A coragem e ousadia de Bento XVI

"Não sou mais pontífice, mas um peregrino".

“Não sou mais pontífice, mas um peregrino”.

Não entendo de Deus, religião ou fé. Mas saco um pouco de gente, ou seja, da natureza humana, massa física essa imprevisível cheia de dúvidas e contradições, enfim, entendo o mínimo do mínimo sobre a miséria humana na qual estamos mergulhados, o que já acho muito.

Muitas são as especulações, teorias sobre a saída do Papa Bento XVI do papado, que oficialmente aconteceu hoje, mas o que é importante dizer é que o velhinho teve coragem e ousadia de sobra para encarar os problemas que passa a instituição no momento – uma das mais poderosas do mundo -, e largar o osso.

Confesso que não me simpatizava muito pela figura de Joseph Ratzinger, não porque João Paulo II foi o herói da minha infância, não pelo seu poderoso status, mas por sua figura humana comovente com aquela eterna cara de anjo menino.

Mas ao renunciar ao Vaticano, Papa Bento XVI subi em meu conceito e muito, mostrou ser um homem de caráter e preso de forma umbilical às suas convicções e princípios de homem cristão. “O Senhor nos deu muitos dias de sol e ligeira brisa, dias nos quais a pesca foi abundante, mas também momentos nos quais as águas estiveram muito agitadas e o vento contrário, como em toda a história da Igreja e o Senhor parecia dormir”, resumiu.

Bom, não sou vaticanólogo ou coisa que o valha, mas fez o que fez porque era preciso, porque não compactuava, aceitava, tolerava mais o mar de lama e hipocrisia no qual estava mergulhado.

Há tempos que a crise é grande, medonha, hedionda, com escândalos envolvendo pedofilia, corrupção, tráfico de influência, rede de sexo e homossexualismo, enfim basta! Não que eu perca noites sonos por causa disso, mas espero, torço que o próximo Papa seja capaz de amenizar os estrados do hoje. O problema que nem Bento XVI anda confiante com relação a isso.

“Nas eleições para papa, o Espírito Santo não ajuda a escolher o melhor cardeal para ocupar o Trono de Pedro, mas aquele capaz de causar menos estragos”, disse espirituoso, mas também sem esperança.

* Este texto foi escrito ao som de: Ladies of the Canyon (Joni Mitchell – 1970)

Ladies of the Canyon

Balzac e a costureirinha chinesa

Filme de Dai Sijie versa de forma simples sobre a magia da leitura

Filme de Dai Sijie versa de forma simples sobre a magia da leitura

Livros são mágicos. Se alguém duvida desse poder das duas uma: comeu sabão quando era pequeno ou não viu o singelo drama, Balzac e a costureirinha chinesa, que tive a oportunidade de ver outro dia graças a um anjo da guarda que me acompanha metamorfoseada de pequena notável. Foi ela quem me fez tirar da estante o DVD que tenho ainda na embalagem.

Enfim, dirigido em 2001 por Dai Sijie no auge da febre dos filmes asiáticos nos cinemas, a fita conta a história de amor entre dois jovens e uma costureira, todos perdidos numa aldeia afastada do grande centro urbano. É o auge do governo do grande líder Mao Tsé-Tung, nos anos 70, e os dois rapazes foram encaminhados para os “campos de reeducação” por serem filhos de pessoas importantes na sociedade, enfim, burgueses reacionários, politicamente perigosos.

Lá, no meio do mato, no cume do mundo, onde a paisagem quase toca o céu, eles são obrigados a carregar baldes de merdas e cavar pedra nos subterrâneos da montanha. À noite, a única fonte de lazer que têm são as músicas de Mozart tocada no violino ou as histórias em tom de fábulas protagonizadas pelos recém-chegados.

Quando ambos se apaixonam pela costureira local, uma jovem carismática, mas “primitiva”, que aprendeu o ofício com o avô, eles resolvem salvá-la da escuridão da ignorância ao ensiná-la ler, surrupiando livros proibidos de maleta secreta.

Eis aí o mote da trama que é mostrar como a leitura é um bem precioso da humanidade, tesouro do qual ninguém deveria ser privado, passivo de crime, diga-se de passagem, daí a tirania intelectual do grande Mao. “Sinto até que o mundo mudou”, diz um dos meninos, encantado com um título de Balzac. “Às vezes um livro pode afetar sua vida inteira”, diz a costureirinha deslumbrada com um novo horizonte que abriu diante de seus olhos da mente.

