O último Cine Drive-In (2015)

Metalinguístico. filme é uma declaração de amor ao cinema

Metalinguístico. filme de Iberê Carvalho é uma declaração de amor ao cinema

Nunca tinha indo  a um Cine Drive-In. Nem sabia que o de Brasília funcionava porque sempre ouvia que ia acabar, que estava desativado, coisas do tipo. Fui agora por causa do filme do Iberê Carvalho e me senti um personagem do American Graffiti, do George Lucas, ou os personagens da trilogia, De volta para o futuro. Agora vou querer ir sempre. Primeiro filme do jovem cineasta de Brasília, o longa é simples, mas de uma sinceridade narrativa comovente. E quando digo comovente não tem nada a ver com pieguice. Mas com emoção genuína mesmo.

É a história de Almeida (Othon Bastos) e sua luta em conseguir manter em Brasília o último Cine Drive-In do país na ativa. “O único cinema que você vê o filme e as estrelas”, brinca alguém, fazendo trocadilho.

Ele é um exibidor de filmes romântico, artesanal, que respeita a qualidade dos filmes e o público, mas os tempos são outros e por causa da tecnologia e do descaso dos gestores de cultura da cidade, o lugar vai ter que desaparecer, ser riscado do desenho do lugar. Para piorar a situação, bate à sua porta MarlomBrando (Bruno Nina), o filho que ele não vê há tempos, que não se dá bem, trazendo a notícia da doença da mãe: câncer.

Pronto, está costurado o enredo do filme que é um dos melhores já realizado em Brasília e sobre Brasília. Muito melhor, por exemplo, do que o pretensioso, Uma dose violenta de qualquer coisa (2014), do Gustavo Galvão. Metalinguagem da melhor qualidade, enfim, uma declaração de amor ao cinema feito por alguém que eu acompanhei de perto seus primeiros passos na arte de fazer cinema.

Para quem é de Brasília, a fita é sintomática em vários aspectos, como a presença de atores locais talentosos, entre eles o formidável Chico Santana. Mas está presente também o tempo todo a arquitetura modernista ousada de Oscar Niemeyer e esse céu imponente que só nós que somos daqui, sabemos admirar. Mas o mais legal de O último Cine Drive-in, é a velada crítica à política sem vergonha que há tempos se faz aqui, com direito à referência à indecente oração da propina e tudo mais.

* Este texto foi escrito ao som de: Roadsinger (Yusuf – 2009)

Roadsinger Yusuf

Musas do cinema – Maitê Proença

Diva do cinema conquistou meu coração primeiro na TV

Diva do cinema brasileiro conquistou meu coração primeiro na TV

A vida pessoal de Maitê Proença por si só já dava um filme. Quer ver? Aos 12 anos perdeu a mãe assassinada pelo próprio pai, motivado por crime passional. Com o incidente, ela e o irmão foram parar num pensionato luterano onde viveram por três anos. Um belo dia o pai lhe manda para Paris e na volta decide deixar o pensionato, para morar com um padre. Aos 19 anos tenta inúmeros cursos na faculdade, passando para Psicologia na PUC-SP, mas desistiu para dar a volta ao mundo nos dois anos seguintes.

Antes de começar o curso de artes cênicas com o mestre francês da mímica, Marcel Marceau, vendeu jornal e distribui panfletos pelas esquinas de Paris, e até bancou a ama seca pela capital francesa. Na volta ao Brasil, no final dos anos 70, é convidada pelo jornalista Mário Prata um teste na TV Tupi, ganhando uma ponta na novela Dinheiro vivo. O primeiro papel na Rede Globo seria na novela de 1980, Coração alado e o resto é história.

Diva da televisão brasileira, a linda atriz de faiscantes olhos azuis e madeixas louras conquistou meu coração como a professorinha Clotilde, na novela O salvador da pátria, escancarando sua sensualidade e sex appeal na série baseada em textos de Nelson Rodrigues, A vida como ela é. Mas foi como a musa do cineasta paulista, Guilherme de Almeida Prado, e seus filmes metalinguísticos, que Maitê Proença conquistou respeito junto a crítica e um lugar cativo no cinema nacional.

