Grandes civilizações do passado hoje

O país dos deuses olímpicos é incapaz de se salvar da atual crise financeira

O país dos deuses olímpicos é incapaz de se salvar da atual crise financeira

Não entendo nada de economia, em assuntos de finanças sou um zero à esquerda, mas ouvindo e lendo sobre a crise na Grécia, dá para notar que a coisa está feia na terra dos deuses. Nem Zeus parece ter solução para a situação. Impressionante como as grandes civilizações do passado não têm espaço na geopolítica atual. Berços da humanidade, Egito, Itália, Pérsia (Irã), Babilônia (Iraque), Fenícia (Líbano) hoje estão todos afundados no mundo contemporâneo em guerras civis, hecatombes sociais, políticos e econômicos.

Num passado de glória, a Grécia Antiga nos deu grandes intelectuais na área da filosofia, matemática e política, nos ensinou o que é democracia, sem falar na festa dos esportes que é os Jogos Olímpicos, mas hoje toda essa história e legado cultural não significam nada diante do poder do capital, da especulação financeira. No mundo de hoje, o dinheiro, a força da moeda tem mais importância e poder do que o conhecimento, o saber.

E a Grécia não é o único país da gênese da humanidade a sofrer com tais percalços políticos e econômicos. Peguemos a Itália dos imperadores e senadores romanos, por exemplo. Senadores esses que ajudaram a formatar as leis jurídicas que até hoje norteiam o mundo Ocidental. Outrora grande potência mundial que chegou a dominar boa parte do mundo, o país da bota se resume a uma nação marcada pela maligna influência da máfia, do tráfico de drogas e crise política.

Divididos em guerras civis e conflitos religiosos, países do mundo árabe que foram grandes potências militares como o Egito, o Iraque (Babilônia) e o Líbano (Fenícia) surgem no cenário mundial do momento como vergonhas da humanidade.

Como se vê, a história pode ser uma grande professora para os atuais governantes.

* Este texto foi escrito ao som de: Yes (1969)

Yes 69

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O tronco (1998)

A atriz Letícia Sabatella no elenco do filme baseado em obra de Bernardo Élis

A atriz Letícia Sabatella no elenco do filme baseado em obra de Bernardo Élis

Escrito por Bernardo Élis, O tronco é um dos romances cruciais da literatura brasileira, que conta a queda de braço entre os poderosos coronéis do interior de Goiás e o governo local. Li o livro no segundo grau, numa daquelas baterias preparatórias para o vestibular e a recordação mais forte que me vem à cabeça agora é de que se trata de uma leitura difícil. De modo que já tirei minha edição empoeirada da José Olympio da estante para revisitá-lo assim que o tempo me der régua e compasso.

Já o filme eu revi outro dia no Canal Brasil e a única coisa que me recordava era do ator e cantor Rolandro Boldrin e sua basta barba branca na pele do poderoso coronel Pedro Melo. Dirigido por João Pedro de Andrade em 1998, um ano após a morte do autor, o filme traz um elenco global para contar essa saga sobre a terra, o poder e a tirania, com todos os abusos e excessos que essa condição nefasta permite.

É um autêntico bang bang em que mocinhos e bandidos se misturam e duelam numa ciranda de balas, sangue e morte ao sabor dos interesses financeiros e sociais, ou seja, os eternos ingredientes causadores de uma guerra. Idealista, o personagem de Ângelo Antônio, num de seus primeiros trabalhos no cinema, tenta restaurar a ordem no lugar ao se contrapor com os desmandos autoritários da família na condição de coletor de impostos. Logo vai ser chamado de traidor e, com a vida ameaçada, se vê num beco sem saída, mas ele não desiste.

“Esse lugar não vai deixar de ser o ermo que é se essa gente continuar desrespeitando a lei”, comenta com o único subordinado que tem.

O último esgar de esperança é a vinda de um juiz da capital vivido por Antônio Fagundes, mas ele chega ao local com mais sede de sangue do que os truculentos jagunços e peões da região armando, definitivamente, o seu circo do terror.

