos primeiros discos solo, é preso por porte de drogas em casa. Enjaulado, o Lobo sossega o facho. A experiência na prisão é relatada em 50 anos a mil num misto de lembranças amargas e histórias hilárias. “Havia uma gama muito eclética de presos ali. Acabei me tornando uma espécie de síndico da cela”, recorda, em tom de sarcasmo. “Whisky é droga mais pesada e não prendem ninguém por ser viciado em whisky. Por quê? Só porque é droga do primeiro mundo?”, debocha.

* Este texto foi escrito ao som de: Sob o Sol de Parador (Lobão – 1989)

Discoteca Básica (44) Never mind the bollocks

Joãozinho Podre (centro) e sua turma movida por e som e fúria

Se há alguma conexão entre Shakespeare e o rock as evidências são poucas, mas nunca a música foi tão cheia de som e fúria no período em que o Sex Pistols esteve na ativa, que foi de 1975 a meados de 1978. Bem, Joãozinho Pobre e sua turma podem não ter inventado o punk, mas com certeza foram os representantes mais emblemáticos do movimento musical que ditou a moda e os costumes de toda uma geração de adolescentes, no final dos anos 70 e início dos 80, com seus jeans esfarrapados e alfinetes, brincos espalhados por todo o corpo. William Faulkner que o diga.

Desbocados, sujos e imprevisíveis em cena, eles surgiram como um golpe violento no estômago ou mesmo uma cusparada nada agradável na cara da empolada sociedade britânica da era Thatcher. “Sem futuro para você, sem futuro para você”, alardeavam na auto-explicativa God save the Queen, só para mostrar que a mira de suas letras diretas e ofensivas tinha alvo certeiro. “Eu sou um anticristo, eu sou um anarquista/Não sei o que eu quero/Mas sei como conseguir/Eu quero destruir transeuntes/Porque eu quero ser a Anarquia/Não o cachorro de alguém”, declaram na raivosa Anarchy in the U.K. “Seu sonho futuro é um esquema comercial”, arrematam.

O folclore em torno da banda britânica e do movimento punk rondou durante muito tempo em minha cabeça, mas só fui prestar atenção, de verdade, no grupo, tarde, com o sucesso do Oasis. E por quê? Ora “caracoles”, porque o desbocado Liam Gallagher, vocalista da banda de Manchester, com seus trejeitos tortos diante do microfone, era a cópia escarrada de Johnny Rotten. Para completar a influência, o irmão Noel não perderia tempo e chuparia não apenas alguns dos riffs cortantes do grupo, mas também algumas frases agressivas de um repertório marcado por muita raiva, intolerância e inconformismo diante do sistema vigente.

Mais tarde, obcecado por Renato Russo e a turma da Colina, todos influenciados de forma visceral pelo punk londrino, minha admiração pelo Sex Pistols desabrocharia de forma vertiginosa.

Ah, sim, e o título do disco mais influente da década de 90, Nevermind, do Nirvana, não será mero trocadilho. Não em se tratando do também louco de pedra Kurt Cobain.

A característica que mais sobressai no movimento punk e, por tabela, na banda londrina, é a atitude, elemento indelével do rock que anda em desuso nos dias de Lady Gaga e Justin Bieber de hoje. Tanta agressividade e verdade em cena culminariam numa trajetória relâmpago, marcada de muitos estragos por onde passaram, deixando rastros de destruição e com pelo menos um desfecho trágico para um dos integrantes, o autodestrutivo baixista Sid Vicious.

O rock nunca esteve tão à beira do precipício, tão sem futuro.