Também escritora, Maitê Proença dedicou um tempo a escrever crônicas para a revista Época e é autora de seis livros. Versátil, também exibiu seu talento como apresentadora e comentarista, destaques para suas participações em programas como Saia justa e Extra Ordinários.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1974)

dama-do-cine-shanghaiTop five – Maitê Proença

A dama do cine Shanghai (1987) –Nessa trama engenhosamente metalinguística ela é a musa de corretor de imóveis que se vê metido com bandidos após uma sessão de cinema. Nota como a atriz, de forma deliciosa, se encaixa perfeitamente nos figurinos noir.

A hora mágica (1998) – Mais uma vez a atriz empresta sua beleza hollywoodiana interpretando um duplo papel nessa trama baseada em conto de Júlio Cortázar.

Onde andará Dulce Veiga (2007) – Aqui ela é a misteriosa beldade do título que conduz o espectador por um misterioso labirinto de suspense e intriga moral.

Tolerância (2000) –Na trama a atriz é uma provocante advogada que testa os limites de um relacionamento convencional num intrigado jogo de prazer e sedução.

Bufo &Spallanzani (2001) –Aparticipação da atriz é pequena, mas e daí, se aqui, além de boa atriz, ela mostra que também sabe escolher bem os roteiros em que quer participar, este, baseado em livro do mestre Rubem Fonseca.RC

Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço

"Aprendi a viver um dia de cada vez”, o cantor na faixa que empresta o título do livro

“Aprendi a viver um dia de cada vez”, o cantor na faixa que dá título do livro

Pensa numa narrativa pesada. O diário do Renato Russo no tempo em que ele ficou internado 29 dias numa clínica para desintoxicação no Rio de Janeiro, entre abril e maio de 1993. Foram 29 dias de expurgação de fantasmas e demônios, exposições e autorreflexão registrados dia a dia e agora à disposição dos fãs em Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço. O título é uma brincadeira com uma das faixas do álbum O descobrimento do Brasil e o Programa dos doze passos, método de recuperação oferecido pela clínica Vila Serena, onde o líder da Legião Urbana ficou internado. Aliás, a experiência rendeu algumas letras marcantes para o álbum lançado seis meses depois de deixar o lugar.

Na narrativa de Renato Russo – que sempre se deu bem com as palavras -, momentos de culpa, medo, raiva, insegurança, incerteza, dúvida, mas também de esperança. O autor de letras confessionais e universais mistura em seus depoimentos cheios de rabiscos, recordações, autoanálise e desabafo. Mas também momentos de esperança. Sim, porque, mais do que tentar se livrar do vício das drogas e do álcool, o roqueiro lutava pela vida. “A heroína me deixava eufórico e satisfeito, e tinha a ilusão de que o meu mundo se tornava perfeito”, confessa em dado momento. “Preciso ter coragem para modificar o que posso e partir para a ação!”, admite.

Em nota, a editora Companhia das Letras mascara a identidade de algumas pessoas citadas por Renato apenas com as iniciais dos nomes, mas para um autêntico fã da Legião Urbana, algumas referências são reconhecíveis, como o “S” de Scott, o namorado norte-americano do cantor. Em outros momentos, a alusão é direta, como os comentários reveladores sobre o Dado Villa-Lobos. “O guitarrista da Legião Urbana é uma das pessoas mais admiráveis que conheci”, declara.

Há um “Q” de caça-níquel nesse projeto, ainda mais vindo de quem vem, mas para os fãs, o livro é um presente e tanto, porque traz no osso, o inferno pessoal de um artista em crise com o mundo e o sistema que o cercam e com a própria vida. “Só por hoje eu não quero mais chorar/Só por hoje eu espero conseguir/Aceitar o que passou e o que virá/Só por hoje vou me lembrar que sou feliz/(…) Aprendi a viver um dia de cada vez”, canta na canção que empresta o título ao livro.