Com bela fotografia e trilha sonora cativante de Tavinho Moura, o filme se perde num roteiro frouxo que bem poderia aprofundar nos dramas humanos de alguns personagens. Mas é um trabalho que, pelo espetáculo dos combates e excessivos voos das gruas, funciona como entretenimento. Divertido é saber, como deve ser também ao ler o romance, a origem do título dessa obra escrita há quase sessenta anos.

* Este texto foi escrito ao som de: Desire (Bob Dylan – 1976)

Bob Dylan Desire

Astros do Cinema – Jardel Filho

O ator na pele do personagem de

O ator na pele do personagem de “Terra em transe”, Paulo Martins, um dos meus preferidos

O ator Jardel Filho causou furor na última edição do CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. Eu sei, eu sei, ele morreu há mais de 30 anos, mas o que posso fazer se seu sex appeal ainda mexe com o inconsciente das pessoas, homens e mulheres. E tudo porque ele apareceu sem camisa no drama, Antes, o verão, filme de 1968 de Gerson Tavares, numa cópia restaurada tinindo de nova. “Jardel Filho sem camisa é um pão”, chegou dizer Luciana Araújo, professora da Universidade de São Carlos, durante uma mesa de debate.

Bom, apesar de uma produção cinematográfica tímida, o astro de porte atlético, voz tonitruante e rosto europeu emprestou seu talento e virilidade em três fases cruciais do cinema nacional: na época do estúdio Vera Cruz, durante o Cinema Novo e em algumas produções da pornochanchada.

Filho de pais artistas, Jardel Filho nasceu durante uma temporada teatral em São Paulo. A carreira como ator, claro, começou nos palcos, interpretando personagens de Eugene O’Neill, Jean Anouih e Nelson Rodrigues. Mas foi no cinema e, mais tarde na televisão, que ganhou popularidade nacional. Sua morte trágica durante as filmagens da novela Sol de verão causou comoção nacional.

Para mim o jornalista idealista e romântico Paulo Martins de Terra em transe está não apenas entre os melhores de sua carreira, mas um dos mais marcantes do cinema nacional. Ele declamando versos do poeta Mauro Faustino com metralhadora na mão é um puro sundae.

Top five – Jardel FilhoTerra em transe

Terra em transe (1967) – Claro alter ego do cineasta Glauber Rocha, Paulo Martins é daquele tipo de personagem que você se identifica de tal maneira que tem vontade de encontra-lo bem ali no boteco da esquina após o fim da sessão. A força do personagem está na integridade e entrega do ator que acreditava cega e piamente no discurso apaixonado e convulsivo do personagem.

Antes, o verão (1968) – Confesso até com certa vergonha que nunca tinha ouvido falar do filme e do diretor Gerson Tavares e logo me encantei pelos dois, muito pela atuação do ator que faz aqui um daqueles tipos antonionianos, cheios de charme e loucura moral.  Ousadia + talento = Jardel Filho.

Pixote, a lei do mais fraco (1980) – Parece até pecado, mas o marido, genro, filho e amante que toda mulher queria ter também interpretou vilões e dos bons, como este carcereiro sádico e durão que inferniza a vida dos meninos de uma prisão para menores.

Macunaína (1969) – Para mostrar que o ator nunca esqueceu sua passagem pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), se deixa soterrar por quilos de maquiagem para encarnar o soturno personagem, Venceslau Pietro Pietra, o gigante devorador de gente.

O segredo da múmia (1982) – Destituído de vaidade e disposto a correr qualquer tipo de risco na carreira topa fazer aqui uma rápida aparição nessa deliciosa comédia de humor negro do mestre do terrir, Ivan Cardoso.

* Este texto foi escrito ao som de: Assim caminha a humanidade (Lulu Santos – 1994)

Lulu Santos - Assim caminha a humanidade

“Evoluímos ou desapareceremos”

Preconceito e hipocrisia são duas coisas que todos nós infelizmente temos...