* Este texto foi escrito ao som de: Neve mind the bollocks (Sex Pistols – 1977)

O garoto de Charles Chaplin

Chaplin e o pequeno Coogan, em cena emocionante do filme

Motivado pelo clima de Natal, pelo “espírito de bondade” que paira sobre a data, resolvi tirar da minha estante mágica o DVD de O garoto, clássica obra-prima do mestre Charles Chaplin, de 1921, que versa sobre o tema. Há muito tempo que não assistia à fita e confesso que me emocionei. Uma rotina diante dos sentimentais, mas geniais enredos desse grande nome do cinema. “Um filme com um sorriso e talvez com uma lágrima”, avisa o diretor e ator, logo nos primeiros minutos de filme, que já traz uma imagem impactante de Cristo carregando a cruz. A história, aparentemente triste, mas recheada de momentos hilariantes, nasceu de um episódio bem pessoal envolvendo o artista: a perda daquele que seria seu primeiro filho, morto com apenas três dias de vida. Gira em torno de um garoto abandonado pela mãe, dentro de um carro que, após ser roubado, vai parar nas proximidades da casa do vagabundo Carlitos. Ele não quer saber de encrenca para o seu lado e tenta se livrar daquele “embrulho” o mais rápido possível, cogita até jogar o bebê bueiro abaixo – numa das cenas mais pesadas do filme -, mas, coração mole que é aceita adotar a criança. O menor abandonado em questão é o pequeno Jackie Coogan, um talento nato de apenas quatro anos, filho de artistas do vaudeville, que encantaria o mestre do riso e da pantomima na época. Na trama de O garoto, ele seria uma espécie de mini Chaplin nas telas, captando com essência, simpatia e versatilidade, os trejeitos e formas do grande clown da sétima arte. A química era perfeita e jamais seria repetida novamente com Chaplin. Pois bem, o menino, tratado com mamadeira feita com bule e fralda de pano rasgado, logo cresce e não demora a aprender os truques da rua com o novo pai. É ele quem quebra as vidraças da casa para que seu protetor, com o cinismo inocente do eterno vagabundo, possa arrumar e ganhar uns trocados para o pão de cada dia. Mas um dia, um guarda “belo” da vida com a cara do Stálin descobre a artimanha da dupla de pilantras e corre com os dois. O clímax desse duelo de braço se dá com a perda da guarda da criança, numa das cenas mais comovente do cinema, embalada pela tocante trilha escrita pelo próprio Chaplin. Se você for rato de cinema, já deve ter notado que esse enredo foi copiado de várias formas não só nas telonas, mas na tevê também. Inclusive por eternos admiradores de Chaplin, entre eles os eternos Jerry Lewis e o Didi. Mas acontece que só o mágico personagem Carlitos daria um toque todo especial à situação, que surgia como uma espécie de fantasma no passado de Chaplin, um menino que passou os primeiros anos de sua infância num orfanato. Não sei se O garoto é um dos meus filmes predileto de Charles Chaplin. Gosto em especial de Tempos modernos (1936) e tem ainda a sátira mordaz O grande ditador (1940), mas com certeza um dos que mais me emociona. Sobretudo para quem tem criança em casa e tem a preocupação do zelo paternal. Como esse personagem marcante de O garoto. * Este texto foi escrito ao som de: John B. Sebastian (1970)

Da hipocrisia do Natal…

Para mim, Natal não tem nada a ver com Papai Noel, Boneco de Neve e árvore e sim com presépio...

…E de como o espírito natalino é uma farsa que nos contamina e corrompe ano a ano…

Não gosto de Natal. Tudo bem, tudo bem, eu sei, um dia eu já fui criança também como você e escrevi para o Papai Noel, mas hoje acho a data enfadonha e hipócrita porque as pessoas passam boa parte de suas vidas agindo como lobos implacáveis, para nos últimos dias do ano, todo ano, posar de adoráveis cordeiros. Há ainda gente que faz pior, fingindo o ano inteiro serem simpáticos e mansos cordeiros, quando na verdade escondem suas garras afiadas debaixo de um sorriso falsamente afável e amigável. Parafraseando o bom e velho Ariano Suassuna, é dessa gente amarela que não sai da Igreja que tenho medo.