* Este texto foi escrito ao som de: O descobrimento do Brasil (Legião Urbana – 1993)

LU

Que horas ela volta? (2015)

No filme, mãe e filha estão separadas por um enorme abismo sócio-cultural

No filme, mãe e filha estão separadas por um enorme abismo sócio-cultural

Para quem acha que Regina Casé se resume aqueles programas bobocas de auditórios que ela tenta emplacar, já faz algum tempo, na televisão, uma dica: veja o filme Que horas ela volta?, em cartaz na cidade. Dirigido por Anna Muylaert, o drama fecha uma perna do triângulo social reflexivo riscado por O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, e Casa grande, Filipe Gamarano Barbosa. O que eles têm em comum? A releitura política contemporânea do clássico Casa grande & Senzala, do mestre Gilberto Freyre.

Na trama ela é Val, uma doméstica que há anos acompanha a vida de uma família de classe média alta de São Paulo. A cumplicidade entre casa grande e senzala é tão grande e intensa que ela mantém uma relação afetiva quase maternal com o filho dos patrões.

Mas algo a deixa amargurada, há um espinho cravado em seu peito que é a filha que ela deixou em Recife para ganhar a vida no “Sul Maravilha”. Passados muitos anos, elas se reencontram, mas a reaproximação será tensa diante dos estragos deixados pela distância e claro, pelo choque social-cultural que a separam. “Isso aqui é pior do que a Índia”, reclama ela, ao dividir o quarto de empregada com a mãe. “Você é metida”, devolve ela, ofendida.

A relação entre as duas mulheres começa a soltar faíscas que se espalham por toda a casa quando Jéssica (Camila Márdila), com seu jeito autêntico e confiante de ser, abala a estrutura de poder social e hierárquico construída há séculos. Pode uma filha de empregada passar para arquitetura na FAU-SP e o filhinho riquinho e mimado da patroa não? A cena que evidência essa realidade do governo Lula no filme é constrangedora, de causar vergonha alheia no espectador. Me fez lembrar dos burgueses aqui do Lago Sul que estão indignados e se sentindo desprotegidos e ameaçados porque o governo está destruindo as cercas de conforto e proteção político-social construídos por eles contra a classe média emergente.

“Vocês querem encher isso aqui de bêbado?!”, revoltou-se uma histérica nonsense.

* Este texto foi escrito ao som de: Bridges to Babylon ­(The Rolling Stones – 1997)

Bridges of babylon

Ernesto Silva – O “pioneiro do antes”

O servidor nos anos 50, dando uma palestra sobre a construção de Brasília

O servidor nos anos 50, dando uma palestra sobre a construção de Brasília

Antes mesmo de Juscelino Kubistchek e seus ilustres assessores colocar os pés onde seria a nova capital do país, um homem pequeno, mas com persistência e dedicação de um gigante já havia deixado suas pegadas por aqui. O nome dele? Ernesto Silva! Mas quem foi Ernesto Silva, afinal? Bem, Militar e médico, esse ilustre pioneiro de Brasília, “pioneiro do antes”, como bem destacou outro veterano das pradarias candangas, o coronel Affonso Heliodoro – Importante assessor e amigo pessoal de JK – Ernesto Silva era carioca de Vila Isabel, nascido em 17 de setembro de 1914. Formado em ciências e letras em 1933, tornou-se oficial do Exército três anos depois, chegando ao posto de coronel. Em 1946 realizou o sonho de ser pediatra, ao se formar médico pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Embalou nos braços as primeiras gerações de Brasília.

Durante a construção de Brasília realizou notável trabalho na área administrativa, ocupando diversas funções, realizando atividades ligadas às áreas de saúde, urbanização e cultura no Distrito Federal. Foi Ernesto Silva quem assinou o Edital do Concurso do Plano Piloto vencido pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa.

Entre os seus feitos nos anos seminais de Brasília estão a criação da Fundação Hospitalar do Distrito Federal e construção do Hospital de Base, na época chamado de Hospital Distrital de Brasília (HDB). É autor de sete livros, destaques para o “Plano Educacional e Plano de Saúde do DF” e a “História de Brasília”, publicado em 1970.

Ernesto Silva também participou da fundação do Rotary Clube de Brasília, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da Academia Brasiliense de Letras e da Aliança Francesa de Brasília, espaço que presidiu desde seu surgimento, em 1972, até seu falecimento, em fevereiro de 2010.