Preconceito e hipocrisia são duas coisas que todos nós infelizmente temos…

Lá em casa todo mundo acha que eu sou gay só porque me simpatizo com a causa, ou seja, sou um sujeito que não tenho nada contra, nenhum preconceito com quem gosta de meninos e meninas. O que prova que pobreza de espírito existe também nas “melhores famílias”. Preconceito é algo imoral, indecente e que existe dentro de todos nós desde que nascemos, por um processo de osmose, mas há aqueles que sabem reconhecer esse mal e educar o espírito e o caráter de acordo com o bom senso. Até porque, como diria o jornalista e escritor Euclides da Cunha no livro Os sertões, sobre algo que nada tinha a ver com o assunto:

“Evoluímos ou desapareceremos.”

E uma prova de que isso está acontecendo, enfim, que estamos evoluindo, mesmo que a passos de tartaruga, foi essa aprovação recente do casamento gay em território nacional num dos países mais preconceituosos e racistas do mundo: os Estados Unidos. Lá, meu chapa, não é como essa coisa velada e hipócrita aqui no Brasil, não. Lá os brancos não gostam de negros e os heterossexuais não gostam de gays e ponto final. De modo que essa vitória não vai sair barato, de graça. Mas que venham os inimigos!

Essa conversa toda me fez lembrar duas coisas. A primeira é a história de um menino racista que se dizia ter ódio de negro, mas que adorava basquete e que tinha como ídolo o Michael Jordan. Quando questionado o fato de o Michael Jordan ser um negro ele saiu com a seguinte pérola. “Mas ele não é negro, ele é o Michael Jordan”.

A segunda é uma tia preconceituosa que tenho e que é uma catedral de contradições. Primeiro porque ela não sai da igreja e se diz uma cristã devota, mas não tem tolerância às minorias como os negros, índios e homossexuais. E a pergunta que faço de si para si é, como uma pessoa pode ser cristã com esse tipo de mentalidade? Quer saber? Para mim Jesus Cristo foi uma drag queen negra muito louca que rodava a baiana pelas ruas de Jerusalém num cabaré do Chefe Apache Tonto. E que minha tia e gente como o Malafaia vão para o quinto dos infernos.

* Este texto foi escrito ao som de: As quatro estações (Legião Urbana – 1989)

Quatro estações

O cidadão do ano (2014)

Stellan Skarsgård (dir.) bancando o Dirty Harry da Escandinávia...

O ótimo ator Stellan Skarsgård (dir.) bancando o Dirty Harry da Escandinávia…

Até agora não entendi se o filme norueguês, O cidadão do ano (2014), uma das estreias desta semana no Libert Mall, é uma comédia ou drama de suspense. Pode ser tudo isso num filme só e muito mais, o que evidência não apenas as influências pop do diretor Hans Petter Moland (lê-se cinema hollywoodiano), e não sei se isso é bom. Mas uma coisa é certa, o cineasta tem elegância para filmar e bastante senso de humor.

A cena inicial é uma pintura e mostra um caminhão gigante abrindo passagem numa imensidão de gelo que logo faz um link com a sequência do personagem-título (Stellan Skarsgård) se barbeando. Ele é o desbravador responsável por abrir o caminho pelas frias, inóspitas e brancas estradas nórdicas da região com pesadas máquinas próprias para a tarefa.

Um dia, a rotina do trabalho é quebrada pelo grito desesperador da mulher que fica sabendo que o filho morrera assassinado por engano, mais uma vítima da briga pelo controle do tráfico de drogas entre duas gangues rivais. Revoltado, o espírito da vingança então se abate sobre ele e, como um justiceiro solitário, vai matando, um a um, os responsáveis pela morte do filho. As cenas de violências são horrendas, mas há certa poesia em sua exploração.

As piadas com referências a personagens como Dirty Harry e Wingman (Top Gun) são impagáveis, assim como o humor negro que o tempo todo paira na trama, do namoro gay de dois capangas ao amor e sentimentalismo do gangster chefe por seu filho. Há certa lógica social, por exemplo, na discussão entre dois mafiosos sobre o fato de países tropicais serem atrasados por conta do calor.

Bem produzido, com suas imagens imponentes, trilha sonora segura e atuações impecáveis, destaque para Stellan Skarsgård e o alemão Bruno Ganz, o filme fez sucesso de público por onde passo e agradou a crítica, mas não sei dizer se gostei. Acho que ficou faltando algo e não foi o Sol. Mas certo colorido emotivo à narrativa.

