Trapalhões: O fab four do humor brasileiro

ô da poltrona, aumente o volume aí porque os trapalhões estão de volta

Ô da poltrona, ei psit, é o seguinte, não sei vocês, mas a minha infância foi marcada pelas estripulias dos Trapalhões, o nosso fab four do humor. Tive a honra de pegar parte da melhor fase do grupo que durante muito tempo reinou na nossa televisão e no cinema como os monarcas absolutos da comédia no Brasil. E olha que não era tarefa fácil, tendo em vista contemporâneos do métier como Jô Soares e Chico Anysio, esse último, em minha humilde opinião, o maior comediante do mundo.

Já os trapalhões, formado pelo “amarelinho” Didi (Renato Aragão), o cabeça do grupo, Dedé Santana, o metido a galã, Mussum, o autêntico malandro da Mangueira e Zacarias, o mineirinho com alma de criança, por meio de suas origens diferentes e tipos engraçados que criaram, representavam a essência do povo brasileiro.

Com o humor simples, direto e popular que formataram ao longo de mais de uma década, eles se transformaram no quarteto mais querido e engraçado do país, capaz de lotar 100 “Maracanãs”, numa única noite de domingo, com mais de 20 milhões de espectadores estáticos diante da televisão.

“As pessoas compram essa lição secreta do mundo mágico dos trapalhões como aplaudem os desejos felizes que Aragão imagina em seus filmes”, narra Chico Anysio, no documentário O mundo mágico dos trapalhões, produção de 1980, realizada por Silvio Tendler.

Na ingênua mistura de malabarismo circense, comédia pastelão e teatro de variedade, com o humor espalhafatoso dos irmãos Marx e o lirismo tocante do universo de Charles Chaplin, um dos ídolos de Renato Aragão, eles conquistaram não só a garotada, mas os pais dela também. Uma tradição que passa de pai para filho, graças aos DVDs que hoje trazem não apenas os melhores momentos do quarteto na televisão, mas no cinema também.

Basta lembrar que nos anos 70, entre os 20 filmes de maior bilheteria do cinema nacional, oito eram dos trapalhões, que na maioria das vezes conseguiam desbancar até mesmo as produções hollywoodianas. Era uma época em que o povo brasileiro ria em português. Ou seja, o sucesso de Tropa de elite não é novidade.

Volta e meia, quando o tédio aperta e o sono não chega, eu e minha afilhada tiramos um dos filmes do Didi e sua turma da nossa estante mágica, dando espaço ao sonho, à magia e a gargalhada fácil. É isso a “cacildis!”.

Os meus cincos filmes preferidos dos trapalhões:

Os quatro juntos fizerm mais de 20 filmes, atigindo um público de aproximadamente 10o milhões de pessoas. Alguns desses títulos perfilam entre as maiores bilheterias do cinema nacional. Abaixo o meu top five dos Beatles da nossa comédia.

Didi encarna o malandro João Grilo, na clássico obra de Ariano Suassuna. Segundo o autor, esse filme foi a melhor adaptação de sua obra

Os trapalhões no auto da Compadecida

Uma vez, entrevistando o grande escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, em Brasília, não resisti e perguntei o que ele achava das adaptações de sua obra máxima para o cinema e televisão. E ele, com sua sinceridade obtusa, não pestanejou:

– Gosto de todas, mas a melhor que já fizeram foi a com os trapalhões.

Quase caí das nuvens.

Dirigido em 1987 por Roberto Farias, o filme é uma obra-prima na carreira do cineasta (irmão de Reginaldo Farias), e da trajetória do grupo. Curiosamente, seria um divisor de águas também, porque a partir desse projeto, a qualidade de seus filmes degringolaria vertiginosamente.

No elenco, nomes de peso como Raul Cortês e Cláudia Jimenez, mas quem rouba a cena é Didi, perfeito na pele do malando João Grilo, o amarelo mais safado que se tem notícia. Junto com Dedé seu eterno comparsa, aqui como Chicó, eles irão desafiar e escancarar a hipocrisia que ronda a Igreja e os donos do poder.

Zacarias encarnaria o padeiro traído e Mussum, esbanjando dramaticidade em atuação soberba, dando voz a ninguém menos que Jesus. Bem queimadinho, é bem verdade, como observaria João Grilo, mas mesmo assim o filho de Deus.

A segunda parte do filme é lirismo puro. (Visto por 2.610.371 pessoas)

O trapalhão nas Minas do Rei Salomão

Filmado em 1977, no auge da carreira, o filme, que ainda não contaria com o baixinho Zacarias, seria a maior bilheteria da história do grupo no cinema, com quase seis milhões de expectadores. Parte do sucesso se deve ao fato de que, naquele ano, eles estreavam na Globo, então, a maior

Mussum e Wilson Grey, numa das cenas de O trapalhão nas Minas do rei Salomão

emissora do país. Não sei você, mas eu perdi a conta de quantas vezes assisti à fita na Sessão da Tarde, morrendo de medo daquela bruxa pavorosa, que parece ter sido tirada de O mágico de Oz. O final é apoteótico, com cabanas pegando fogo, uma cena antológica do Didi pilotando um enorme trator e momento melancólico, com nosso herói chorando a morte de seu melhor amigo, o cãozinho Totó. (Visto por 5.786.226 de pessoas)

O rei e os trapalhões

O prestígio do grupo era tamanho que eles filmaram parte dessa produção de 1979 no Marrocos, a fim de dar maior realidade à história de quatro ladrões que, por acaso, são contratados para salvar o rei das mãos de vilão inescrupuloso. Uma releitura bem atrapalhada de uma das tramas do clássico As mil e uma noite, o enredo brinca com os principais signos da cultura árabe e traz tudo, a lâmpada mágica e o seu Gênio, beduínos irados no deserto, odaliscas e princesas angelicais e “miragens” deslumbrantes.

