Jukebox Sentimental – I am… I said…

Conhecido como o Elvis judeu, Niel Diamond é um compositor e intérprete sofisticado

Conhecido como o Elvis judeu, Niel Diamond é um compositor sofisticado

Não sei por que, mas, por preconceito ou, seja lá o que for, porque o ser humano é uma esfinge de mistério, as pessoas têm o péssimo hábito de associar romantismo com algo brega, cafona, piegas. Nem sempre é assim, na maioria das vezes isso é uma bobagem ululante de babar na gravata. Sim, pegamos como exemplo o judeu de Nova York Neil Diamond, um dos artistas americanos que mais vendeu discos na história da América e que o grande público nem fala ou nem sabe direito quem é. Pelo menos aqui no Brasil. Às vezes até já ouviu uma canção do cara e nem ligou o nome à pessoa ou coisa do tipo. Ou pior, associou de forma errada porque ouviu a melodia melíflua que faz parte do estilo do cantor e não prestou atenção na letra profunda, introspectiva que algumas de suas canções trazem.

Enfim, injustiças acontecem em qualquer lugar. De qualquer forma, gosto muito do cara e tenho várias músicas dele em minha, Jukebox Sentimental, mas a que eu escolho para essa série dele é a intimista I am… I Said…, que, ao contrário do que eu pensava, não tem nada a ver com dor de cotovela, mas sim, de um ensaio pessoal sobre suas dúvidas em torno das raízes. “Bem, eu nasci e fui criado na cidade de Nova Iorque/Mas ultimamente, eu estou perdido entre duas costas/L.A. é agradável, mas não é meu lar/Nova Iorque é meu lar, mas não é mais minha”, desabafa logo nos primeiros versos, para arrematar num espasmo de sofisticação introspectivo. “Mas eu nunca me importei com o som de ser sozinho”, ufa!

Bom, eu entendo muito bem sobre o que ele está falando nessa canção porque há alguns anos vivo esse dilema, ou seja, estar dividido entre a “cosmopolita e provinciana” Brasília e a “provinciana e provinciana” Anápolis, minha terra natal.Neil Diamond logo

De qualquer forma, a primeira vez que ouvi essa música foi numa versão bregona da dupla sertaneja As Marcianas – filhas de João Mineiro, da dupla João Mineiro e Marciano – numa tradução brega dos anos 80 de Rossini Pinto (1937 – 1985), o tradutor conterrâneo de grandes sucessos da carreira de Roberto Carlos, chamada, Porque brigamos. Meu amigo Pedrão me mostrou que essa gravação que embalou minha adolescência era oriunda de um registro bem mais antiga de 1972, da cantora Diana, produzida, veja só, por Raul Seixas. Diana, para quem não sabe – e eu não sabia, meu amigo Pedrão me revelou -, foi casada com Odair José.

De qualquer forma, vale lembrar aqui que Neil Diamond, hoje com 72 anos, sempre foi um compositor sofisticado e interprete ímpar, que, com sua voz de barítono envolvente, adaptou de forma brilhante para o seu repertório, grandes sucessos que conhecemos por aí como, por exemplo, Suzanne, clássica canção do bardo canadense Leonard Cohen.

Secundarista do Abraham Lincoln, onde estudou com Barbra Streisand, Neil Diamond aprendeu a tocar guitarra aos 16 anos, após ganhar o instrumento de aniversário na data. Presente abençoado. A carreira musical começou na Brill Building como compositor da banda The Monkees. Poucos sabem, mas o hit, I’m a believer, é de sua autoria.

Bonitão, com voz inconfundível, o artista, que ficou conhecido como o Elvis Judeu, é famoso também por suas interpretações vibrantes e pessoais de músicas consagradas. Em seu disco Stones, talvez seu trabalho mais importante, além de composições próprias, Neil Diamond nos presenteia com regravações de Suzanne (Leonard Cohen), Chelsea morning de (Joni Mitchell) e If you go away, uma versão do cantor belga Jacques Brel.