Simples, meigo, de uma poesia visual intrigante, mas, sobretudo comovente do ponto de vista político, Balzac e a costureira chinesa recorre à sinceridade temática para tocar em tema pertinente e caro à realidade daquele país que já teve dias piores, mas está longe do ideal.

Sinceramente, fiquei morrendo de vontade de tirar minhas edições empoeiradas de Flaubert, Dostoievski, Stendhal, Balzac e tantos outros autores clássicos da prateleira da minha estante mágica para ler. O que me impende de fazer isso?

* Este texto foi escrito ao som de: (Mozart – 1756 – 1791)

Mozart

40th anniversary of the Rocket Man

Antes de se tornar o vovô da Lady Gaga e qualquer bobagem extravagante do gênero divulgado de forma jocosa, irresponsável e

Elton John no auge da carreira nos anos 70

Elton John no auge da carreira nos anos 70

imbecil pela mídia, Elton John foi um dos maiores artistas do show business de seu tempo. O que os Beatles representaram em termos de influência musical e comportamento nos anos 60, Reginald Dwight foi o equivalente uma década seguinte. Sim, porque nos anos 70 Elton John reinou soberanamente, a ponto de representar 2% de todas as vendagens de discos no mundo.

Aos 65 anos, 450 milhões de discos vendidos, Elton John chega ao Brasil essa semana para cinco apresentações da turnê comemorativa: 40th anniversary of the Rocket Man, que celebra quatro décadas de seu trabalho mais importante e emblemático, o álbum Honky château. A estreia será amanhã, no Jockey Club de São Paulo. Depois de passar por Porto Alegre, no dia 05, o astro pop inglês desembarca em Brasília para apresentação na capital brasileira, onde promete se encontrar com a presidente Dilma.

Uma informação importante para os fãs mais atentos. Na banda que o acompanha estão dois músicos de respeito que estão com Elton John desde os tempos de glória e estrelato nos anos 70: o guitarrista Davey Johnstone e o baterista Nigel Olsson.

Rocket manAbaixo, curtos comentários de algumas canções do set list que o artista provavelmente irá tocar por aqui.

The bitch is back – O cantor abre com essa faixa que também é a canção de abertura do álbum Caribou, de 1974. Oportuna, o hit nasceu de uma frase maldosa da primeira mulher do eterno parceiro Bernie Taupin, cansada dos faniquitos do astro: “A puta está de volta”, reclamou.

Goodbye yellow brick Road – O título é uma referência à clássica canção de 1939 cantada por Judy Garland no filme O mágico de Oz, mas a letra melancólica de Bernie Taupin faz alusão aos tempos em que era um rapaz simples que não tinha que se preocupar com as pressões do sucesso.

Rocket man (I think it’s going to be a long, long time) – Talvez o maior sucesso de Elton, a música, tocada depois de Candle in the Wind – o hino da princesa Diana – representará o momento catártico do show. Escrito em 1972, no auge do glam rock, inspirou David Bowie a escrever o sucesso Starman. É pouco?

Daniel – Um dos sucessos do álbum de 1973, Don’t shoot me I’m only the piano player, a canção, ao contrário do que muitos pensam, não é sobre um antigo namorado do cantor, mas sobre um ex-combatente da guerra do Vietnã. A parte da letra de Bernie Taupin que fazia menção ao detalhe foi cortada por Elton, sabe-se lá por que.

Your Song – O primeiro sucesso nas rádios de Elton John foi a canção Skyline Pigeon, tema de uma novela global nos anos 70. Mais a faixa que o catapultou para o estrelato foi a melancólica, Your song, gravada em seu segundo álbum. Será interpretada no bis

* Este texto foi escrito ao som de: Tumbleweed connection (Elton John – 1970)

Tumbleed connection

Minhas apostas erradas do Oscar 2013

Argo de Ben Affleck vence Lincoln no Oscar 2013

Argo de Ben Affleck vence Lincoln no Oscar 2013

Ao contrário do que eu disse, não resisti e fiquei que nem um idiota fazendo comentários cretinos no Facebook, me achando o cara mais engraçado do mundo, mais, inclusive, do que o fraco apresentador deste ano, Seth MacFarlane. Para quem nunca viu, ou não sabe que era o cara, vai uma dica: é o diretor de Ted.

