A volta do nosferatu Arruda

Como um vampiro, Arruda tem muitas vidas, faces e sortilégios...

Como um vampiro, Arruda tem muitas vidas, faces e sortilégios…

Incrível o fenômeno José Roberto Arruda. Mais incrível ainda é a credibilidade que ele tem perante o povo, depois de tudo o que aprontou e aconteceu no passado. Uma prova mais do que concreta de que a política em Brasília anda mal, completamente esculhambada. Eu sei, ele não foi, nem será o único, porque político é tudo igual e até aposto que muitos outros peixes grandes eram para ter sido pegos na mesma rede em que ele caiu, mas nada explica os 32% dos votos aferidos, ontem, pela pesquisa Ibope a um sujeito que sabemos, não tem moral para votar ao poder. Eis aí um caso de estudo seriíssimo pela psicanálise, ciências sociais, filosofia e até bruxaria.

Bem, nosferatu é uma palavra de origem romena que é usada como sinônimo para vampirismo. Até pela careca lustrosa e sede não de sangue, mas de poder que ele não esconde em ter, Arruda é o nosso vampiro da política no Distrito Federal. Assim como o personagem inspirado na trama de Bram Stoker, tem muitas vidas, faces e sortilégios.

Ele saiu da lama do ostracismo para cair nos braços do povo. Comparando mal e, porcamente, lembra o Getúlio Vargas que saiu de seu primeiro mandando como ditador para voltar como o pai dos pobres. Mas são duas figuras políticas bem diferentes, em situações políticas e de vida diferentes, de modo que o paralelo aqui fique apenas no fato episódico.

O que estou tentando dizer e até agora e não saiu nada é o seguinte. Arruda não é um desses Charge eleiçõespolíticos molambentos que estamos acostumados a ver na política brasileira e, sobretudo, local. Não é tosco que nem o Joaquim Roriz, muito menos bronco como o Alberto Fraga, nada radical como o Toninho PSol e  nem um pouco autista como o Agnelo que, de tão incompetente e negligente que é, deu abertura para que essa situação acontecesse. Ou seja, fez um governo tão pé de chinelo e desacreditado que o povo quer de volta até mesmo um ficha suja no poder.

Arruda é um cara sedutor, que tem um carisma singular e sabe tirar proveito dessa qualidade. Nunca escondeu de ninguém sua admiração pelo presidente JK e, tal qual o conterrâneo mineiro, gosta e se mistura com habilidade de raposa velha no meio do povo, sabe tratar de igual para igual o seu Zé do cafezinho, como o mais abonado dos empresários. Essa pose de humilde que ele anda apresentando na corrida ao Palácio do Buriti é um estratagema eficiente e que tem funcionado entre os mais carentes. Só não sei até quando ele vai sustentar essa máscara.

De qualquer forma, Arruda é político culto, coisa rara entre seus pares, e tem paixão pelos livros, já foi visto, inclusive, várias vezes comprando títulos em sebos, um deles, no Sebinho da Asa Norte, onde, certa vez, arrematou quase R$ 1 mil reais em livros entre obras de Machado de Assis e Jorge Amado.

É por essas e outras que acho até bom e interessante que ele esteja na briga pelo governo do Distrito Federal, inclusive para dar uma esquentada nesse clima morno que anda a política local, disputando o segundo turno com o Rollemberg. Mas que o último vença, porque seria uma piada de mal gosto o Arruda de volta ao poder.

* Este texto foi escrito ao som de: Cabeça dinossauro ao vivo (Titãs – 2012)

 

Cabeça dinossauro 2

Forrest Gump (1994)

“Mamãe sempre diz que a vida é uma caixa de bombons. Você nunca sabe o que vai encontrar dentro”, filosofa.

“A vida é uma caixa de bombons. Você nunca sabe o que vai encontrar dentro”, filosofa.

“Corre, Gump, corre!”, essa é a frase bordão do drama de comédia, Forrest Gump, filme de Robert Zemeckis de 1994, vencedor de seis estatuetas, inclusive melhor filme e ator para Tom Hanks. Lembro que na época de seu lançamento, o Arnaldo Jabor ficou fulo de raiva com o filme porque, na visão dele, o longa contava 30 anos da história americana pela ótica de um débil mental.

Bom, gosto muito do Arnaldo Jabor, mas não é bem assim. Na lógica humanista e até romântica do diretor, Forrest Gump é, em minha opinião, a história das últimas três décadas da sociedade americana pela visão de um sujeito sem maldades no coração, uma pessoa altruísta que olha para frente apenas para fazer o bem ao próximo. Essa é, para mim, a essência do filme que, de tão simples e óbvia, parece passar despercebida aos olhos de boa parte do espectador e crítico.