* Este texto foi escrito ao som de: Stones (Neil Diamond – 1971)

Neil Diamond

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O universo paralelo de Caverna do Dragão

Nossa, como eu sofria quando eles não conseguiram ir para casa

Nossa, como eu sofria quando eles não conseguiram ir para casa

Quando eu era mais jovem do que sou hoje, do tempo em que andava de calças curtas e pé no chão, gostava de brincar com minha coleção de bichinhos de O reino animal, no fundo do quintal de casa da minha infância querida que não volta mais. Eu ficava imaginando histórias mil de aventuras com meus personagens mutantes, paquidermes, símios e felinos falantes, todos eles feras bestas, bestas feras perdidos numa selva de juncos, capins e terra batida da minha infância querida que não volta mais. Saudades daqueles tempos.

Eu queria ser um personagem do desenho animado Caverna do dragão e me perder naquele universo paralelo de monstros, criaturas bizarras e trilhas que nunca levavam a turma de seis amigos de volta para casa. Inspirado no jogo de RPG homônimo, o desenho foi uma febre entre a garotada naquele final dos anos 80 e quem tem mais de 30 anos sabe do que estou falando.

Se você não sabe, então dê uma clicada no canal por assinatura Gloob, pois o cultuado desenho está de volta para animar os saudosistas de plantão como eu. Claro, todos os 27 episódios divididos em três temporadas exibidos aqui no Brasil são encontrados fáceis no Youtube, mas existe prazer maior do que ver aquele filme, novela, seriado, série ou desenho animado no confortante aconchego de nossa sala de tevê? Não!

Minha sobrinha de 13 anos nunca tinha ouvido falar de Caverna do Dragão e foi um prazer inenarrável rever os episódios do desenho ao lado dela que comparou: “Parece Scooby-Doo… Tem que desvendar mistérios”, disse. Gostei Caverna do dragão 3da comparação.

Na trama hipersurreal, os amigos Hank (o arqueiro líder), Sheila (a ladra invisível), Eric (O cavaleiro), Bobby (o viking), Diana (a acrobata) e Presto (aprendiz de mago), são transportados tridimensionalmente para outro universo paralelo após brincarem numa montanha-russa que dá nome ao desenho.

Perdidos nesse mundo misterioso cheio de criaturas e situações inesperadas, o tempo todo, tal qual a menina Dorothy de O mágico de Oz, eles tentam encontrar um caminho de volta para casa. Caramba, eu sofria muito todas às vezes que eles chegavam bem perto disso acontecer e sempre acontecia alguma coisa para atrapalhar. Sim, porque eu me lembrava daqueles pesadelos que tinha quando era pequeno onde me via perdido em algum lugar e não conseguia encontrar o caminho de casa.

A estética do desenho com seus figurinos e cenários medievais, encontra na premissa maniqueísta tão em voga naqueles tempos de trevas, o norte de cada aventura, polarizadas pelas figuras do Mestre dos Magos e O Vingador. Sempre achei que o Mestre dos Magos e O Vingador fossem a mesma pessoa, mas li depois que O Vingador era o filho errante do Mestre dos Magos e aqui nos deparamos com aquelas tragédias bíblicas do mundo Cristão. Aliás, o dragão Tiamat era a reprodução lúdica da besta 666 do livro do Apocalipse é só conferir.

Bom, li não lembro onde agora, que o jogo de RPG foi inspirado no enredo fabuloso do escritor J. R. R. Tolkien e é bem capaz. Mas enfim, não sei vocês, mas eu me identificava muito com os meninos da Caverna do dragão porque eles eram jovens na flor de suas adolescências e assim como eu você, carregados de medo, angústia, insegurança e certa arrogância juvenil que sempre nos acompanharam. Ao rever Caverna do Dragão com minhas sobrinhas, digo a elas com certo prazer esnobe: “Não fazem mais desenhos como antigamente”.

* Este texto foi escrito ao som de: Catch the Wind (Donovan – 1965)

Donovan Catch the wind

Aqui se faz aqui se paga!

Bradley Cooper e Ray Liotta: desvendando o submundo da polícia...

Cooper e Liotta: desvendando o submundo da polícia…

O canadense Ryan Gosling já faz algum tempo é o novo queridinho das adolescentes. Bom, acho mais charmoso Bradley Cooper, que às vezes descamba para bobagens como a “série” Se beber, não case! (2009), mas acerta em cheio como demonstrou na tragicomédia, O lado bom da vida (2012), cujo desempenho convincente lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

Os dois estão juntos em lados opostos do sistema no incômodo drama, O lugar onde tudo termina (The place beyond the pines), em cartaz na cidade algumas semanas. Eu se fosse você não perderia a chance de ver a fita nos cinemas pela sinceridade do roteiro. Só isso valeria o ingresso que anda salgado pacas.

