Barra 68 – Sem perder a ternura

Filme peca pela falta de imparcialidade e rancor histórico...

Filme peca pela falta de imparcialidade e rancor histórico…

Mestre do cinema verdade e importante documentarista da realidade social, política e cultura de Brasília, Vladimir Carvalho é bastante respeitado entre gregos e troianos. Mas ninguém é perfeito, nem mesmo o mestre, que traz uma abordagem equivocada em Barra 68 – Sem perder a ternura. Já devo ter visto o documentário umas três vezes e sempre me incomodo com isso.

Lançado em 2001, a fita conta como o regime militar destruiu o modelo de educação promissor sonhado por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro para a UnB com a traumática invasão da polícia militar no campus da universidade, em 1968. O truculento episódio culminou com a prisão de professores, alunos, pais de alunos e visitantes. No filme, a história é contada pelas recordações e depoimentos de quem estava lá na época, inclusive com registros audiovisuais. Entre os entrevistados estão o arquiteto Oscar Niemeyer, a jornalista e escritora Ana Miranda, o cineasta Cacá Diegues e familiares do estudante/mártir, Honestino Guimarães.

Até aí tudo bem, não fosse o experiente cineasta deixar se levar pela emoção do momento e o rancor do passado, sobrepujando a imparcialidade. Imparcialidade que é um dos princípios do bom jornalismo, diga-se de passagem, esse, irmão do gênero documentário. Daí a constrangedora entrevista com Almeida Azevedo, militar que assumiu a reitoria da UnB enquanto o circo pegava fogo entre governo e estudantes.

Talvez irritado com as respostas contrárias ao que ele e sua geração queria ouvir, decide omitir sua própria opinião dos acontecimentos com narração em off deselegante e inoportuna. Com isso enfraquece todo um trabalho de pesquisa primoroso de um filme que poderia ser poderoso protesto contra um dos episódios mais contundentes da história da UnB.

* Este texto foi escrito ao som de: Hot space (Queen – 1982)

Hot Space

Discoteca Básica (6) – L. A. Woman (The Doors)

A banda durante as gravações do último álbum, entre bebedeira e desleixo. No final deu tudo certo...

A banda e músicos de apoio durante as gravações do último álbum… 

Os Doors terminaram a carreira como começaram. Ou seja, bem. Muito bem. Gravado em 1971, o álbum L.A. Woman, como a capa mostra é selvagem, marginal e junkie. E tinha tudo para dar errado porque Jim Morrison passava a maior parte do tempo bêbado e clima de tensão era grande entre os integrantes, devido os inúmeros processos que o grupo carregava nas costas por conta das estripulias insanas dofrontman apolíneo em cima do palco. Para piorar as coisas, o produtor Bruce Botnick, cansado do estilo desleixado de cantor, abandonou o barco em alto-mar.

A música de abertura, The Changeling, já chega metendo os dois pés na porta: “Eu vivo na periferia/Eu vivo no centro/Eu vivo em todo canto/Eu tinha dinheiro, e não tinha nada”, vocifera Jim.

L. A. Woman, a faixa-título é uma viagem profana e cheia de pecado pelas ruas de Los Angeles. A pegada aqui é beatnik, mas no lado mais escuro da tribo.  “Motel, dinheiro assassinato, loucura/Vamos mudar o humor de contente para triste”, avacalha o vocalista, já consagrado como um dos maiores letristas do rock antes mesmo de completar 30 anos.

A prova de que Jim Morrison era muito mais do que um poeta do pop rock do que um mero letrista, está em canções como The Wasp (Texas Radio and the Big Beat). Um rap sincopado em forma de transmissão radiofônica. As imagens oníricas desenhadas pelo artista são formidáveis. “Eu quero falar sobre a Rádio do Texas e a Grande Batida/Mansa, lenta e louca, como uma nova linguagem”, narra encarnando a persona Mr. Mojo Risin’. “Nós construímos pirâmides em memória de nossas fugas/Foi nessa terra que o faraó morreu”, delira.