Mas caso você tenha dúvidas quanto à proposta da fita, um bom tira-tema é rever, 20 anos depois, esse trabalho com cópia restaurada nas salas do Cinemark Pier 21 e do Shopping Iguatemi. Hoje tem sessão nos dois cinemas às 19h30. Bem bacana esse projeto de revival de grandes sucessos das telonas, mas acho que deveriam privilegiar mais fitas mais antigas e estou me referindo aos clássicos dos clássicos.

Na trama, Forrest Gump é um menino meio autista do Alabama que vê a vida de uma forma bem particular: com o coração. A ingenuidade em que ele encara e lida com as coisas mais ruidosas que passam ao seu cerco é até comovente. Ele é apaixonado desde a infância pela jovem Jenn (Robin Wright Penn) e carregará esse amor não correspondido e platônico por ela até o final da história. Mesmo quando ela, egoísta e mundana, troca sua bela amizade da infância pelas sujeiras do outro lado escuro do destino.

E com esse jeitão desligado, low profile de levar as coisas, mesmo sem querer, sem perceber, eleforrest_gump_widescreen_by_sebi91-d3546qd acaba participando como coadjuvante de luxo de grandes acontecimentos da América. Desde o assassinato de JFK, a luta dos negros contra o racismo, passando pela guerra do Vietnã e o surgimento implacável da AIDS, doença que o afetará de forma cruel.

“Mamãe sempre diz que a vida é uma caixa de bombons. Você nunca sabe o que vai encontrar dentro”, filosofa.

O filme é baseado no livro homônimo de Winston Groom escrito em 1986 e confesso que foi a primeira vez que vi um filme, cuja adaptação, foi melhor do que o título original. No livro, me incomodaram algumas passagens surrealistas, como a amizade de Forrest com um Orangotango que acaba indo para Lua.

Não li nada sobre isso, mas tenho impressão que Robert Zemeckis se inspirou em Zelig, do mestre Woody Allen para desenvolver algumas passagens históricas, como aquela divertida em que ele aperta a mão de Kennedy, sem se dar conta de estar diante de uma lenda da política mundial.

Com uma trilha sonora formidável e atuação divertidíssima de Tom Hanks, Forrest Gump guarda alguns momentos mágicos. Como aquele em que Forrest desembesta a correr sem parar rumo ao nada, levando um séquito de curiosos, deslumbrados e desocupados em seu encalço. De repente, ele para e um clima de suspense corta o ar:

– Ele vai falar, ele vai falar!, grita alguém.

Após um silêncio sepulcral ele apenas diz:

– Preciso voltar para casa.

Qualquer coisa sobre esse bando de gente que sempre vive bajulando, seguindo e defendo falsos líderes, sem bem saber direito, é bobagem.

* Este texto foi escrito ao som de: In my own time (Karen Dalton – 1971)

Karen Dalton

O espetáculo da solidão

- Conheço muita garota que é amarradona “no seu jeito de lidar”...

– Conheço muita garota que é amarradona “no seu jeito de lidar”…

– Mas diga, aí, por que até hoje você nunca se casou?

– Véi, “eu não divido o espetáculo da minha solidão com ninguém”!

– Iiiiihh, já vem você com essas frases de efeito…

– E daí, se elas falam o que eu quero dizer…

– É Woody Allen?

– Não, Domingos de Oliveira…

– Hein?!

– Deixa pra lá!

– Deixa pra lá, nada! Você tá aí dando volta, me enrolando e até agora não respondeu…

– Não respondeu o quê, cara!

– Porque você ainda não casou!

– Ah, sei lá, deve ser porque eu gosto muito de mim, sou um sujeito egoísta pacas. De mais a mais, não sou um sujeito fácil de lidar, nem eu me agüento!!

– Conheço muita garota que é amarradona “no seu jeito de lidar”.

– É? Tem louco pra tudo…

Solidão - Charge– Você é de amargar, viu.

– Foi você quem começou.

– Casamento é coisa boa,

– Mas não é mesmo, casamento é prisão, é administrar a vida alheia, o inferno dos outros. Aliás, não foi o Sartre quem disse que “O inferno são os outros”?

– Não sei se foi ele quem disse, mas é um inferno tolerar esse seu radicalismo…

– Radicalismo uma pinóia, se casamento fosse bom não tinha esse tanto de casal se separando, conheço um monte de gente que não durou dois anos…

– Ah, separa é porque não deu certo, ué!

