Dia de Carlos Drummond de Andrade!

Tímido e com cara de vovô, Drummond é eterno

Amo de paixão os livros, a leitura, a literatura, seja ela brasileira ou estrangeira, mas não tenho a menor intimidade com poesia. Gosto e sei apreciar belos versos, versos líricos, misteriosos e diretos, poesia concreta, anarquista e metafísica, poesia política e transcendente, mas bem que eu gostaria de ter mais intimidade com a tal poesia. Talvez eu tenha e nem me dou conta deste êxito.

E, se admiro e me encanto com versos de todas as categorias, naturalmente teço admirações por alguns poetas. O chileno Pablo Neruda e o português Fernando Pessoa são um deles, mas no Brasil minha admiração envolve três figuras antológicas da nossa poesia: Manuel Bandeira, Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade.

Eles sãos a tríade da poesia brasileira, em minha humilde opinião e o curioso é que essas três personas admiráveis foram figuras frágeis, tanto fisicamente, quanto de alma, expressando em seus versos marcantes, as angústias, dores e expectativas da alma. Fossem a alma deles próprios ou da alma de cada um de nós. Na verdade, as angústias, dores e inquietações de suas almas eram reflexos, espelhos da alma humana.

E a alma drummondiana era de um encanto e beleza incômodos. Alma essa celebrada hoje, no dia em que se comemoram os 109 anos de nascimento do poeta de Itabira. Dia das Bruxas que nada, é o dia D, dia de Carlos Drummond de Andrade, tal qual o Bloomsday, em reverência a escritor irlandês Jayme Joyce.

Ou seja, a importância de Drummond para a nossa literatura e nossas vidas foi, e é tamanha, que a data de seu nascimento faz parte do calendário cultura do País. Nada mais justo.

Figura simples, magricela, com aquele jeito de eterno homem de repartição pública, o que foi, durante boa parte da vida, Drummond sempre despertou em mim bastante curiosidade. A semelhança com Fernando Pessoa era tanta que às vezes eu me confundia, olhando um retrato perdido aqui, acolá. Mas nunca os seus versos.

“No meio do caminho tinha uma pedra/Tinha uma pedra no meio do caminho/Tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra”, escreve, em seus versos cotidianos. “E agora José?/A festa acabou/A luz apagou/O povo sumiu/A noite esfriou/E agora José?/E agora, você?/Você que é sem nome/Que zomba dos outros/Você que faz versos/Que ama, protesta?/E agora, José?”, eternas lamúrias de um Zé qualquer da rua. “E agora José?”.

Li muito Drummond na escola, sem saber da enorme importância que aquele velhinho com cara de Cora Coralina, com cara de vovô, com cara de meu avô, tímido e de dicção ruim teve e ainda tem para a nossa literatura. Ainda hoje leio muito Drummond, para desafogar a alma, o espírito pesado, o coração machucado. Quando me sinto sozinho e por baixo, leio um verso de Drummond.

Para mim, Carlos Drummond de Andrade será eterno, com aquele jeito me io Carlitos de ser, eterno, como a minha estrela da manhã e da noite: “Não serei o poeta de um mundo caduco/Também não cantarei o mundo futuro/(…) O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”, deixou registrado.

Outro dia, vendo uma entrevista com o Lima Duarte, me emocionei de deixar lágrimas rolarem do meu peito, dos meus olhos cansados, quando ele recitou o poema Memória, para mim, os versos mais singelos sobre a passagem do tempo. Tome nota:

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão

* Este texto foi escrito ao som de: (Caetano Veloso – 2006)

Orfeu negro – Macumba para turista ver

O mito grego de Eurípides e Orfeu no cinema brasileiro

O drama Orfeu negro (1959) entrou para história como a única fita brasileira a vencer o Oscar de filme estrangeiro. E não só isso, levaria a Palma de Ouro em Cannes, também. Os dois feitos aconteceram em 1960 e seria lindo, divino e maravilhoso se a produção, franco-ítalo brasileira, não tivesse sido dirigida pelo cineasta francês Marcel Camus – sem nenhum parentesco com o escritor franco-argelino Albert Camus.

