Fúria de titãs (1981)

A horripilante Medusa do mestre Ray Harryhausen...

A horripilante Medusa do mestre dos efeitos de stop motion, Ray Harryhausen…

Fúria de titãs, não o remake boboca recente, mas o clássico dos anos 80 é um daqueles filmes que habitam nosso inconsciente de menino pré-adolescente para eternidade. Duvido que não tenha um marmanjão ou alguém equivalente do sexo feminino, quase quarentão, que não se recorde das imagens marcantes de aventura e fantasia criadas pelo mago dos efeitos especiais da pré-história do cinema, o genial Ray Harryhausen (1920 – 2013). E quem foi Ray Harryhausen? Ora, simplesmente um dos pioneiros dos efeitos especiais em Hollywood, só isso.

Praticamente ao longo de 40 anos ele reinou soberanamente com sua técnica artesanal de stop motion em produções inesquecíveis como, Jasão e os argonautas (1963), Simbad e o olho de tigre (1977) e, claro, Fúria de Titãs (1981), que revi outro dia, acho que pela ducentésima vez, mas a primeira com minha sobrinha de três anos. Bom, não sei se ela entendeu alguma coisa, mas gostou muito do que viu e ficou com medo dos monstros criados pelo mestre da animação, entre elas, a sombria Medusa.

O enredo, super bem escrito, gira em torno dos personagens da mitologia grega. Zeus (Lawrence Olivier), afrontado pela ira do rei de Argos, Acrísio, que não se conforma deste ter engravidado sua filha, resolve proteger de forma implacável o fruto dessa união proibida, o menino Perseu (Harry Hamlin). Para tanto, ordena que os deuses do Olimpo, alguns, a contragosto, o confeccionem e lhe dê de presente armas mágicas para que ele possa lutar contra o mal que o cerca. São armas poderosas como um elmo que o torne invisível, além de um escudo e espada.

“Os deuses do Olimpo são misteriosos. Não se deve questionar seus presentes”, comenta o teatral Ammon, interpretado pelo formidável Burgess Meredith (Rocky, o lutador).Fúria de titãs

Quando o ingênuo, mas corajoso Perseu se apaixona pela princesa Andrômeda (Judi Browker) e tenta livra seu objeto do desejo da maldição que a persegue, vê seu destino ser transformado drasticamente ao sabor das vontades dos deuses.

Marcado por uma trama cheia de reviravoltas e surpresas, onde o tom de fábula norteia a imaginação e os anseios do espectador, Fúria dos Titãs nos faz lembrar as leituras contagiantes das peripécias de Hércules nos livros de Monteiro Lobato.

Contudo, aqui o que sobressai é o tom teatral da narrativa apoiada pela mais fina nata dos palcos da Inglaterra e da América. Além do gigante Lawrence Olivier, o elenco de Fúria de Titãs conta ainda com Claire Bloom e Maggie Smith, imortalizada na mente das novas gerações como a bruxa do bem Minerva, nas tramas de Harry Porter.

Ao sabor de temas como justiça e vingança, nossos heróis e criaturas horrendas duelam manipulados diante do jogo de interesses dos deuses que brincam com o destino de todos numa maquete de teatro grego. Ou seja, quase o teatro dentro do teatro e, mas metalinguístico impossível.

Descontrolado em sua fúria e sede de vingança, Zeus (Lawrence Olivier) aqui remete à clássica figura do deus cristão do Velho Testamento, um deus cristão adornado à sombra de Shakespeare.

Embora simples nos efeitos especiais com relação ao remake visualmente verborrágico de 2010, esse Fúria de Titãs é uma perfeita combinação de simplicidade e entretenimento inteligente. De um tempo em que o cinema sabia contar boas histórias.

* Este texto foi escrito ao som de: Californication (Red Hot Chili Peppers – 1999)

Californication

As lições de Francisco

O novo Papa nos faz querer ser uma pessoa boa...

O novo Papa nos faz querer ser uma pessoa boa, acreditar no ser humano…

Não acredito em deus e nem lembro quando foi a última vez que entrei numa igreja. Com certeza foi há muito tempo e, mesmo criado na religião católica, não sigo, nem defendo ou acredito em nenhum dos dogmas defendidos e difundidos pela religião romana. Mas uma coisa é certa, estou encantado, diria até que, apaixonado pela figura do Papa Francisco, uma pessoa iluminada em todos os sentidos. De fato, ele é o Papa dos pobres, o Papa do povo, um Papa humano.