A última parte do filme dirigido por Adriano Stuart é uma crônica social corrosiva, bem ao estilo do grupo, às mazelas do país, ainda sob a égide do regime militar. (Visto por 4.240.757)

Os saltimbancos trapalhões

Realizado em 1981, é de longe o trabalho mais esmerado do quarteto, e desde o início Renato Aragão se empenhou que realmente fosse. “Queria fazer o melhor filme da minha carreira”, disse na época do lançamento. Dirigido por J.B. Tanko, o diretor da Atlântida que seria recrutado pela turma anos depois para trabalhar em seus projetos nos anos 70, Os saltimbancos trapalhões é tido pela crítica o melhor filme dos trapalhões.

A história gira em torno de um grupo de artistas circenses simplórios que ganha simpatia da plateia depois de uma apresentação surpresa cheia de erros e acertos no picadeiro. Uma vez enfronhados na rotina de trabalho e no meio dos artistas, eles descobrem que o patrão e alguns funcionários da casa estão envolvidos em corrupção. Entre confusões e muita atrapalhada eles tiram todo mundo do sufoco, salvado a imagem do circo.

Com os saltimbancos trapalhões Renato Aragão quis realizar seu melhor filme

Com trilha sonora assinada por ninguém menos do que Chico Buarque, a produção, que quase chegou a ser dirigida por Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos, teve algumas cenas rodadas nos estúdios da Universal, em Hollywood, e a atriz Lucinha Lins como a mocinha da trama. O desfecho chaplineano, com Didi sozinho no meio do picadeiro ao lado da inseparável fantasia, que chora, é inesquecível. (Visto por 5.218.574)

Os trapalhões e o mágico de Oróz

Com certeza não é o melhor filme dos trapalhões, mas adoro por conta da brincadeira, bem ao estilo brasileiro, que eles fazem em cima de um dos clássicos do cinema norte-americano. Acho inclusive, infinitamente melhor do que a adaptação da Motown, de 1978, com Michael Jackson como espantalho.

Quem acompanha a trupe sabe que suas adaptações para o cinema eram meros decalques, paródias e releituras histriônicas de clássicos da literatura e do cinema como O trapalhão no planalto dos macacos (1976), Os trapalhões na guerra dos Planetas (1978), O Cinderelo trapalhão (1979) e O cangaceiro trapalhão (1983).

O enredo tem uma pegada bastante social, focada no drama da seca no Nordeste e com os personagens e roteiro costurados dentro desse contexto. Não é uma obra-prima, mas essencialmente honesto. (Visto por 2.465.899)

* Este texto foi escrito ao som de: Caetano Veloso (Caetano Veloso – 1967)

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Cap. 21 e 22 Bowie vira o homem elefante

Bowie encarna O homem elefante no teatro na década de 80

Em 1979, Nova York estava se esfarelando. Enquanto a Times Square transpirava pornografia, o Lower East Side era uma espécie de point para a prática de tiros e, em cada esquina, era comum se deparar com assaltos, estupros e assassinatos.

Talvez presenciando essa decadência diante de seus olhos que naquele mesmo ano o ator e diretor Woody Allen resolveu realizar o que seria a mais singela, lírica e sincera declaração de amor de um morador a sua cidade. Era uma visão romanceada, idealizada, totalmente platônica, claro, mas funcionou.

Não para David Bowie, que ficou fascinada por aquele cheiro de degradação moral e física. “Ele tinha um motorista chamado Tony e saíamos pelas boates. Era um submundo de diversão”, se lembraria anos mais tarde Destri, tecladista do Blondie, um dos vários artistas que tinham o outrora astro do glam rock como uma divindade. 

Reverenciado, Bowie causaria frisson numa série de apresentações no badalado programa Saturday Night Live com seus figurinos circenses e performance futurista ao lado de algum dos nomes mais importante da cena cultura da Big Apple. Nesse ínterim, se ocupava em começar a década de 80 fazendo aquilo que sempre soube fazer de melhor, ou seja, se reinventando, a reboque de uma nova onda, a new romantic. Foi assim que nasceria seu próximo trabalho, o disco Scary monsters.

Gravado em Manhattan, o disco abriria com Fashion!, faixa que fazia uma referência ao seu primeiro grande sucesso, Space oddity. “Lembra-se de um cara que esteve numa música bem antiga?”, canta em falsete. Mas o sucesso daquele álbum seria Ashes to ashes, cujo clipe gravado em três dias, usando como recursos uma enorme escavadeira vestida de pierrô, causaria sensação um ano antes da MTV iniciar.

O fato de seu novo trabalho ser recebido com louvor pela crítica fez Bowie se senti confortável a arriscar mais uma vez na carreira. Assim, não titubeou em aceitar o papel do deformado personagem John Merrick na clássica história gótica O homem elefante, que ganharia uma montagem na Broadway. Naquela mesma época, o diretor David Lynch contaria a história no cinema.

“Bowie, era afinal, um dos astros mais bonitos do rock. Discutiu-se muito como ele poderia interpretar uma aberração do circo terrivelmente deformada, o que era exatamente o ponto”, escreve Marc Spitz, autor da biografia Bowie. “O outro fator-chave devia ser o puro desafio disso”, observa.

Muitos viram a empreitada como mais uma enrascada na qual o camaleão do rock se metia. Mas assim como fizera na turnê de Lust for life, do amigo Iggy Pop, e no filme O homem que caiu na Terra, Bowie se mostrou capaz de fazer parte de uma equipe de grande produção. “Quando foi anunciado que David Bowie faria o papel-título de O homem elefante, não foi estranho pensar que ele foi escolhido apenas para usarem seu nome”, escreveria na época o crítico do New York Times John Corry. “Felizmente ele é muito melhor do que isso, e, como John Merrick, o Homem Elefante, ele está esplêndido”, emendaria.