No mais, fica o desabafo aqui: o Oscar é uma grande bobagem de fato, perda de tempo e, há muito tempo que não assistia a uma cerimônia tão ruim. Todas são ruins, mas este ano foi um pesadelo, Cristo. E eu com sono e dor de estômago.

De qualquer forma, fui medíocre na minha aposta, acertando menos da metade das escolhas, de modo que posso encerrar minha carreira de “comentarista” de filmes. Eis a lista abaixo:

Melhor Ator Coadjuvante (Christoph Waltz/Django livre)

Melhor Filme Estrangeiro (Amour)

Melhor Atriz Coadjuvante (Anne Hathaway/Os miseráveis) Errei

Melhor Roteiro Adaptado (Chris Terrio/Argo) Errei

Melhor Roteiro original (Quentin Tarantino/Django Livre)

Melhor Diretor (Ang Lee/As aventuras de Pi) Errei

Melhor Atriz (Jennifer Lawrence/O lado bom da vida) Errei

Melhor Ator (Daniel Day-Lewis/Lincoln)

Melhor Filme (Argo) Errei

 * Este texto foi escrito ao som de: Blur (1997)

Blur

Jukebox S. – Everything’s not lost

As canções da banda surgem como uma pedra de Bolonha para mim

As canções da banda surgem como uma pedra de Bolonha para mim

Não sei se a pedra de Bolonha existe realmente, mas no livro, Os sofrimentos do jovem Werther, obra clássica do alemão Goethe (1749 – 1832) escrita em 1774 que me marcou profundamente por conta do seu romantismo niilista, esse suposto exemplo alquímico da natureza surge como metáfora do amor impossível entre Guilherme e a jovem Carlota. É quando o sujeito encarregado de levar um bilhete do desesperado amante a sua amada retorna com relatos da missão, exalando uma aura de luz que contagia em demasia nosso herói apaixonado.

“Dizem que a pedra de Bolonha, quando exposta ao sol, absorve seus raios e reluz algum tempo durante a noite. Dava-se o mesmo comigo e aquele rapaz. A lembrança de que os olhos de Carlota haviam pousado em seu rosto, em suas faces, nos botões de sua casaca e na gola de seu sobretudo, fazendo dele tão querido e sagrado para mim! Me sentia tão bem em sua presença”, narra o autor.

Enfim, para mim essa imagem é o símbolo do amor platônico e nutro um amor platônico por inúmeras mulheres que me cercam, musas que me fazem sentir nas nuvens pela beleza, carisma, charme e encanto pessoal que cada uma tem. Mas uma em especial é como um anjo de ternura e delicadeza por conta de sua gentileza natural e sorriso mágico. Um sorriso mágico que faz brotar em meu peito um jardim encantado.

Claro, muito dessas musas surgem em meu horizonte como um falso Cristo e quando me dou por mim, percebo que algumas não são nada daquilo, nem a metade da metade da expectativa que criei com relação a elas, mas essa, em especial, é uma esfinge de verdade e sonho. Sonho real.Werther 2

E o mais formidável de tudo é que ela me devolveu a vontade, a coragem, o ímpeto de ouvir novamente uma das minhas bandas predileta: o Coldplay. Sim, porque fazia tempos que, por medo sentimental, sensorial, emotivo, não tinha coragem de ouvir uma canção sequer dos meninos de Londres que amo tanto.

Pois neste fim de semana, como que libertado de um feitiço maligno e tomado por uma alegria contagiante sem igual, uma alegria que fez tremer minha alma de cima a baixo, pude ouvir novamente as canções do Coldplay e quase tive uma overdose de Parachutes, o primeiro registro deles de 2000. “Quando eu contei meus demônios/Vi que havia um para cada dia”, diz a letra de Everything’s not lost, canção da banda que mais gosto.

Pois bem, todos esses demônios que outrora fustigavam minha alma agora foram embora e tudo por causa dessa garota com o sorriso mágico que me devolveu a alegria de viver sem medo de ser feliz. E mais, descobri deslumbrado que ela também adora Coldplay e que o disco da banda que mais gosta – o mesmo que eu -, é Parachutes.

