Os 58 anos do Palácio da Alvorada

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O Palácio da Alvorada em seu esplendor de beleza ousada e simplicidade moderna. Projeto desenhado por Oscar Niemeyer foi o primeiro a apresentar as famosas colunas. Foto: ARPDF

Nunca fui ao Palácio da Alvorada. Talvez seja pela distância, talvez por conta da liturgia do poder que envolve o lugar que é a residência oficial do Presidente da República. Primeiro prédio de alvenaria construído em Brasília, o lugar teve projeto desenhado às pressas por Oscar Niemeyer, mas somente quatro meses depois é que a construção teve início. Era preciso primeiro encontrar o lugar certo, ideal, perfeito para a morada do chefe da nação. E este lugar estava situado numa península que divide o Lago Paranoá em Lago Sul e Lago Norte.

Ao entregar ao presidente Juscelino Kubitschek os primeiros esboços de seu projeto o arquiteto Oscar Niemeyer recebeu um sonoro não. Para JK, apesar de apresentar grande beleza artística, aqueles primeiros traços não apresentava a monumentalidade que se impunha uma residência de chefe de estado. “O que eu quero, Niemeyer, é um palácio que, daqui a cem anos, ainda seja admirado”. E foi o que teve.

De uma beleza sólida e leve, com suas audaciosas e modernas linhas e curvas, o Palácio da Alvorada impressiona pela elegância majestosamente simples. Inaugurado há exatos 58 anos, o prédio ficaria pronto um ano e dois meses depois do início das obras, ditando o “ritmo Brasília” com que a cidade seria erguida no meio do nada.

A inspiração de Niemeyer para o desenho do palácio veio de onde menos se esperava. Das casas de fazendas coloniais brasileiras com suas enormes fachadas horizontais e largas varandas, ali recriadas com um visual modernista e abstrato. O toque metafísico foi dado com uma pequena capela, cuja beleza espectral do interior foi desenvolvida de forma lírica pelo artista plástico Athos Bulcão.

Sobre a sensualidade das colunas desenhadas por Oscar Niemeyer que seriam sua marca registrada mundo afora, o escritor e ministro da Cultura André Malraux disse: “São as colunas mais bonitas que vi depois das colunas gregas”, comentou.

Dividido em três pavimentos: subsolo, térreo e primeiro andar, o Palácio exibe no interior uma elegância sem igual na sua mistura entre o clássico e contemporâneo. Além da charmosa piscina, o lugar apresenta um belíssimo espelho d’água realçado pela obra As Iaras, do artista plástico Alfredo Ceschiatti.

Duas histórias engraçadas. Reza a lenda que, sufocado pela solidão espacial do Planalto Central, o presidente Jânio Quadros tomava pileques homéricos. O único lugar que se divertia era na confortável sala de cinema do prédio, onde via repetidas vezes faroestes com John Wayne. Certa vez, bebeu tanto que viu uma das fitas deitado de costas e de cabeça para baixo.

Um fanático por futebol, em 1970, para comemorar o tricampeonato da seleção brasileira, o presidente Garrastazu Médici abriu os portões do Palácio da Alvorada para comemorar o título com o povo. Foi uma algazarra geral, com gente correndo pelos jardins e tudo o mais. Dizem que o presidente militar nem deu pelota.

Belo assim, até eu queria morar lá um dia.

 * Este texto foi escrito ao som de: Força Bruta (Jorge Ben – 1970)

Jorge Ben

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Doce Veneno (2015)

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No filme, Vincent Cassel está de olho na filha do melhor amigo, uma Lolita infernal que irá conduzir o espectador numa trama marcada por sentimentos trocados…

A sessão estava cheia e enganou quem pensou que fosse Como Eu Era Antes de Você (2016), porque estou falando da comédia francesa Doce Veneno, em cartaz bem ali no Libert Mall. Com direção de Jean-François Richet, o filme narra as desventuras de dois coroas que tentam educar as filhas adolescentes que estão prontas para saírem do casulo.  Um é vivido por Vincent Cassel ou outro François Cluzet, a cara do Dustin Hoffman, repare.