Daí tem a viajante Riders on the storm, protesto alegórico perturbador sobre conflitos políticos/sociais da época, como a luta contra o racismo e a Guerra do Vietnã. “Nesta casa fomos criados/Neste mundo fomos jogados/Como um cão sem um osso/Um ator atuando sozinho”, dramatiza Morrison.

Mas a canção mais encantadora desse registro marginal para mim é a balada, Hyacinth house, com sua citação enigmática sobre um personagem gay da mitologia grega. “O que eles estão fazendo na Casa de Hyacinth?/O que eles estão fazendo na Casa de Hyacinth?/Para agradar os leões nesses dias”, canta.

A título de curiosidade. O trecho: “Eu vejo que o banheiro está limpo/Eu acho que alguém está por perto/Eu estou certo que há alguém me seguindo”, não é uma alusão à canção She came in through the bathroom window, dos Bealtes, como eu pensava. Mas ao simples fato de que alguns vocais do álbum foram gravados no banheiro do estúdio, em busca de um efeito sonoro diferente.

* Este texto foi escrito ao som de: L. A. Woman (The Doors – 1971)

L A Woman

Hotel Transilvânia 2

Filme recicla fórmula batida e gênero que não tem nada ver com criança de forma divertida

Filme recicla fórmula batida e gênero que não tem nada ver com criança de forma divertida

É o tal negócio, as animações de hoje andam tão maneiras e ousadas que agradam crianças e adultos também. Normal, tendo em vista que as festas de crianças também ultimamente são feitas para adultos. Algumas, mais para adultos do que para crianças. Mas isso é perfídia da minha parte às 7h da manhã.

Uma produção da Sony Pictures, Hotel Transilvânia 2 talvez seja o melhor filme com o Adam Sandler que já vi. Quer dizer, isso porque ele não aparece em cena, mas empresta a voz para o Conde Drac, o personagem central dessa comédia assustadora que mistura todas as criaturas clássicas do gênero terror. Só faltou o Vincent Price.

Na história do primeiro filme, Drac e sua turma não quer saber de ser amigos dos humanos porque acha que eles são maus. Adorável contradição. Para piorar as coisas, sua filha se apaixona por um sujeito normal e a crise no seio do castelo soturno está formada. No segundo agora Mavis – a filha vampira gostosa de Drac -, vai ter um bebê, e o avô não quer que o netinho passe para o lado de lá da cerca. Para piorar as coisas, as presas do pimpolho ainda não nasceram e o seu ídolo de capa não é o Drácula e nem o vovô coruja, mas o Batman.

“Ah, mas ele tem as ‘presas presas’ como as suas”, tranquiliza o bisavô descolado, na voz de Mel Brooks.

Com um senso de humor fora do comum, o filme dirigido por Genndy Tartakovsky consegue reciclar uma fórmula para lá de batida e gênero que não tem muito a ver com o universo lúdico da garotada de forma simples, divertida e inteligente. Ao contrário de produções similares como Noiva cadáver ou O estranha mundo de Jack, não metem medo na garotada, mas as divertem. E como já registrei no começo do texto, os adultos também. Buummm.

* Este texto foi escrito ao som de: Morrison Hotel (The Doors – 1970)

Morrison Hotel

O tempo e o vento – O arquipélago vol. 3

O escritor gaúcho em momento de descanso em seu escritório...

O escritor gaúcho Érico Veríssimo em momento de descanso em seu escritório…

Há um certo romantismo humanista na monumental saga de O tempo e o vento que me comove e até me faz acreditar, por algum segundo, que o ser humano vale à pena. Mais do que isso, que não sou tão mau-caráter assim. Mas só por um segundo… E esse lado meio esperançoso do texto de Érico Veríssimo incomodou muito alguns críticos que o achava ingênuo demais. Mas quem quer ser sério nesse mundo decadente e insano de hoje?