Bom, um dia, se eu tiver sorte, mas muita sorte mesmo, eu quero encontrar um amor verdadeiro que seja como ela. Enfim, alguém educada, meiga, gentil, doce, inteligente, com senso de humor apurado e sorriso mágico igual ao dela.  Enquanto isso, como a pedra de Bolonha de Goethe, vou escutando Parachutes do Coldplay, a melancólica, sincera e simples Everything’s not lost, com seu piano metálico e falsete angustiante, como se fosse uma oração de todo dia, como se fosse um pedaço dela dentro de mim.

* Este texto foi escrito ao som de: Parachutes (Coldplay – 2000)

Parachutes

Minhas apostas para o Oscar 2013

Favorito, Lincoln traz atuação impecável, irretocável e insuperável de Day-Lewis

Favorito, Lincoln traz atuação impecável, irretocável de Day-Lewis

Todo mundo que tem um mínimo de inteligência e bom senso sabe que o Oscar é uma grande bobagem, típica e autêntica festa de ostentação norte-americana para valorizar um de suas maiores fontes de dinheiro. Daí o lobby medonho que ocorre nos bastidores e, como rende muita grana, até por interesses óbvios, muitos equívocos e injustiças são cometidos. Alguns são clássicos.

Mas enfim, de qualquer modo vou assistir a entrega dos prêmios amanhã (24), mas sem perder tempo que nem aqueles bobocas que ficam tuitando e conversando no Facebook simultaneamente só para mostrarem que são espertos e engraçados.

Bom, eu não entendo de cinema, mas gosto muito. Por isso faço aqui, sem pretensão nenhuma, minha aposta para o Oscar 2013 já que não vi todos os filmes até o momento. É bom registrar que este ano está bem fraco de grandes produções, mas e daí? Nem só de grandeza é feita sétima arte, mas também de sutilezas e encanto.

Se não tem grandes filmes, tem ótimas atuações. Para falar a verdade, há muito tempo que não via um ano tão privilegiado de grandes atuações. Abaixo, drops sobre minhas escolhas.

Filme – Só não vi dois filmes dos noves indicados, mas este ano está fácil. O vencedor provavelmente será Lincoln até porque é Spielberg no auge de sua maturidade como cineasta. Sem grandiloquências visuais, maniqueísmo e ufanismos infantis, enfim, o cara foi prudente.

Diretor – De ator mediano para diretor competente não é que o quarentão Ben Affleck evoluiu muito? Argo, dirigido, protagonizado e produzido por ele é uma prova disso. Não é uma obra-prima, mas um trabalho bem feito, digno de um grande diretor de cinema, por isso queria que ele levasse a estatueta, mas, por questões políticas, o cara foi completamente ignorado e aí entra aquela história das injustiças que falei. Deve levar Spielberg novamente.

DjangoAtor – Me surpreendi muito com Bradley Cooper no “drama” O lado bom da vida e Joaquim Phoenix (renascido) está incrível como o demente atormentado em O mestre. Mas a atuação do inglês Daniel Day-Lewis em Lincoln é impecável, irretocável, insuperável.

Atriz – O cineasta austríaco Michael Haneke achatou as plateias do mundo inteiro nas poltronas com o seu perturbador Amor, filme de densidade humana rara no cinema espetáculo de hoje. Não há como não se emocionar com o desempenho da francesa Emmanuelle Riva como a octogenário que “desiste” da vida.

Ator coadjuvante – Tudo o que foi dito para Daniel Day-Lewis pode ser empregado ao ator austríaco Christoph Waltz, um colosso de artista e magnânimo na pele de um fora da lei às vessas no divertido Django livre. Ele simplesmente rouba a cena na fita, colocando Jamie Foxx na berlinda.

Atriz coadjuvante – Bom não vi ainda As sessões, mas até pelo boca a boca e comentários de quem assistiu Helen Hunt é a franca favorita na categoria. Pesa muito a proposta triste, o estilo dramático do enredo. Só espero que a fita não seja apelativa.