– Não disse. O negócio é o seguinte meu chapa: a vida deveria ser um eterno namoro, a gente deveria namorar para sempre, não deveria deixar de namorar, nunca. A desgraça do homem é o casamento. O sujeito casa e vira um bozó, um escravo do lá. A mulher casa e se transforma numa chata controladora… é batata, espeto! Sabe o que é romântico? A fuga dos amantes…

– Ih, andou vendo aqueles filmes, né?

– Ah, aqueles filmes chatos em preto em branco que você gosta de ver…

– Mas tu és uma besta mesmo, viu, de dar patadas rutilantes no asfalto…

– Mas é verdade, sô…

– Verdade uma pinóia ô cacete, verdade uma pinóia! Um dia uma guria me disse que eu deveria arrumar uma namorada, que andava vendo filmes românticos demais… Coitada, será que ela não percebeu que a vida nada mais é do que um filme, que uma obra de arte é uma reprodução distorcida da realidade…

– E porque você não disse isso para ela?

– Porque ela é a mulher da minha vida…

– Xiiii…

* Este texto foi escrito ao som de: The Best of Bread (Bread – 1973)

Bread

Rede de intrigas (1976)

No filme Peter Finch é um âncora de TV que surta ao vivo

No filme, Peter Finch é um âncora de TV que surta com o sistema ao vivo

A montanha dos sete abutres (1951), A embriaguez do sucesso (1957), Blow-up – Depois daquele beijo (1966), A primeira página (1974), Todos os homens do presidente (1976), O informante (2007), enfim, títulos de filmes sobre jornalismo que um dia você, que é do ramo, já viu e se não viu, com certeza terá que ver. Contudo, mesmo que o melhor de todos seja a obra-prima, Cidadão Kane (1941) – o brilhante filme de estreia de Orson Welles -, não se esqueça de incluir na sua lista a sátira, Rede de intrigas (1976), do mestre Sidney Lumet, exibido outro dia no Telecine Cult. O filme foi realizado no ano em que nasci, quando, que eu me lembre, nem sonhava em ser jornalista.

No roteiro vencedor do Oscar escrito por Paddy Chayefsky, Peter Finch é um âncora de televisão que surta ao vivo no horário nobre depois de ficar sabendo que será demitido por estar obsoleto demais para a profissão. O desabafo irresponsável do jornalista veterano em rede nacional pega mal, criando uma onda de mal-estar nos bastidores da empresa, mas alguns diretores percebem que a polêmica rendeu pontos na audiência da emissora.

Quando Howard Beal é recrutado novamente para se retratar e sair de cena com dignidade, mais uma vez solta o verbo, se transformando, da noite para o dia, numa espécie de profeta dos últimos dias expressando a raiva popular e é quando seu showzinho particular começa a render lucros para o grupo jornalístico endividado. “Não somos uma rede responsável. Somos um bordel”, diz um dos diretores sem medir escrúpulos, vivido pelo ótimo Robert Duvall. “Qual o problema de ser um profeta irado denunciando as hipocrisias do nosso tempo?”, brinca Beal, tirando proveito da situação.Rede de intrigas 2

Enquanto isso, nos bastidores desse drama jornalístico, a ambiciosa executiva Diana Christensen (Faye Dunaway) é uma mulher fria na cama, mas que tem orgasmos com cifras e audiência. Daí o flerte barato para cima do experiente jornalista Max, William Holden, em um de seus últimos papéis. É quando a fantasia da feira de entretenimentos que é a televisão ganha a vida real nos dramas e percalços de uma relação afetiva que já nasceu morta, com traumas familiares e egos inflados em frangalhos.

“Tudo o que você toca morre”, lamenta Max, impiedosamente, à amante.

Diretor experiente, inteligente, é claro que Lumet e o roteirista Paddy Chayefsky tiveram o cuidado de dar um tom farsesco à passagem do jornalista surtado, até porque sabemos muito bem que seria impossível um William Bonner da vida surtar na bancada do jornal nacional e continuar com tais asneiras no dia seguinte. Mesmo assim, algumas cenas do filme, com todo o surrealismo que lhe cabe, soam fake diante dos olhos dos espectadores, como a da turba ignara gritando o bordão lançado por Beal em sua cruzada anti-hipocrisia.

“Estou louco de raiva e não vou tolerar mais isso!”.