Honesto, também era dono de um caráter singular. Outro dia sua viúva estava me contando que quando ele estava distribuindo os terrenos para a construção das embaixadas, os americanos, espertos como sempre, foram os primeiros a reivindicar o melhor pedaço da cidade para tal empreitada. Baixinho invocado que era, não deu o braço a torcer e atendeu primeiro os portugueses, nossos irmãos.

Apaixonado por Brasília, Ernesto Silva viveu modestamente seus últimos dias num apartamento da Asa Sul, protegido pelas sombra das árvores que ajudou a plantar.

* Este texto foi escrito ao som de: In my life (George Martin – 1998)

George_Martin_-_In_My_Life

Patrulha da madrugada (1938)

David Niven, Errol Flyyn e Basil Rathbone em drama sobre a 1ª Guerra Mundial

David Niven, Errol Flyyn e Basil Rathbone em drama sobre a 1ª Guerra Mundial

Errol Flynn foi um dos maiores galãs de sua época, mas naqueles anos seminais de glória em Hollywood, ele tinha que competir com ninguém menos do que Charlie Chaplin, que estava longe de ser um Apolo da beleza. Mas já era o maior palhaço de todos os tempos, o que ofuscava qualquer brilho em ascensão em qualquer categoria. Mas nada disso atrapalhou a amizade entre os dois artistas, que jogavam tênis uma semana sim e outra não, e estavam sempre metidos em festinhas de orgia e outras coisas mais.

Australiano de nascimento, Flynn brilhou na América em filmes de aventuras como o militar, Patrulha da Madrugada (1938), que vi outro dia emprestado de um amigo. A trama se passa na 1ª Guerra Mundial e gira em torno de aviadores ousados e talentosos que têm que ensinar a nova geração de pilotos dos perigos de enfrentar o inimigo no céu. Muitos deles estão indo à caça e não voltam, vítimas de suas inexperiências. A situação é um desespero para o austero Major Brand (Basil Rathbone), que tem no seu encalço o valente, mas indisciplinado herói do esquadrão, Capitão Courtney (Errol Flynn).

“O homem é um animal selvagem que, por períodos, alivia sua tensão, tentando se destruir”, ensina ele a um dos novatos dos ares.

Embora as cenas de confronto aéreo sejam bem mixurucas, diante dos parcos recursos de efeitos especiais da época, passa credibilidade. Assim como a tensão entre a amizade de dois aviadores – Errol Flynn e David Niven – que se veem em conflito por conta de ordens superiores. Agora um deles terá que arriscar a vida para salvar todos. Legal a premissa da moral e decência humana que norteia os momentos finais da fita, totalmente pertinente e completamente em desuso nos dias de hoje.

Para os fãs de Sherlock Holmes e aquele que talvez tenha sido o melhor ator que deu vida ao personagem de Sir Conan Doyle, a chance de ver o ator Basil Rathbone num papel diferente.

* Este texto foi escrito ao som de: Seal Hits (2009)

Seal Hits

Unknown Pleasures (5)

Meu último texto sobre a biografia do Joy Disivison escrita pelo baixista da banda Peter Hook. Agora o álbum Closer, o segundo e derradeiro do grupo lançado em 1980, faixa à faixa pelo autor. Obedecendo orientação dele, leia ao som dessa obra-prima.

“Batemos nas portas das salas mais sombrias do inferno”, canta Curtis, na faixa

“Batemos nas portas das salas mais sombrias do inferno”, canta Curtis, na faixa “Decades.

Atrocity exhibition – No livro Hooky conta que tanto ele quanto o guitarrista Bernard Sumner estavam cansados de tocar seus instrumentos então o que se ouvi aqui é Barney no baixo e Peter na… Guitarra… Quer saber? Está bem legal… “Eu não era nem de perto um guitarrista tão bom quanto ele, veja bem, mas gosto do jeito que soa”, admite. O título da canção é inspirado num livro do escritor britânico, J.G. Ballard, um dos preferidos de Ian Curtis. “Este é o caminho, adentre!”, diz o refrão.