E o que mais gosto e admiro nele é sua simplicidade contagiante. Quem me dera que todas as pessoas fosse assim, inclusive eu que, às vezes, sou dotado de certa arrogância e empáfia. Sabe como é: ossos do ofício. Todo jornalista se acha acima do bem e do mal, quando no fundo, não passa de nada.

Claro que o fato de admirar o Santo Padre não vai me fazer acreditar em deus ou frequentar igrejas, mas olho com mais humanidade os seres humanos que, há tempos, tinha perdido a fé. Acho que é isso, uma das lições do Papa Francisco é que o ser humano é passível de crença. Enfim, que o ser humano não é um projeto que deu errado como eu acreditava que fosse. O jeito sincero e autêntico do Pontífice faz a gente querer ser bom. Acreditar nessas coisas.

Não sei se amanhã pela manhã, quando acordar, se eu me deparar com um mendigo na rua vou chamá-lo para tomar um café lá em casa. Acho muito difícil, é bem capaz que não. Mas com certeza vou pelo menos pensar nessa hipótese, algo do tipo assim: “Se fosse o Papa Francisco ele pegaria em sua mão e o chamaria para tomar um café com ele. Se ele que é Papa faria isso, porque eu não?”, refletiria.

Papa Francisco SímboloPor motivos muito simples, por causa da milenar cultura do egoísmo que está impregnada, engendrada em todos nós por conta do culto ao individualismo, o culto do dinheiro e do luxo, ao culto do ego, ao que o Papa Francisco chamou de “psicologia de príncipes”. Veja bem, ninguém vai se olhar no espelho e se achar um Zé Mané qualquer. Projeta logo um Eike Batista, um Tom Cruise da vida ou sei lá quem que esteja por cima da carne seca. Todo mundo é assim em maior ou menor grau, ou seja, eu, você, o seu Zé do picolé ali da esquina, as pessoas que aprendemos a admirar e que mal conhecemos. E quer saber? Eu só queria ter a coragem de São Francisco. Enfim, ter a coragem do Papa Francisco.

Por isso que ele comoveu e comove uma multidão de pessoas por onde passa, por isso que as pessoas querem tocá-lo, porque ele não carrega consigo ouro e prata, mas um sentimento de humanidade constrangedor que andava em desuso nos últimos tempos e nesses dias de soberba, vaidade e egoísmo. Ele age e é de um jeito como se fosse um de nós e com certeza ele acredita que seja um de nós, sem o egoísmo, a vaidade e a soberba, claro.

“Ninguém é descartável”, disse em sua passagem pelo Brasil, durante a Jornada mundial da Juventude, que eu nem sabia o que diabo era. “Dar pão a quem tem fome é um ato de justiça”, enfatizou ainda.

E que o Papa Francisco faz é nos encantar com palavras de sabedorias e sinceridade, gestos pequenos de uma grandeza humana espetacular. Beijar criancinhas ou parar o Papamóvel para cumprimentar um paraplégico na rua é de uma grandeza humana ululante, inenarrável. “Não devemos ter medo da bondade e da ternura”, gosta de frisar.

Bom, certa vez eu me apaixonei por uma dona que tinha um apego hediondo ao poder. Tinha não, tem, porque até hoje ela é assim, bajuladora dos poderosos e endinheirados, de quem está por cima. Enfim, uma verdadeira prostituta dos privilegiados e canalhas. Coitada, só tenho pena da filha dela. Que o Papa Francisco reze por elas e eu, que não sei rezar, vou dar um jeito de fazer uma oração para o meu mais novo ídolo, aquele que se autodenominou o Papa do fim do mundo.

Já estou com saudades do velhinho…

* Este texto foi escrito ao som de: Tea for the Tillerman (Cat Stevens – 1970)

Tea for the Tillerman

O vampiro da noite (1958)

O ator inglês Christopher Lee numa das seis versões do Drácula que encarnou no cinema

O ator inglês Christopher Lee numa das seis versões do Drácula que encarnou no cinema

Quantos filmes de vampiros você já viu na vida? Um bocado, com certeza. Mas seja sincero, qual deles eram realmente bons? Poucos. Para mim o melhor de todos ainda continua sendo o clássico de 1931 protagonizado por Bela Lugosi, de longe, o melhor Drácula de todos os tempos. Mas não têm como se surpreender e se apavorar com as duas versões de Nosferatu, a seminal de 1922, dirigida pelo mestre F.W. Murnau, e a releitura macabra dos anos 70 do alemão Werner Herzog.