O fato de a obra ter sido baseada em uma peça brasileira, Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius de Moraes, e contar com trilha sonora de grandes nomes da nossa música como Antônio Maria, Luís Bonfá e Tom Jobim, e ambientada num morro carioca, não faz dela brasileira. Longe disso. Além do mais, O pagador de promessas, do Alsemo Duarte, levaria a Palma de Ouro, em Cannes, anos mais tarde, em 1962.

De modo que, para mim, Orfeu negro é uma produção estrangeira e está longe de ser o primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar. Os ufanistas e patriotas de plantão que me perdoem. E, tendo em vista a qualidade do filme, vale dizer que o Oscar sempre foi uma grande bobagem.

Pessoalmente eu tinha criado uma grande expectativa em torno desse título. Pelo muito que se falou bem e pelo muito que se falou mal. Enfim, outro dia, fui a uma dessas lojas populares que vendem DVDs e CDs como quem vende banana na feira e vi o filme lá dando sopa, me esperando para comprá-lo. Comprei. E com a expectativa de um grande cinéfilo assisti ao filme com a frase de Glauber Rocha martelando em minha cabeça: “É macumba para turista ver!”, teria dito o cineasta baiano, se referindo ao clássico O cangaceiro, de Lima Barreto.

O fato é que Orfeu negro não me impactou. Achei que a fita traz uma visão estrangeira, endógena da realidade brasileira, mesmo que romantizada pelo mito grego que paira sobre o enredo. É como Quem quer ser um milionário?, o drama dirigido pelo inglês Danny Boyle, nada a ver. Ou seja, apenas o olhar de um estrangeiro sobre outra cultura. As produções realizadas em Bollywood, com toda a precariedade e especificidade do cinema local, tem muito mais a dizer.

Daí a indignação de Glauber Rocha com relação aos filmes que trabalhavam o roteiro, a trama, como iscas para chamar atenção de outros mercados. Ou alguém aí se surpreendeu quando o presidente norte-americano Barack Obama lembrou do filme quando veio ao Brasil?

Algumas cenas de Orfeu negro nem parece ser rodadas no Brasil. O Rio de Janeiro daquele final dos anos 50 filmado por Marcel Camus lembra Nova Iorque e as praias de Copacabana e Ipanema, vista dos altos do morro, a Riviera francesa. O que prova que Marcel Camus não teve a mesma densidade antropológica de, Pierre Verger, quando olhou para a nossa realidade. Ainda bem que não tive coragem de ver o remake que o Cacá Diegues fez da obra com o Toni Garrido, do Cidade Negra.

Os atores Breno Mello e Marpessa Dawn estão ótimos na fita, a fotografia do filme é belíssima, mas não sei se gostei de Orfeu negro, não. Teria que rever novamente e destituído de todos os preconceitos. Até porque, num modo geral, é uma produção bem feita, bem produzida e bem filmada.

Contudo, foi bom ver artistas como Cartola e o irreverente Tião Macalé em aparições relâmpagos, além da participação de luxo do campeão olímpico Ademir da Silva, no papel de um folião fantasiado de morte. Vilão da trama, ele nem mostra o rosto na fita, seu desempenho se resume a suas qualidades físicas.

* Este texto foi escrito ao som de: Buffalo Springfield (1966)

Top Model – Reminiscências novelísticas

Nuno Leal Maia abraça a grande família em Top Model

Não tenho o menor pudor em declarar que sou um noveleiro fanático. Mas digo logo, do bom folhetim. Sim, porque já tem tempo que as emissoras brasileiras não andam exibidos boas histórias nas telinhas. O porquê eu não, sei. Só sei que no meu tempo, no tempo da minha mãe, as novelas eram bem melhores. Hoje está tudo muito raso, saturado e banal. De modo que não me desconecto do Canal Viva, onde vejo e relembro os grandes clássicos da teledramaturgia nacional. Sucessos como, Vale tudo, Roque Santeiro e agora Top Model, que será reprisada em dezembro. Estarei lá, pode apostar.

