Sherlock Holmes na visão de Billy Wilder

Billy Wilder levou para as telas um Sherlock Holmes mais melancólico e blasé

Numa das duas vezes em que subiu ao palco da grande festa do Oscar deste ano, o cineasta francês Michel Hazanavicius, vencedor dos prêmios de melhor diretor e melhor filme por, O artista, fez questão de agradecer o seu sucesso e reconhecimento ao talento de Billy Wilder. Não foi o primeiro a fazer isso. Em 1994, quando pegou sua estatueta de melhor filme estrangeiro pela comédia, Sedução, o espanhol Fernando Trueba fez o mesmo. Só que de maneira mais passional:

– Se acreditasse em Deus, agradeceria a Deus. Mas, como não acredito, agradeço a Billy Wilder.

Demonstrações mais do que justas a um dos grandes nomes do cinema do século 20. E se você ainda não viu nenhum filme desse grande mestre da sétima arte, o que acho impossível, com certeza não saberá e nem entenderá o tamanho da admiração dos dois artistas. Bem, eu vi todos os filmes de Billy Wilder que saíram em DVD no Brasil e, alguns daqueles que não saíram, como é o caso de, Amor da tarde (1957) tive o prazer de assistir no Cine Cult.

Rodado em 1970, A vida íntima de Sherlock Holmes, era outro trabalho de Wilder que eu não conhecia e tive a sorte de ver outro dia na SKY. Um tanto quanto desprezado pela crítica e por seus seguidores, essa comédia de época surpreende, claro, por aquilo que o diretor tinha de melhor, ou seja, o humor cínico.

Imagina a clássica história do detetive mais famoso do mundo e seu fiel assistente, Dr. Watson, criada por Arthur Conan Doyle, na visão de Billy Wilder… No mínimo um sundae. No filme, o enrendo escrito a quatro mãos com, I.A.L. Diamond, co-roteirista de sucessos como, Quanto mais quente, melhor! (1959) e Se meu apartamento falasse (1960), a partir da fusão de dois episódios do autor, a personagem ganha um ar mais melancólico e blasé, lembrando o escritor irlandês, Oscar Wilde, mas não menos divertido e perspicaz.

Agora, ele tem sua intimidade colocada em risco quando uma conceituada bailarina russa o elege a pessoa perfeita para ser o pai de sua criança. Argumenta que ela entraria com a beleza e ele com a inteligência, numa proposta que tenho quase certeza, os roteiristas roubaram do célebre mal-entendido envolvendo a diva da dança, Isadora Duncan, e o dramaturgo, Bernard Shaw. Whatever…

Assustado, Holmes, interpretado aqui por (quem?) Robert Stephens, se defende dizendo que tal missão seria impossível de acontecer já que joga no mesmo time que o compositor, Tchaikovsky, ou seja, vive um caso ardente há cinco anos com o amigo, Watson. “Não sou misógino. Na verdade, eu não odeio as mulheres. Apenas não confio nelas”, justifica, sem muita convicção.

E tal dúvida perdura toda a trama rocambolesca que envolve ainda anões de circo, fujões, o mito do monstro do Lago Ness, integrantes do balé, o lago dos cisnes, um submarino britânico e uma espiã alemã. “Só o extraordinário me interessa”, diz meio esnobe o detetive.

Divertido e iconoclasta, A vida íntima de Sherlock Holmes, apresenta Billy Wilder no que ele tem de melhor, ou seja, em completa sintonia e harmonia com o roteiro, um dos departamentos dessa grande engrenagem que é o cinema em que ele sempre se deu bem e teve à vontade, mesmo não estando em seu auge.

* Este texto foi escrito ao som de: Tchaikovsky Swan Lake, complete ballet (André Previn – 1976)

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Creme Nivea: Um século de vida

Se você tem um produto Nivea em casa agradeça ao bigodudo aí…

Não olhe agora, mas aquele potinho azul de creme branco como a neve que você tem guardado na gaveta de sua penteadeira está completando um século de vida. Isso mesmo, o Creme Nivea faz 100 anos e se firmando no mercado como um dos produtos mais bem sucedidos da indústria dos cosméticos. Talvez seja o número um do ramo, não sei.

O que eu sei é que ainda me lembro como se fosse hoje daquele cheiro de sonho do creme Nivea da minha mãe e como eu gostava de pegar, apertar aquela latinha azul lisa cheirosa. E o papel alumínio dava todo um charme à embalagem, lembra? Acredite se quiser, mas o perfume delicioso do creme Nivea marcou a minha infância, daí a surpresa em saber que a marca completa dez décadas de estrada.