Se no conjunto Rede de intriga peca por não dosar na mesma medida a fábula e o realismo, ganha pela ótima direção de atores de Lumet. Lembrando o pastor manipulador vivido por Burt Lancaster em Entre deus e o pecado (1960), Peter Finch está estupendo em cena, tanto que abiscoitou o Oscar de melhor ator. Veterano da era de ouro de Hollywood, William Holden é um poço de charme com sua interpretação segura na pele de um jornalista das antigas.

Diretor que começou à carreira na televisão numa época em que tudo era ao vivo, Sidney Lumet teve a chance aqui de vomitar num trabalho contundente, todos os jogos sujos do mundo do jornalismo, um segmento que, para quem é de dentro, sabe que é feito por putinhas bajuladoras de poderosos e executivos-príncipes que não sabem a diferença entre o choque de um trem com uma bicicleta e o colapso da humanidade. Mais do que com a notícia, essa turma está preocupada com lucros.

* Este texto foi escrito ao som de: Odelay (Beck – 1996)

Odelay

Diretores – Pier Paolo Pasolini

Pasolini e Anna Magnani nos bastidores de Mama Roma

Pier Paolo Pasolini e Anna Magnani nos bastidores de Mama Roma, filme de 1962

Pasolini era um pervertido do cinema. E isso não tinha nada a ver com sua condição de homossexual assumido. Não mesmo. Antes de tudo, esse artista italiano controverso e polêmico era um intelectual moralista que confrontava, impiedosamente, a sociedade hipócrita de seu tempo, na mesma medida em que lançava um olhar crítico sobre a estrutura política de seu país, assim como no Brasil, uma das mais atrasadas do mundo. Culto, antes de se enveredar pelos caminhos do cinema fora poeta e escritor, professor acadêmico, além de flertar com o partido comunista.

Pertencente a turba de artistas que, no final dos anos 50 e início dos anos 60 brindou os amantes da sétima arte com o neo-realismo italiano, assim como seus colegas, Fellini, Visconti, Antonioni, Pasolini radicalizou o gênero com um estilo próprio em que prevalecia o canto poético, o discurso político, o conflito entre a herança mística e a tendência socialista de seus roteiros. Solidificou assim as bases do cinema de poesia que pegou de surpresa, por exemplo, o baiano Glauber Rocha, que mergulhou as obras de sua segunda e mais hermética fase, em poesias visuais.

Eu nem sabia que existia o Liberty Mall, quando fui lá para assistir, nos meus tempos de faculdade, Saló, ou os 120 dias de Sodoma. Mesmo com as pré-leituras sobre o último filme de Pasolini, lembro que saí da sessão com um sentimento de asco. O tempo me deu régua e compasso para compreender que, dentro daquela narrativa escatológica, o diretor estava mais do que coberto de razão. Era sua visão decadente e suja da política italiana, num espelho deprimente da política universal.

salóTop Five – Pier Paolo Pasolini

Saló, ou os 120 dias de Sodoma (1975) – Me introduzir no universo pasoliniano pelo seu último trabalho e foi uma experiência traumatizante. Saí da sessão, horrorizado, mas a experiência e maturidade me deram subsídios para entender a poderosa e bizarra metáfora do diretor para a política dos dias atuais, pegando como prisma o fascismo de Mussolini. O diretor morreria brutalmente assassinado, meses antes de terminar a fita.

Accatone – Desajuste social (1961) – Estreia do intelectual Pasolini atrás das câmeras, o filme apresenta herança do cinema neo-realista, corrente que marcaria a sua geração de cineastas. Trabalhando com atores amadores, uma de suas características, trás à baila aqui a simplicidade do cotidiano com suas ruas cheias de verdade, onde homens comuns transitam pelos bairros populares da vida.

Teorema (1968) – O mais polêmico e pervertido dos projetos do diretor, a fita é uma afronta à instituição família, aonde um misterioso sujeito vindo de lugar nenhum, muda para sempre a vida de todos, corrompendo a moral de todos na casa de um rico industrial.

Mamma Roma (1962) – Ainda bebendo no neo-realismo, o cineasta chocou os puritanos com a história da prostitua Mamma Roma, Anna Magnani em atuação soberba. Ela cansou de doar seu corpo e alma aos asquerosos homens que a procuram e agora quer mudar de vida e classe social, mas o preconceito e falso moralistas que o cercam irão minar o seu sonho.

Medéia (1969) – Apaixonado por histórias clássicas, Pasolini revisita o mito de Medéia tendo no papel-título a diva da ópera, Maria Callas. Quando vi a fita pela primeira vez odiei, por conta da narrativa não linear e espasmo poéticos do diretor. Hoje o filme desce fácil.