Em todos os volumes dessa aventura sempre há um personagem que encarna os sonhos, ideários e anseios dos oprimidos e carentes de justiça. Em emocionantes capítulos passados me deliciei com os rompantes do galante capitão Rodrigo, depois com o pragmatismo soturno da velha Bibiana, mais tarde com o poético e intelectual médico Carl Winter, sem falar da rebeldia passional do pintor espanhol Pepe García.

O herói da vez aqui é o inquieto Rodrigo Cambará, que em histórias passadas era apenas um menino que um dia se viu exilado no Sobrado vítima de pendengas regionalistas entre republicanos e maragatos com o irmão. Mas que agora não passa de um velho moribundo que amarga em cima da cama o desterro não apenas de uma carreira política, mas também a decadência da tradicional família gaúcha.

Tudo isso me faz lembrar o formidável relicário-memorial, O som e a fúria, de William Faulkner, que sintetiza o declínio da sociedade sulista norte-americana, a partir dos conflitos morais de uma família. Mas essa é uma outra história.

Se você for esperto e prestar atenção, vai notar que a história do primeiro volume de O arquipélago – que se passa no começo dos anos 20 e segue até o fim da era Vargas, presidente do qual Rodrigo Cambará é um amigo pessoal -, aborda temas sociais caros da época. Fala da metamorfose de uma república calcada nas velhas oligarquias rurais em uma sociedade industrial burguesa.

Esse Érico Veríssimo era foda. E o Fernando Henrique Cardoso é quem tinha razão. O pai sempre foi melhor que o filho, que é bom pra cacete.

* Este texto foi escrito ao som de: Early tapes (Cat Stevens – 1993)

Early tapes - Cat Stevens

Kamikaze Boy’s Blues

Sou um kamikaze sem mira preste a explodir a qualquer momento...

Sou um kamikaze sem mira preste a explodir a qualquer momento…

“E quando você chama e ela finge que não escuta?

E quando você acredita que tudo poderia ser de verdade?

A pior forma de desprezo é a ingratidão,

Decepção é um sol negro no horizonte

Você sabe, né? Deus nunca está ouvindo quando você realmente precisa Dele

E há uma ditadura da mediocridade que oprime e massacra

A única saída, meu chapa? É não existir ou fingir que não está aqui…

Ontem eu pensei que houvesse uma luz no fim do túnel,

Hoje é um calor infernal aqui dentro e o demônio da carnificina dança soberanamente.

E tudo o que eu quero é um lar para morar, um travesseiro leve pra pousar a cabeça…

São 14 degraus para o inferno e uma vida encaixotada em desilusões.

Mas me diz aí, quantas vezes vou precisar ser o que não sou só pra que você me aceite?

Desculpa, mas ‘sou um loser e não sou o que aparento ser’…

Você vai descobrir isso quando eu não estiver mais aqui…

Odeio essas pessoas que usam a Bíblia para mostrar que são melhores que as outras,

Hipocrisia cristã é tão démodé e Karl Marx nunca foi meu herói.

Por isso, não insista em perguntar se sou de esquerda, direita ou centro!

O meu partido agora está nos braços de outro e perdi as eleições aqui em meu coração

Estou cansado desse amor de mentira, me sinto tonto e meu dente dói.

Não tenho um coração tão duro assim e minha alma é de borracha…

Felicidade para mim é o Johnny Depp fingindo que é um guitar hero no Rock in Rio…

Desculpa se te decepcionei, baby, mas descobri que, além de mau-caráter sou covarde!

E me livrar dessa bruxa faxineira incompetente é minha missão,

Sou um kamikaze sem mira preste a explodir a qualquer momento…

A vida é bem mais fácil quando se é junkie, drunk e solitário…

Esse instinto de sobrevivência egoísta humano genuíno me deixa doente…

Desprezo quem fica do lado do sistema e odeio me comportar como machista, mas esse corporativismo feminismo me irrita!! Vergonha é minha imagem projetada no espelho…”

* Este texto foi escrito ao som de: Definitely maybe (Oasis – 1994)

Oasis - Definitely maybe

A pele de Vênus (2013)

O cineasta Roman Polanski dirigindo a mulher e o seu alter ego...