Exibida entre 1989 e 1990, a novela, escrita pelo Antônio Calmon e Walter Negrão, marcou muito minha adolescência por causa da referência explicita aos Beatles, personagens importantes na trama, mas, sobretudo, pela marcante canção Hey Jude, numa versão, verdade seja dita, brega de Kiko Zambianchi. Mas eu gostava da versão brega de Hey Jude com o Kiko Zambianchi, verdade seja dita.

Na época, eu tinha 13 anos e andava ouvindo Beatles das 7h da manhã às 23h da noite e ainda sonhava com as canções dos meninos de Liverpool. Foi uma fase boa da minha vida, quando aprendi a tocar violão na rua, já que o único professor que podia me ensinar o instrumento era evangélico e queria me ensinar hinos religiosos.

Nas telinhas, os dramas, gracejos, confusões da família do surfista com alma de hippie Gaspar (Nuno Leal Maia), encantavam milhares de telespectadores. Eu era um deles. Ficava vendo aquelas maluquices da trupe comandada pelo Nuno Leal Maia, ao som de Hey Jude em português e namorando as fotos do fab four, da fase Sgt. Peppers lonely hearts club band, pregada na parede cenográfica da Globo.

“Que bigodes são esses?”, pensava. “E essas cores, de onde vieram essas cores todas?!”, matutava. Sim, porque houve um tempo em que os Beatles passeavam em minha imaginação apenas em preto e branco. Ao assistir Top Model, as músicas dos Beatles ficaram coloridas, psicodélicas dentro da minha cabeça e do meu peito.

E ainda tinha o Evandro Mesquita com toda sua irreverência de garotão de praia na pele do hilário Saldanha. E a Malu Mader linda de morrer, com aquelas sardas todas espalhadas pelo corpo como um céu de estrelas.

É, pensando bem, não fazem mais novelas como antigamente. Na, na, na, na, na, na…

* Este texto foi escrito ao som de: His band and the street choir (Van Morrison – 1970)

Discoteca Básica (35) Harvest

Com sua alma atormentada de um eterno Rimbaum, Neil Young está longe de ser simulacro de Bob Dylan

Durante muito tempo, a imagem que eu tinha do canadense Neil Young era a de uma réplica vagabunda de Bob Dylan. Tudo isso por conta de uma foto dele dos anos 80 com uma gaita na boca e boina à la Che Guevara na cabeça. Pura ignorância e preconceito. E, por causa desses dois ingredientes nefastos inerentes à condição humana, demorei séculos a conhecer a monumental obra do bardo mais autêntico do pop rock. Não olhe agora, mas Neil Young para mim é Deus, assim como o Wood Allen, Glauber Rocha, minhas sobrinhas e os Beatles.

Foi o poeta Renato Russo quem me chamou atenção para o talento e a figura do artista ao interpretar a belíssima On the way home, no trabalho acústico da banda. On the way home… É como me vejo todos os dias ao fim de uma semana estressante e é o que faço rumo ao lar da minha família tão distante, para ficar ao lado das minhas duas gatinhas, que são minhas duas lindas sobrinhas.

Poeta visceral que fermentou de forma brilhante o trio Crosby, Stills & Nash, nos anos 70, Neil Young é um nome singular, com sua eterna alma de Rimbaud atormentado. Preste atenção na letra intimista e niilista de Helpless, por exemplo, uma das canções mais bela do disco Déjà Ju, gravado em 1970. “Há uma cidade no Norte do Ontário/Com conforto de sonhos e memórias desesperadas/E em minha mente, eu ainda preciso de um lugar para ir/Todas minhas mudanças estavam lá”, confessa, entre reminiscências proustianas.

Difícil escolher um trabalho que me encante na sua extensa discografia. Acho, por exemplo, o cinzento e triste, After the Gold Rush, (1970), um relicário sentimental agradabilíssimo, mas… Também um dos componentes chaves do super grupo Buffalo Springfield, ícone dos anos 60, Neil Young sabe, como poucos, agregar inquietações intimistas a lampejos épicos existencialistas.