Eu não, eu sou um cacto o ano inteiro. E tenho orgulho de ser assim, até por defesa ou, como gosta de escrever a gatinha e sempre educada Lilian Tahan, em suas matérias, por “instinto de sobrevivência”. E faço questão que seja assim. É mais verdadeiro, mais sincero, mais autêntico, mais eu. Cansei de dar minha vida, meu tempo, minha atenção e afeto para gente que não tem a educação, muito menos a sensibilidade de entender gestos de admiração, de profundo e verdadeiro carinho.

Sinceridade às vezes tem a ver com rabugice, sim, e por um motivo muito simples. Felicidade hoje em dia é sinônimo de falsidade, uma propaganda de margarina no horário nobre, uma mentira que acreditamos fervorosamente, na tentativa de enganar nossas tristezas verdadeiras, nossas vilanias do cotidiano. Para mim, o Natal é uma desculpa para esquecermos os problemas da realidade e jogar para baixo do tapete os erros e atos falhos cometidos o ano inteiro.

É por esses e outros motivos que perdi a fé no ser humano e, sobretudo nessa data que virou, há muito tempo, o símbolo do consumismo, como bem disse o mestre Zuenir Ventura, recentemente. Sim, porque o Papai Noel e o Natal são invenções da “Coca-Cola”, do otimismo vagabundo, etnocêntrico e egocêntrico da sociedade americana, que não tem nada a ver com você e com ninguém em nenhuma parte do mundo, porque a felicidade tratasse de algo só nosso, um sentimento intransferível e que, inclusive, incluí a nossa infelicidade.

“A felicidade é como uma sombra. Nós a perseguimos, mas ela nos escapa sempre”, disse recentemente o filosofo suíço, de formação britântica, Alain De Botton, numa entrevista bacana que vi na GloboNews. “Almejar a felicidade o tempo todo é quase uma receita para o desastre”, emendou De Botton, que é de um pragmatismo perturbador.

Bem, eu não almejo a felicidade, sou uma pessoa até melancólica e infeliz por natureza e não acredito que isso seja um defeito, mas uma forma sincera de encarar o mundo, com todos os defeitos que ele tem. De modo que o espírito natalino é uma farsa que nos contamina e nos corrompe ano a ano.

Tudo o que quero é estar bem comigo mesmo e com as pessoas que gosto e admiro. Daí o fato, penso eu, de ter fracassado como pessoa, por não conseguir a atenção daquela alma que venero tanto. De fazê-la entender que sua existência faz parte da minha existência. E que a pior forma de solidão não é a companhia de um paulista, como disse certa vez o Nelson Rodrigues, mas o desprezo da pessoa admirada. De modo que sou, me sinto, o sujeito mais infeliz da face da Terra, porque a única coisa que consigo dessa pobre alma de espírito, é o seu descaso.

Mas acredito na justiça do tempo e na força do carinho das minhas duas sobrinhas, pois são elas que me mantém vivo todos os dias quando acordo, me fazem acreditar que o Natal, mesmo por mentirinha, é um momento de “felicidade” plena, reflexão e de reconciliações. Mesmo que a imagem mais forte do dia 25 de dezembro em minha mente e em meu coração não seja a do bom velhinho, nem de árvore de Natal ou boneco de neve, mas a do presépio, com o menino Jesus em sua manjedoura.

Uma imagem angelical embalada ao som da singela canção de Simon & Garfunkel, 7 O’ clock News/Silent Night, aquela que traz a comovente e tão conhecida faixa natalina, sublinhada por tristes e contundentes notícias do dia a dia, para mostrar o quanto somos pequenos, ignorantes e vulneráveis diante da realidade. Para lembrar que somos insignificantes e o mundo grande.

Nem sempre quem é rei é quem tem dinheiro ou poder, mas quem tem o dom da bondade e da sabedoria.