Muitas pessoas foram ver a montagem por causa do músico David Bowie, mas com o tempo seria o contrário, elas iriam para ver a atuação magnífica de um astro da música na Broadway. Elas um jovem de nome Mark David Chapman, que poucos dias depois, assassinaria o ex-beatle John Lennon em frente ao seu edifício, o Dakota.

Preocupado com a integridade do seu ator, o diretor de O homem elefante Jack Hofsiss resolveu remontar a peça de forma que Bowie aparecesse menos tempo em cena. Ele ficaria profundamente chocado com a morte do amigo.

* Este texto foi escrito ao som de: Lay it down (Al Green – 2008)

Discoteca Básica (20) Automatic for the people

Voz metálica e sentimentos à flor da pele, alguns atributos do líder Michale Stipe

No colegial eu tinha uma colega que era, por assim dizer, aficionada, maluca pelo R.E.M. Eu, mergulhado na minha fase Beatles, só tinha ouvidos, mentes e coração para os meninos de Liverpool. A Legião Urbana fazendo o maior sucesso nas rádios com As quatro estações e eu só ligado do fab four. Claro, ouvia uma coisa aqui, outra ali, mas hipnotizado mesmo, feitiço, só pelos Bealtes. Um dia, do nada, ouvi dela a seguinte pérola:

– Eu gosto dos Beatles, mas o R.E.M. é melhor, né?

Com as vistas turvas, quase tive um faniquito ali mesmo, aos pés da minha amiga fã do R.E.M.

Fui embora para casa e, desolado, coloquei um disco dos Beatles na vitrola. Acho que o Let it be. Mas tempos depois, pescando coisas interessantes na MTV, eis que me deparo com um clipe maneiro, com um sujeito surfando nas mãos e braços de uma onda formada por pessoas, ao som de uma música soturna. Era Drive, do R.E.M., uma das faixas de trabalho do disco Automatic for the people. “Bata, quebre, emboscado. Amarre outro na roda da tortura, querida. Ninguém diz a vocês onde ir”, cantava Michael Stipe logo nos primeiros versos.

Não fiquei hipnotizado, nem foi feitiçaria, mas a partir daquele dia comecei a prestar mais atenção no que se passava ao redor, open my mind.

Gravado em 1992, o disco, que trazia uma capa enigmática e sombria assinada por Anton Corbijn, pegou todo mundo de surpresa, inclusive eu, que fiquei fascinado com a voz metálica de Michael Stipe, o homem à frente do R.E.M. Vindo de trabalhos que alternava punk melódico com pop underground em trabalhos como Out of time e Green, o grupo aqui escancarava o seu lado mais melódico e porque não romântico em letras diretas como a devastadora Everybody hurts, baladona acachapante capaz de deixar qualquer um de joelhos. “Não desista de si mesmo/Pois todo mundo chora/E todo mundo se machuca, às vezes”, ensina Stipe.

Com algumas faixas produzidas pelo ex-Led Zeppelin John Paul Jones, o cérebro musical da banda comandada por Jimmy Page e Robert Plant, Automatic for the people – título tirado de um restaurante da cidade natal da banda, Athens -, se esparrama em arranjos de cordas deslumbrantes e rompantes acústicos de tirar o fôlego, como mostra as músicas Sweetness follows, faixa que arranha nossas entranhas com uma melodia arrastada de arrepiar os cabelos da nuca. “Preparando-se para enterrar seu pai e sua mãe/O que você pensou quando você perdeu mais um?”, indaga mais uma vez Stipe, com uma voz que parece estar saindo da cova.

Com o hit Man on the moon, homenagem ao comediante Andy Kaufman, eles dão a receita do pop sofisticado. Ok, eles não são melhores que os Beatles, nunca foram e nem nunca serão. Mas com esse disco alcançaram o Olimpo da música.

* Este texto foi escrito ao som de: Automatic for the people (R.E.M. – 1992)

Michael Jackson um dia foi espantalho

Sidney Lumet filmou em 1978, um musical afro-americano baseado no clássico O mágico de Oz

Em 1936, Orson Welles, então com 21 anos, era tão solicitado entre as emissoras de rádios, em Nova York, que os executivos tinham que alugar uma ambulância para que o menino prodígio chegasse a tempo de honrar seus compromissos. Foi mais ou menos nesse período que o talentoso jovem resolveu aprontar mais uma das suas, montando no Harlem, uma versão ousada da famosa peça Macbeth, de William Shakespeare, só com negros.

Mais de 40 anos depois, outro branquelo resolveu apostar numa adaptação moderna do clássico da literatura infantil O mágico de Oz, só com negros no elenco. Seu nome era Sidney Lumet e ele já tinha no currículo obras de peso como Um dia de cão, protagonizado por seu ator predileto, Al Pacino, e Os doze condenados, com a lenda Henry Fonda, ainda longe de ser uma lenda. Eu sei, você levou um susto e eu também? Sidney Lumet dirigindo um musical?! E daí, um dos primeiros filmes de Francis Ford Coppola não foi o musical O caminho do Arco-íris, com um Fred Astaire em final de carreira?

Bem, porque diabos Lumet aceitou dirigir uma versão afro-americana de um dos musicais mais importantes do cinema não sei dizer. Talvez por dinheiro, já que a empreitada contava com a produção da poderosa Motown, gravadora de discos de artistas negros que havia conquistado o mundo desde os anos 60 com um rol de artistas de tirar o fôlego. Entre eles um jovem artista que seria um dos maiores ícones da música do século 21, o então Michael Jackson, no último sábado (25), lembrado no mundo inteiro pelos dois anos de sua morte.