Na trama dirigida de forma brilhante por Derek Cianfrance, Gosling é Luke, um autêntico outsider fã de Metallica, corpo tatuado de cima abaixo e entusiasta de motocicletas que ganha a vida no globo da morte. Um dia ele reencontra a ex-namorada (Eva Mendes) e descobre que ela escondeu dele o filho que ambos tiveram no passado. Na tentativa de reparar a ausência, ele passa ter uma nova vida, mesmo ela tendo casado com outro homem, mas percebe que para manter o padrão tem que assaltar bancos e é numa dessas tentativas que se depara com o policial Avery Cross (Bradley Cooper).

O lugar onde tudo termina 2Após um assalto malogrado que termina numa perseguição implacável Luke faz de refém uma mãe e seu filho e acaba alvejado pelo policial Cross e aqui termina a primeira parte do filme. A segunda tem início com o “policial herói” metido num turbilhão de confusão em que uma quadrilha de policiais corruptos quer aproveitar da situação, fazendo de sua vida pessoal um inferno. “Em toda a minha carreira só saquei a arma, três ou quatro vezes. Em seis meses você já despachou um e nem era negro”, ironiza o personagem de Ray Liotta, ator que tem se especializado em fazer papeis de canalhas em cinemas desde o brilhante, Os bons companheiros (1990).

Intrigas, jogos escusos de poder e imoralidades sociais, enfim, num piscar de olhos o espectador está diante do lado mais podre da corporação policial dos Estados Unidos e esqueça referências a filmes como Tropa de elite. Para piorar as coisas, Cross passa a conviver com o fantasma da culpa por ter matado o “bandido da moto” e deixado uma criança órfã, coisas de um bom cristão, pelo menos é o que achamos que ele seja.

“Esse joelho é uma mina de ouro. Um manco pode ir longe na política”, debocha o pai (Harry Yulin) crítico, um juiz aposentado que tenta colocar o filho nos trilhos novamente.

O teatro das condecorações, a demagogia dos discursos heroicos, o submundo imundo da vida policial, enfim, honesto, O lugar onde tudo termina lança um olhar pessimista e crítico sobre uma instituição que tem papel importante na sociedade. Aqui o enredo se passa nos EUA, mas essa endemia corporativista é universal. A premissa bíblica paira no ar quando todos os fantasmas e demônios do passado do policial Avery Cross voltam à tona assombrando o presente do filho, uma malinha sem alça envolvido com drogas e perversões juvenis.

Incômodo, esse drama pungente é antes de tudo um filme sobre os favorecidos e os desvalidos. E sobre o perigo dos papeis invertidos no amanhã porque o futuro, diz o dito popular, só a deus pertence. Ou seja, não se deve confiar em ninguém, nem nos mais próximos, que são os piores e no fim, tudo volta. Aqui se faz aqui se paga.

* Este texto foi escrito ao som de: Turn! Turn! Turn! (The Byrds – 1965)

Turn turn turn

E Saramandaia não saramandou…

Juca de Oliveira (esq.), o João Gibão, com o elenco da primeira versão

Juca de Oliveira (esq.), o João Gibão, em ação na versão original

Sou nostálgico de uma época que não vivi. Estranho isso, mas é a mais pura, crassa e hedionda verdade, fazer o quê. E porque digo isso? Porque estou fulo da vida, quase babando na gravata com esses pilantras de plantão que querem, insistem em pegar carona no sucesso do passado, no que já é consagrado, enfim, nos louros alheios.

Digo todos esses desaforos porque só vi o primeiro capítulo do remake de Saramandaia e não gostei. Achei moderninho demais, fake demais, over demais. Um amigo meu diz que eu sou radical, não é isso, sou pragmático e não aceito que fazem do sagrado, do perfeito festa de arroz.

Sim, porque quero que vocês imaginem se algum dia um abestado qualquer, por vaidade, por ganância, resolva fazer uma nova versão de Casablanca, um dos marcos do cinema romântico. Não vai prestar, com certeza não funcionará porque não tem como mexer no imexível. Perde-se a magia, entende?