Na trama que se passa na charmosa ilha de Córsega – cenário de muitos filmes de capa e espada -, eles são Laurent e Antoine, de férias na região com suas respectivas filhas. O primeiro é mais liberal, o segundo quer controlar a filha como se ela tivesse um GPS. O choque de idades e estilos é inevitável e é desse conflito que vai girar o enredo o tempo todo, que ganha um sabor apimentado quando uma das meninas flertar com um dos pais.

vivem o tempo todo os personagens de Doce Veneno que traz um ingrediente picante quando uma das meninas se apaixona por a mais quando uma das meninas se apaixonam pelo pai. “Seu pai é meu melhor amigo e você é de menor”, tenta desvencilhar o personagem de Cassel, tentando se livrar da tentação da Lolita Louna (Lola Le Lann). “Só temos uma vida. Quando estou com você me sinto segura”, desconversa ela, toda lasciva.

Comédia de costumes que descamba para uma comédia de erros, flertando, aqui e acolá, com momentos dramáticos, o filme, mesmo com seus tiques hollywoodianos, agrada por abordar temas universais com humor despretensioso e reflexão comportamental divertida. Quem é que não tem filhos ou sobrinhos adolescentes que infernizam nossas vidas, no bom sentido, é claro, nessa fase de descobertas e confusões sentimentais?

De forma sutil, o roteiro consegue amarrar num mesmo contexto, questões abstratas pertinentes nessa situação em que vive os personagens como ciúmes, machismo, falso moralismo e o pecado da tentação, quando uma adolescente se deixa levar por um amor mais maduro. “Há jogos que é melhor não saber como acaba”, ironiza a filha de Laurent, enciumada da relação de sua melhor amiga com o pai. “Você é uma vadia e ele um pervertido”, explode.

O final é exemplar, com seu silêncio cheio de lições de moral subtendidas.

* Este texto foi escrito ao som de: Brand New Eyes (Paramore – 2009)

Paramore - Brand New Eyes

O cheiro dela num transe proustiano…

Banho de cheiro

“Guardo na memória o cheiro de fada verde que ela tem…”

…Queria que eu tivesse o talento de um pintor renascentista, só para desenhar com perfeição celestial, os traços bem delineados daquelas belas pernas que surgiram na imagem numa solitária noite fria como se fosse um passe de mágica do destino. Mas a cereja do bolo foram os pés, com as pontas dos dedos delicados despontando quase imperceptíveis em segundo plano. Ela é linda por inteiro, mas são os detalhes que chamam atenção. As sobrancelhas de raposinha, o risco da boca, os pés de nuvens. Nuvens de sonho…

…Colocou um vestido novo e ela ficou uma coisa, com as curvas do corpo passeando, deliciosamente, pelo tecido estampado. Era uma deusa da perfeição desfilando de forma displicente no pátio tomado de carros, como se fosse uma gata em teto de zinco quente na passarela do meu coração. E de longe, com a imaginação dançando feericamente em minha mente, eu contemplava o vulto dela imaginando mil pecados, numa vontade intensa de abraça-la forte, apertar a cintura violão, deslizar a boca pela sua pele macia, enfim, sentir aquele cheiro de fada verde que ela tem…

…Cheiro de fada verde que ela tem… Esta aí uma coisa que eu nem tinha me dado conta. Guardo em minha memória o cheiro dela como se estivesse em um transe proustiano. Amanhã, quando eu acordar, quero estar envolto nos braços delas, quem sabe meditar deitado em seu colo, só para o dia seguir feliz, pelo menos aqui dentro de mim, como se ela fosse uma vela acesa que ilumina meu coração cheio de trevas da solidão…

* Este texto foi escrito ao som de: Bitches Brew (Miles Davis – 1970)

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O Cangaceiro Trapalhão (1983)

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“Sou nordestino, moça. E o que o nordestino mais faz é trocar o certo pelo duvidoso”, personagem do Didi, ao deparar com a bruxa Bruna Lombardi…

A magia lúdica dos filmes dos Trapalhões, com sua mistura de Charles Chaplin, arte circense e influências da cultura pop do momento, é algo que vai perdurar por muito tempo no inconsciente das gerações que tiveram a oportunidade de acompanhar o sucesso do fab four do humor brasileiro. O mais legal é que esse estilo de fazer rir vem “popotizando” às gerações precedentes, como me fez notar minha sobrinha de seis anos, apaixonada pela trupe.