* Este texto foi escrito ao som de: El toro (Suíte Super Luxo – 2004)

El toro

Assassinou os dois filhos e se matou

Chico Buarque e Paulo Pontes, autores da peça "Gota d'água", num tête-à-tête...

Chico Buarque e Paulo Pontes, autores da peça “Gota d’água”, num tête-à-tête…

Que eu me lembre, Gota d’água é a primeira peça de Chico Buarque que li até agora. E admito que, no começo, não gostei da narrativa, toda escrita em versos. Bom, ainda não li o texto até o fim, nem cheguei à passagem macabra que ilustra o título deste post, que só escolhi para chamar atenção, mas agora que vou lá pela metade do livro, já me acostumei com o tom lírico da prosa. E quer saber, foi uma engenharia “filédaputa”, escrever uma peça toda rimada. Coisas de Chico Buarque e seus parceiros infernais.

Dividida em dois atos, a peça, escrita em 1975 por Chico Buarque a quatro mãos com Paulo Pontes, é uma tragédia carioca suburbana inspirado numa adaptação moderna de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, para a televisão, da tragédia clássica Medéia. O texto original é de Eurípedes.

Conta a história de Jasão e o seu dilema moral depois que este conseguiu emplacar nas rádios, um samba melancólico que dá título à história. Ele estava envolvido com Joana, uma mulher simples da favela com quem teve dois pequenos, mas agora está virado, deslumbrado pela mimada Alma, filha de Creonte, o poderoso empresário imobiliário que é dono de um conjunto habitacional em que moram quase todos os personagens da trama.

O drama é que a maioria deles estão pendurados com o inescrupuloso proprietário das casas e o maldito sujeito está usando o pobre do Jasão para impedir de levar calote no seu negócio. “Não leve a mal seu Creonte, mas eu tenho outra solução, outra trilha para contornar o problema…”, tenta sair pela tangente nosso herói romântico, quando seu futuro sogro tenta jogá-lo contra seus amigos da favela. “Ela é dada a macumba, estou sabendo, tem gênio de cobra, pode criar problema e eu estou só me precavendo”, diz o velho canalha, botando fogo na situação a citar a ex-mulher do genro.Gota d´água 2

Não há como deixar de perceber o tom socialista da peça, o que causou, claro, sérios problemas com a censura, mas Paulo Pontes, co-autor de Gota d’água, tal qual seus personagens, soube contornar a situação obscura da realidade, driblando os censores com habilidade e tornando o texto um grande sucesso nacional. Maroto, Chico Buarque defendeu a classe reivindicando os direitos autorais na boca de seu alter ego, Jasão. “Tem problema com arrecadação, mas já tá provado que o nosso som tem força no mercado”, reclama.

Logo de cara, me chamou atenção, a força do personagem Creonte, vivido na montagem carioca pelo formidável ator Oswaldo Loureiro. Toda vez que leio a palavra, “rapaz”, dos seus diálogos, me lembro de suas atuações no cinema e na televisão. Malandro egoísta, mercenário e oportunista, ele não admite a hipótese de levar calote de um bando de miseráveis favelados. Mas não quer dar sua cara a tapa.

“Não queira sair por aí dizendo o que pensa”, diz ele ensinado as regras da vida ao futuro genro Jasão. “Diga o contrário, esqueça o nome de seu companheiro e cumprimente o pior salafrário, que ninguém é inútil por inteiro”, continua com sua filosofia de vida.

Bom, até onde estou ninguém matou os filhos e se suicidou, mas a história já está eletrizante o suficiente.

* Este texto foi escrito ao som de: Chico Buarque de Hollanda N. 4 (1970)

Chico 4.2

Metrópolis (1927)

Uma cena marcante do filme de Fritz Lang que você pode ver colorido em Blade Runner

Uma cena marcante do filme de Fritz Lang que você pode ver colorida em Blade Runner

Provavelmente as últimas palavras ditas pelo cineasta Fritz Lang, antes de morrer, foram: “menos luz”. E não por que ele talvez tenha sido o criador do gênero noir no cinema, mas também por conta de sua visão amarga da vida diluída em filmes densos e escuros, moralmente escuros. Também pudera. Poucos artistas viveram e viram o que esse austríaco de Viena vivenciou e viu ao logo de 85 anos de vida. Ou seja, sua carapaça dura de prussiano passou por duas guerras mundiais – na primeira delas perdeu um dos olhos – a ascensão e queda do nazismo e o exílio nos Estados Unidos, onde realizou quase 30 filmes de uma filmografia de 43 títulos.