Bom, quando a primeira versão da novela escrita pelo genial Dias Gomes surgiu, em 1976, eu nem tinha nascido. Ou melhor, nasci exatamente naquele ano. Por isso não vi a novela na época em que foi exibida. Mas de leitura, de tanto ver nos “VideoShows” da vida, pesquisando aqui e acolá, de ouvir os meus pais e seus contemporâneos falarem, passei a gostar, respeitar e venerar esse marco da teledramaturgia brasileira como algo precioso de uma época em que fazer novela ou qualquer coisa na seara cultural era mais romântico e melhor do que hoje.

saramandaia 2E, cacete, estamos falando de um texto de Dias Gomes, não é verdade? E não se mexe num texto do Dias Gomes, do contrário, fica aquela porcaria que se vê lá no horário das onze, tão falso como um discurso de político. Claro, eu sei, nós sabemos que José Mayer, Lilia Cabral, Fernanda Montenegro, Tarcísio Meira e tantos outros nomes do elenco dessa nova Saramandaia são astros respeitados da nossa televisão, mas não é sobre isso que estou falando. Estou falando sobre vilipendiar o que não pode ser mexido. De oportunismo de quinta!

Por exemplo, já imaginou outro ator vivendo o antológico Odorico Paragaçu? Nem eu, mas daí neguinho quer ganhar dinheiro à custa do passado consagrado e eis que o Guel Arraes, um sujeito que respeito muito, me tira um Marco Nanini tentando imitar o inimitável Paulo Gracindo.

Por essas e por outra que quando vi a Vera Holtz, uma atriz formidável, tentando se passar por Wilza Carla no papel de Dona Redonda, com aquela maquiagem vagabunda de Ed Murphy em O professor aloprado, sapateei que nem bailarina espanhola em frente da televisão. Será que as pessoas não têm o senso do ridículo, não?

Enfim, marcado pelo realismo mágico e personagens dotados de características exóticas, Saramandaia, na versão original de Dias Gomes, fez história, deixou saudade, ainda vive na memória daqueles que viram e daqueles que não viram a novela como eu, que amo de coração ver o João Gibão do Juca de Oliveira, sorriso largo estampado no rosto, voar pelos ares como um ser alado das fábulas gregas. Nada a ver com aquele atorzinho de meia tigela made Malhação com cara do Luan Santana.

Definitivamente essa nova Saramandaia não saramandou e ponto final. Estou pensando seriamente em fazer uma manifestação contra esse vilipendio.

* Este texto foi escrito ao som de: O romance do pavão mysterioso (Ednardo – 1974)

Ednardo

20.000 léguas submarinas (1954)

O Nautilus do capitão Nemo desafiando o sistema vigente

O Nautilus do capitão Nemo desafiando o sistema vigente

Ah, caros leitores, se é que os tenho, toda vez que leio um título como 20.000 léguas submarinas em qualquer lugar eu sinto um repicar de alegria e felicidade aqui dentro de mim. Por quê? Ora, bolas, porque tem a ver com o prazer inenarrável da leitura. Simples assim. Sim, porque poucos escritores como Júlio Verne (1828 – 1905) tinha a decência artista de escrever histórias que cativassem o público sem vaidade ou interesse financeiro escancarado, ou seja, com a preocupação meramente genuína de cativar as pessoas com suas aventuras e personagens incríveis.

Precursor do gênero ficção científica na literatura, o escritor francês é responsável, junto com Monteiro Lobato, H. G. Wells e os gibis da Disney, por meu mergulho definitivo na literatura. Não me esqueço da primeira edição de 20.000 léguas submarinas que peguei em minhas mãos. Aquele com a capa verde da coleção Clássicos da Literatura Juvenil, lançado pela Editora Abril. A tradução era de ninguém menos do que Paulo Mendes Campos. O livro estava lá, bem escondido numa estante empoeirada e negligenciada da casa de um primo meu que tem aversão aos livros e tudo relacionado à cultura. Sorte minha porque roubei na maior cara de pau o exemplar que adormece tranquilamente em minha estante mágica.

Outro dia, ao rever a primorosa adaptação dos Estúdios Disney da obra para o cinema no Telecine Cult, tive um desses processos remissivos proustianos e me lembrei dos meus tempos de descobertas literárias. Enfim, dirigido em 1954 por Richard Fleischer (Os vikings e Viagem fantástica), o filme é uma daquelas produções clássicas de ficção científica que não perdíamos de jeito nenhum quando passava na saudade Sessão da Tarde.