* Este texto foi escrito ao som de: Hunting high and low (a-Há – 1985)

A-ha

A espetacularização da morte

A glamourização da morte de celebridades é algo tão nefasto, pior a comoção sádica da opinião pública

A glamourização da morte de artistas é algo tão nefasto, pior a comoção sádica dos fãs

Nos meus tempos de faculdade tive oportunidade de ler um escritor francês que mexeu comigo que foi o Guy Debord, autor do livro A sociedade do espetáculo, obra publicada em 1967 que faz uma análise incisiva e pertinente sobre o carnaval da mídia em torno da espetacularização da notícia. Não sei por que, mas me vieram imediatamente à cabeça o autor e o título quando soube da morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo.

Explico, mas antes devo confessar que nunca tinha visto ou ouvido falar deste rapaz e peço desculpa desde já aos fãs do artista pela minha ignorância musical com relação a esse gênero. Sou da geração Zezé Di Camargo e Luciano e cresci ouvido Tião Carreio e Pardinho, Pedro Bento e Zé da Estrada. De modo que, quando soube do acontecido, pensei que quem tivesse morrido era um deputado distrital homônimo, o que até tinha me tranquilizado, já que seria menos um político no mundo.

De qualquer forma, fiquei assustado com a rapidez com que a notícia do fato se alastrou e de como a mídia explorou a morte desse artista “ilustre desconhecido” – pelo menos para mim -, aproveitando tirar proveito da situação de tudo quanto é jeito, inclusive com a exibição das imagens do corpo estatelado, jogado no chão. Sempre foi assim. A glamourização da morte de celebridades é algo tão nefasto e repugnante, mas pior ainda é a comoção sádica do espectador, que se emociona de olhos fechados numa espécie de fé cega por alguém que acabou de saber que existia. Ou melhor, que não existe mais. Daí que entra a tacanhice mercenária da indústria fonográfica, que neste momento de tristeza e dor, passa a lucrar com o defunto célebre, vendendo milhões. É o circo dos horrores.

O comportamento humano é algo indecente e imoral.

* Este texto foi escrito ao som de: Zezé Di Camargo & Luciano (1991)

Zezé

Minha querida dama (2014)

Kevin Kline e Maggie Smith revivendo amargas lembras numa Paris soturna...

Kevin Kline e Maggie Smith revivendo amargas lembras numa Paris soturna…

Minha querida dama é daqueles tipos de filmes cujo cartaz engana o espectador desatento que não fez uma pesquisa prévia sobre o título antes de comprar o ingresso. A primeira impressão que fica é de que se trata de uma comédia dramática sobre famílias, o que não deixa de ser verdade, mas não uma família normal e com desenlaces escabrosos. Mas a pergunta que fica é: e quem tem família normal?

Mas enfim, daí nós temos então no elenco a veterana atriz britânica Maggie Smith e o talentoso e charmoso norte-americano Kevin Kline e pronto, está armada a cilada para uma boa trama de teatro inglês vertido com propriedade e competência para as telas do cinema. Teatro inglês ambientado na França é bom que se diga, baseado em texto de Israel Horovitz, autor da peça e responsável pela adaptação para o cinema.

Após anos morando na América, Mathias Gold (Kline) viaja até Paris para reivindicar sua herança de direito. Um esplêndido apartamento localizado em área nobre da capital francesa que não será fácil livra-se da atual inquilina (Maggie Smith), uma senhora de 92 anos nem um pouco simpática, protegida por lei que lhe dá o direito de uso de propriedade pelo que aqui no Brasil conhecemos como “usucapião”, uso de bem móvel em função do tempo que teve posse. Ou seja, tudo gira em torno do deus dinheiro, do fantasma da posse.

“Quantos anos você tem?”, pergunta ele cinicamente já apostando na morte da velha. “Como conseguiu chegar a essa idade sendo um nada?”, devolve, ela debochando de sua nitidamente condição de fracassado.