O amor é algo cafona, mas ainda um sentimento verdadeiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Parsley, sage, rosemary and thyme. (Simon & Garfunkel – 1966)

Os irmãos Karamazov no cinema

Os Karamazov, de Dostoiéviski, uma família em conflito eterno

A literatura de Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881) é densa. E te marca para sempre. Falo por experiência própria porque levei seis meses para ler Crime e castigo e a trajetória do jovem Raskólnikov me marcaria de forma indelével. Dono de uma angústia universal contundente, o autor russo é uma referência na literatura Ocidental, diga-se de passagem, feito raro. Outra obra do autor que me deixaria esgotando era o impressionante O jogador, na qual a narrativa envolvente nos fazia viciado, meio que cúmplice dos dramas internos do personagem.

Mas, por incrível por parece não tenho em minha estante mágica uma de suas obras-primas, o clássico livro Os irmãos Karamazov. Tenho lá Memórias do subsolo, Os demônios, Noites brancas, até O idiota, mas nem sombra dos camaradas Karamazov que, inclusive, inspirou nossa grande Janete Clair a escrever nos anos 70, um dos maiores sucessos da Rede Globo, Irmãos Coragem. De modo que, se alguém vier me perguntar por que raios não li ou não tenho uma edição dos Irmãos Karamazov, em minha instante mágica, direi com a mais clara, hedionda e cretina convicção: não sei.

Pois bem, não é a mesma coisa, eu sei, mas outro dia vi em DVD a adaptação de Richard Brooks para o cinema do livro. Protagonizado pelo ator de origem russa Yul Brynner e a encantadora Maria Schell, o filme foi um achado, porque eu mal sabia que essa obra havia sido adaptada para as telonas. Uma adaptação, inclusive, conduzida por Richard Brooks, um dos meus cineastas norte-americanos mais preferidos, diretor de pequenas pérolas como, A última vez que vi Paris (1954), Gata em teto de zinco quente (1958) e Entre Deus e o pecado (1962).

A fita é chata, admito, com uma narrativa cansativa, modorrenta que faz a gente dá umas cochiladas, de vez em quando, mas há produções piores. Na trama, a família Karamozov anda em pé de guerra por causa de dinheiro. Um problema, aliás, que marcaria toda a vida de Dostoiévski que chegou a dizer um dia: “A pobreza e a miséria formam o artista”.

Aliás, o escritor russo impingiria em suas narrativas vários aspectos da vida particular como o problema com a epilepsia, o vício pelo jogo, além dos conflitos com a igreja e outras instituições da sociedade. No filme, os quatro irmãos de personalidades e funções diferentes são, facilmente, alter egos do escritor, em maior ou menor intensidade.

O mais problemático deles é Dimitri (Yul Brynner), que além de mulherengo, vive perdendo dinheiro no jogo. Dinheiro esse que ele vive pedindo emprestado ao pai, com quem vive às turras e reivindica sua parte da herança materna. O conflito é administrado de perto pelo irmão religioso, o padre Alexi (William Shatner), e de longe pelo jornalista Ivan (Richard Basehart). Há ainda o bastardo e diabólico, Smerdjakov (Albert Salmi), o arquiteto por trás da grande tragédia que irá marcar a família emocionalmente despedaçada.

No meio deles, a beleza fulgurante de duas mulheres capazes de entortar o cérebro e o coração de qualquer homem, ambas, donas de uma personalidade dúbia e encantadora: Grushenka (Maria Schell) e Katya (Claire Bloom). “Mulheres gostam de se sacrificar, especialmente em público… algumas”, ensina o patriarca da família.

Embora a fita seja, repito, de uma chatice ululante, não há como não negar o talento de Richard Brooks em conduzir tramas convulsivas. Seu cinema, assim como a literatura de Dostoiévski, está carregado de dolorosos embates morais que, volta e meia colocam em cheque a natureza humana. “Tudo é lícito, inclusive, o crime”, chega a dizer um dos personagens. Máxima essa, que surge como espinha dorsal de seu livro mais famoso, o claustrofóbico Crime e castigo.