Uma matéria bacana na GloboNews, no programa, Mundo S/A, feita pela linda repórter Elaine Bast, me fez ter um daqueles processos proustianos. Na reportagen, a gatinha mostra  o segredo do sucesso de um creme feito à base de água e óleo e que vende como água. E como água mesmo que ver?

Para se ter ideia do tamanho do apelo desse creme hidratante, o primeiro da história, mais de 500 mil potinhos azuis são vendidos por dia no mundo, 150 milhões por ano. E estou falando apenas do creme Nivea, que é o carro feche da empresa Beiersdorf, criadora da patente, com sede em Hamburgo, na Alemanha.

Enfim, vamos lá, nascido, precisamente, em 1911, a partir de estudos feitos a base de cera retirada da lã de ovelha, o creme Nivea era, a princípio, usado para fins medicinais. Acho que um troço parecido aconteceu com a Coca-Cola. A ideia de transformá-lo em creme hidratante nasceu do Dr. Oscar Troplowitz, dono da empresa Beiersdorf, que acreditava que aquela mistura de água, óleo e sebo de ovelha podia dar em algo bom e deu no que deu.

A primeira latinha do produto comercializada era amarelada e decorada em estilo romântico art noveau. O nome em latim, Nivea, faz referência à textura branca da pomada e quer dizer neve. O famoso potinho azul tal qual conhecemos hoje só seria bolado em 1924 e contava com estilo sóbrio Bauhaus.

E eles não pararam por aí. Sempre atento às novidades e acompanhado de perto as tendências da sociedade, a Beiersdorf seria pioneira também em outras fórmulas, a dos cremes para rugas – se é que isso resolve alguma coisa – e protetores solares. O primeiro creme solar da história a ser criado foi no início da década de 60, o Nivea Sun Oil. Hoje, mais de 500 produtos fazem parte da linha da empresa que tem uma filial no Brasil.

E muito do prestígio que a marca Nivea tem no mercado se deve à confiança que os clientes masculinos e, sobretudo, femininos, têm no produto. “É um creme universal, uma marca popular”, gosta de dizer a relações públicas da empresa. E que saber? É a mais pura verdade.

Escrever sobre o creme Nivea me fez lembrar o dia em que perguntei para uma garota que perfume ela usava, porque achava o cheiro delicioso. Ela não só esnobou como fez troça do epidódio. Eu só lamentei a pobreza de espírito. Bom, eu ainda não sei qual é o nome do perfume que ela usa, mesmo assim acho que ela tem cheiro de creme Nivea.

* Este texto foi escrito ao som de: Dusty in Memphis (Dusty Springfield – 1969)

Noite francesa no Oscar 2012

O roteiro nostálgico e estiloso do grande Woody Allen (dir.) não foi esquecido no Oscar 2012

Eu amo o Woody Allen. Sobretudo porque ele esnoba o Oscar, que é uma grande bobagem. Daí o fato dele quase nunca ir à festa. Acho que o cineasta nova-iorquino só apareceu uma vez e se não me engano para homenagear a cidade que tanto ama. Mas enfim, ele devia estar tocando o seu jazz em algum lugar em Manhattan e estou feliz da vida por ele ter levado mais um prêmio na maior festa do cinema, o de Melhor Roteiro Original com, Meia-noite em Paris, um de seus melhores trabalhos.

É a história de um escritor em crise criativa que, ao viajar no tempo e parar na efervescente Paris, dos anos 30, recupera a inspiração. Com muito humor e elegância, Woody Allen presta uma homenagem à capital francesa e aos artistas daquele tempo. O enredo é bem felliniano, bem a cara do Woody Allen.

E o roteiro premiado deste grande mestre do cinema reverencia a França, a grande vencedora do Oscar 2012, com cinco estatuetas para o fantástico, O artista, de Michel Hazanavicius. Aliás, o filme quebra dois tabus: premiar um diretor e um filme que não seja norte-americano. Para ver que às vezes a América sofre de humildade e dobra os joelhos aos melhores.

De quebra, mostra que o cinema do passado, dos primórdios da sétima arte, o cinema de talentos como Charles Chaplin e tantos outros, sempre serão reverenciados. A trama, completamente muda e em preto e branco, gira em torno de um astro de cinema mudo que acaba sendo engolfado pela nova sensação das telonas: o som. Charmoso, Jean Dujardin está incrível em cena, quase uma cópia do lindo Gene Kelly.

Só ficou difícil de entender mesmo foi a música sem graça do filme, Os muppets, desbancar a envolvente canção de Carlinhos Brown e Sérgio Mendes. É isso o que dar não ter samba no pé, esses gringos não entendem nada de música brasileira. Bem, como diria o velho bardo Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”.