Daí para frente o que se vê é um enredo marcado por reviravoltas reveladoras em que temas afetivos como rejeição, desprezo, negligência familiar e solidão explodem na tela por meio de um texto direto, contundente e de uma melancolia humanista surpreendente. “Meu analista me disse que era preciso eu pegar a criança que eu era no colo do adulto que eu sou, mas toda vez que tentava fazer isso eu envolvia seu pescoço em meus braços”, diz ele sem se dar conta, talvez, de suas tendências suicidas.

Tudo bem que o desfecho do filme é bem banal e conservador, talvez por conta de imposição dos produtores, mas a sinceridade narrativa apresentada no miolo da trama já vale o ingresso, que me desculpe o veterano colega de métier Inácio Araújo. E confesso que depois de ver essa fita perdi o meu preconceito com relação ao ator Kevin Kline.

* Este texto foi escrito ao som de: Undertones (1979)

Undertones 2

Senzalas de Ouro Preto

A visita pelo ambiente sombrio localizado no porão do casarão foi desoladora

A visita pelo ambiente sombrio localizado no porão do casarão foi desoladora

A brutalidade da escravidão no Brasil está grudada em minha memória por meio de novelas clássicas como Escrava Isaura e Sinhá Moça, mas pude sentir de perto o que foi essa triste realidade no país visitando a senzala da Casa dos Contos de Ouro Preto. Estão lá, nesse casarão secular que conta a história monetária do Brasil colônia, para quem quiser ver e para não esquecer, instrumentos de torturas como argolas de pescoços e tornozelos, palmatórias, chicotes e até ferro de marcar gado, para queimar a “negrada” como se fossem bichos.

A visita pelo ambiente escuro e sombrio localizado no porão do casarão é marcada por uma tristeza história desoladora. Uma tristeza história que ainda persiste por meio de preconceito atávico que persiste com relação aos negros na sociedade. Daí o discurso raivoso e indignado dos atores Milton Gonçalves e Antônio Pitanga durante a 10ª edição do CineOP – Mostra de Cinema de Tiradentes.

“Sou o único negro do meu prédio e algumas pessoas ainda me confundem com o porteiro. Mas daí elas olham direito e percebem que eu sou o ator da Globo. Que se dane a Globo, quero ser eu cidadão”, disse revoltado o ator Milton Gonçalves.

Uma pena que esse tipo de opressão tenha ocorrido no Brasil e no mundo, lamentável que as pessoas sejam julgadas pela cor de sua pele, mas outros tipos de escravidão ainda persistem mundo afora. Só não ver quem não quer. E quando esse tema vem à baila me lembro da minha tia Magui e do racismo bovino que ela não faz a menor força para esconder. Mais do que dos negros eu tenho pena é dela.

* Este texto foi escrito ao som de: África Brasil (Jorge Ben Jor – 1976)

AfricaBrasil

Antes, o verão (1968)

Jadel Filho, um pão de peito de fora em cena antológica do filme...

Jadel Filho, um pão de peito de fora em cena antológica do filme…

A mostra de cinema de Ouro Preto já valeu só pela exibição do filme Antes, o verão, do diretor Gerson Tavares. Mas vem cá… Quem foi Gerson Tavares? Até a exibição do filme e do projeto de restauração dos seus trabalhos realizados pelo pesquisador e professor de cinema Rafael de Luna Freire, não sabia quem era. Normal, um sintoma do descaso de nossos governantes e empresários com os grandes nomes da cultura cinematográfica brasileira. Se não dá retorno financeiro para quê revisitar, resgatar, lembrar, divulgar, enfim, dá acesso?

Baseado em obra homônima de Carlos Heitor Cony, o filme narra os desenlaces amorosos de um casal de classe média alta do Rio de Janeiro. A trama se passa em Cabo Frio e começa tenso, com o atropelamento e morte de um sujeito vivido por Hugo Carvana que, até o final da história, o espectador não sabe direito de onde veio e como passou a fazer parte da rotina dessa família que têm os atores Jardel Filho e Norma Bengell como protagonistas, os dois no auge de suas carreiras.

Ousado para época, abordando temas espinhentos como adultério, luta de classe, o filme, com seu título anticomercial, é um achado da cinematografia nacional que merecia ter sido resgatado, como tudo dessa época. A influência direta aqui é o cinema contemplativo e reflexivo do mestre Antonioni e a primeira fase de Ruy Guerra. Mas senti algo de Walter Hugo Khouri, mas como não conheço bem a filmografia deste último para por aqui.