Harvest, gravado em 1972, une essas duas qualidades, num trabalho que transpira sentimentos destroçados e reflexões perturbadoras a cerca da vida de um homem comum com seus arranjos de cordas eloquentes, pianos tocantes, falsetes perturbadores e sininhos sobrenaturais.

E não só isso, o álbum é o registro que melhor capta a essência da alma brejeira e universal do cantor e compositor, elevando o gênero country rock a um patamar de sofisticação poucas vezes alcançado na música. Se você é fã do estilo soft-rock, basta saber que este álbum talvez preconize a essência, o ponto máximo da categoria.

“Acho que vou fazer as malas/E comprar uma perua/Partir para Los Angeles/Encontrar um lugar para chamar de meu/E me adaptar/Começar um novo dia”, avisa na gostosa e convidativa, Out on the weekend.

Na épica A man needs a maid, ele não tem vergonha de escancarar suas fragilidades cotidianas. “Para dar amor, você tem que viver um amor/Para viver um amor, você tem que ser parte de um (amor)/Quando eu te verei de novo?”, desespera-se.

O problema com as drogas e a perda de amigos queridos para o mal do seu século e do século futuro, são alardeadas na crua e melancólica, The needle and the damage done: “Eu alcancei a cidade e perdi minha banda/Eu vi a agulha levar outro cara/Foi-se, foi-se, o dano causado/Eu canto a canção, pois eu gostava do cara/Eu sei que alguns de vocês não entendem/Injeta com sangue para economizar”, observa.

A capa discreta, simples, quase imperceptível, contrasta com a exuberância decadente do álbum, uma das colheitas mais significativas daqueles anos 70. Não duvide, mas o Canadá já teve coisas melhores do que Bryan Adams e Justin Bieber.

* Este texto foi escrito ao som de: Harvest (Neil Young – 1972)

Paulo José é nosso semideus!

Paulo José é e será um semideus...

Dias desses vi o Paulo José naquele programa Starte, da GloboNews, dentro da série Grandes Atores e meu deu uma tristeza, uma desolação, uma angústia. Como a vida é cruel e injusta com alguns seres humanos, não é mesmo? Sim, porque é um pecado um sujeito com o talento, a simpatia e criatividade artística dele, ser refém das agruras de uma doença tal cretina como o mal de Parkinson. Em minha opinião, algumas pessoas, por sua contribuição à humanidade, deveriam ser eleitas à condição de semideuses. Paulo José é um delas.

Mas, aos 74 anos, o ator e diretor gaúcho Paulo José tem dado uma canseira na maldita enfermidade e nos brindando com lição de vida incrível, coisas da vida. Uma prova de que nem tudo está perdido e que lutar ainda é nossa grande arma contra as intempéries do destino.

Tenho uma queda pelo trabalho de Paulo José de longa data. Para mim, vai ficar para sempre aquele rosto bonito, jovial e cativante dos filmes que ele fez com Domingos Oliveira como Todas as mulheres do mundo e Edu, Coração de ouro. Gosto do seu senso de humor e entrega visceral a tudo o que faz, seja no cinema, televisão ou teatro, sua grande paixão. Um espaço onde, segundo ele declarou à gatíssima Bianca Ramoneda, do Starte, está em permanente contato com suas origens.

Mas não me esqueço do dia em que, numa entrevista por telefone, ele lamentava o fato de o cinema não ter mais o “tempo que deveria ter”. Que a sétima arte, nos últimos tempos, se via refém das traquinagens audiovisuais e firulas pops fomentadas pelas interferências das novas mídias, reverenciando o trabalho elegante de mestres como o italiano Michelangelo Antonioni, quem ele reverenciava nesse bate-papo gosto. E acredite, o velho Zé sabe o que fala.

Pena que, sombreadas pela mediocridade, muitas pessoas não percebem isso. Certa, vez, esperando um voo no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, vi de longe um senhor de idade, andando feito pato, acompanhado de uma morena linda de morrer. Escondido dentro de seu chapéu de feltro e barba grisalha ele era quase um Charles Chaplin abrasileirado.