De lá para cá muitas fitas baseadas nessas três obras foram realizadas, uma delas essa pérola do final dos anos 50 que pesquei outro dia no Canal TCM. Uma das primeiras produções do gênero realizadas pelo estúdio inglês, Hammer Film Productions, que ficaria marcado por explorar esse filão ao extremo, O vampiro da noite foi a estreia do astro inglês Christopher Lee nos papéis do morcegão mais famoso da face da terra. Nas minhas contas foram pelos menos seis aparições entre 1958 e 1974.

Bom, na trama, como sabemos, baseada no romance do irlandês Bram Stoker (1847 – 1912), ele é um Conde misterioso que vive isolado num castelo sombrio lá pelos lados da Romênia. Mais especificamente na Transilvânia. Um dia, a misteriosa figura do mal recebe a visita de um bibliotecário (John Van Eyssen), contratado por ele para colocar em ordem seus livros. Não demora muito para o hóspede recém-chegado, que registra sua rotina num diário, perceber que há alguma coisa errada no lugar. Acaba pagando com a vida pela desconfiança.Drácula - Bram Stoker

Cabe então ao amigo e especialista nos estudos de seitas macabras, o impetuoso Doutor Van Helsing (Peter Cushing), desvendar os segredos por trás dessa misteriosa criatura e vingar sua morte. Para tanto, ele tem como pista o diário do bibliotecário encontrado por um nativo e entregue a ele. Tem início aí uma caçada implacável ao Conde Drácula pelas ruas de Londres.

Com pequeno toque de produção B, num roteiro marcado pela obviedade narrativa e efeitos especiais toscos, O vampiro da noite tem o mérito de ser o primeiro filme sobre o Conde Drácula que explora o mito com sensualidade. Não chega a ser assustador as investidas do vampiro às suas vítimas, mas são carregadas de tensão sexual as mordidas que deixam na vítima, o que para uma fita de 1958 é uma grande revolução. Preste atenção no olhar lascivo da personagem Melissa Stribling.

Talvez por causa disso o sucesso do filme tenha rendido pelo menos uma sequência em 1960, As noivas de Drácula, também dirigida por Terence Fisher, mas desta vez sem Christopher Lee, que ficaria um bom tempo estigmatizado pelos papéis. Hoje as novas gerações conhecem o ator das séries cinematográficas, O senhor dos anéis e O Hobbit, onde interpreta o mago Saruman. Acredite, todo astro tem um passado que o condena.

* Este texto foi escrito ao som de: Master of reality (Black Sabbath – 1971)

Master of reality

J. Sentimental – I’m in love with a girl

Big Star: "Estou apaixonado por uma garota, a melhor garota do mundo".

Big Star: “Estou apaixonado por uma garota, a melhor garota do mundo”.

Estou apaixonado por uma garota, a melhor garota do mundo, a mais bonita e a mais simples de todas, apesar dessa pompa e liturgia do poder que a cerca. Ela é o meu Papa Francisco de saia, com seu sorriso contagiante e mágico de fada e beleza inconfundível que me emociona todas às vezes que a vejo da distância que nos separam. E às vezes, quando ninguém está vendo, inclusive ela, deixo verter lágrimas de paixão reprimida pelo meu rosto de matusquela desnorteado.

Estou apaixonado por uma garota, a mais bela e melhor de todas e sua existência é um acalanto e motivação para que eu tenha forças para seguir adiante, o Sol que brilha na escuridão da estrada que surge no meu horizonte de sombras e incerteza. “Não sabia que podia me sentir assim”, faz coro aos meus sentimentos, os versos de Alex Chilton, um dos compositores da formidável banda americana setentista, Big Star. “Não sabia que isso podia acontecer”, continua ele, que não está mais entre nós, em sintonia, lá do além-cosmo, com as minhas angústias do coração e da alma.

Sim, estou apaixonado por uma garota e toda às vezes que ouço essa canção dos meninos de Memphis, Tennessee – assim mesmo, como numa canção de Chuck Berry -, tenho uma vontade louca de beijar seus lábios ladeados por pintas transcendentes, sentir o gosto de sua língua quente de balzaquiana misteriosa, adormecer em seu colo embalado pelos seus dedos delgados com unhas pintadas de rubro por entre os meus cabelos.

Big Star 8Estou apaixonado por uma garota, a mais bela e melhor de todas “e penso nela o tempo todo” e não sei o que fazer para atingi-la, mas tudo bem. Parafraseando John Lennon em referência à sua mãe, “metade do que digo é sem sentido e digo apenas para te alcançar”. Só queria saber se ela entende isso.

“Tudo o que um homem deve fazer é verdade”, me ensina os meninos do Big Star.