* Este texto foi escrito ao som de: Freak out! (Mothers of invention – 1966)

Seguindo as pegadas do Lobão

Lobão quis ser jogador de futebol, mas graças às marchinhas de carnaval e a Jovem Guarda, aderiu à música

Já vou lá pela página 100 da biografia do Lobão, 50 anos a mil, lançada em fevereiro deste ano pela Nova Fronteira. Só agora tive tempo e ímpeto para ler esse calhamaço de quase 600 páginas. E, apesar de achar ele melhor falando do que escrevendo, estou adorando o livro, muito pela sinceridade incômoda do velho “Lobo Mau” da nossa música.

Polêmico, iconoclasta e raivoso, João Luiz Woenderbag Filho, o nosso Lobão, não tem papa na língua. Nunca teve. E essa particularidade talvez seja, num olhar mais rápido, a característica que mais lhe chama atenção, embora ele seja um artista talentoso, que nunca teve medo de mostrar sua cara, ou melhor, suas garras.

Confesso que conheço pouco de sua carreira artística, duas ou três músicas, talvez quatro ou cinco, entre elas Vida louca vida, cujo título é uma brincadeira com o grande sucesso Lay Lady lay, de Bob Dylan. Mas difícil passar imperceptível ao seu estilo de vida frenético, sempre cercada por opiniões contundentes. Daí o fato de eu estar gostando, e muito, da biografia escrita com a ajuda do profundo trabalho de pesquisa do premiado jornalista investigativo Claudio Tognolli.

Ainda estou na primeira fase da trajetória do artista, nos primeiros anos de sua infância e pré-adolescência, mas suas memórias começa punk, com ele e Cazuza cheirando uma carreira de cocaína em cimado caixão do amigo Júlio Barroso, morto precocemente em 1984. “O Júlio era um homem-arquivo. Um poço das mais variadas informações. Um ser de uma inteligência prodigiosa, de grande coragem e inspiração”, lamenta, num texto que explica os motivos que o levaram a escrever não apenas a história de sua vida, mas de sua turma e, por tabela, do Brasil de sua época. “Talvez tenha sido ali, naquele momento surreal, que nasceu não só uma vontade, mas um compromisso tácito entre os meus amigos de que, uma vez sobrevivendo, eu deveria contar toda a história”, revela. E o lobo não nos decepcionou.

De família classe média alta carioca com sangue holandês nas veias, assim como Renato Russo, Lobão teve um problema sério de saúde até os 11 anos: nefrose. Ou seja, doença degenerativa renal.

Muito tímido e desengonçado, João Luiz ou como preferia alguns familiares, JoãoLuizinho – e ainda Xurupito, que ele, obviamente odiava -, era paparicado a granel pela mãe, enquanto que mantinha uma relação de admiração e medo com o pai. Aliás, ambos, por sinal, se suicidariam mais ainda não cheguei nessa parte.

Flamenguista doente até cogitou a carreira de jogador de futebol, mas viu que não levava jeito para coisa quando achou que escanteio fosse nome de um jogador. O primeiro instrumentou que aprendeu a tocar foi bateria, mas não por causa do rock ‘n’ roll, mas por conta das marchinhas de carnaval e pasmem, seus primeiros ídolos eram os astros da Jovem Guarda.

“Vivia no meu planeta em tempo integral, e quando descia de Pedro do Rio (Sítio da família), cantava andando por todo o apartamento o hino do meu planeta, que era o hit do Sérgio Reis, Coração de papel”, relata. “Adorava cantar também (…) Wanderley Cardoso, (…) Wanderléia, (…) Roberto e (…) Lindomar Castilho”, confessa.

Irmão de Glória, Lobão, teve a honra de ter como vizinha, veja que sorte, da charmosa Christiane Torloni e um dia, em 1970, em Botafogo, quando entrou numa loja para comprar um jogo de botão, foi atendido por ninguém menos do que Nilton Santos, a enciclopédia em pessoa. “Eu só faltava chorar de tanta emoção! Como é que pode isso? Encontrar com um dos maiores heróis do futebol mundial, ali, tranquilo, um feliz dono de loja de material esportivo, me dando umas dicas sobre botões de galatite”, diz o lobo babão.