Isolation – Parece mentira, mas é a mais pura verdade. Ao contrário do que parece, essa faixa não tem guitarra. “Se eu escrevesse Isolation hoje, Barney não apenas teria tocado o sintetizador, mas também teria feito uma parte da guitarra”, avalia Hook. O baixo pulsa na faixa. “Mãe, eu tentei, por favor, acredite em mim!”, se desespera Ian, nos vocais.

Passover – Nessa faixa Peter Hook confidencia que toca baixo de seis cordas pela primeira vez. “Acho que, de certa forma, sempre fui um guitarrista frustrado que toca baixo, mas o que fiz foi continuar tocando baixo e fazer dele uma guitarra”, explica. “Esta é a crise que eu sabia que viria”, anuncia Curtis na primeira frase da faixa.

Colony – Para o baixista esta faixa capta a unidade da banda em sua plenitude com os riffs da bateria, do baixo e da guitarra. “Letra sensacional. (…) Essas músicas são o produto de uma banda genial, sem sombra de dúvida”, diz sem falsa modéstia. “Lance de um pai preocupado, um beijo, um último adeus”, diz a letra melancólica.

A means to an end – Segundo Hooky é a canção mais pop do disco. “Tínhamos trabalhado um pouco nela, mas ela foi terminada no estúdio”, comenta Hooky. “Dois do mesmo – demasiadamente livre/Eu sempre olhei para você”, é um dos versos da canção.

Heart and soul – Para mim é a canção mais legal de Closer, com um baixo contagiante e sexy que faz sua alma tremer. “Eu compus o baixo grave e nós o transferimos para o sintetizador”, detalha Hooky. “Existência… bem, o que isto importa?”, eterniza Curtis.

Twenty four hours – No livro Peter Hook revela que Ian Curtis tinha dificuldade em cantar essa música. “Mas sempre acreditei com convicção que um vocalista excelente poder escrever música excelente e não precisa cantá-la perfeitamente”, pondera. “Agora que percebi como tudo saiu errado…”, é um dos trechos da faixa.

The eternal – Para o baixista essa é a sua canção favorita do álbum que já nasceu clássico. “Tem uma qualidade de sonho”, atesta. Sinto ressonâncias de Velvet Underground nessa faixa arrastada. “Qualquer banda morreria para ter essa música na manga, em seu arsenal”, provoca. “Choro como uma criança embora estes anos me tornem mais velho”, diz a letra soturna.

Decades – Peter Hook, com seu estilo beatnik punk despojado confessa, ao escrever sobre essa faixa, que Closer está entre os seus sete discos prediletos. A música é marcada por experimentalismo, com um som incrível de syndrum que lembra acordeão e placas de ecos. “Acho que é mais bonita que Atmosphere”, exagera o baixista. “Batemos nas portas das salas mais sombrias do inferno”, canta Curtis, sombrio.

* Este texto foi escrito ao som de: Closer (Joy Division – 1980)

Closer

Trash – A esperança vem do lixo (2014)

Produção estrangeira com elenco nacional faz crítica social ao Brasil

Produção estrangeira com elenco nacional faz crítica social ao Brasil

Quando começou pipocar notícias sobre o filme Trash – A esperança vem do lixo (2014), do inglês Stephen Daldry na mídia, nem dei bola. Na verdade desdenhei a fita sumariamente. A ponto de não ter nenhuma informação correta sobre ela. Mas meu irmão que é ligado no Telecine mais pop me alertou para a exibição do filme no último sábado e lá fui eu me desculpar com o projeto que foi rodado no Brasil e conta com elenco 95% brasileiro.

É a história de três crianças faveladas que lutam contra todos e tudo depois de acharem uma carteira num lixão, daí o título e tom de fábula que permeia o roteiro do início ao fim. Eles são Gardo (Eduardo Luís), Raphael (Rickson Tevez) e Rato (Gabriel Weinstein), que ao invés de seguirem o caminho mais fácil, ou seja, o de ficar com a carteira e seguir adiante, mas resolvem desvendar os segredos que escondem por trás de um bilhete estranho e uma chave. A escolha o fará com que eles sejam vítimas de uma caçada humana implacável pelas ruas do Rio de Janeiro, com direito a muita violência policial, políticos corrutos e desigualdade social vigente. Típico.