Mas quase ninguém percebeu quem estava ali, estavam muito ocupados em tirar fotos e arrancar autógrafos da exuberante Camila Pitanga. Por isso que sempre concordo com o velho Oscar Wilder: “O cínico saber o preço de tudo e valor de nada”. Para mim, o Paulo José é e sempre será um semideus.

* Este texto foi escrito ao som de: Rock of the Westies (Elton John – 1975)

O beatle com alma clown

Baixinho, narigudo e sempre com uma piada na ponta da língua ou do dedo...

Fevereiro de 1964. Mais de três mil pessoas ensandecidas, entre elas marmanjos barbados, esperam ansiosos pelos Beatles no Aeroporto de Nova York. Durante coletiva de imprensa, um jornalista não perde a chance de ser engraçadinho: “Ringo, porque você usa tantos anéis nos dedos?”, dispara. “Porque eles não cabem no meu nariz”, responde o baterista à altura.

Corta. Cena do filme A hard day’s night. Ringo, depressivo, perambula pela cidade afagando sua tristeza. Tira sarro com moleques de rua, tentar tirar um auto-retrato e, lá pelas tantas, se enrabicha por um rabo de saia. A guria segue por um terreno lamacento. Gentil, um autêntico cavalheiro britânico, ele tira seu colete e o joga sobre uma poça. Mais adiante, não titubeia, faz o mesmo, ao avistar um segundo buraco. No terceiro, a garota pisa com sutileza em seu tapete de gentileza e desaparece. O baterista disfarça, olha desconfiado para os lados, e dá no pé.

Os dois episódios, divertidos, ilustram com perfeição o estilo descontraído e bonachão do eterno baterista dos Beatles, o divertido Ringo Starr, que pela primeira vez vem ao Brasil para seis apresentações. Parece sonho, mas é realidade e das boas. Depois da overdose de Paul McCartney e a vez do velho Richard Starkey baixar por aqui. Eu estarei lá, até coloquei minha mão a venda.

Baixinho, narigudo e sempre com uma piada na ponta da língua, Ringo é conhecido pelo senso de humor e simpatia irradiante. Sempre foi a alma clown do fab four, o sujeito que sempre levantava a bola da turma quando todos estavam por baixo e tristonho. Nunca foi o meu beatle preferido, posto de direito, de Paul McCartney, mas sempre gostei do jeitão “irmão Marx” dele. A verdade é que o baterista sempre foi subestimado.

Tecnicamente, Ringo, sempre deixou a desejar e ele próprio é o primeiro a reconhecer isso. Estava longe da selvageria percussionista de astro como John Bonham, do Led Zeppelin, ou Keith Moon, do The Who, mas fazia direitinho o seu serviço. Faixas como Ticket to ride e a psicodélica Rain, são prova disso e, embora não tivesse o brilhantismo da dupla Lennon e McCartney para compor, deixou sua marca em canções adoráveis como Octopus’s garden.

Mas prefiro-o como interprete em canções contagiantes do início da carreira como Boys, Honey don’t, Act naturally, a lúdica Yellow submarine e With a little help from my friends. Minha preferida é o épico The continuing story of Bungalow Bill, do álbum branco.

Nos anos 70, gravaria dois discos antológicos – Ringo e Goodnight Vienna – que contou com uma pequena ajuda dos amigos John, Paul e George, com quem compôs o maior sucesso da sua carreira, a sentimental Photograph onde fala: “Toda vez que vejo seu rosto/Me lembra dos lugares que freqüentávamos/Mas tudo que tenho é uma fotografia/E percebo que você não irá mais”, lamenta. Aliás, a capa de Goodnight Vienna é Ringo Starr puro, com ele parodiando o clássico do cinema de ficção científica, O dia em que a Terra parou. Preste atenção é só conferir.

E, de todas as canções que ele foi interprete e compositor, tem carinho especial por uma. A bela Blindman, do disco Goodnight Vienna. Essa eu levaria comigo para Lua, se um dia me perdesse por lá, cantando o refrão grudento: “Come on, blue, what you gonna do now?”.