Filme estrangeiro – Dos indicados só vi dois: o chileno No e o austríaco Amor, que tem 99% de chances de levar até para justificar os prêmios que não deve ganhar como Melhor Filme e Diretor. Na verdade, esse drama é o melhor filme de todos os indicados em todas as categorias e ponto final.

Roteiro original – O niilismo humanista de Amor é inquestionável, mas cinematograficamente falando, o roteiro de Django livre é soberbo porque, além de ser uma homenagem a um dos gêneros norte-americano por excelência, traz aquela inconfundível miscelânea de metalinguagem que só o Quentin Tarantino sabe fazer.

Roteiro adaptado – Talvez essa seja a categoria mais difícil de escolher, embora eu não tenha lido nenhuma das obras que deram origem aos filmes. Por isso escolho o favorito: Lincoln. Muito da sobriedade narrativa de Spielberg está no roteiro pragmático de Tony Kushner.

 * Este texto foi escrito ao som de: Greatest hits (Queen – 1981)

Queen

O reino gelado de fato é uma fria

A pequena aí quer encontrar o irmão e salvar o mundo...

A pequena aí quer encontrar o irmão e salvar o mundo…

Assistir filmes em 3D para mim é um pesadelo. Só faço isso em último caso, mas em último caso mesmo porque os olhos ficam turvos, embaralham, a cabeça dói, um inferno meu chapa, um inferno. Como não é todo dia que se vê uma animação russa de bobeira por aí, lá estava eu na cabine para imprensa de O reino gelado, na última quarta-feira, fita que está em cartaz nos cinemas de Brasília a partir de hoje. E já vou avisado, a produção é uma fria e coloca fria nisso.

Baseada no conto A rainha do gelo, escrita em 1845 pelo escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, o projeto é bem fraquinho, cheio de clichês maniqueístas, mas tudo bem já que essas fábulas que ouvimos desde crianças são uma catedral de clichês maniqueístas mesmo.

Na trama, ambientada na era medieval, a humanidade vive sob o jugo da malvada Rainha do Gelo, que transformou tudo e quase todos ao seu redor em um horizonte gelado e branco. Perversa, a vilã siberiana ordenou ainda que a beleza deste mundo retratada pelo lirismo dos artistas em suas obras, independente de qual segmento pertencesse, fosse destruídos junto com seus criadores.

Imponente, a única ameaça que paira diante de sua vilania desmedida está no poder misterioso de um espelho mágico criado pelo mestre-vidreiro Vegard, sequestrado por ela junto com a mulher, deixando para traz os dois filhos do casal, Kai e Gerda, únicos herdeiros da bondade humana. “Pintura traz alegria e calor para esse mundo frio”, diz o primeiro, extravasando sua paixão pela arte de pintar.Snow queen

Acontece que os irmãos foram separados, vivendo suas vidas, até a idade de 13 anos, longe um do outro. Distância que tem fim com a chegada de um atrapalhado Troll, criatura bizarra com feições de um furão que tem a missão de capturar Kai a mando de sua superiora, A Rainha do Gelo. O que ele faz, deixando para traz a irmã Gerba, pequena jovem que irá salvar o irmão e toda a humanidade do mais tenebroso frio se valendo de uma única e poderosa arma: o amor.

Após uma infindável sequência de aventuras, nossa heroína finalmente fica frente a frente com sua antagonista e o desfecho desse confronto dá para imaginar, certo?

Bem intencionado e com um visual em 3D até caprichado, embora os traços dos personagens não tenham nada de inovador, O reino gelado nada mais é do que um recalque das animações feitas em Hollywood.

A chatice das animações de hoje é que tudo é feito em computador e, salvo uma história ou outra, a exemplo do mágico Ratatouille, as histórias deixam muito a desejar também. A impressão que fica é que, quanto mais efeitos visuais, mas interessante a trama fica, mas não é bem assim.

Enfim, alguém aí pode me dizer se existe alguma coisa mais fake do que usar óculos em 3D para tornar a realidade mais atraente?

* Este texto foi escrito ao som de: Kid A (Radiohead – 2000)

Kid A

Uma ou duas palavras sobre rancor

O escorpião, quando se sente acuado se suicida

O escorpião, quando se sente acuado se suicida

Certa vez, na Índia, um caçador mirou seu rifle para um elefante nativo e errou o tiro. Muito tempo depois, esse mesmo caçador voltou ao local e, de arma em punho, nem percebeu quando um grande paquiderme esmagou sua cabeça. Era o mesmo animal que tempos atrás ele tentou matar, mas se esqueceu dessa aventura. O elefante não.