Volta e meia estamos sempre revendo os filmes de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias e nos divertindo pacas. Outro dia mesmo, quase tivemos uma overdose de gargalhada ao ver O Cangaceiro Trapalhão, filme de 1983 que fez quase 3 milhões e 900 mil espectadores. Na trama, uma paródia do mito de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Superprodução com direção de Daniel Filho, diálogos de Chico Anysio e participações no elenco de Regina Duarte, Bruna Lombardi, Tânia Alves, Nelson Xavier e Tarcísio Meira, o filme tira sarro com todos os arquétipos da cultura cinematográfica nordestina ao contar a história do simples pastor de cabras, Severino do Quixadá (Renato Aragão, o nosso Didi), que salva o destemido fora-da-lei de alcunha, Capitão (Nelson Xavier), de uma emboscada arquitetada pelo atrapalhado Tenente Zé Bezerra (José Dumont).

“Que cabra?”, pergunta a personagem de Tânia Alves, ao saber de um novo integrante do bando. “O cabra das cabras”, resume Capitão, personagem de Nelson Xavier.

É ele que, para proteger o bando, se veste igual ao líder dos cangaceiros e se transforma em Lamparino, um falso cangaceiro que confunde a polícia com suas atrapalhadas.

Como em todas as tramas dos filmes dos trapalhões, o enredo é costurado por uma miscelânea de referências que vão desde passagens clássicas da literatura ou cinema, passando por sucessos do momento. As cenas iniciais do filme, por exemplo, é reprodução bem montado de um autêntico bang bang e os personagens remetem ao mítico filme de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). O fenômeno de bilheteria da época, Indiana Jones não é esquecido, com o valente Didi reproduzindo a famosa cena do herói fugindo embaixo não do caminhão, mas de uma carroça.

Um elemento sempre pertinente nos filmes da trupe, os efeitos especiais são usados aqui como função narrativa inteligente. Basta conferir a cena da casa da bruxa, com Bruna Lombardi e Renato Aragão subindo pelas paredes como se fossem duas lagartixas humanas. “Não faz isso não dona. Sou nordestino e o que nordestino mais faz é trocar o certo pelo duvidoso”, diz Didi, numa reflexão que persegue a sina de seu povo.

Três anos depois, Os Trapalhões iriam produzir outro filme com temática nordestina, este talvez um de seus melhores filmes, uma adaptação trapalhônica do texto de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida.

* Este texto foi escrito ao som de: Por Onde Andará Stephen Fry? (Zeca Baleiro – 1997)

Zeca Baleiro - Por Onde Andará Stephen Fry

Otelo, O Mouro de Veneza

Otelo

A trama gira em torno da premissa da infidelidade e dos imbróglios causados pelo ciúme, segundo Shakespeare, esse demônio verde.

Há uma cena emblemática no filme Chocolate, drama com o Omar Sy sobre a história do primeiro artista circense francês que foi uma das atrações do Festival Varilux. É quando ele tem um choque de realidade, abandona os picadeiros e encara os palcos encenando Shakespeare. “Eu e Shakespeare nos entendemos muito bem”, tira sarro, indo interpretar não um texto qualquer do bardo inglês, mas Otelo, O Mouro de Veneza.  “Sou negro, perfeito para o papel”, argumenta.

Escrito por volta de 1603, a peça é um dos trabalhos mais ousados de Shakespeare, com sua trama recheada de temas atuais como amor, ciúme, traição, ambição, ódio e, veja só, racismo. Sim, porque mesmo abordado de forma velada e com menor repercussão social em relação aos dias de hoje, a questão do preconceito é um forte atenuante na história.

Tragédia dividida em cinco atos, o enredo centrado em quatro personagens se passa no reino de Veneza, onde Otelo é um general que serve a este estado em luta contra Chipre. Casado com a bela Desdêmona, ele é alvo da inveja e ambição de Iago que, mordido por ódio sem limite, urde imbróglio entre Otelo e o seu tenente Cássio.

“O Costume, esse tirano, soube transformar para mim leito de pedra e aço da guerra em colchão de plumas três vezes joeiradas”, diz o africano guerreiro, elucidando a natureza de seu ofício.

Não tem como fugir. O tempo todo o leitor se depara com a premissa da infidelidade e as confusões geradas pelo ciúme. Tema universal é abordado desde que a humanidade se deu conta de que havia um homem e uma mulher na face da Terra, mas aqui potencializado pelo feitiço do poder e da ganância.

“Diga-me: qual é o palácio onde não se intrometem às vezes coisas fétidas”, provoca o pestilento Iago, um dos vilões mais sórdidos na história da literatura.