Fora isso, foi um dos pioneiros do cinema, sendo um dos mais importantes representantes do expressionismo alemão, período em que realizou não apenas sua obra-prima, mas o marco da ficção científica Metrópolis, que está em cartaz em Brasília dentro da mostra Fritz Lang – O horror está no horizonte. Até 27 de agosto, cinéfilos poderão conferir o poderoso cinema de um autor que imprimiu nas telas as angústias e vivências de uma época marcada por acontecimentos trágicos. Mais do que nunca Fritz Lang foi um homem do seu tempo e fez filmes que dessem vazão a essa observação.

Fritz LangUm dos últimos e mais fascinantes trabalhos realizados na fase do cinema mudo, Metrópolis, até hoje, quase 90 anos depois de sua estreia, espanta pelo visual forte, marcante e imponente. Agora imagina na época em que o filme foi lançado. E muito desse visual exuberante e grandiloquente da fita encontra resposta na formação de arquiteto e artista plástico do cineasta. Bem, reza a lenda que Adolf Hitler gostou tanto do que viu nas telas que, imediatamente, ordenou que o seu ministro da Propaganda Joseph Goebbels o convidasse para produzir filmes para o 3º Reich. Fritz achou a proposta imoral e fugiu para França assim que saiu da reunião com o ministro nazista.

“Enquanto ele falava, eu dava voltas à imaginação para descobrir como faria para tira o meu dinheiro do banco, arrumar minhas coisas e fugir do país”, lembraria anos depois. “Fui direto para casa, fiz a mala e deixei em Berlim todas as minhas economias”, lamentaria.

A exibição no Cine Brasília, ontem (24), foi especial, já que a cópia exibida, vinda direto da Fundação Murnau (Alemanha), era a original, ou seja, aquela com os seus 160 minutos de duração. Fora isso, a sessão lotada, com gente escorrendo pelas paredes, pingando dos lustres, contou com a performance ao vivo da banda instrumental brasiliense, Passo Largo, fazendo a trilha do filme.

E por que até hoje esse épico futurista do mestre Fritz Lang causa impacto e é cultuado? Ora bolas, porque foi uma obra original e visionária em seu tempo, influenciando a estética visual em vários segmentos, servindo de parâmetro, sobretudo, claro, para o cinema. Basta só conferir dois clássicos que beberam na fonte: Tempos modernos (1936), de Chaplin, ao icônico, Blade runner, de Ridley Scott.

Difícil não bater o olho nos trejeitos robóticos dos meninos da banda alemã, Kraftwerk, e não se lembrar da mulher-máquina do filme, que talvez a roteirista Thea von Harbou (então esposa do diretor) tenha se inspirado no Frankenstein de Mary Shelley.

Com um enredo simplista e até ingênuo que gira em torno de tema universal e bastante em voga na época, a luta entre injustiçados e opressores, Metrópolis também tem o mérito de ter antecipado, em décadas, o flagelo entre homem e máquina. Homem e o concreto das cidades. Homem e a falta de humanismo.

“Entre as mãos e o cérebro tem que ter o coração”, prega o filho do magnata que controla a cidade.

* Este texto foi escrito ao som de: Autobahn (Kraftwerk – 1974)

Autobahn

O cavaleiro barroco Ariano Suassuna

Foi-se o autor, mas fica sua obra e uma galeria de personagens marcantes

Foi-se o autor, mas, para eternizá-lo, fica sua obra e uma galeria de personagens marcantes

Com a saída de cena de Ariano Suassuna morre também uma parte do Brasil autêntico, do Brasil raiz, do Brasil que não tem vergonha de ser brasileiro e negar suas tradições. Antes de tudo, esse paraibano de alma pernambucana foi dramaturgo, poeta e defensor da arte brasileira e, por defender suas posições de formas radicais, ele conquistou amantes e detratores nos quatro quantos do país. Não que isso o incomodasse.

“A humanidade se divide em dois grupos, os que concordam comigo e os equivocados”, fazia troça das suas convicções enraizadas.

Um romântico por natureza quando o assunto era arte e, sobretudo a arte popular brasileira, esse Dom Quixote armorial meio barroco e totalmente pragmático vai deixar saudades. Vai-se o autor, fica a obra e sua galeria de personagens marcantes, emblemáticos, nordestinamente autênticos e humanos. Como diria o mais cativante deles, o matuto João Grilo, que o autor transformou em estrela: “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre”, filosofa o personagem em O auto da Compadecida, sua obra mais importante e conhecida.