Bem, estou apaixonada por uma garota e eu queria que minhas sobrinhas-filhas queridas a conhecessem, ou melhor, que fossem como ela quando crescessem e que eu tivesse alguém igual a ela ao meu lado até o fim da vida, mas isso é impossível já que ela é insubstituível. De modo que tem que ser ela e ninguém mais e assim o meu sofrimento é ad eternum, tal qual a agonia de Sísifo e Prometeu.

Estou apaixonado por uma garota e queria que ela soubesse disso, nem tenho certeza se ela tem conhecimento do meu sofrimento do coração da alma e é bom que ela nem saiba, porque, assim como os fiéis e admiradores do Papa Francisco, eu não saberia o que dizer, caso um dia estivesse com ela face a face. Às vezes, o silêncio pode ser a mais confessional das declarações.

Estou apaixonado por uma garota e ela está nos braços de outro e que sortudo é esse sujeito. Será que ele tem noção de que tem um bilhete da loteria sorteado ao seu lado até a eternidade? Para o resto da vida? Bom, se ele não sabe eu tenho certeza e o sentimento da inveja me come como a um câncer every day, every night!

Estou apaixonado por uma garota, a mais simples e melhor de todas. Aquela que me tirou dos braços de uma bruxa sádica e egoísta e me conduziu até o campo da esperança. Sim, meu caro, estou apaixonada pela garota mais simples, meiga e doce de todas as criaturas, aquela que eu não imaginasse que fosse assim. E, por isso mesmo, uma espécie de prisma para o que pretendo ser, se eu sobreviver até lá.

* Este texto foi escrito ao som de: Radio City (Big Star – 1974)

Radio City - Big star

Alma atleticana reacesa

 Dedico o título do Galo para o meu ídolo do futebol Éder!


Dedico o título do Galo para o meu ídolo do futebol Éder!

Bom, não sou do tipo que sai por aí gritando aos quatro ventos que morro de amores pelo meu time do coração. Ou seja, se exibindo ou tirando onda com a torcida rival, não é o meu estilo. Às vezes tenho a impressão que algumas pessoas só torcem para esculhambar o torcedor adversário e isso eu não faço não. Também não morro de amores por causa de futebol, na boa, já foi o tempo em que perdia noites de sono vendo um monte de homem correndo atrás de uma pelota e vai muito longe a época em que arrancava a capota dos dedos jogando pelada na rua. Contudo, minha paixão pelo Atlético Mineiro, embora tímida e discreta, ainda vive em meu peito desde os tempos de menino e essa chama alvinegra reacendeu outro dia com esse título inédito em nossa história.

Mas porque Atlético Mineiro e não Corinthians ou Flamengo? Acho que por causa do fato de minha família toda ser mineira. Sobretudo por isso, mas também motivado por um primo meu que ajudou minha mãe a nos criar – eu e meu irmão gêmeo – quando éramos pequenos. É isso mesmo, sou atleticano por causa de uma ama-seca de calças.

E graças a ele que guardo com carinho na parede lá de casa desde guri um quadro do time do galo do início dos anos 70. Time esse que ganhou inúmeros títulos no campeonato mineiro e contava no um elenco com uma turma de ouro, nomes inesquecíveis como o goleirão João Leite, Toninho Cerezo e seu inconfundível bigode, o craque Reinaldo, talvez o maior ídolo da torcida atleticana de todos os tempos e claro, o ponta-esquerda Éder.

Bonito, dono de um chute potente e de temperamento explosivo dentro de campo, o Éder foi Galomeu grande herói do galo e uma das estrelas da seleção brasileira da Copa de 1982 para mim. Como era elegante vê-lo naquele uniforme do galo dos anos 80 com detalhe em vermelho e minha memória tem clara algumas atuações marcantes do craque no Mundial da Espanha onde ele fez até gol olímpico.

Pois bem, todas essas recordações futebolísticas vieram à tona como se fosse um filme passando em minha cabeça por conta do sofrido e milagroso título do Atlético Mineiro na Libertadores da América, na última quarta-feira. Putz, confesso que há muito tempo eu não chorava por causa de uma partida de futebol. Acho que a última vez foi na Copa de 86, com a eliminação da seleção brasileira nos pênaltis pela França. Depois disso nunca mais.

Por isso que dedico esse título ao meu ídolo de sempre do Galo, Éder. E com certeza, para aqueles que fizeram minha alma atleticana reacender com uma vitória cheia de garra, luta e sofrimento. Acho que é isso. Ser atleticano é antes de tudo ser sofredor. E existe coisa melhor? Gaaaaaaaaaaaaaalo!