No filme, ainda longe de virar o fantasma que se transformaria, o jovem Michael aparece na pele de um espantalho feito não de palha, mas lixo, já que a trama é ambientada numa Nova York estilosa, mas decadente. Baseada numa peça da Broadway de 1975, a supervisão musical de The Wiz ficaria a cargo do mago da soul music Quincy Jones, então arranjador das canções, enquanto que o roteiro nas mãos de um desconhecido Joel Schumacher que, já naquela época, dava sinais do que viria a ser sua carreira no cinema, com um estilo exagerado e fútil.

Sim, porque nem a presença do astro Michael Jackson na fita, na época fora dos Jackson Five, mas no auge da carreira, ajudou a promover a produção, um fracasso retumbante de crítica e público.

Se até Coppola já tinha dirigido um musical, porque Lumet também não podia?!

O enredo descaradamente segue passo a passo o roteiro do filme original de 1939, com uma Diana Ross, assim como Judy Garland, bem acima da idade da personagem. Ela é uma professora tímida do Harlem que um dia tenta pegar o totó perdido numa tempestade de neve e vai parar na cidade de Oz, montada com motivos e cenografia fantasiosa que lembram a cidade de Nova York o tempo todo. O mágico canastrão é vivido por Richard Pryor, então um dos maiores astro negros da época.

Contracenando junto com cantores da Motown Nipsey Russell e Ted Ross, respectivamente na pele do homem de lata e o leão covarde, Michael Jackson até que não faz feio como ator, mas não salva o filme, absurdamente ridículo. Prefiro mil vezes a releitura de Os Trapalhões, O mágico de Oróz, de 1984.

Pelo menos The Wiz serviu para estreitar as relações entre Michael e o produtor musical Quincy Jones, que iria trabalhar em seus discos seguintes, entre eles o seminal Off the wall, de 1979, e o revolucionário Thriller, de 1982. Uma parceria que, sem dúvida, ajudou a criar o mito em torno daquele menino sorridente e simpático que embalou toda uma geração junto com os irmãos, no grupo Jackson Five.

* Este texto foi escrito ao som de: Off the wall (Michael Jackson – 1979)

Leonardo da Vinci: Gênio renascentista

Autêntico artista do Renascentismo, Leonardo da Vinci foi o maior gênio da humanidade

O dramaturgo, escritor, cronista e jornalista Nelson Rodrigues costumava dizer que uma das coisas que move o homem é a obsessão. Segundo ele, quem não tivesse uma que seja, seria incapaz de chupar um chica bon que fosse.

Pois bem, sou um homem movido por obsessões: Beatles, Glauber Rocha, Legião Urbana, livros, Ana Maria Campos, Ingmar Bergman, Audrey Hepburn, Billy Wilder… A lista é grande e já faz um bom tempo que ganhou um novo objeto de admiração, o italiano Leonardo da Vinci (1452 – 1519), com certeza, o maior gênio que a humanidade já conheceu.

Numa época em que a palavra gênio tem sido banalizada em escala estratosférica na boca de muita gente para definir personalidade como Michael Jackson, Lady Gaga, Neymar (cruz credo), Bill Gates e não sei mais quem, uma rápida olhada na vasta obra e trajetória desse mago renascentista faz com que sejamos mera centelha diante de sua importância e talento.

Quer vê? Dê uma olhada ao seu redor e comece a vislumbrar as coisas que o homem já conquistou. O avião e o barulhento helicóptero que rasgam o céu, o tanque de guerra e outros apetrechos bélicos, o automóvel, as multifunções das esferas de rolamento, assim como os inúmeros projetos na área hidráulica e aquática como a drenagem, o submarino e o escafandro, soluções mecânicos tais quais os guindastes, perfuratrizes e engrenagens da indústria têxtil e metalúrgica.

E não só isso. Enquanto animava a frívola corte de seus mecenas de dia, entre eles o Duque Ludovico Sforza, na função de diretor de festivais e espetáculos, à noite o incansável Leonardo se privava das horas de sono debruçando sobre o estudo dos cadáveres. Suas pesquisas anatômicas são pioneiras e de importância referencial para a evolução da medicina.

Se Da Vinci, a perfeita quintessência do homem da renascença – também conhecida como a era do saber, do conhecimento -, não foi o inventor de grande parte das coisas e mecanismos que estudou, a maioria deles pelo menos foram aprimorados no futuro, servindo de modelo e referência para projetos concretos. “Existirão asas! Se a façanha não couber a mim, caberá a outro”, escreveu num de seus vários manuscritos deixou. “O mais nobre prazer é a alegria de compreender”, filosofou.

Amante das artes em todos os segmentos, esse grande gênio da humanidade nos presenteou com belas obras-primas. Além de projetar e construir instrumentos como a lira, o piano portátil, o tambor e flauta mecânicos, os quais ele tocava muito bem, Leonardo, o artista, atingiria o seu apogeu na arte de mestres do seu tempo com Ticiano, Rafael e Michelangelo, seu grande rival nas artes, com quem vivia às turras.

Pouco resta do seu acervo pictórico do artista no imaginário das pessoas, não mais do que 10 trabalhos, mas dois deles, a enigmática Mona Lisa e a simbólica A Santa Ceia, verdadeiros símbolos da capacidade humana em transformar impressões sensoriais em beleza etérea.

A emblemática Santa Ceia é uma das poucas obras que restaram do artista nos dias de hoje

Sempre tive noção da grandeza desse homem das artes e da ciência, mas minha paixão e eterna admiração pelo “maestro” Leonardo da Vinci começou a nascer, em 2007, com a exposição Leonardo da Vinci – A exibição de um gênio, evento que aconteceria em São Paulo, no subsolo da Oca, no Parque Ibirapuera. De lá para cá fui me aprofundando, mergulhando no fantástico universo desse artista e tirando da minha estante mágica tudo o que pudesse encontrar sobre esse grande homem, intelectual, artista, cientista, inventor e esteta da vida.