Bem, baseado em livro de Andy Mulligan, Trash tem trama ambientada num país do Terceiro Mundo não identificada na obra. Antes de optarem pelo Brasil, cogitou-se em rodar o filme na Índia ou Filipinas, mas o diretor Stephen Daldry conhecia o cineasta brasileiro Fernando Meirelles e o resto é história. Isso explica muito da pegada de Cidade de Deus em Trash, o que não deixa de ser irritante, mas não macula a produção por inteiro.

O grande chamariz do filme, no entanto, não são os atores Wagner Moura, Selton Mello (o vilão do enredo), José Dumont, Nelson Xavier e o norte-americano Martin Sheen (na pele de um padre voluntário), mas o formidável trio mirim escolhido em comunidades pobres do Rio de Janeiro. Encaixados dentro de um contexto fantasioso e meio medíocre da reprodução da realidade nacional (vide o espetáculo da favelização com a visão hollywoodiana do lixão), eles humanizam e soltam realmente uma centelha de esperança que alude o título nacional.

Ah, sim, e o final, com alusão aos crimes recentes da CBF e envolvimento de políticos nos empreendimentos das Olimpíadas são perturbadores.

* Este texto foi escrito ao som de: Reggatta De Blanc (The Police – 1979)

400

Grandes astros – James Stewart

O ator no auge da carreira no clássico thriller de Alfred Hitchcock...

O ator no auge da carreira no clássico thriller de Alfred Hitchcock…

Eu já conhecia James Stewart antes de saber que ele era James Stewart. Explico. Era quando eu ia assistir aos filmes da Lassie e lá estava ele como o tio simpático que todo mundo queria ter ao lado da cadela mais querida do planeta. Mas isso era nos meus tempos de menino. Despois cresci, passei a entender mais o cinema e seus grandes astros e o vi sempre como um dos maiores nomes da era de ouro de Hollywood.

Ao todos foram 80 títulos entre faroestes, comédias, dramas e suspenses, gênero que ajudou a imortalizar com o mestre Alfred Hitchcock em três clássicos citados abaixo. Começou a despontar em filmes do diretor Frank Capra, na pele do bom rapaz que sempre se encaixava como uma luva dentro dos principais valores da sociedade norte-americana.

Um dos primeiros artistas a se alistar na Força Aérea Americana, abriu mão de uma salário de US$ 3 mil dólares por semanas em troca de parcos US$ 21 mensais, insistindo para ser tratado como qualquer outro soldado. Em 1980, quando ganhou o Oscar por sua contribuição ao cinema, foi original.

“Eu lhes dou James Stewart, um cara de muita sorte. Este prêmio amarra uma fita em volta de uma vida inteira em que me deixaram ser pago para fazer aquilo que mais gosto”, agradeceu bem ao seu estilo.

Chamado pelos amigos apenas de Jimmy, Stewart viveu até a sua morte ao lado da ex-modelo e atriz, Gloria Hatrick, com quem teve um casal de gêmeas. Generoso, adotou os dois filhos do primeiro casamento da mulher e sempre se referia a um deles, morto na Guerra do Vietnã, como “meu filho”.

Top five – Jimmy Stewart Harvey

Janela indiscreta (Rear window – 1954) – Só mesmo Jimmy para segurar uma trama inteira da sua cadeira de rodas na pele de um fotógrafo voyeur que acaba se metendo numa grande encrenca ao enxergar de mais do outro lado da janela. Tudo bem que, por detrás das câmeras ele tinha a segurança do mestre Hitchcock, mas tudo bem já que o mestre do suspense o achava um ator “formidável”.

Festim diabólico (Rope – 1948) –  No filme o astro é Rupert Cadell, um professor espirituoso e safo que desvenda as tramoias de dois amigos sádicos. A primeira escolha para o papel era Cary Grant, o que, felizmente não se concretizou.