* Este texto foi escrito ao som de: Lô Borges (1972)

Lô

Wolverine – Imortal

Nosso herói peludo agora tira onda de samurai...

Nosso herói peludo agora tira onda de samurai… Hugh Jackman impecável no papel…

Talvez o astro australiano Hugh Jackman seja um dos raros casos em que o ator se encaixou perfeitamente no papel desses heróis em quadrinhos que o cinema vem adaptando nos últimos tempos. No caso aqui, o irascível e temperamental personagem da Marvel, Wolverine, que estreia nos cinemas do país a partir de hoje, com mais uma história. Wolverine – Imortal, trama dirigida por James Mangold (Johnny & June), traz à tona elementos culturais da milenar e fascinante cultura japonesa para falar de temas metafísicos e comportamentais interessantes como a imortalidade e a honra. A química não poderia ser mais que perfeita.

O enredo tem início em momento clímax da 2ª Guerra Mundial, quando a cidade de Nagasaki acaba de ser bombardeada por uma das nefastas bombas nucleares que tanto marcaria a humanidade e, sobretudo os japoneses.

Prisioneiro numa masmorra subterrânea, Logan (Jackman) se vê libertado por um soldado japonês (Brian Tee) no momento em que aviões norte-americanos sobrevoam a região. Acontece que, para sobreviver ao holocausto químico do artefato bélico, o militar nipônico, no desespero, acaba pulando na vala do inimigo e, do caos, surge o que aparenta se uma amizade duradora.

Anos depois, no futuro, aquele soldado japonês que teve a vida salva pelo mutante misterioso resolve pagar sua dívida e eis que nosso ermitão canadense se vê na terra do Sol nascente reencontrando o amigo do passado. “Você não mudou nada… A eternidade pode ser um problema. Posso lhe dar uma morte honrada, o fim da dor”, promete o velho doente, referindo-wolverine imortalse a infeliz condição de ser eterno de nosso herói.

Metido entre as contradições de uma sociedade milenar que soube como poucas, dosar com perfeição as ansiedades da vida moderna com a tradição, nosso herói mal-humorado acaba batendo de frente com a poderosa máfia Yakuza e uma inescrupulosa cientista víbora (Svetlana Khodchenkova). Isso acontece quando Logan tenta proteger a vida da jovem Mariko (Tao Okamoto), herdeira do poderoso império da tecnologia criado pelo ex-inimigo nas trincheiras depois do conflito mundial.

“Nem todo mundo tem garras”, diz a imprevisível jovem ao seu mais novo guarda-costas. “Aqui tudo tem um significado”, emenda misteriosamente.

Assim como vários filmes do gênero, Wolverine – Imortal tem muita quebradeira em ação e cenas de efeitos especiais de tirar o fôlego turbinadas pelos irritantes efeitos em 3D. Mas confesso que, com tudo isso eu gostei muito da fita, sobretudo por conta do roteiro direto bem amarrado e, sobretudo do carisma do astro Hugh Jackman, que literalmente encarnar o personagem com atuação visceral. Dá para sentir o cheiro das folhas dos gibis das histórias que líamos quando adolescente, entre uma sequência e outra.

“Você não vai falar grosso com essa cuequinha vermelha, vai?”, tira onda o nosso gato selvagem da Marvel.

Alguém duvida aí que Hugh Jackman e sua persona Wolverine são um raro caso da bem-sucedida adaptação para as telonas dos heróis da Marvel?

* Este texto foi escrito ao som de: After the gold rush (Neil Young – 1970)

Neil Young 3

Os setenta anos de Paulinho da Viola

Eis, um príncipe de verdade da nossa música...

Tanta gente por aí tirando onda de realeza, eis um príncipe de verdade da nossa música…

Se a música popular brasileira tem um rei, o nosso querido Roberto Carlos, então o príncipe, com todas as honras e méritos é ninguém menos do que Paulinho da Viola, a elegância em pessoa que, este ano, completa 70 anos de vida. Mais precisamente em novembro. E o cara é a realeza em pessoa com sua elegância natural e estilo inconfundível de compor sambas clássicos como Um rio passou em minha vida, Pecado capital e Sinal fechado, que adoro ouvir na voz de Chico Buarque. Aliás, essas três canções, de maneiras diferentes, sempre me emocionam toda a vez que as escuto.

Paulo César Batista de Faria, nascido em Botafogo em 1942 é um autêntico carioca da gema de coração portelense e torcedor do Vasco que só ia à praia para jogar bola. Isso porque o negócio dele era outro, a música e a carreira começou cedo, acompanhando o pai, um músico respeitado, em rodas de violas. Aos 19 anos escreveu suas primeiras canções e o primeiro cachê de sua vida foi pago, veja só, pelo mestre Cartola, quem, todos sabemos sabia das coisas.