O que mais incomoda e intriga na história de Otelo para mim é a origem dessa maldade e ódio alimentados pelo vilão da trama. Nada nesse sentido no enredo é claro ou objetivo aos olhos do leitor. Iago simplesmente odeia Otelo e pronto. “Odeio o Mouro. Vamos agir em conjunto em nossa vingança contra ele”, esclarece categórico, Iago, tecendo planos maldosos como o cúmplice Rodrigo. “O inferno e o breu da noite deverão dar à luz do mundo a esse monstro”, exagera.

E pasme, há certo machismo no texto de Shakespeare aqui, que é condizente, infelizmente, com a realidade da época, soando aparentemente “normal”. O que me faz lembrar aquela frase de um escritor árabe que nunca sei direito seu nome, eu acho que, Avorrais (1126 – 1198): “Somos mais parecidos com o nosso tempo do que com nossos próprios pais”. Acho que é isso.

* Este texto foi escrito ao som de: In a Silent Way (Miles Davis – 1969)

In a Silent Way - Miles Davis

Sala de Justiça x Legião do Mal

Legião do Mal x Sala da Justiça

“No meu tempo de calça curta, acredite, era muito mais divertido ser criança. Até os desenhos tinham conteúdo, forma e encanto.”

Não se fazem mais desenhos animados como antigamente. É fato. Hoje tudo se resume a uma bobagem visual afetada sobre lutas sem sentido de cores berrantes e mentiras tridimensionais. Tudo sem conteúdo, sem forma e sem encanto. E pior, a garotada gosta, adora deste mundo vazio de criaturas inanimadas sem vida. No meu tempo de calça curta, acredite, era muito mais divertido ser criança.

Não é uma questão de saudosismo – e o Mário Lago costumava dizer que ser saudosista é cuspe quadrado -, trata-se de ser realista e não tenho nenhum problema em ser saudosista. Muito menos realista. Ainda bem que graças ao Deus Gloogle e ao Deus Youtube podemos reviver nossos sonhos de infância num simples click.

E foi com essas ideias em mente que desvencilhei minha sobrinha de ver uma besteira na internet chamada Bel Para Meninas para lhe apresentar pérolas como Flash Gordon, Os Cavaleiros da Luz Mágica, enfim, Sala de Justiça x Legião do Mal. Eram os Superamigos contra a turma do vilão Lex Luthor, lembra?

Produzidos pela Hanna-Barbera, entre 1973 e 1985, as tramas eram maniqueístas sim, mas cheias de paixão ingênua que até hoje nos fazem cócega no coração. E incrível a construção dos personagens dos dois lados, com o oculto segredo por trás de cada um de seus poderes mutantes. Qual história estaria por trás do bizarro zumbi, Solomon Grundy ou o extraterrestre, Bizarro? Gargalhadas do mal dos diabólicos Charada e Homem-Brinquedo seriam páreos contra a seriedade sóbria de Batman e Robin? E que segredos se escondem no submundo aquático do mágico homem de Atlântida, Aquaman?

Escrevendo sobre tudo isso e me lembrando de uma frase de Os Cavalheiros da Luz Mágica que guardo com carinho em minhas recordações lúdicas… “Pela mão da natureza, da arte que prepara/O que antes era um, agora se separa”.

* Este texto foi escrito ao som de: Soundtrack Flash Gordon (Queen – 1980)

Flash Gordon

A Academia de Musas (2015)

A Academia de Musas

Filme cerebral de José Luis Guerin discute a questão do amor platônico a partir da relação entre um professor patriarcal e suas belas alunas

Porque existem poetas e compositores apaixonados? Ora, por um motivo bem simples. Porque existem musas, deusas humanas idealizadas capazes de desencadear as mais sinceras, insanas e passionais manifestações de amor. Mas há quem contesta isso. “O amor é uma invenção da literatura. O amor e o desejo são invenções dos poetas”, argumenta o professor de filologia, Raffaele Pinto, numa aula do filme A Academia de Musas, em cartaz no Cine Brasília.

Direção do espanhol José Luis Guerin, a fita transita entre a ficção e o documentário para tecer um ensaio audiovisual inteligente e provocante sobre o amor platônico e as armadilhas da idealização evocando escritores clássicos como Dante Alighieri e temas pertinentes como poesia, desejo, sedução, ciúme e paixão. Um terreno perigoso que conheço tão bem quanto o de se perder num labirinto. Daí o fato de ter saído da sessão meio desnorteado, sem rumo de casa.