* Este texto foi escrito ao som de: Ringo e Goodnight Vienna (Ringo Starr – 1973/1974)

Os meninos de rua de Jorge Amado

Adaptado de obra escrita em 1937, Capitães da areia aborda tema atual

A literatura barroca de Jorge Amado é impregnada de misticismo, sincretismo religioso, muita sensualidade e dos sabores e temperos da Bahia de todos os Santos. É a Bahia da capoeira, do jeito malemolente de ser do sujeito que valsa pelas ruas do Pelourinho, da negra fogosa dos bordeis e das misturas de raças.

Escrito em 1937 por Jorge Amado, Capitães da areia, adaptado para o cinema pela própria neta do escritor baiano, Cecília Amado, em comemoração ao centenário de nascimento do avô, fala de tudo isso e muito mais. De, por exemplo, temas caros à sociedade baiana do começo do século passado como a delinqüência juvenil e a perda da inocência. São os meninos de ruas de Jorge Amado que, numa visão universal da obra, passam a ser os menores abandonados do Brasil. Ou seja, mais de 70 anos depois de escrito, a atualidade do livro ainda incomoda.

É história de Pedro Bala, líder de um grupo de punguistas malandros, safos, atrevidos, carentes de afeto, instruções e comida que tomam de assalto as ruas, ladeiras e becos de Salvador. Eles são os capitães da areia, as “almas vagabundas da Bahia”. Juntos irão enfrentar todos os dissabores da vida como a violência das ruas e das instituições. “Você não vai ser gente nunca”, debocha um delegado. “Você nasceu para ser bandido”, continua.

Mas também o outro lado da moeda, que compreende a ternura do amor, o valor irrefutável da amizade e, sobretudo, do bem mais precioso do ser humano: a liberdade. “Roubar de amigo não é certo”, constata um dos integrantes do bando, dando as coordenadas da ética do malandro de rua. “Preto não toca piano não, dona”, argumenta um dos meninos, quando por dama da elite. “Quem te disse isso menino?!”, refuta a senhora, cheia de cinismo burguês, numa cena do filme que escancara na tela, toda a consciência social que permeia o universo do baiano Jorge Amado, que foi em vida, um eterno simpatizante das causas socialistas e humanas.

Não li Capitães da areia, conheço outras obras do escritor baiano como Dona flor e seus dois maridos, mas com certeza o livro deve ser bem melhor do que essa adaptação para o cinema realizada pela neta do mestre. Contudo, bem produzida, a fita, não deixa de ser um petisco delicioso para se mergulhar nas páginas do romance. Vou comprar o meu já.

Uma das coisas que saltam aos olhos em Capitães da areia são as atuações dos guris, um deleite, mostrando que a direção de atores foi impecável, tendo em vista que não é nada fácil dirigir crianças e adolescentes. O roteiro de Hilton Lacerda (Amarelo manga e Árido movie) traz elipses líricas e a montagem do filme é nervosa, truncada, uma influência do cinema pop dos doas de hoje. A estética do filme, como um todo, lembra a do grande sucesso hollywoodiano Quem quer ser um milionário? e não sei se isso é bom ou ruim.

E mesmo que você não goste do filme, irá ficar tocado pela trilha sonora assinada pelo sempre versátil Carlinhos Brown. Ouça com ternura, a “canção do carrossel” interpretada pela inesquecível voz do ex-titãs, Arnaldo Antunes.

* Este texto foi escrito ao som de: Gil e Jorge (Gilberto Gil e Jorge Bem – 1975)

“O ônix é translúcido”

Tal quais as unhas cortadas da Deusa Vênus, pelo sapeca Cupido e esparramadas sobre a Terra...

“O ônix é translúcido”. A frase me tomou de assalto na primeira hora do dia e ainda cala fundo em minh’alma. Até parece verso de poema ibérico, de poeta português, de bardo espanhol e eu que achei a frase tão renascentista…

“O ônix é translúcido” e o que diabos isso quer dizer? Não sei, só sei que a frase não sai da minha cabeça. Até achei que fosse Fênix, como eu, renascendo das cinzas, mas tudo é uma incógnita, como código medieval, simbologia alquimista…

“O ônix é translúcido” e, não sei por que, me lembrei daquela máxima metafísica do Nelson Rodrigues: “Me sinto como um santo de vitral, varado de luz”.