O cineasta Roman Polanski dirigindo a bela esposa e o seu alter ego em cena…

Impressionante como os cineastas veteranos têm nos surpreendidos com seus novos trabalhos. É o caso de O homem racional, de Woody Allen, e agora esse perturbador A pele de Vênus, do mestre Roman Polanski. É o tal clichê. Quanto mais velho o vinho… Rodado com o mínimo de recursos, o filme traz a história da tensa relação entre um diretor de teatro e atriz aspirante ao papel de peça que dá nome ao filme.

Depois de um dia exaustivo em busca frustrada da heroína de seu texto, Thomas (Matthieu Amalric) resolve ir embora, mas tem a partida interrompida com a chegada de Vanda (Emmanuelle Seigner, a charmosa mulher do diretor). Faz um dia frio e chuvoso lá fora e ela passou maus bocados até chegar ali para fazer o teste. “Esse papel é meu”, diz convicta.

E é mesmo porque quando essa sensual e enigmática figura começa a ler o texto, conquista, imediatamente a atenção de Thomas, que parece ter achado a dama certa para sua trama. Tem início aí um intrigado jogo de desejo e poder em que a ficção da peça da montagem A pele de Vênus se confunde com a realidade dos atores em cena. O que real e o que é imaginário? Quem é o diretor e quem é a atriz? Preste atenção nos mínimos detalhes, como as cenas do divã, em especial aquela da bota e do zíper. Gosto das referências renascentistas. E falo de mestres como Botticelli, Ticiano, Rubens, Rafael…

Baseado em peça do americano David Ives adaptada no polêmico romance do escritor austríaco, Leopold Sacher-Masoch (1836 – 1895) – autor que inspirou o termo masoquismo -, o filme é uma experimentação enxuta e cheia de signos sensuais e claustrofóbicos que sempre marcou o cinema do mestre Roman Polanski.

* Este texto foi escrito ao som de: L. A. Woman (The Doors – 1971)

L A Woman

A vaia da hipocrisia no Cine Brasília

Cláudio Assis, o cavaleiro do caos vence o Festival de Brasília mais uma vez...

Cláudio Assis, o cavaleiro do caos vence o Festival de Brasília mais uma vez…

O cineasta pernambucano Cláudio Assis foi crucificado ao longo da 48ª edição do Festival de Brasília por um único e exclusivo motivo: ele é autêntico. E eu sei, na carne, muito bem o que é isso. Não, não, meu caro, todo esse clima caótico, confuso e constrangedor em que o diretor de Big Jato se viu metido até os últimos minutos não tem nada a ver com o fato dele ser machista ou o episódio Anna Muylaert. Até porque, machista, todos nós somos, em maior ou menor grau, mesmo que inconsciente, mas o fato é que paira no ar uma hipocrisia generalizada e falsa moralista em torno da situação.

“Posso ser bêbado, louco, mas mau-caráter eu não sou”, desabafou o diretor, visivelmente tresloucado, no palco dessa que é a maior vitrina do cinema brasileiro.

Quem acompanha a trajetória do artista e conhece os seus filmes sabe do que estou falando. Uma pena eu não ter visto Big jato, talvez o melhor filme dessa fraca 48ª edição do festival, mas o tempo mais uma vez mostrou que é o senhor da justiça e o polêmico diretor saiu da mostra com cinco prêmios debaixo do braço. Inclusive o de melhor filme e só não abiscoitou o de melhor diretor provavelmente por conta do imbróglio em que foi envolvido. Faltou coragem ao júri do festival.

Outras surpresas do Festival. Os sete candangos para o drama paranaense, Para a minha amada morta, que é assim, digamos, uma espécie de conto bíblico urbano sobre o adultério, com boas atuações e história surpreendente. Mas me diga uma coisa, porque a premissa machista da narrativa do filme também não foi vaiada? Porque a hipocrisia das pessoas à deixam cega. Só por isso.