O nome lírico quem deu foi Zé Keti e Sérgio Cabral, o pai, o Cabral que presta. “Paulo César não é nome de sambista”, teria resmungado o mítico sambista ao jornalista.

Autor de letras transparentes e um violão límpido, Paulinho da Viola conquistou seus fãs graças à simplicidade. Gosto de ouvir sua voz aveludada e o jeito autêntico e nobre dele expor suas ideias e sentimentos. Bem, de todos esses bamba-bamba do samba que admiro – e são muitos – Paulinho da Viola é o que mais me emociona pela simplicidade e elegância. Aliás, é um charme vê-lo em imagens retros, dançando samba ao estilo dos velhos malandros com seus sapatos bicolores.

“O passado é uma coisa que vive dentro de mim”, disse certa vez, se referindo, entre outras coisas, a sua Portela querida. “Sou um apaixonado pela história da Portela”, confessou.Paulinho - Caricatura

Embora não seja uma figura midiática, Paulinho da Viola passa a impressão de estar sempre presente em nosso inconsciente ou em no dia a dia de todos nós graças à sua figura imponente, mas sem soberba. Sempre lembrado por grandes sambistas da nova geração como o “língua presa” Dudu Nobre, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho, desperta admirações polêmicas de amigos dos velhos tempos, como o genial Martinho da Vila, que morre de inveja, como já cansou de confessar, de algumas composições de nosso monarca do samba.

Bom, Paulinho da Viola está prestes a completar 70 anos de vida ciente de sua importância no cenário artístico nacional e de bem com a vida e o implacável tempo. “Eu não brinco com o tempo”, disse certa vez. “Viver já é uma felicidade”, admitiu em outra ocasião e aí está uma frase do mestre que preciso aprender compreender interiormente.

Com tanta gente ridícula e cretina por aí tirando onda de Príncipe e eu só prefiro escutar as canções e ouvir os ensinamentos do mestre Paulinho da Viola, uma alteza que se comporta com um verdadeiro homem do povo. Existe algo mais nobre do que isso?

* Este texto foi escrito ao som de: Foi um rio que passou um rio em minha vida (Paulinho da Viola – 1970) 

Paulinho da Viola 3

48 horas (1982)

Nick Nolte e Eddie Murphy em lados opostos do sistema para prender um psicopata

Nick Nolte e Eddie Murphy em lados opostos do sistema para prender um psicopata

Uma das cenas mais marcantes que vi do ator Nick Nolte é de um filme dele que não assisti. Explico. Numa daquelas sessões corujas da vida, quando eu tinha pouco mais de 12, 13 anos, alguma coisa do tipo, me emocionei com uma sequência meio beatnik, se a memória não me trair, acho que de um grupo de teatro no deserto ou lugar ermo, mas enfim. Espero um dia poder ver essa fita novamente inteira. Melhor ainda, descobrir que filme é esse do Nick Nolte que até hoje está vivo em minhas recordações.

Enquanto isso não acontece, vou relembrando aqui os trabalhos do astro polêmico que conheço e que tive chance de rever outro dia no Telecine Cult, o clássico dos anos 80, 48 horas, policial que marcou a estreia de Eddie Murphy no cinema.

Na fita de 1982 dirigida por Walter Hill (Ruas de fogo -1984) e (Inferno vermelho – 1988), ele é um bandido prestes a sair da cadeia que é recrutado pelo policial Jack (Nick Nolte) para ajudá-lo, contrariado, a prender um psicopata solto pelas ruas de São Francisco. “Corta essa, não somos parceiros, irmãos e amigos”, avisa o policial em apuros que não dá o braço a torcer. “Esse não é um jeito legal de começar uma parceria”, ironiza o debochado personagem de Eddie Murphy.

Truculento, rabugento, racista e sempre disposto a sair da linha, Jack é o típico policial outsider que prefere resolver as coisas a sua maneira, mesmo que essa seja a mais equivocada de todas. Do tipo que fala grosso com as namoradas e cospe cigarro pelo chão, ele vai passando por cima de todos e de tudo até chegar onde quer. “Eu acredito no sistema de mérito e até agora você não marcou tempo”, reclama, ao perceber que seu novo “parceiro” até agora não o levou as pistas corretas.