“O ônix é translúcido”, como o metal contra as nuvens e corri para o dicionário, sim, consultar o meu amigo Aurélio o significado exato da palavra translúcido algo que: “deixa passar a luz sem permitir que se vejam os objetos”…

“O ônix é translúcido”, como minh’alma, varada de sonhos perdidos e desejos interrompidos…

“O ônix é translúcido”, tal quais as unhas cortadas da Deusa Vênus, pelo sapeca Cupido e esparramadas sobre a Terra…

“O ônix é translúcido” e a frase foi escrita, assim, como um rabisco divino, por um anjo renascentista, um anjo salpicado de sardas renascentistas, numa terra distante, na terra símbolo da neutralidade e ponteiros do tempo…

Se ela fosse um país, seria um país pequeno, daqueles bem discretos e charmosos, daqueles que escondem seus segredos nos mínimos detalhes, no infinito da beleza mais inefável. Talvez uma Bélgica monárquica ou a Suíça da democracia, da paz e dos relógios-cucos…

“O ônix é translúcido”, como os seus olhos brilhantes de sonhos sem fim…

* Este texto foi escrito ao som de: Parachutes (Coldplay – 2000)

Dois cowboys em conflito

Kirk Douglas e Rock Hudson em lados opostos da lei

Rock Hudson foi um dos galãs mais importantes dos anos 50 em Hollywood, não fosse um detalhe curioso. O astro norte-americano, que antes de virar ator ganhava a vida como, mecânico, era homossexual e foi um dos primeiros artistas a ser vítima da AIDS. Mas isso não impediu que ele beijasse as mulheres mais lindas do planeta e atuasse em papéis másculos, como o interpretado no faroeste intimista O último pôr-do-Sol, que vi recentemente. A direção é de Robert Aldrich (Vera Cruz e O imperador do Norte), um dos grandes nomes da sétima arte e a fita conta ainda com o versátil Kirk Douglas num papel inusitado, o de vilão.

Rodado em 1961, a trama, baseada num romance de Howard Rigsby, teve roteiro de Dalton Jumbo, autor do célebre romance Johnny vai à guerra. Conta a história de dois cowboys em lados opostos da lei, vagando pelas pradarias áridas do México. Um, o canastrão com alma de poeta “Bren” O’Malley (Kirk Douglas) é um assassino que tenta reaver o amor de sua vida, quem ele abandonou há muitos anos atrás. O outro é o xerife Dana Stribling (Rock Hudson), que quer acertar as contas com o foragido O’Malley, depois deste assassinar o cunhado e levar sua irmã ao suicídio.

Eles se odeiam, mas se toleram em função de ambições pessoais. O’Malley está interessado no lote de gado que conquistou por levar uma boiada de mil cabeças do México para o Texas, nos Estados Unidos. O sistemático Stribling em busca do coração selvagem da charmosa Belle (Dorothy Malone). Justos, eles vão descobrindo, aos poucos, as fraquezas, diferenças e benesses de cada um, num faroeste psicológico no qual as balas e os winchesters são o menos importam. “Se o homem mata é porque Deus permite”, diz um amargo O’Malley. “Finalmente vamos precisar de um assassino”, retruca o austero Xerife, ao avistar um grupo de apaches que pode ameaçar a viagem do grupo.

Com um texto traiçoeiro com areia movediça e narrativa lenta, que acompanha com escarno os dramas interiores vivido pelos personagens, The last sunset é sofisticado e conta com algumas cenas de tocante lirismo. Uma delas é quando o grandalhão Stribling ensina a jovem filha da mulher que ama como conquistar a atenção de um bezerro que acabara de perder a mãe. A outra é a sequencia dos luminosos fogos de santelmo, fenômeno da natureza que embala os diálogos dos amantes de outrora. “Você tem ainda toda essa loucura na ponta da língua”, constata, ela, encantada. “Na verdade, ainda tenho você no meu coração também”, rebate ele, com a alma fervente. Impagável o momento em que um sorridente Kirk Douglas canta versos em espanhol para uma tal de Paloma.