Os atores. Bem, confesso que não morro de amores por Norma Bengell, nunca fui de ter faniquitos por ela, nem mesmo por conta da antológica e provocadora cena de nudez de Os cafajestes, de Ruy Guerra. Mas é um nome importante da cinematografia nacional, pela atitude e postura ousada como artista. Já Jardel Filho, como bem colocou a professora da Universidade de São Carlos, Luciana Araújo, durante seminário do CineOP, é um pão com seu dorso nu boa parte do enredo. Uma inovação, tendo em vista que sempre a nudez feminina é colocada em evidência.

Quer saber? Sair da sessão com vontade de ler o livro do Cony, que é um dos meus autores-jornalistas preferidos. Quem sabe esse título não desbanca minha adoração pelo romance Quase memória…

* Este texto foi escrito ao som de: Acoustic collection Oasis (1995 – 2002)

Oasis - Acoustic Collection

Musas do cinema – Mônica Vitti

A bela atriz em cena de

A bela atriz em cena de “A aventura”, primeiro filme da famosa trilogia do mestre Antonioni

Não há como falar do nome da elegante atriz Monica Vitti e não pensar em Michelangelo Antonioni. Não apenas porque eles foram casados, mas também porque ela foi a personificação feminina perfeita das angústias do cineasta nas telas. Mas charmosa e dona de uma voz sensual, a atriz não colocava muita fé no seu potencial como musa e preferiu começar a carreira no cinema, veja só, dublando. Mas Antonioni a viu de costas e passou a cantada que salvou toda uma geração de marmanjos: “Tem uma bela nuca, pode fazer cinema”, disse o mestre, ao que ela respondeu sem perder a piada: “Sempre de costas?”.

Aos 83 anos, a diva, hoje afastada do cinema e reclusa, lembrou certa vez que, na adolescência, quando vinha da escola e passava em frente à Academia de Arte Dramática Nacional, em Roma, ficava ouvindo da rua, jovens gritando, sorrindo, chorando e se jogando no chão. “Parecia um hospício, mas com loucos felizes”, comentou, confessando que despertara ali nela assim o ímpeto pelas artes.

Os primeiros papéis foram em comédias despretensiosas de Edoardo Anton e Mario Amendola, mas foi com o sensível Antonioni que sua trajetória ganhou notoriedade internacional atuando em dramas existenciais. Uma gazela em cena encarnava com desenvoltura a mulher burguesa moderna vazia e frustrada, meio desnorteada e carente. O tipo de mulher que adoraríamos encontrar perdida por aí.

Top four – Monica VittiEclipse

A noite (1961) – Ela é uma dos personagens abandonados numa festa cheia de glamour e futilidade em trama que discute a incomunicabilidade nas relações humanas, diga-se de passagem, o embate amoroso e sentimental entre os sexos opostos. É deleite puro a cena em que ela brinca, sentada no chão, de acertar o quadrado branco ou preto com uma pedra.

O eclipse (1962) – Última parte da trilogia sobre a incomunicabilidade do mestre Antonioni, o filme mostra uma Monica Vitti desnorteadas pelas ruas de Roma em busca do amor perfeito, da relação adequada. É nítida a fragilidade da personagem em meio à cidade.

A aventura (1960) – Marco do cinema moderno italiano, o filme exacerba ao extremo o existencialismo de Antonioni na falta de comunicação afetiva com o desaparecimento de uma mulher durante um cruzeiro pela Costa da Sicília. Assassinato, acidente, sequestro, suicídio? Em meio ao desespero da dúvida, um amor que brota do desespero na figura de Monica Vitti.

O deserto vermelho (1964) – Numa situação típica do “cinema da angústia” desenvolvido pelo mestre Antonioni a atriz encarna uma mulher adúltera cujo conflito existencial é evidente não apenas nos diálogos, mas na poesia do visual. Em seu primeiro filme colorido o cineasta faz as cores se adaptar à beleza de sua eterna musa.

* Este texto foi escrito ao som de: A tempestade (Legião Urbana – 1996)

Tempestade