Bem, essa fábula que li não sei aonde sempre é lembrada por aqueles que a conhece para falar sobre memória e esquecimento. Eu sempre me lembro dela quando quero falar sobre rancor, mágoa, isso porque nunca esqueço quando uma pessoa me faz algum mal. E se for uma pessoa quem eu admirava daí a mágoa é maior ainda e um coração magoado dá câncer.

Sim meu chapa, porque não existe nada mais ácido, venenoso do que sentir rancor, mágoa de quem nós admiramos. Para falar a verdade, é a pior coisa da vida, algo que deixa qualquer um doente. E eu estou doente há tempos, com um coração amargo, pesado, cheio de rancor. Estou falando sobre tudo isso porque ontem fui surpreendido por uma frase de um amigo que jamais pensei que fosse dizer isso. “Tenho um pouco de desejo de vingança guardado aqui dentro”, confessou.

O contexto da conversa, enfim, o detalhe, que gerou esse comentário dele cheio de bílis não interessa. Mas gostaria de deixar claro que não sou uma pessoa vingativa, mas confesso, admito que sou extremamente rancoroso, tal qual aquele elefante indiano que, anos depois, matou o caçador que tentou tirar sua vida. Rancoroso como um personagem de Shakespeare.

Posso até perdoar essa pessoa que me fez mal algum dia, mas não vou esquecer jamais, nunca o que ela me fez e, se alguém que me conhece esteja lendo esse post aqui vai o recado: sou uma pessoa que guarda rancor ad eternum.

Mas jamais seria incapaz de fazer mal a qualquer pessoa. Tal qual o animal símbolo do meu signo, que quando acuado numa rodela de fogo se suicida, eu prefiro mil vezes tirar minha vida, com o coração cheio de mágoa e rancor, do que fazer mal a alguém. I’m, sorry, baby, mas sou assim e não há ninguém no mundo que irá dizer e me fazer agir ao contrário.

* Este texto foi escrito ao som de: Aftermath (The Rolling Stones – 1966)

Aftermath

Encontros e desencontros com Sofia

Murray e Scarlett, duas almas em apuros em Tóquio

Murray e Scarlett, duas almas em apuros na fake Tóquio

Quem viu Sofia Coppola toda desajeitada atuando no terceiro filme da trilogia O poderoso chefão (The Godfather) do pai, num desempenho vergonhoso, embora no papel que ela fazia de melhor, ou seja, de filha mimada de um protetor importante, nem imaginamos que dali algum tempo ela iria dar em alguma coisa que presta. E não é que o patinho feio do cinema não se transformaria num cisne de talento atrás das câmeras, a frente de produções introspectivas surpreendentes?

É o caso do drama, Encontros e desencontros (Lost in translation – 2003), que revi outro dia. A trama, aparentemente simples, é um ramalhete de surpresas sentimentais e crises em potenciais a cada quadro, mas tudo colocado de forma sutil, nos fazendo refleti sobre as relações que nos cerca e de como às vezes desperdiçamos energias com pessoas que não valem à pena, com coisas que não valem à pena.

É a história de duas almas perdidas na selva colorida, pop e clean que é a cidade de Tóquio, um lugar que parece feito de neon, com suas vitrines e outdoors de vídeo game para debiloides e deslumbrados. “Não é divertido, mas é muito, muito diferente”, diz Bob (Bill Murray), um ator em final de carreira que tem que aproveitar a chance de ser um garoto propaganda cult de famosa marca de uísque do outro lado do planeta.

Mas em Tóquio, até as simples filmagens de uma propaganda de uísque pode ser um pesadelo, sobretudo para quem está em crise em todos os sentidos. “Sinto-me como um adolescente. Sei dirigir, mas aconteceram alguns acidentes”, desabafa ele para a bela jovem, Charlotte (Scarlett Johansson), referindo-se ao seu casamento desajustado de 25 anos.