Duas obras interessantes para quem quiser se aprofundar sobre a vida e a obra dessa figura única: Leonardo da Vinci – Arte e Ciência do Universo, livro lançado pela editora Objetiva, em 2006, e a série para a televisão italiana A vida de Leonardo da Vinci, obra de 1972, lançada no Brasil pela Versátil numa edição dupla de luxo.

Escrito pelo crítico de arte e autor de vários trabalhos e exposições, o italiano Alessandro Vezzosi, Arte e ciência do Universo é um minucioso ensaio sobre a trajetória de Da Vinci. Espanta a riqueza iconográfica da obra e a precisão das informações, tudo destrinchado dentro de uma simplicidade fabuloso que faz do leitor leigo, mas interessado, se sentir um verdadeiro rei. “A simplicidade é a sofisticação máxima”, já ensina o mestre.

Produzido pela conceituada emissora de televisão italiana RAI, A vida de Leonardo da Vinci é um verdadeiro deleite aos amantes da arte audiovisual. Dirigido por Renato Castellani (As grades do inferno), o filme, que conta com ótimo desempenho do ator francês Phillippe Leroy na pele do mestre, mistura ficção com documentário para contar, ao longo de mais de cinco horas de exibição, as passagens mais importantes da vida de Leonardo, assim como os bastidores e detalhes de sua trajetória que o levaram a realizar seus notáveis trabalhos.

A narrativa envolvente e pontuada por belíssimo trabalho de reconstituição de época percorre desde os seus primeiros passos de menino no pequeno vilarejo de Vinci, passando pelo espanto de seu primeiro mestre, o também artista Verrocchio, que de repente se vira diante de um pequeno prodígio, até chegar à criação de suas principais obras.

O cenário deslumbrante de cidades como Milão, Florência e Roma, todas também personagens do filme me fizeram sacramentar a promessa de um dia conhecer esses lugares por onde passou o grande mestre Leonardo, assim como o seus principais trabalhos expostos no Louvre, em Paris.

* Este texto foi escrito ao som de: V (Legião Urbana – 1991)

Hamlet de Laurence Olivier é obra-prima

Laurence Olivier e o seu Hamlet, uma obra-prima do cinema influenciada por Cidadão Kane, de Orson Welles

Já li muita coisa de Shakespeare. Assim como já assisti muitas adaptações de sua obra e vale dizer que o sujeito era um mestre em desvendar as vilanias e o lado mais hediondo da alma humana. Talvez a obra que melhor capta essa deficiência de nosso estado de espírito torpe, em toda sua plenitude, é Hamlet. E acho que já li essa peça umas três ou quatro vezes, não sei, minha edição da coleção L&PM Pocket, velha de guerra, com tradução do mestre Millôr Fernandes, anda surrada.

Mas, por incrível que pareça, nunca tinha assistido à clássica adaptação para o cinema de 1948 do ator e diretor Laurence Olivier, aliás, ganhadora de quatro dos sete Oscars indicados, entre eles o de melhor filme (o primeiro na história da festa que não era norte-americano). Laurence, soberbo na pele do príncipe dinamarquês, também seria lembrado pela brilhante atuação.

 Bem, vi outro dia, no canal pela assinatura TCM o filme e achei bárbaro, espetacular, formidável. Talvez a melhor adaptação da história para as telonas. Tanto que nem tenho vontade de ver a que o Franco Zeffireli realizou em 1990, com o Mel Gibson. Melhor não macular o estado de graça da impressão que ficou com esse tour de force de Olivier, na época um quarentão.

Um colosso do teatro, o ator e diretor britânico já havia atuado em obras marcantes do cinema norte-americano como O morro dos ventos uivantes (1939) e Rebecca, a mulher inesquecível (1940), do sempre grande Alfred Hitchcock. Também já havia estreado na direção em 1944, com a primeira adaptação de sucesso de um texto do bardo William Shakespeare para o cinema, Henrique V. E também já existia a obra-prima do cinema Cidadão Kane, filme de Orson Welles que influenciaria de forma visceral sua versão moderna de Hamlet para o cinema.

Escrita entre 1599 e 1601, a história você conhece, já ouvi falar mesmo que não tenha lido o livro ou visto a peça. Gira em torno do desejo obsessivo de vingança do jovem príncipe dinamarquês, sedento em honrar a memória do pai, assassinado pelo próprio irmão que ambicionava o seu trono. A presença perturbadora do fantasma do monarca morto, só faz aumentar sua amargura e conflito existencial. “Ser ou não ser, eis a questão”, diz, eternizado a frase que faria de Shakespeare o mais lembrado, citado e reverenciado de todos os dramaturgos.

O enredo intricado, pontuado por perturbadoras tensões psicológicas, aborda questões pertinentemente universais como incesto, vaidade, ambição, loucura, traição, sórdidos jogos de interesse e as agruras da perda encarnada de forma angustiante pelos solilóquios do herdeiro insano. “Há mais coisas entre o céu e a terra, do que supõe nossa vã filosofia”, confabula, em dado momento.

Autor de peças clássicas, o bardo inglês William Shakespeare foi um dos maiores nomes do teatro

Contudo, embora o texto do autor seja um primor, com suas intensas camadas e mais camadas de dramatização da alma humana, sarcasmo e ironias, é a brilhante condução de Laurence Olivier por trás das câmeras, o grande atrativo. Sem medo de fazer concessões no que diz respeito à trama, com isso despertando a ira dos britânicos tradicionalistas, o diretor/ator eliminaria alguns personagens, transferindo diálogos para outros, apostando num Hamlet mais enxuto e focado nos conturbados dramas das relações humanas.