Bem, dirigido por Mauro Giuntini, Até que a casa caia é uma comédia dramática sem sal, nem sabor que mostra os conflitos de um casal separado que vivem embaixo do mesmo teto. É por essa e por outras que, na dúvida, fico com as grosserias e autenticidade de Cláudio Assis e seu cinema cheio de verdade.

E por falar em vaia, hipocrisia e polêmica, a deputada distrital Celina Leão protagonizou um dos maiores vexames da história do festival, sendo vaiada esmagadoramente pelo público, na hora de entregar o Prêmio Câmara Legislativa de melhor filme da Mostra Brasília a Santoro – O homem e a sua música. Aliás, porque tenho a impressão de que o filme O outro lado do paraíso, de André Ristum, exibido na mostra Brasília, parece ser uma produção melhor do que muitos dos filmes exibidos na mostra competitiva do Festival de Brasília?

* Este texto foi escrito ao som de: Desperado (The Eagles – 1973)

Desperado

Prova de coragem (2015)

A mostra competitiva do Festival de Cinema de Brasília terminou do jeito que começou: fraca

A mostra competitiva do Festival de Cinema de Brasília terminou do jeito que começou: fraca

Antes de começar o texto um desabafo. Nos últimos anos tenho perdido as melhores sessões do Festival de Cinema de Brasília. É fato. E digo isso me referindo à exibição do filme Big jato, de Cláudio Assis, no último sábado (19). Um barraco daqueles, no velho e bom estilo do diretor pernambucano. Dito isso, o que tenho a dizer de Prova de coragem, destaque de ontem (21) da mostra competitiva da mostra é o seguinte. O sujeito acha que porque está ancorado num texto de um escritor de respeito – no caso o gaúcho Daniel Galera – acha que vai salvar a lavoura. O tiro pode sair pela culatra.

Dirigido por Roberto Gervitz, o filme é de uma chatice ululante. E um bom termômetro para a questão é que boa parte do público ficou fuçando o celular durante a projeção da fita. Eu mesmo me aborreci com esse capítulo da novela das oito exibida bem ali, na telona mais charmosa do cinema brasileiro, é fiquei ganhando tempo atualizando as notícias do face e whatsap. Fazer o quê?

Na trama, Hermano (Armando Babaioff) é um bem-sucedido médico que passa a viver uma crise no casamento com a chegada de um filho indesejado. Para ele, ser pai é uma prova de coragem tão desafiadora como escalar montanhas, um de seus hobbies obsessivos. E para fugir dessa realidade ele encara com o amigo subir um pico na Terra do Fogo. Já a mulher Adri (Mariana Ximenes), uma artista plástica buscando um lugar ao sol, pensa diferente. A chegada do bebê coincide justamente com o momento em que ela pode se realizar como artista.

A proposta da trama de costurar as realizações pessoais do casal com as frustrações, medos e ansiedades que eles sentem no dia a dia pode até ser interessante, mas o diretor perde a mão ao dar uma pegada folhetinesca ao enredo. Será que tem a ver com o fato da Globo Filmes ser co-produtora do projeto?

Bem, antes da sessão Gervitz afagou o ego do público dizendo que Brasília é a capital do cinema e que tem espectadores participativos e autênticos. Balela, clichê vagabundo. Minha teoria é de que o público do festival de cinema de Brasília é mal educado. Só isso.

* Este texto foi escrito ao som de: Stranded (Roxy Music – 1973)

Stranded

O pequeno príncipe (1974)

A melancolia lírica dessa história ainda nos faz acreditar que a vida vale à pena

A melancolia lírica dessa história ainda nos faz acreditar que a vida vale à pena

A primeira escola que estudei se chamava O pequeno Príncipe. Ficava bem ali em Taguatinga Sul e me lembro até hoje do uniforme com o desenho do marcante personagem e sua espada estampados em traços vermelho. É um detalhe que sempre me vem à cabeça quando vejo alguma coisa associada ao famoso livro de Antoine de Saint-Exupéry. Bem, ainda não vi a nova versão da história que está passando no cinema, mas já corri pra apresentar para as minhas sobrinhas a clássica adaptação de 1974. Elas claro, não conheciam e adoraram.