Já ela é uma burguesa mimada que está entediada com a capital japonesa justamente num momento delicado, ou seja, quando é negligenciada pelo marido fotógrafo workaholic, que só tem olhos para a lente de sua máquina. “Nem todo mundo foi para Yale”, poda ele, quando ela se mostra esnobe diante de seus convidados.

Livros de autoajuda, olhares furtivos para um horizonte futurístico, karaokês insólitos madrugada adentro, enfim, um turbilhão de humor ferino e amargo deferido por quem está perdido e entediado diante do desconforto cultural que os cercam, da falta de comunicabilidade e da solidão esmagadora, mesmo com milhões de olhos puxados ao redor.  “Há esperança para você”, diz ele irônico, mas confortador.

Verti lágrimas ao som de Paul Simon e Jesus e Mary Chain ao rever Encontro e desencontros, imaginando um dia, quem sabe, encontrar um amor perdido pelas vielas da vida, lhe roubando um beijo, um selinho que seja, tendo o prazer de abraçá-la pela cintura, só para vê-la na ponta dos pés, com os braços em volta do meu pescoço. Alguns filmes são assim, surgem como passaporte para o impossível, sonhar não custa nada.

* Este texto foi escrito ao som de: Psychocandy (The Jesus and Mary Chain – 1985)

Psychocandy

Deu a louca nas celebridades

Oscar Pistorius após a morte da namorada, arrependimento?

Oscar Pistorius após a morte da namorada, arrependimento?

Ainda me lembro como se fosse hoje das manchetes dos noticiários sobre a morte da atriz Daniella Perez, assassinada brutalmente pelo então colega de trabalho, Guilherme de Pádua, com quem ela contracenava em 1992, na novela De corpo e alma. Filha da novelista Glória Perez, autora do folhetim, a jovem tinha apenas 22 anos e sua morte abrupta chocou o país inteiro. Eu tinha 16 anos e não entendia o motivo de tanta barbárie.

Bom, hoje tenho o dobro da idade e ainda não consigo entender o que aconteceu entre o atleta paraolímpico sul-africano, Oscar Pistorius e a namorada Reeva Steenkamp, assassinada por ele na última quinta-feira (14), em sua casa, em Pretória. O que diabo teria acontecido naquela madrugada, véspera do dia dos namorados nos países de língua inglesa? Vai saber. Todos os indícios estão contra o ídolo, herói de toda uma nação e aqui fica uma frase do grande jornalista e escritor brasileiro, Arthur da Távora:

“Um problema que ocorre com a imprensa do Brasil e do mundo é tomar o sintoma pelo indício. Tomar o indício por fato. O fato por julgamento. O julgamento por condenação. A condenação por linchamento”, mas a coisa parece estar feia para o Blade Runner do atletismo, assim chamado por conta das próteses de fibras de carbono que usa nas duas pernas amputadas.

Bem, não quero fazer nenhum julgamento antecipado, precipitado, sobretudo, mas é triste ver uma situação como essa em que uma celebridade do esporte põe tudo a perder por uma atitude inesperada. No final das contas, tenho bastante pena dele, que foi um exemplo de superação e se deixa levar por um gesto extremo como este. E tem essa história da obsessão do cara por armas de fogo, uma série de acontecimentos obscuros, enfim. Como diria aquele personagem do Gregory Peck que vi num filme outro dia: “Não como desvendar o coração de um ser humano”.

Parece que o mundo das estrelas anda de pernas para o ar, mesmo, todo bagunçado. Como se não bastasse estes tristes acontecimentos envolvendo um herói mundial do esporte, teve ainda a chocante notícia do suicídio da cantora country americana, Mindy McCready, no último domingo. E a coitada ainda teria matado o seu cãozinho antes de por fim a sua vida, isso é que é depressão, viu. Nunca tinha ouvido falar da figura, mas não deixa de ser triste.

E ainda teve a morte recente do meu ídolo Walmor Chagas, que até hoje ninguém sabe direito se o velhinho se matou de tristeza, amargura ou solidão. Pode ser pelas três coisas e pode não te sido suicido também. Como já disse. Vai saber. Do jeito que as coisas vão, nem vou assistir à cerimônia do Oscar. Vai que um astro terrorista saca uma bazuca lá e mata todo mundo ao vivo?

* Este texto foi escrito ao som de: The Stooges (1969)

Stooges