48 horas 3Juntos em lados opostos do sistema, os dois comparsas por dois dias, como enfatiza o título conciso, vão tocar o terror na cidade até colocar na cadeia o bandido que é a sensação do momento na cidade.

Herdeiro direto de Dirty Harry, o policial durão imortalizado por Clint Eastwood nos cinemas, o personagem de Nick Nolte é legal, mas não seria nada não fosse o carisma histriônico de Eddie Murphy, uma espécie de escada de luxo formidável para qualquer astro em ascensão. Simplesmente é impagável a sequência em que ele tira onda de policial num pub infestado de caipiras norte-americanos. “Há um novo xerife na cidade”, diz engrossando a voz.

Muito do sucesso da fita está em sua energia cômica de Eddie Murphy na trama, mas as cenas de ação como as perseguições pelos metrôs e ruas da grande metrópole californiana são de tirar o fôlego. “Esse tira é nervoso, ele tem o dedo frouxo”, avisa o personagem de Murphy, ao perceber que uma das cúmplices do criminoso não quer colaborar.

Simples, direto e divertido e, acima de tudo envolvente, pode-se dizer que 48 horas é uma espécie de filme modelo para as fitas do gênero. Só é difícil de encontrar atores à altura de um Nick Nolte e Eddie Murphy. Ainda mais juntos.

* Este texto foi escrito ao som de: Ramones (1976)

Ramones

O Papa Pop e os oportunistas

Francisco é sua humildade é maior do que esse fanatismo boboca

Francisco e sua humildade é maior do que esse fanatismo boboca

Em suas crônicas Nelson Rodrigues contava que, nos anos 60, a massa ignara no Brasil se aboletava pelos lustres e tetos das cidades, alguns coitados escorrendo pelas paredes, todos eles entusiasmados com a visita ao país dos intelectuais franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. E o escritor existencialista estrábico e sua namorada moderninha só tinham uma obsessão: “Os negros, onde estão os negros!”, diziam.

Bom, me parece que o Papa Francisco tem maiores preocupações nessa Jornada Mundial da Juventude do que os negros como mostrou em seu discurso de humildade, simplicidade e humanismo, no seu primeiro dia no Brasil. Mas o Pontífice tem que se preocupar mais com sua integridade física, já que o povo brasileiro é mal-educado e deslumbrado com relação às celebridades, seja ela uma estrela de rock, um astro do cinema ou mesmo o líder da Igreja Católica que, na boa, está dando pelota para esse fanatismo infantil, sobretudo porque eu suponho, ele acredita que sua missão ao longo dessa semana é maior do que tudo isso.

Claro que essa falta de educação de nosso povo é turbinada pela glamorização da notícia e do espetáculo do ridículo das pessoas que, infelizmente graças às novas tecnologias, aos dias atuais, só querem saber de registrar o momento real sem avaliação ou reflexão dos fatos. A ânsia debiloide e a vaidade de algumas pobres almas são dignas de vergonha alheia. Mas creio se tratar de um mal universal.

Confesso que fiquei apreensivo quando vi o carro do Pastor humilde cercado, imprensado na Avenida Getúlio Vargas entre ônibus e curiosos que só queriam saber de registrar aquele momento único, fosse com um toque, uma imagem furtiva, um rápido olhar. Não porque muitos estavam diante de um homem iluminado. Mas para se exibirem mais tarde, nas redes sociais, dizendo que tocaram ou tiraram fotos de uma celebridade. Aposto que boa parte dos imbecis que estavam ali correndo que nem um bobo nunca pegou numa cruz, mas estavam tentando tirar proveito da situação e fiquei com pena dos seguranças que passaram por um sufoco danado.1016339_679777145373026_1864112840_n

“Meu filho é muito abençoado”, dizia uma fiel fanática, encantada pelo gesto humilde de Francisco, que beijou sua criança, dentre milhares de pessoas na multidão. “O papa é fofo”, disse outra garotinha bastante empolgada.

Bem, se você quer saber, até a Dilma, com aquele discurso empolado de petista pelego tirou proveito da situação com a famigerada frase clichê: “Fizemos poucos e muito ainda temos que fazer”. O problema é que esse muito ainda a ser feito nunca é feito de fato, só fica no gogó. Há pelo menos 10 anos é assim e, pegando carona na hipocrisia, queria saber se o governador do Rio de Janeiro, cidade sede da Jornada Mundial da Juventude, o excelentíssimo Sérgio Cabral, confessou ao Santo homem que confiscava regularmente um helicóptero do governo para realizar tarefas pessoais, das quais, matar a saudade com a cachorrinha Juquinha.