A impactante e claustrofóbica fotografia em preto-e-branco, que com certeza fez a cabeça de Bergman quando filmou o seu pavoroso O sétimo selo, em 1957, intensifica ainda mais as tragédias pessoais que cercam os personagens. Mas nada mais atordoante que os vôos de uma câmara amparada por movimentos vertiginosos do alto de uma grua ensandecida pelos efeitos visuais que elucidam os devaneios da alma de Hamlet, o eterno príncipe da vingança.

Era a estética da vertigem na sua essência. Preste atenção no diálogo demente entre Hamlet e a caveira do arlequim que embalava sua infância no castelo de Elsinor.

* Este texto foi escrito ao som de: Coleção folha clássicos do jazz – Charlie Parker (Charlie Parker – 2007)

Macunaíma: O herói sem nenhum caráter

Mário de Andrade foi arauto da nossa cultura popular

É bom que se diga já, Macunaíma, um dos marcos da literatura modernista escrito em 1928 por Mário de Andrade, é de uma chatice ululante. Mas é uma obra de suma importância para nossa cultura, de modo que não pode ser desprezada. Por isso que, quando vi aquela edição de capa dura da editora Círculo do Livro bonitinha dando sopa no Sebinho da Asa Norte, não vacilei. Comprei na hora. Ela ficou empoeirando na minha estante um bom tempo, até eu pegá-la para ler outro dia. Estou quase no fim, e que acabe logo porque, que livro chato santo Cristo.

Mesmo que não gostemos de algumas obras literárias, filmes ou estilo de música, alguns trabalhos, até mesmo a título de informação, pesquisa, devem constar em nosso arquivo cultural. Quer ver? Macunaíma (O herói sem nenhum caráter) é um deles, mas há outras. Certa vez tentei ler Grandes sertões veredas do mestre Guimarães Rosa e não consegui passar do primeiro capítulo. Mas tenho plena consciência de que é uma obra original e importante para nossa literatura.

Quem sabe numa nova releitura eu possa ter uma impressão diferente das duas obras…

Quanto à Macunaíma, gosto mais do filme, a adaptação tropicalista do cineasta Joaquim Pedro de Andrade feita em 1969 para o cinema. Com a divertida dupla Grande Otelo e Paulo José se reservando no papel do nosso herói sem escrúpulo. Realizado na segunda fase do Cinema Novo, o filme conseguiu feito inédito, atingir o grande público sem abrir mão da linguagem de vanguarda, um tanto quanto hermética.

O livro, que lembra aquelas leituras chatas do romantismo que éramos obrigados a ler no colegial, como Guarani, O tronco do ipê e outras coisas do universo de José de Alencar e seus pares, tem início com o nosso nascimento de nosso herói numa tribo amazônica. “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite”, narra Mário de Andrade, numa espécie de indianismo moderno. “Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: Ai! Que preguiça!…”.

Grande amigo do autor e um dos fundadores do movimento modernista nos anos 20, Oswald de Andrade sempre teve em conta o romance de Mário de Andrade, carregado de um humor brasileiro genuíno. Para o autor de O rei da vela, a obra arreganhou os dentes de antropófago à mentalidade colonizada que atrofiou, exaltando a tradição cultura do indígena e a elegendo como nossa “odisséia” nacional.

Grande Otelo encarna nosso herói sem caráter nas telonas

Culto, versátil e defensor da cultura popular, Mário de Andrade, que se criou para a música, mas acabou debandando para as letras, aqui se cerca de vários termos da língua tupi, se apropriando de nossos mitos, lendas indígenas e folclóricas, para narrar essa saga pontuada por muito humor e alegoria surrealista. Menino mentiroso, traidor, dado a muitas safadezas, boca suja e de uma preguiça retumbante, Macunaíma mete a cara no mundo junto com os irmãos Maanape e Jiguê, os três em busca de um amuleto perdido.

Apaixonado pela índia Ci, a Mãe do mato, o nosso herói e seus irmãos finalmente chegam a São Paulo, a grande urbe que tanto o fascina com suas máquinas e arranha-céus, encontrando o gigante Piamã, de posse do seu amuleto. A partir daí o que se vê é uma sequência de aventuras estrambóticas, regada a muita confusão. “E pra acabar todos fizeram a festa juntos comendo bom presunto e dançando um samba de arromba em que todas essas gentes se alegaram com muitas pândegas liberdosas. Então tudo acabou se fazendo a vida real”, escreve o autor, no momento em que Macunaíma descobre a macumba, madrugada dentro, “ao lado” de figuras ilustres da época como Manuel Bandeira, Jaime Ovalle, Raul Bopp, Dodô e o francês Blaise Cendrars, então de passagem pelo Brasil.

Hehehe, como diz o velho Macunaíma:

– Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil, são!

* Este texto foi escrito ao som de: Sessão das dez (Sociedade da Grã-Ordem Kavernista – 1971)

 

A era dos festivais – 2ª parte

Em 1967 Caetano Veloso subiu ao palco do III Festival da Record vaiado, mas ao terminar Alegria, Alegria, sairia ovacionado

Dando sopa na mesa de uma boate chique do Rio de Janeiro, a 706, naquele distante ano de 1967, de repente uma garrafa de uísque pareceu ter destino certo: o rosto da diva Elis Regina, sentada na outra ponta. O alvo só não foi atingido em cheio, graças à intervenção do músico Roberto Menescal, que com sua mão divina, impediu que o pior acontecesse. Autora da mal lograda façanha, Maysa, com seus lindos olhos verdes turvos de tanto álcool, nada entendeu.

Quem conta a história surreal é o jornalista e crítico de música Zuza Homem de Mello, no seu excelente livro A era dos festivais – Uma parábola, obra lançada em 2003 pela Editora 34 e só agora lido por este blogueiro. O motivo da quizumba entre as duas estrelas da nossa música estava longe de ser rivalidade ou mesmo inveja, mas despeito. No caso, da estonteante Maysa, que nunca perdoou que aquela gauchinha que um dia a convidara para cantar no seu prestigiado programa O fio da Bossa, torna-se maior do que ela.