Engana-se quem pensa que esse debate filosófico, educativo e, porque não, existencialista, se mostre cansativo ou desgastante. Até porque é criado um pacto dramático entre a trama e o espectador com o envolvimento desse professor meio que patriarcal e sedutor com suas belas alunas, quando ele resolve confrontar suas ideias teóricas na prática, num exercício prazeroso e sinuoso envolvendo afetos e metodologia.

Há uma confusão de idiomas divertida com personagens falando em italiano e espanhol, às vezes, liricamente, filmados por meio de vidros de carros cheios de reflexos de paisagens e espasmos urbanos. E tem ainda uma referência pertinente ao cinema intimista do mestre Roberto Rossellini remetendo não sei se a Stromboli (1950) ou Viagem à Itália (1953). Que diferença faz, se tudo é cinema de autor, cinema cerebral da melhor qualidade?

* Este texto foi escrito ao som de: Rock on (Humble Pie – 1971)

Humble Pie - Rock On

Águas Claras: A Cidade dos Ratos e dos Cães!

Águas Claras

“Ratos! Ratos! Por onde ando, aonde vou, topo com mil ratos, ratos por todos os cantos, ratos por todos os lados.”

Cuidado! Olhe por onde pisa, porque em Águas Claras, a cidade dos ratos e dos cães, você sempre pode tropeçar num monte de lixo espalhado pelas ruas ou sujar os sapatos com merda de cachorro. Com seu aspecto de uma Sampa do cerrado, Águas Claras fede como a burguesia.

Não é a primeira, nem a segunda vez que topo com enormes camundongos passeando tranquilamente entre a estação do metrô e o caminho de casa. Não importa se é em Arniqueiras ou Concessionárias, lá estão eles, com seus olhos flamejantes de demônios, me perguntando se o dia foi bom, se vou dormir bem…

…E quase sempre nunca tive um dia bom ou vou dormir bem…

Outro dia mesmo, um desses roedores bem grandes, me parou e disse que eu andava com cara de idiota ultimamente, fazendo uma leitura perturbadora do meu coração, decodificando minha alma torturada como se ele fosse um alquimista dos tempos e das coisas inúteis. Sentindo-me Kafka e sua barata, quase lhe ofereci um pedaço de queijo com suco de tomate.

Ratos! Ratos! Por onde ando, aonde vou, topo com mil ratos, ratos por todos os cantos, ratos por todos os lados. Já estou vendo o dia em que lá de cima do nono andar, vou olhar para baixo e ver as ruas tomadas de ratos e caixões, tal qual numa cena de Nosferatu, do Werner Herzog.

Quem sabe eu não me atiro de lá de cima, só para dormir num desses tranquilos paletós de madeira? Quem sabe, eles não comem os restos dos meus pedaços espalhados pela calçada e asfalto? Ratos! Ratos! O Cazuza é quem tinha razão: “minha piscina está cheia de ratos”, mas lá em casa não tem piscina, nem nunca terá…

…E essa dor nas costas que não me deixa dormi…

Iago conspira com Rodrigo contra o Mouro Otelo! Toda a literatura shakespeariana é urdida por tramas palacianas em que ratos querem tomar o lugar dos gatos! Ou vice-versa… “…Diga-me: qual é o palácio onde não se intrometem às vezes coisas fétidas”, ironiza Iago, na peça, Otelo, o Mouro de Veneza.

Seis, sete horas da manhã… Cruzo a estação Águas Claras em direção a minha carona. Pelo caminho, vou andando pelo estreito chão de cimento como se estivesse num tabuleiro de xadrez ou campo minado urbano, desviando das merdas dos cachorros entre um trecho e outro. Porque as desgraças dessas madames arrogantes e esnobeis não catam as próprias merdas que essas bolas de pelos vão deixando por onde passam? Céus, como eu fico incomodado com a indiferença delas com o resto da humanidade, como se fôssemos os dejetos deixados por seus bibelôs de coleiras…

Tem gente que quer vir na próxima encarnação de tudo quanto é jeito. Eu? Bem, eu, não quero nem aparecer aqui…

 * Este texto foi escrito ao som de: Inimigos do Rei (Inimigos do Rei – 1989)

Inimigos do Rei (1989)

A Próxima Vítima (1983)

Próxima Vítima

Nesse drama urbano com pegada documental Antônio Fagundes é um jornalista romântico…

Em 1983, Antônio Fagundes estava no auge da carreira. A gatinha Mayara Magri dando os primeiros passos na televisão e no cinema. Nesse drama urbano dirigido por João Batista de Andrade, talvez um de seus melhores trabalhos atrás das câmeras, ela vive a prostituta-ninfeta Luna, uma das potenciais vítimas de um psicopata sexual que anda aterrorizando o submundo da prostituição no bairro do Brás.