Um corpo que cai (Vertigo – 1958) – Na fita ele é o policial charmoso Scottie que tem medo de alturas, mas qual é o maior perigo quando se pode cair por amores diante da loira faltal Kim Novak. Tido por especialistas o melhor filme de Hitch, muito do mérito vem da atuação do ator.

Meu amigo Harvey (Harvey – 1950) – Não é todo ator que, no auge da carreira, abre mão de papeis de peso para embarcar na aventura de ser amigo de um coelho gigante invisível. Mas também só ator, com seu carisma contagiante nos convenceria de tal proeza. Uma das melhores fábulas que já assisti.

O home que matou o facínora (The Man Who Shot Liberty Valance – 1962) – E quem mais poderia contracenar com John Wayne e se sair tão bem ou melhor do que o grande astro dos faroestes norte-americano? Jimmy Stuart, claro, aqui na pele de um senador respeitado que lembra seus dias de advogado ingênuo ao lado do valente pistoleiro Tom Doniphon (Wayne).

* Este texto foi escrito ao som de: Achtung baby (U2 – 1992)

Achtung babyU2

Os reis do rock de Arena no Canal Bis

Documentário do Canal Bis elege U2 maior banda do

Documentário do Canal Bis elege U2 maior banda do “rock de Arena” de todos os tempos

Outro dia, vendo no Canal Bis a série, O nascimento do Rock, me deliciei com algumas informações sobre o Rock de Arena, que é um estilo de se apresentar que não se vê mais nos dias de hoje. Isso se levarmos em consideração performances de plástico de artistas como Lady Gaga, Kate Perry e similares.

Os Beatles meio que foram os pioneiros nessa categoria ao colocar no Shea Stadium, em Nova York, naquele ano de 1965, mais de 55 mil fãs histéricos, mas quem imortalizou o estilo foi o Led Zeppelin e sua mistura explosiva em cena de sensualidade e música, fazendo da música um importante veículo de mensagem e quem tivesse no palco, missionários.

Na sequência, veio o Queen, os meninos maquiados do Kiss e Bruce Springteen, ícone norte-americano do rock por excelência. Imagens de apresentações viscerais do artista, no começo da carreira, são um sundae. O Live Aid, concerto de rock organizado nos anos 80 com objetivo social, não foi esquecido. Assim como a inesquecível passagem de Freddy Mercury e sua banda pelo Brasil, em 1985.

O que despertou atenção para mim no documentário foi inclusão de bandas como The Police e Dire Straits. Emergidos no auge do punk, a banda de Sting e companhia demorou a fazer sucesso em meio à anarquia dos Sex Pistols e bandas punks de Manchester, mas quando estouraram, no final dos anos 70, com o hit Roxanne, ganharam o mundo, e o topo, claro, seria o mercado norte-americano, lotando estádios, um deles o mítico Shea Stadium.

Já o Dire Straits, com a guitarra minimalista de Mark Knopfler, seguiu a mesma trilha de grandes apresentações, ancorados pelo sucesso da irônica faixa, Money for nothing, escrita em parceria, veja você, com Sting. Na música, os dois astros do pop rock britânico fazem uma crítica ferrenha (sem trocadilho com o apelido do líder do The Police), com a futilidade dos programas de TV musicais como MTV. “O com o sucesso da canção Mark Knopfler entrou no mundo que ele satirizava”, nota um dos entrevistados.

O documentário termina, merecidamente, elegendo o U2 como a mais importante e derradeira banda a personificar o rock de Arena. Uma cena é emblemática, a de Bono, no começo da carreira, no Live Aid, arrancando uma das fãs do imenso mar de gente, para dividir o palco com ele. Com o sucesso do icônico, The Joshua Tree (1987), a banda irlandesa lotaria estádios nos quatro do planeta, profissionalizando o estilo, de forma bem original e inteligente, com a turnê do álbum futurista Achtung Baby, Zoo TV. “O U2 é a melhor banda de rock de Arena, isso não quer dizer que eles sejam a melhor banda de rock”, observa um crítico de música.

* Este texto foi escrito ao som de: Achtung Baby (U2 – 1992)

achtung-baby-cover-graphic-design-amp-visual