E logo ele que tanto gostava da vida e que não queria perder a queda de braço com a maldita O auto da compadecidamorte e seus ossos chacoalhantes. “Ela pode até aparecer aqui para me buscar, mas vou contrariado”, chegou a dizer na última aula espetáculo realizada no Museu da República, durante a Bienal do Livro e da Literatura, evento na qual foi o grande homenageado. Aliás, sua passagem pelo local foi apoteótica, uma convulsão de emoção e carinho. Eu estava lá e o tempo todo queria chorar.

Bom, entrevistei o grande mestre duas vezes. A última bem ali no Blue Tree, com o enfezado e culto jornalista Carlos Tavares, com quem tive a honra de trabalhar tempos atrás. O saudoso Tavares, assim como o Suassuna, era paraibano, e tinha uma ligação afetiva forte com o artista, diria que quase íntima e amorosa. E era emocionante, dava gosto mesmo de ver como o Ariano gostava do Tavares e de como o tratava com carinho. Um sentimento, diga-se de passagem, recíproco.

Um pouco mais do que um foca, me lembro que não conseguia esconder o nervosismo de estar ali diante daquele grande humanista e intelectual que tratava todo mundo com uma simplicidade comovente. Ouvia atentamente o Tavares dá um show de entrevista e quando conseguia, podia, eu intercedia com algumas perguntas tolas, mas tem uma que me orgulho muito. Foi quando perguntei a ele qual das adaptações para o cinema de seu clássico O auto da Compadecida ele gostava mais e a resposta foi fulminante.

“A dos trapalhões”, disse sem pestanejar.

Lá dentro de mim eu ficava gritando: “Eu também! Eu também!”, recordo.

Bem, naquele instante, o Carlos Tavares deu um banho de profissionalismo e competência, mas eu, meu chapa, eu ganhei o dia, e esse dia vou levar comigo para sempre.

* Este texto foi escrito ao som de: Quinteto armorial (1978)

Quinteto Armorial

O melhor lance (2014)

Um amante das artes perdido entre suas musas pictóricas

Um amante das artes perdido entre suas deslumbrantes musas pictóricas

Giuseppe Tornatore é o cineasta do premiado e cultuado filme Cinema Paradiso (1988).  E até agora talvez seja o diretor da mais instigante fita do ano, o drama de suspense O melhor lance, em cartaz na cidade. A história gira em torno de Virgil Oldman (Geoffrey Rush), em mais uma atuação colossal. Ele é um respeitado leiloeiro e profundo conhecedor de arte e antiguidades que nunca se apaixonou na vida. A sua verdadeira paixão são as obras de arte e as belas mulheres que serviram de musas para suas pinturas marcantes.

Um belo dia, no entanto, a jovem herdeira Claire Ibbetson (Sylvia Hoeks), dona de uma fortuna milionária e acervo de arte deslumbrante, o contrata para leiloar a grande coleção deixada pelos pais. O problema é que, dotada de misteriosa doença, eles só se comunicam de forma escusa.

Forma-se então uma sinuosa teia de mistérios e suspense em que fazem parte também um habilidoso engenheiro mecânico (Jim Sturgess), o fiel amigo Billy (Donald Sutherland) e o submisso caseiro Fred (Philip Jackson). “Há sempre algo de autêntico numa falsificação”, gosta de dizer ao parco círculo de amigos que o cerca.

Elegante, O melhor lance, em meio às canalhices mundanas e mercenárias dos dias atuais, é uma O melhor lance 2bela homenagem à pintura e o deleite proporcionado por trabalhos de artes que eram realizados numa época em que a televisão e a internet ainda não tinham emporcalhado nossa imaginação e sensibilidade. Daí o encantamento de se vê passeando diante de nossos olhos belas telas de William-Adolphe Bouguereau, com sua reprodução da clássica obra de Sandro Botticelli, O nascimento de Vênus, Albrecht Dürer, e o belo Retrato de Elspeth Tucher, entre outros.

“Há regras específicas no mundo das antiguidades”, ensina com certa soberba de especialista em arte, Virgil Oldman.

Com trilha sonora do mestre Ennio Morricone, o filme traz uma narrativa envolvente cheia de sortilégios que nos faz acreditar o tempo todo que Virgil finalmente encontrou o grande amor de sua vida. E a comovente relação que traça entre o amor e as belas obras de artes que surgem – desculpe o trocadilho -, na tela, só dramatiza mais o drama que irá encaminhar nosso pedante e admirável protagonista.