Essas e outras passagens fazem parte dos bastidores do I Festival Internacional da Canção Popular, o FIC/TV, primeiro evento do gênero criado pela então novata emissora carioca Rede Globo. O idealizador do projeto foi um ex-seminarista tímido que um dia chegou ser assessor pessoal do presidente Jânio Quadro, o paulista de Barretos Augusto Marzagão. Realizado no Ginásio de Esportes Gilberto Cardoso, o Maracanãzinho, o certame, ao contrário do pioneiro Festival da Record, era realizado em duas fases. Numa primeira elegendo o vencedor brasileiro, que disputaria num segundo momento com o vencedor dos concorrentes internacionais.

Graças a essa ousadia, foi possível ver ao redor da piscina do Copacabana Palace, nomes internacionais de peso como os franceses Maurice Jarre e Michel Legrand, além do argentino Horacio Malvicino e os nortes-americanos Lex Baxter e Henri Mancini, esse último, no auge da carreira por causa de temas como a do filme Bonequinha de luxo, e da Pantera-cor-de-rosa.

Já a 3º edição do Festival da TV Record seria o mais confuso, turbulento e emocionante encontro já realizado pela tevê brasileira, com os artistas à flor da pele, fustigados por um novo ingrediente que faria parte dos festivais até então: a vaia. “O que o III Festival também deixou claro foi a mudança de comportamento da platéia”, observa o autor, testemunha ocular de todos os festivais realizados na época. “Os festivais juntaram públicos diferentes, cada um com suas preferências específicas. Daí nasceram as torcidas, (…) as vaias, os protestos e perturbações que ficariam  tão nítidas no ano de 1967”,  emenda.

Marcado pela guerra declarada entre a “turma” da guitarra e os artistas que exigiam uma postura mais ufanista com relação à nossa música e suas influências, o festival teve como auge a revolta do cantor e compositor Sérgio Ricardo diante das vaias trepidantes do público. Nervoso, o artista quebrou o vilão ao vivo e ainda arremessou o instrumento contra o público: “Vocês ganharam!”, desabafou.

O duelo daquele ano seria entre a psicodélica Domingo no parque, de Gilberto Gil, e Ponteio, de Edu Lobo e Capinam. Mas quem causou frisson mesmo foi Caetano Veloso, com sua descolada Alegria, Alegria, hino libertário cheio de referências pop e à cultura de massa. Acompanhado com os roqueiros argentinos dos Beat Boys, chegou a começar sua performance debaixo de vaia, mas com largo sorriso no rosto, foi domando a plateia aos poucos, até sair ovacionado do palco. “Eu tomo uma coca-cola/Ela pensa em casamento/E uma canção me consola/Eu vou”, diz a letra da canção que o levou ao quarto lugar, atrás da engenhosa Roda viva, de Chico Buarque, o queridinho de todos os festivais.

* Este texto foi escrito ao som de: Construção (Chico Buarque – 1971)

Cap.20 Bowie e Iggy Pop em Berlim

Iggy Pop em cena em 1977, com uma pequena ajuda de Bowie nos teclados (direita)

No final dos anos 70 era comum ver um homem louro magrelo usando vestimentas de proletário e boné de tweed na cabeça pelas ruas de Berlim. A indumentária desse estranho sujeito era completada ainda por sapatos simples ou sandálias, às vezes, casaco de couro preto e calça de lã.

Andando pelas ruas da metrópole alemã por aqueles tempos, você talvez tenha se distraído por alguns segundos e nem viu quando David Bowie passou pela mesma calçada que a sua. Ele havia acabado de desembarcar num dos mais importantes portais da cultura europeia junto com o amigo junk Iggy Pop. Ambos traziam na bagagem material de sobra para trabalharem em seus próximos discos: Heroes e Lust for life.

Instalados no bairro de Haupstrasse, dentro da colônia turca, eles não perderam tempo. Reservando os fins de semanas para as prostituas e traficantes, dedicaram de corpo e alma à produção dos dois discos nos outros dias restantes. Guitarrista e um dos mentores da banda de rock progressivo King Crimson, Robert Fripp foi chamado às pressas, pegando o primeiro avião que encontrou em Nova York com destino à Berlim. O solo infernal de Heroes, assim como a introdução pegajosa têm sua assinatura.

Em 1977, enquanto dava os últimos retoques em seu disco, Bowie resolveu se juntar ao parceiro Iggy na condição de tecladista da turnê de Lust for life. Os ingressos para os shows esgotariam bem rápido, em grande parte ao fato de muitos acharem que veriam Bowie e Pop dividindo o mesmo microfone, o que não aconteceu. Concentrado e, na maior parte do tempo com óculos escuros, o camaleão do rock deixou de lado a vaidade para mostrar que era o dono das apresentações.

Após a assistência de luxo ao amigo, David voltou ao estúdio para finalizar Heroes e também cair na estrada. O novo trabalho seria recebido com louvor pela crítica. Para promover o novo disco, o artista criaria uma nova persona, agora uma espécie de robô humano, seja lá o que isso significasse.

Gravada também em alemão e francês, a faixa “Heroes” (assim mesmo como as aspas, segundo o autor, para denotar ironia), seria cantada por Bowie como se fosse a última coisa que ele faria na vida. Vê-lo no clipe da música, naquele distante ano de 1977, estático, esbanjando vigor dramático na voz e performance, faz a versão de Jakob Dylan parecer canção de ninar.

No mesmo ano, enquanto acertava os últimos detalhes do divórcio com Angie, participaria de um programa de televisão em Granada, do então amigo de longa data Marc Bolan. Gordo e inchado por causa das bebidas e drogas, o outrora astro do T-Rex nem de longe era a sombra da grande estrela do rock purpurina que um dia foi, esbanjando humildade diante da grandiosidade de Bowie.