O contexto em que toda a trama escrita pelo novelista Lauro César Muniz acontece é sintomático. Com a abertura da política, no apagar das luzes do regime militar, o país vive a euforia das eleições com o povo na rua fazendo campanha para os seus candidatos ao governo de São Paulo. São eles: Jânio Quadros, Tancredo Neves, Franco Montoro, Ulisses Guimarães e um certo… Luís Inácio Lula da Silva.

Repórter novato e ingênuo, David Duarte (Antônio Fagundes) é afastado da cobertura da política, sua paixão, para fazer matérias sensacionalistas policiais. Ele e toda a polícia da cidade estão atrás do maníaco sexual que anda aterrorizando as prostitutas do bairro do Brás. Uma delas Luna, por quem David irá se apaixonar perdidamente.

Thriller policial envolvente, A Próxima Vítima (1983) dá uma chacoalhada no espectador pela atualidade dos temas. A impressão que temos é que nada mudou na política brasileira e que os problemas sociais só aumentaram. “Você acha que empresário latifundiário vai ficar do lado do povo?”, desabafa o personagem de Fagundes, o típico jornalista romântico. “Não posso criar uma imprensa só para os seus sonhos, David”, reclama o chefe de redação.

Duas questões são abordadas de forma contundente no filme. O papel oportunista e sensacionalista da imprensa, que abre mão da veracidade em prol de um jornalismo rasteiro, e o uso político da polícia para omitir ações mais eficientes da corporação nas ruas. A truculência e a criação de factoides são apenas resquícios da ditadura e a imagem do temido delegado Fleury na parede de uma repartição pública da justiça é tristemente dramático.

Documentarista de mão cheia, responsável por inovar no gênero com o chamado cinema de rua a partir de suas experiências em filmes-reportagens para televisão, João Batista de Andrade faz aqui uma bela junção entre a dramaturgia e documentarista. Escancara a fragilidade de um sistema corrupto e falho ao expor o drama do submundo da prostituição e a marginalização dos negros na sociedade.

“A verdade é que você é o branco. O outro é o negro, o bandido”, lamenta o irmão de uma vítima acusada inocentemente.

* Este texto foi escrito ao som de: Velas (Rita Ribeiro – 1997)

Rita Ribeiro - Velas

Je Suis Pierrot Le Fou

Pierrot Le Fou 2

“Só ela que me acalma o espírito quando me sinto um palhaço louco, só ela que me traz luz quando me perco na escuridão da minha tristeza”.

Tigresa… E lá vem ela desfilando como um tigre sensual pela selva do meu coração, com vestido novo e um corte de cabelo que inventei de um sonho que me encheu de êxtase e alegria. De modo que não queria mais acordar naquela noite passada. É isso, dormir sem sonhar deve ser algum tipo de morte… E só me sinto vivo dormindo quando sonho com ela, o resto, baby, é pesadelo!

E mesmo assim, ela ainda me diz, com sua filosofia de bela do meu ser, que é um desperdiço para mim, que tem sangue novo na praça, mas o que posso fazer se é do pescoço dela que alimento minha alma? E é por tudo isso que às vezes sinto muita falta dela, mesmo quando ela está do meu lado, com seu inebriante sorriso de fadinha verde…

Só ela que me acalma o espírito quando me sinto um Pierrot le fou, só ela que me traz luz quando me perco na escuridão da minha tristeza, só ela que me tira do $ufoco quando as cifras não se encontram e mesmo assim não posso chamá-la de minha, não é nos meus braços que afago o cansaço dela de um dia estressante de trabalho…

Pior não é nem se apaixonar pela pessoa errada, mas se alimentar dessa paixão torta que me assombra qualquer forma de bom senso. Viver em desatino permanente é o pior dos mundos. Quando me encontro em desespero me afogo em livros, é minha melhor fuga. Agora mesmo Otelo luta pelo amor de Desdêmona e de seu império… Não tenho uma princesa, meu castelo de areia e no meio de um deserto de hipocrisia…

* Este texto foi escrito ao som de: Stonehenge (Ten Years After – 1969)

Ten Years After - Stonehenge