De resto, vale registrar que eu, um ateu confesso, me emocionei com o sorriso incansável de Papa Francisco, com sua alegria contagiante e carisma espontâneo. “Não trouxe ouro e prata, mas trago o que tenho de maior valor para mim, Jesus Cristo”, disse e, tirando a parte de Cristo, achei sensacional o seu discurso. “Venho para alimentar a chama de amor fraterno que arde em cada coração”, continuou. “Energia alguma é mais potente do que a que sai dos corações dos jovens”, acalentou, com sinceridade franciscana.

Bem, a garotinha é que tinha razão. O Papa é fofo e quero um para mim!

* Este texto foi escrito ao som de: O (Damien Rice – 2003)

Damien Rice

Agarre-me se puderes (1977)

Burt Reynolds antecipando em alguns anos, com mais glamour, "Velozes e furiosos"...

Burt Reynolds antecipando em alguns anos, com mais glamour, “Velozes e furiosos”…

Vi nesse domingão de chatices hediondas reinado por criaturas bestiais como Faustão, Gugu Liberato e seus congêneres, a comédia de ação, Agarre-me se puderes. E graças à magia da tevê a cabo, a santa tevê a cabo. Não sei vocês, mas eu não seria nada sem os meus livros e sem a tevê a cabo. E, sério, quem não assistiu a essa fita eletrizante protagonizada pelo canastrão charmoso Burt Reynolds na Sessão da tarde, não teve infância ou estava fazendo o que não devia. Corre o risco de serem as duas coisas.

Enfim, uma das maiores bilheterias daquele ano de 1977, ficando atrás, veja só, apenas do épico intergaláctico, Star Wars, o filme alçou de vez a figura do carismático e, então, 40rentão ator, à condição de astro. Aqui ele é Bandit, um caminhoneiro cuja alma é conduzida pelo espírito da aventura. Ao justificar ao parceiro de estrada Boneco de Neve (Jerry Reed), porque eles têm que aceitar a missão de atravessar o país com uma carga ilegal de cerveja, a explicação, no melhor estilo americano, é mais do que convincente.

“Pelo dinheiro, pela glória, pela diversão…”, diz.

Assim, lá estão eles saindo do Texas, passando por Alabama, até chegar à Georgia, com a mercadoria que irá render à dupla, nada mais do que U$$ 80 mil. Tudo isso num prazo de 28h. No caminho, uma série de problemas como uma noiva (Sally Fields, na época noiva do astro Burt Reynolds) estrambelhada que acaba de deixar o noivo chupando dedo no altar e as autoridades de cinco jurisdições, uma delas o Xerife linha dura, Buford T. Justice, interpretado de forma formidável pelo veterano ator Jackie Gleason. Para quem não se lembra, Gleason foi o carrasco de BanditPaul Newman no clássico de 1961, Desafio à corrupção (The hustler).

“Vocês não fecham nem guarda-chuvas”, se irrita ele, ao saber que um dos colegas de fardas do estado vizinho não conseguiu deter os arrancos de Bandit e sua máquina quente que é um dos protagonistas da fita, ou seja, o Pontiac Trans Am.

Divertido, simples e eficiente, Agarra-se se puderes foi a estreia na direção do dublê de Hollywood, Hal Needham, que se deu bem e ganhou bastante dinheiro como cineasta ao aliar sua parceria com a do amigo Burt Reynolds, de quem , acredite, foi dublê em alguns de seus filmes anteriores.

Marcado por cenas eletrizantes de perseguição e trazendo à tona de forma realista a vida na estrada dos motoristas de caminhão nos Estados Unidos, além do universo da música country que permeia este meio – daí a participação do cantor e ator Jerry Reed como astro coadjuvante -, o filme, um road movie  autêntico, foi sucesso instantâneo mesmo não sendo uma grande produção. Elementos que credenciam o mérito da fita que, até hoje, quase 40 anos de depois, ainda nos deixa de cabelo em pé, quando a revisitamos. Bem, melhor, acredita, do que bobagens como Velozes e furiosos ou qualquer bobagem do gênero.

É hilário, por exemplo, a brincadeira de esconde-esconde do possante Pontiac nas rodovias da América, entre carretonas, mas também as atuações, não só de Burt Reynolds, mas do experiente Gleason, um ladrão de cena formidável.

Para quem, assim como eu, cresceu em meio ao cheiro de diesel e barulho de caminhão dos meus tios, a fita é um convite para que largarmos tudo e nos embrenhamos pela estrada da vida como ciganos se destinos.

* Este texto foi escrito ao som de: Keep na eye on the sky (Box Set) – (Big Star – 2009)

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