Na trama, um monstro marinho misterioso anda assustando os marujos em alto mar, infernizando a vida das 20 mi Leguas Submarinasautoridades em terra firme. Intrigado com os acontecimentos e motivado por curiosidade científica, o renomado professor de história natural, Pierre Aronnax (Paul Lukas), a pedido do governo, organiza uma expedição para ir à caça dessa terrível besta fera dos oceanos. Faz parte da tripulação o destemido e debochado arpoador Ned Land (Kirk Douglas), um canadense de quase dois metros de altura sedento de aventura.

Com o tempo, todos descobrem estar diante da mais incrível novidade da ciência, o submarino Nautilus, uma construção aquática criada pelo gênio da ciência mecânica Capitão Nemo (James Mason), um homem dotado tanto de inteligência e engenhosidade, quanto de rancor e despeito. “Só aqui no fundo do mar existe independência”, diz soturno. “O que você não entende é o poder do ódio”, emenda, enigmático, para espanto do professor Aronnax.

Nem precisa dizer que meu personagem predileto do livro/filme é o esquentado canadense Ned Land, mas não há como não ficar comovido com a angústia niilista do Capitão Nemo, com sua persona dúbia e sibilante entre o mal e o bem. Eterno antissocial das profundezas do mar, ele é uma alma perdida entre as dores do passado e a falta de perspectiva no amanhã.

A cena do polvo gigante é mágica se pensarmos nos imitados efeitos especiais da época. Efeitos especiais, diga-se de passagem, vencedor do Oscar junto com a Direção de Arte.

Aventura da melhor qualidade, tanto o livro quanto o filme são impregnados das mensagens humanistas de Júlio Verne que aqui fala sobre livre arbítrio, a descrença diante de um mundo de brutalidades e injustiças, mas, sobretudo na esperança de um futuro melhor. “Há esperança para o futuro. Quando o mundo estiver preparado para uma vida melhor”, desabafa nosso o sombrio Nemo.

É o que todos nós esperamos até hoje, certo?

* Este texto foi escrito ao som de: Do it Yourself (The Seahorses – 1997)

Do it yourself!

A Boca do Lixo de Hiroito de Moraes

Marginais, prostitutas e curiosos eram personagens dessa catedral do crime

Marginais, prostitutas e esquecidos sociais pelas ruas da Boca

Depois de ler sobre o discurso filosófico de arrependimento do ex-playboy, Doca Street, que nos anos 70 assassinou a socialite amante Ângela Diniz, agora mergulho de cabeça nos meandros sujos e imorais da decadente Boca do Lixo, mítico quadrilátero do paulistano bairro da Luz outrora palco de prostitutas, marginais, cineastas e personagens tortos e hediondos na vida. Parte do que um dia foi a mítica Boca do lixo, hoje se transformou na espantosa Cracolândia.

Bem, e quem me apresenta esse submundo do crime e da indecência é Hiroito de Moraes Joanides, o rei da Boca, autor do livro que dá nome ao lugar. E o exemplar eu tirei da minha estante mágica porque li uma matéria com o Daniel de Oliveira em que ele fala sobre encarnar essa famosa figura da criminalidade paulista dos anos 50 e 60.

Dirigido em 2010 e destaque no circuito dos festivais, a fita do cineasta Flavio Frederico, que eu saiba, ainda não chegou aos cinemas do país. Por isso vou antecipar a história desse famoso meliante pelas páginas do livro aqui.

Boca do Lixo 2Oriundo de uma família rica e conservadora como tantas outras naquele início dos anos 50, amante dos livros e culto, nosso anti-herói com nome de imperador entrou para o crime depois de uma tragédia pessoal que o assombraria pelo resto da vida. Acusado de participar do assassinato do pai, se viu de repente parte dos excluídos da Boca como consolo moral e dali não saiu mais.

“O crime compensa, claro, mas não para os criminosos”, diz o autor no prefácio da obra publicada pela primeira vez em 1977.

Ainda estou no começo do livro onde Hiroito, morto em 1992, conta como se deu sua entrada para a Boca e detalha a partir de uma narrativa rebuscada, mas profunda no que diz a elementos históricos e antropológicos, o surgimento do lugar, seu ápice e decadência.

“Gerado pelo sêmen da injustiça, após o longo e feio parto, emergia do ventre da cidade grande, o odiado e odiento filho, a Boca do Lixo, o Quadrilátero do Pecado”, escreve no primeiro capítulo do livro lançado pela editora Labortexto Editorial.