Aguardem por mais novidades sobre a trajetória do lobo nos próximos posts.

* Este texto foi escrito ao som de: Vida bandida (Lobão – 1987)

Happy Feet 2 e as minhas sobrinhas

O pequeno Erik só quer encontrar o seu talento e se mete numa grande aventura

Levei minha sobrinha de dois anos ao cinema ontem (21). Foi sua estreia numa sessão e ela se comportou bem, muitíssimo bem, não tirando seus olhos de anjos da telona. Resumindo, ela adorou. O filme escolhido foi Happy Feet 2, não por um motivo especial, mas porque minha afilhada, minha sobrinha mais velha, adora o primeiro filme e porque a mais nova, graças à Xuxa, adora pinguins. Vai entender cabeça de criança.

Pois bem, podem me acusar do que vocês quiserem, mas tenho orgulho de ser tio dessas duas gurias e, como bom tio coruja que sou lá fui eu com as pequenas ver os alegres pés dançantes.

Por causa das minhas duas crianças, tenho visto muitos filmes do gênero ultimamente e não canso de me surpreender o quanto os desenhos animados evoluíram né? As animações de hoje em dia são sofisticados, divertidos e exemplares. Sim, passam lições importantes por trás de um enredo fantasioso e lírico.

Com Happy Feet 2 não seria diferente. Dirigido pelo australiano George Miller, criador do famoso filme Mad Max, a nova sequência agora foca suas atenções no pequeno Erik, filho de Mano (dublado por Daniel Oliveira), o protagonista da primeira aventura gelada. Como toda criança, digo, filhote de sua idade, ele busca um lugar ao Sol, ou seja, sua própria identidade no mundo dos pinguins imperadores. Acredita que tem talento para alguma coisa mais não sabe o que exatamente.

Um belo dia interpreta mal um gesto do pai e resolve fugir de casa junto com os amigos, dando início a uma grande aventura na qual aprenderá lições da vida como gratidão, amizade e, sobretudo, solidariedade. Mas do que isso, que às vezes o passo mais importante a dar, pode ser o para trás.

“Minha mãe sempre diz que um obstáculo é uma oportunidade”, pensa com seus botões.

Espirituoso e emotivo, Happy Feet 2, que achei bem melhor do que o primeiro – inclusive porque não me lembro direito dele -, ganha o público por não ter medo de encarar a torto e direto a pieguice e trazer à tona questões aparentemente banais no nosso dia a dia, mas extremamente valiosos. Sim, porque afinal, existe algo mais tocante do que o amor de pai ou o amor de mãe? De quebra, ainda chama atenção das pessoas para os descuídos com a natureza, com os diários acidentes ecológicos.

No final, claro, tudo dá certo, mas não sem uma dose de humor, sentimentalismo e personagens maneiros, como o Hermano Ramon e aqueles dois siris (ou será camarõezinhos?), que passam a fita toda tentando subir na cadeia alimentar. “Temos que evoluir”, diz um deles, meio que exortando Euclides da Cunha, o grande escritor e jornalista brasileiro que disse certa vez: “Ou evoluímos ou desapareceremos”.

Homenageando o mestre Alfred Hitchcock numa referência ao assustador Os pássaros (1963), o filme tem uma trilha sonora gostosa, que vai da ópera infantil (seja lá o que isso signifique), ao rock mais genuíno. Além de Queen, os pinguins imperadores são embalados e embalam o público com surpresas agradáveis como o contagiante hit sessentista, Papa oom mow mow, sucesso de 1962 dos The Rivingtons imortalizado pelos Beach Boys, na época, e que ganhou um versão formidável no Brasil dos endiabrados João Penca e seus miquinhos amestrados.

* Este texto foi escrito ao som de: Greatest hits (Queen – 1994)