O mito de Eletra, sutis insinuações homossexuais, dramas de natureza intimistas profundos, O último pôr-do-Sol é um faroeste, não diria diferente, mas inusitado, provando que houve e ainda há, várias formas de explorar um dos gêneros cinematográficos por excelência.

* Este texto foi escrito ao som de: The Best of the Cowboy Junkies (Cowboy Junkies – 2003)

Zé das Medalhas x Roque Santeiro

Armando Bógus vive o violento e cínico Zé das Medalhas no sucesso Roque Santeiro

Imagine uma história bem amarrada em que todos os personagens são interpretados por atores brilhantes, dos protagonistas aos coadjuvantes dos coadjuvantes, e cada capítulo te prende a atenção como imã no metal. Impossível? Pois essa história existiu sim, diluídas nos capítulos emocionantes, divertidos e farsescos do grande sucesso da nossa teledramaturgia Roque Santeiro, novela reprisada no canal por assinatura Viva, da Globo.

Que novela formidável, que novela engraçada, talvez a melhor novela que assisti e olha que eu fui um noveleiro incorrigível. E quer saber? Bem que eles podiam reprisar A gata comeu, outro grande sucesso da época. E não só isso, podiam também reprisar o marco Gabriela, só para as novas gerações saberem o quanto esse clássico será melhor do que o remake que eles vão querer fazer.

Mas voltando ao Roque Santeiro, lembro que eu ainda andava de calças curtas e brincava de carrinho no quintal de casa quando ela foi exibida pela primeira vez na televisão brasileira, em pleno governo do bigodudo José Sarney. Foi um sucesso instantâneo porque trazia de forma debochada e escancarada, as mazelas do país a partir de acontecimentos bizarros vividos por personagens hilariantes. Era para ser engraçado, se não fosse triste, irônico.

Baseado em peça de Dias Gomes proibida pelo regime militar chamada O berço do herói, a trama tem como foco central a indústria da fé e do turismo religioso que assola cotidiano de várias cidades brasileiras. Cidades essas cujos governantes se aproveitam da ingenuidade das pessoas humildes para tirar proveito próprio. Escrita por Dias Gomes em parceria com Aguinaldo Silva, junto com outros colaboradores, o enredo bota o dedo na ferida da hipocrisia humana e é incrível como eles trabalham a psicologia da fé nas entrelinhas. Algumas cenas são bizarras, como a dos próprios pagadores de promessa.

Um dos personagens mais fortes da novela é o ambíguo, violento e patético Zé das Medalhas, vivido pelo antológico Armando Bógus, morto em 1993. Ele foi amigo de Roque Santeiro na infância e com sua morte e santificação, se transformou num dos mais bem sucedidos empresários da cidade de Asa Branca. Fez sua fortuna vendendo as medalhinhas do amigo santo – daí o nome estrambótico -, e outras bugigangas religiosas, entre elas santos de barros e patuás feitos da camisa e de outras partes de seu vestuário.

Mas apesar de se beneficiar com a indústria da fé e do turismo religioso em Asa Branca, Seu Zé das Medalhas (Armando Bógus) não é um homem temente a Deus e tem caráter duvidoso: além de ganancioso, bate na mulher. Ou seja, ele é uma catedral de hipocrisia e cinismo. “Lulu, Lulu, eu vou te matar!”, grita ele, mordendo os dentes e de cinto nas mãos, toda vez que desconfia que a mulher o esteja traindo com outro homem.

Outro dia, vi um dos capítulos mais divertidos da novela, quase engasguei de tanto ri. Foi quando o Zé das Medalhas descobre que Roque Santeiro está vivinho da silva e que os seus dias de empresário bem sucedido estão contados. Ele está tão apavorado que só consegui ri, para não chorar.

* Este texto foi escrito ao som de: The early years (Roxy Music – 1977)