É saborosa a descrição que ele faz de seus comparsas, num relato minucioso tanto do aspecto físico quanto da psicologia que adorna cada um. Sobre o meliante Cangaceiro descreve assim: “Nortista atarracado e de gestos e andar desengonçados, que em muito lembrava um gorila, com enorme, larga e assustadora cicatriz numa das faces, era um imenso depósito de ignorância violência”.

O texto bem estruturado, embora cheio de floreios, foi afiado na cadeia, numa das 170 vezes em que ficou detido e onde lia de Victor Hugo a Baudelaire, passando por Hemingway e Jack London. Claro, a narrativa do cinema jamais sobrepõe a magia da literatura, mas estou curioso para ver essa adaptação do livro para o cinema. Espero que chegue logo por aqui.

* Este texto foi escrito ao som de: Electric Warrior (T. Rex – 1971)

Electric Warrior

A pequena loja dos horrores (1960)

O apatetado Seymour apresentando seu animalzinho carnívoro a convidados

O apatetado Seymour adulando seu “animalzinho” carnívoro 

Roger Corman é diretor de obras clássicas do terror nos anos 60 como A mansão do terror (1961), A torre de Londres (1962), O Castelo assombrado (1963) e O corvo (1963), entre outras, todas tendo como protagonista um dos ícones do gênero, Vincent Price. Também foi graças a Corman que astros como Robert De Niro e Jack Nicholson entraram pela porta da frente de Hollywood, esse último numa ponta em A pequena loja de horrores (1960) que vi recentemente.

Aliás, quando vi o DVD na loja outro dia nem me lembrei de tudo isso que escrevi logo acima. O que me motivou a comprar o artefato foi justamente o sorriso simpático e charmoso de Jack Nicholson na capa. Mas fui enganado porque sua presença no filme se resume a pouco menos de dez minutos, na pele de um paciente abobado de um dentista sádico comedor de plantas.

A estrela da fita é Jonathan Haze (alguém aí sabem quem é o cara?), que encarna o apatetado balconista de uma floricultura chamado Seymour Krelboyne. (Aliás, quase todos os personagens do filme são meio debiloides). Ele vive ainda embaixo das asas da mãe e sonha em conquistar a garota dos sonhos, mas enquanto isso não acontece, vai Lojas de horroresvendendo flores para colegiais apaixonadas e velhotas choronas. Um dos curiosos hábitos do tranquilo e tímido jovem é alimentar uma pequena planta carnívora que chegou por acaso num carregamento. Com o tempo ele descobre que a inofensiva plantinha gosta é de comer carne humana suculentas de sangue. Para saciar sua amiguinha que vai crescendo dia a dia, todas as noites ele saí à cata de petiscos humanos até se encrencar de verdade com a polícia.

Clássica comédia de humor negro, o filme foi realizado em apenas três dias só porque o diretor Roger Corman cismou que isso era possível e conseguiu. Apesar da aura tosca e de fracas atuações de alguns atores que não vingaram na história do cinema, a fita tem sua importância.

Confesso que esperava mais do filme e, sobretudo, de Jack Nicholson, que ainda era um rosto buscando o seu lugar ao sol. De qualquer forma, A pequena loja dos horrores é uma referência no cinema de horror e rendeu pelo menos uma versão elogiada na Broadway, além de segunda versão nas telonas nos anos 80 tendo no elenco comediantes estrelas da época como Rick Moranis, Steve Martin, James Belushi, John Candy e Bill Murray.

* Este texto foi escrito ao som de: Fun house (The Stooges – 1970)

Fun house

Jukebox Sentimental – Duchess

Scott Walker é autor de letras enigmática e romantismo sofisticado

Scott Walker é autor de letras enigmática e romantismo sofisticado

A garota dos meus sonhos tem um sorriso mágico e duas pintas em cada canto da boca. Cabelos negros esvoaçantes e pele alva como a Sibéria russa. E ela é de uma doçura angelical, com sua beleza de bonequinha de luxo. Isso mesmo, minha garota dos sonhos tem a beleza feérica de uma Audrey Hepburn dos clássicos do cinema só que com uma diferença. Ela é real, verdadeira em sua majestade natural e autêntica. Ela é a duquesa das minhas utopias amorosas.