E eu me emocionei novamente revendo o filme com elas, tal qual da primeira vez que o vi. A trama é simples, mas de um lirismo narrativo comovente, captando, na essência, o estilo fantasioso desenvolvido pelo autor. E engana-se quem pensa que a obra é direcionada para crianças. Para mim é um livro escrito como se fosse para crianças para cativar adultos. Ou pelo menos o que resta de sensível dentro deles. É a história de um pequeno príncipe que vem do asteroide B-612, diretamente para os nossos corações.

“O essencial é invisível aos olhos”, diz a raposa vivida pelo sempre genial Gene Wilder.

A direção segura do mestre Stanley Donen transforma um enredo cheio de lirismo lúdico em musical poderoso onde as angústias, anseios e desejos de uma criança perdida no meio do deserto confrontam o egoísmo, a burocracia, a ganância e a intolerância humana. “Por que precisamos de fronteiras?”, questiona ingenuamente o pequeno monarca, jogando um triste e obscuro facho de luz diante do atual drama dos refugiados na Europa.

Eis uma das magias de uma obra-prima. O de se manter pertinente ao longo das raias do tempo. A beleza tristonha de O pequeno Príncipe, com seus efeitos visuais encantadores, nos faz acreditar que o sonho vale à pena e de que a fantasia ainda é o melhor lugar para fugirmos diante dessa realidade dura e massacrante.

* Este texto foi escrito ao som de: L. A. Woman (The Doors – 1971)

L A Woman

Fome (2015)

Corre o risco do ator-professor Jean Claude Bernardet levar o prêmio de melhor ator

Corre o risco do ator-professor Jean Claude Bernardet levar o prêmio de melhor ator

Apesar de francês, Jean-Claude Bernardet tem mais intimidade com o cinema brasileiro do que com o de seu próprio país. Pelo menos do ponto de vista acadêmico, da pesquisa. O que dá intimidade e propriedade de sobra para o crítico de cinema, ensaísta, roteirista, diretor, escritor e professor aposentado da Escola de Comunicação e Arte da USP brincar de ser ator, o que já fez em mais de 15 filmes como ator. Fome, atração de ontem (17) da mostra competitiva do Festival de Brasília é um deles.

Na fita dirigida por Cristiano Burlan ele é um mendigo que perambula pelas ruas de São Paulo com seu carrinho de supermercado cheio de cacarecos. A grande metrópole é uma selva de pedra indiferente com seus prédios impactantes e soberba urbana e surge na trama como um personagem. Apesar do artificialismo do roteiro que mistura pseudodocumentário com pseudo ficção, o enredo aborda premissa desconfortável. A triste realidade dos moradores de rua das grandes metrópoles.

“Ah, seu burguês! R$ 5 cinco não é nada pra você”, debocha ele, um morador de rua com certa elegância que transita por entre motorizados esnobes. “Não vai dar nada? Nem um sorriso? O sorriso é de graça”, ironiza.

Pontuado por fotografia em preto e branco imponente, Fome é mais uma dessas produções experimentais que tenta testar os limites entre realidade e fantasia. O verbo, a força da palavra mais uma vez entra em cena e aqui com certa teatralidade, para desconstruir tudo o que se vê, ou seja, o tema social em questão, os personagens e a própria narrativa em si. Verdade x mentira. Cinema x ou = teatro? Mais Festival de Cinema de Brasília impossível, mas não sei se gostei, se a fita me convenceu.

A verdade é que o intelectual francês Bernardet mais uma vez rouba a cena e é bem capaz de abiscoitar o candango de Melhor Ator. A cena dele discutindo seu passado de professor com um aluno arrogante numa praça é divertida, ofuscada, contudo, pela poesia das ruas do encontro com um artista homossexual. “Depois que se viu a morte… É possível morrer de amor por alguém?”. Eis o grande dilema do filme.

* Este texto foi escrito ao som de:  Kill uncle (Morrissey – 1991)

Kill Uncle