Uma semana depois do programa, ele morreria de um acidente de carro em Londres, aos 34 anos. Amigos como Elton John, Rod Stewart, e claro, Bowie, estavam lá, bem ao lado do seu caixão, que exibia um buquê de flores em forma de cisne.

* Este texto foi escrito ao som de: Abbey Road (The Beatles – 1969)

O “Amor na tarde” de Billy Wilder

A bela e meiga Audrey Hepburn e o sempre charmoso Gary Cooper, juntos em Love in the afternoon, de Billy Wilder

O cineasta Billy Wilder tomava tranquilamente seu café da manhã, lendo o jornal matinal, quando a mulher o interrompeu docemente:

– Querido, sabe que dia é hoje?

Sem tirar os olhos da leitura, o velho Billy mordisca uma torrada e responde algo como:

– Grmmmf.

– É o aniversário de nosso casamento, continuou ela com voz doce.

Quase engasgando com o pedaço que estava na boca ele olha para ela com uma cara de enjôo e craveja:

– Por favor, Audrey, não enquanto eu estiver comendo.

Parece brincadeira, mas o episódio aconteceu mesmo e foi narrado pelo jornalista e escritor Ruy Castro no seu, Saudades do século 20. Bem, que vê Wilder tratando a mulher assim, nem imagina que o seu casamento com a jovem atriz foi um dos mais duradouros e felizes em que se têm notícias em Hollywood. Também que o impaciente Billy era capaz de escrever as mais belas comédias românticas já realizadas na cidade dos sonhos. Tudo bem, bem ao seu estilo irônico, mas românticas acima de tudo.

Um exemplo perfeito de sua sensibilidade está no belo Amor da tarde, filme de 1957 protagonizado pelo casal Audrey Hepburn e Gary Cooper. Exibido outro dia na SKY, a fita, rodada em Paris, traz a nossa eterna “bonequinha de luxo” na pela da sapeca Ariane, uma Lolita inocente que se apaixona perdidamente pelo bon vivant FranK Flannagan, milionário aparentemente sem sentimentos que tem como hobby colecionar amores por onde passa.

Mas antes de continuar falando sobre o filme, uma pequena curiosidade que o leitor poderá encaixá-la perfeitamente como cultura inútil. Cinéfilo empedernido, Renato Russo pegou o título em inglês do filme – Love in the afternoon – emprestado para uma de suas canções do disco O descobrimento do Brasil. Era uma prática comum do líder da Legião Urbana, que costumava nomear suas canções com títulos de romances e filmes. A montanha mágica, L’Âge d’Or e L’Aventura são alguns exemplos.

Voltando ao filme, longe dos trabalhos formidáveis de Billy Wilder como Crepúsculo dos deuses (1950) e Quanto mais quente melhor (1959), Amor da tarde tem lá seus encantos e carrega na essência o estilo cáustico e irônico que consagraria o diretor, capaz de vender a própria mãe em troca de uma boa história. “Eu seria capaz de beijar o chão que você pisa, Audrey, se você morasse numa rua melhor”, disse certa vez à mulher.

Baseado no romance Ariane, de Claude Anet, o filme marca a estréia da parceria entre Wilder e o roteirista de origem romena I.A.L. Diamond, aliança que se estenderia por outros 11 filmes. Foi um achado pescar essa comédia na programação da SKY porque é um dos poucos filmes do grande Billy que ainda não saiu em DVD no Brasil. A montanha dos sete abutres finalmente foi lançado outro dia.

O bom e velho Billy, cruel como um espelho

Enfim, antes de Amor da tarde, Wilder já tinha dirigido a fofinha Audrey Hepburn em Sabrina (1954), um dos seus filmes mais, digamos, bobinho, mas uma das minhas comédias românticas preferidas. A princípio, o papel de Gary Cooper seria de Cary Grant, mas Wilder não conseguiu fechar com o galã preferido de Alfred Hitchcock e lamentaria pelo resto da vida o fato de jamais ter conseguido trabalhar com ele.

Charmoso e elegante até o último fio do cabelo, Cooper era um ator excelente, mas não está bem no papel. Mas não faz mal porque os grandes atrativos dessa história são mesmo Audrey Hepburn e o roteiro da dupla Wilder e Diamond; Por isso, se algum dia na vida você quiser ser roteirista, comece assistindo aos filmes de Billy Wilder. Todos, de preferência.

Conhecido pelo realismo e cinismo com que tece suas histórias, Wilder constrói aqui uma teia edipiana, como bem lembrou seu biógrafo Hellmuth Karascke, a partir da figura do pai da mocinha, vivido pelo ótimo Maurice Chevalier. Ele é um renomado detetive parisiense que tenta desvendar para um cliente os casos amorosos do boêmio Flannagan, que anda saindo com sua mulher, até descobrir que sua filha Ariane é uma das vítimas do moderno Don Juan. É uma daquelas comédias malucas sobre o comportamento de Wilder onde tudo pode acontecer. Tudo mesmo, até um grupo de ciganos tocando a valsa vienense Fascination numa sauna turca, num dos momentos mais engraçados do filme.

A cínica inversão dos papeis promovida pela dupla de roteirista é deleite puro. Dissimulada e virgem, a doce Ariane desperta as mais recônditas emoções sexuais e desejos no maduro playboy, com suas fictícias histórias de amores pervertidos. Enciumado, atingido em seu ponto mais vulnerável, ou seja, a masculinidade, ele se rende aos encantos da Lolita wilderiana. O desfecho, como em todos os filmes de Wilder, é exemplar. “Tudo é possível se tiver um pouco de charme”, chegou dizer certa vez. Veja seus filmes e entenda por que.

* Este texto foi escrito ao som de: Blue train (John Coltrane – 1957)