Sim, ela se parece com uma daquelas personagens das fitas da nouvelle vague, talvez com uma pintura renascentista de Rembrandt (1606 – 1669), e essa imagem quase plástica, diria que cinematográfica, não fui eu quem desenhou, mas o cantor norte-americano Scott Walker, na balada vitoriana, Duchess, cujos versos “It’s your bicycle Bells and you Rembrandt swells”, eu não consegui encontrar uma tradução à altura.

Cantor norte-americano de voz de Barítono, Scott Walker, com seu visual de galã mais parecia um astro de Hollywood. Começou a carreira na música como um dos integrantes dos The Walker Brothers, mas o sucesso como cantor e compositor viria mesmo com a carreira solo em 1967. O ápice dessa fase é o álbum Scott 4, gravado em 1969, com várias canções que adoro como Get behind me, World’s strongest man e Duchess, que traz uma letra nebulosa e enigmática em torno de uma mulher da nobreza que “tem o mar persa correndo em suas veias”.

Admirado por artistas como David Bowie e os integrantes do Radiohead, o texano Walker, que sempre optava por arranjos de cordas suntuosos em suas canções, é uma referência afetiva em minha estante mágica graça ao seu romantismo sofisticado. Quando me lembro da minha garota dos sonhos com seu sorriso de fábula idílica e blusa azul clara me vem à cabeça as canções desse bardo e Duchess é o símbolo desse meu amor inatingível. “Acenda suas velas para mim/Coloque todo o seu amor de volta em mim”, diz o refrão, com súplica refinada.

Outro dia, com a delicadeza de uma Lady, minha estrela da manhã e da noite me convidou para um café.  Fiquei tão surpreso pelo convite que quase cai das nuvens. Duvido que de fato eu algum dia sente na mesa de um café para contemplar de perto, face to face, a beleza meiga da garota dos meus sonhos. Mas se um dia isso acontecer, será como se eu estivesse falando com os deuses no paraíso do amor. “Duquesa, Duquesa, acenda as velas para mim…”.

* Este texto foi escrito ao som de: Scott 4 (Scott Walker – 1969)

Scott 4

Os 50 anos do Boi do seu Teodoro!

Guardião do bumba-meu-boi em Brasília há cinco décadas

Guardião do bumba-meu-boi em Brasília há cinco décadas

Assim como Ariano Suassuna, o maranhense Teodoro Freire, o nosso Seu Teodoro, era um apaixonado pelo Brasil, pela cultura popular brasileira, pela identidade genuína do nosso povo. Tanto que nem tomava Coca-cola. O único refrigerante que bebia era o rosado Jesus e não apenas porque era fabricado no querido Maranhão. Pois bem, no dia em que a fábrica norte-americana passou a produzir o líquido cor-de-rosa não bebeu mais.

Um dos pioneiros na construção de Brasília, quando aqui chegou no início dos anos 60, ele sentiu que faltava alguma coisa quando a saudade da terra natal apertava o peito e não deu outra. Três anos depois já estava brincado com o Bumba-Meu-Boi que aprendeu a gostar ainda menino, no Planalto Central e, em dezembro daquele ano, criaria o Centro de Tradições de Sobradinho. Pronto, nascia assim o tradicional Boi de seu Teodoro que este ano completa 50 anos de estrada.

“O boi é sagrado”, dizia com paixão devotada.

Falecido em 2012, aos 91 anos, Seu Teodoro, um flamenguista empedernido é um dos símbolos da cultura popular de Brasília e até amanhã uma grande festa em Sobradinho, lá na famosa quadra 15, Área Especial, número 2, da cidade, com inúmeras atrações que exaltam a força do regionalismo brasileiro irá movimentar o espaço. “Essa festa acontece há 50 anos aqui, mas é a segunda vez que realiza com esse tamanho”, explicou a neta, Aline Freire.

Bom, fui lá conferi essa história do Boi do seu Teodoro e me encantei. Já o tinha entrevistado certa vez, não sei se por Seu Teodoro 2conta do filme que fizeram sobre ele que seria exibido no Festival de Brasília ou porque ele seria homenageado pelo presidente Lula, não me lembro agora. O fato é que nunca tinha visto de perto a dança do boi do Maranhão e confesso que fiquei arrepiado em ouvir os batuques dos zabumbas e o tic-tac contagiante das matracas ensurdecedoras. E não tem como não ficar deslumbrado com o colorido da festa, com os figurinos brilhantes e contagiantes.