“As emoções podem ser como as obras de arte, falsas”, ensina o “melhor” amigo Billy.

Com desfecho exemplar, trazendo moral, tantas vezes abordadas no cinema e na literatura, mas nunca exemplificada pela humanidade, O melhor lance, em vários momentos me fez lembrar o argentino Nove rainhas. Nos dois filmes os personagens, assim como na vida e nas obras de artes, na maioria das vezes não são o que aparentam ser, por mais belas e deslumbrantes que são.

O melhor lance é o que a vida nos dá, bom ou ruim.

* Este texto foi escrito ao som de: Vintage violence (John Cale – 1970)

Vintage violence - John Cale

Invasões britânicas playing my heart

bárbaros selvagens e suas guitarras nostálgicas numa fria noite de quinta

bárbaros selvagens e suas guitarras nostálgicas numa fria noite de quinta

Foi ali no Velvet Pub, na 102 Norte. Numa noite de quinta-feira. Quinta fria, mas no porão do espaço a temperatura do ambiente começou a esquentar quando os meninos do projeto Invasão Britânica subiu ao palco e mandou logo de cara uma dos Hollies: Please don’t feel too bad. Bom, Budweiser com Heineken à meia-noite já ia alto e o céu não tinha limite, mas me sentia bem quando eles tocaram na sequência o clássico de Pete Townshend, I can´t explain. Sim, e naquele momento um filme passou em minha cabeça ao som da canção com fragmentos da biografia do guitarrista do Who que tinha acabado de ler e flashes sonoros das primeiras músicas da banda que escutei da fase setentista.

Eu estava alto, mas ainda não flutuava quando entrou os riffs rascantes da introdução de All day and all of the night. Putz! Como o líder dessa banda canta bem em inglês! Será que algum dia eu vou conseguir cantar tão bem assim uma canção dos Kinks?! Bem, toco mal e, porcamente, Too much on my mind ao violão. Enquanto isso, eu tentava não parecer ridículo com minha camisa social rosa, mas os acordes dançantes de The last time, dos Stones, só “melhoraram” as coisas. Mas não me lembrava de mais nada quando ouvi mais tarde Out of timeOut of my head.

Invasão britãnicaE por falar em cabeça, ela, que já não obedecia aos meus comandos, de repente se viu envolta em sensações proustianas quando a banda tocou na sequência, Memphis Tennessee Ain’t she sweet. Sei lá, um cheiro de cigarro e vinil embolorado, com as pontas descascadas dançaram em algum lugar do meu inconsciente e tinha alguma coisa a ver com Tony Sheridan e os Beatles em Hamburgo, comigo na sala de casa tocando aquele vinil sucateado com sucessos do rock de 50.

Mas algo de primitivo dentro de mim começou a despertar quando o baixo ondulante de, We’ve gotta get out of this place, surgiu em cena e aquela maldita garota sádica do passado que infernizou minha alma volto à tona ao som de Brown eyed girl do mestre Van Morrison.

Incrível como as canções ajudam a contar nossa história de vida, boas ou ruins. E como algumas delas são tão pungentes que chegam a machucar quando a escutamos de surpresa. O cover dos Beatles do primeiro disco, Baby, it’s you, sucesso escrito por Burt Bacharach, é um deles. Adoravelmente me fez lembrar o tempo em que eu não queria existir. Acho que ainda não quero existir, mas é mais difícil de falar sobre o assunto quando se está sóbrio.

Ainda bem que, no meio do nada, me resgatando do limbo de meu momento – sweet down, surge a solar Sunny afternoon, dos irmãos Davies, só para não me deixar esquecer que foi onde tudo começou ali no Gate’s pub, com os versos: “The taxman’s taken all my dough
And left me in my stately home”.

Invasões britânicas in my heart, selvagens bárbaros e suas guitarras nostágicos nua fria noite de quinta, me fazendo voltar no túnel do tempo da minha memória com gosto de saudade e sentimentos agridoces. “Yeah yeah yeah wild thing/Oh sock it to me”, canta o vocalista, evocando os gritos primitivos de Reg Presley dos Troggs.

Na volta para casa, no carro, ecos da noite ainda bailavam em minha cabeça alcoolizada. A ressaca do dia seguinte foi formidavelmente medonha.

* Este texto foi escrito ao som de: Set list do show Invasões britânicas (Anos 60)

The last time