A cultura do boi é forte no Norte e Nordeste. Lembro-me de ter visto o duelo do Boi Azul contra o Boi Vermelho numa arena cheia de fanáticos em Manaus, algo insano, fanatismo quase futebolístico. O bumba-meu-boi do Maranhão é um pouco diferente até no nome já que no Norte o conhecemos como Boi-bumbá.

Enfim, pelo o que eu entendi a lenda gira em torno da ressurreição do boi que morreu para atender o desejo de uma negra fogosa que sentiu desejo de comer a língua do bichano. Folclore à parte, o fato é que a música é bastante envolvente, rica de personagens brincalhões e irreverentes. No fundo, todos esses elementos surgem de uma maneira ou de outra como a mais forte e genuína expressão da eclética cultura popular brasileira, cada vez mais sufocada pelo colonialismo estrangeiro que tanto adoramos.

É por essas e outras que viva o Boi do seu Teodoro e os seus 50 anos!

* Este texto foi escrito ao som de: Berra-boi (Quinteto violado – 1973)

Berra-boi

Minha mãe é uma peça

O ator é uma das grandes revelações do humor contemporâneo

O ator é uma das grandes revelações do humor contemporâneo

Com certeza você já deve ter visto o comediante Paulo Gustavo algumas vezes no Multishow, mas duvido que saiba distinguir a figura do nome. Agora não vale porque estou falando, mas ele é aquele ator careca que adora aparecer em cena vestido de mulher ou transmutado em personagens afetados em alguns seriados do canal a cabo, lembrou? Se não lembrou então vá ao cinema e confira a comédia pastelão Minha mãe é uma peça, que estreia a partir de hoje em circuito nacional.

Escrito pelo ator a quatro mãos junto com Fil Braz, o filme é adaptação da peça homônima de sucesso em cartaz alguns anos no Rio de Janeiro. Uma das revelações do contemporâneo humor brasileiro, o artista aqui encarna sua personagem mais marcante, a estridente e histérica Dona Hermínia, uma dona de casa com os nervos à flor da pele que, todos os dias, trava uma guerra com os filhos e o ex-marido (Herson Capri) no duro ofício do lar.

“O que essa menina come é um contêiner”, diz irada ao ver a filha caçula comer e se comportar como um paquiderme.

Um dia, ao despachar os monstrinhos já adolescentes para um tarde de lazer com o pai, sem querer ela ouve uma conversa deles a criticando e ridicularizando pelas chatices, maluquices, crises de nervos e exageros. Indignada, aos prantos revolve passar uns tempos na casa de uma tia do outro lado de Niterói, onde todos vivem. “Eu sofri ameaça desde que me entendo por gente, ela sempre dizia que ia sumir ou vender o apartamento”, confessa o ator numa Minha mãe é uma peça 2entrevista falando sobre o filme em seu próprio site.

Inspirado na própria mãe do ator, Dona Hermínia é a típica mãe classe média suburbana que conhecemos em nosso círculo familiar ou na vizinhança. Desbocada, barraqueira, mal vestida e mal humorada, ela cria os filhos com muito zelo, mas sem elegância nenhuma. Bobes e lenço na cabeça, vestido estampado, ela é a antítese da deselegância. “Fiz com o dedo, não é, Carlos Alberto…”, provoca ao rebater o ex- marido que tenta jogar para cima dela a culpa sobre os desleixos dos filhos.

Uma maçaroca de piadas, situações grotescas e nonsense, Minha mãe é uma peça não é, digamos assim, uma oitava maravilha do mundo da sétima arte, mas é garantia de boa diversão porque o sujeito que vai ver o filme não para de rir um minuto. Cada frase surge na fita como piada pronta, pode ser ela de mau gosto, gratuita ou pseudointeligente. Aliás, politicamente incorreto, o humor debochado de Paulo Gustavo não poupa gordos, gays, dondocas peruas, adeptos do candomblé ou velhos à beira da invalidez.

Confesso que essa comédia não era o filme dos meus sonhos para resenhar aqui, mas me diverti muito com a fita e não pior das hipóteses Minha mãe é uma peça é garantia de diversão e gargalhadas de montão. Prepare-se para segurar o queixo.

* Este texto foi escrito ao som de: Brazilian octopus (1970)

Brazilian Octopus [1969 Fermata]