Os grandes vencedores da noite foram, A invenção de Hugo Cabret e O artista, com cinco Oscars para cada um. Os mais técnicos para a produção de Martin Scorsese e os mais importantes para a produção francesa.

E o Oscar foi para:

O artista

Melhor Filme

Melhor Diretor (Michel Hazanavicius)

Melhor Ator (Jean Dujardin)

Melhor Figurino

Melhor Trilha Sonora Original

Hugo Cabret

Fotografia

Direção de arte

Edição de som

Mixagem de som

Efeitos especiais

A dama de ferro

Melhor Atriz (Meryl Streep)

Maquiagem

Histórias cruzadas

Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)

A separação (Irã)

Melhor filme estrangeiro

Millenium – Os homens que não amavam as mulheres

Melhor montagem

Rango

Melhor Animação

Toda forma de amor

Melhor Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

Os descendentes

Melhor Roteiro Adaptado

Meia-noite em Paris

Melhor Roteiro Original

* Este texto foi escrito ao som de: Wild is the wind (Nina Simone – 1966)

Oscar 2012… Façam suas apostas!

O filme de Scorsese é uma pintura, mas O artista é mais cinema

Hoje é noite de Oscar então façam suas apostas no bolão mais agitado do cinema porque eu já fiz a minha. Mas antes de debulhar a lista dos meus favoritos ao prêmio, gostaria de dizer, uma ou duas coisas, sobre a maior festa da indústria cinematográfica. Uma delas é que tudo ali não passa de lobby e que, nem sempre, os melhores ganham. Injustiça é uma das marcar registradas da cerimônia. Basta conferir.

A outra é que existem coisas bisonhas, medonhas neste páreo, como a lista dos nove indicados ao prêmio principal. Por exemplo, Cavalo de guerra, de Steven Spielberg é um bom filme e só. Essa bajulação judaico-cristã em torno do diretor de E.T. e Indiana Jones é força a barra e muito, me irrita em demasia.

Também não faz sentido do drama meloso, Histórias cruzadas, disputar o prêmio de melhor filme. Há certo exagero de contemplação da academia em colocar em evidência trabalhos que valem menos do que a luz ofuscante de seu verdadeiro mérito.

Ah, sim, e vou torcer muito, bastante mesmo pelo Brasil, representado pela figura do simpático Carlinhos Brown e do talentoso, Sérgio Mendes, um dos artistas mais brilhantes da nossa música. Tomara que seja agora que saímos dessa festa com o “seu Oscar” debaixo do braço. Veja os indicados ao Oscar 2012 aqui.

Minha aposta vai para:

Melhor Filme (O artista) – É filme para quem gosta de cinema e ponto final. Sinceramente, há muito tempo que não assistia a uma produção com tamanho esmero e beleza de conteúdo.

Melhor Diretor (Martin Scorsese) – Hugo Cabret é um atestado da paixão desse nova-iorquino pela sétima arte. Com elegância e lirismo Scorsese mais uma vez mostrou porque está entre os grandes.

Melhor Ator (Jean Dujardin – O artista) – Com seu carisma a la Gene Kelly, o charmoso ator francês só tem no caminho uma pedra chamada George Clooney, mas quem viu O artista, sabe que o prêmio seria mais do que merecido.

Melhor Atriz (Meryl Streep – A dama de ferro) – Indicada um punhado de vezes e vencedora em duas ocasiões,
meryl Streep deve aumentar sua coleção e com justiça porque ela está divina, soberba na pele da estadista britânica.

Melhor Roteiro Original (Woody Allen – Meia-noite em Paris) – Poucos diretores escrevem tão bem seus próprios roteiros como esse baixinho genial. Em Meia-noite em Paris ele mais uma vez se supera na sua visão afetiva sobre a Paris dos anos 30.

Melhor Roteiro Adaptado (George Clooney – Tudo pelo poder) – Fábula moderna sobre a promiscuidade entre a política e a imprensa, o filme mostra que o bonitão chegou à maturidade com inteligência incisiva.

Melhor Filme Estrangeiro (A separação – Irã) – Impressionante como uma sociedade tão fechada é capaz de produzir pérolas como essa produção pungente e intensa. A protagonista é de uma beleza renascentista.

Melhor Maquiagem (A dama de ferro) – Embora sobrecarregada, a maquiagem de J. Hoover impressiona, mas Meryl Streep está sobrenatural na personificação de Margaret Thatcher.

Melhores Efeitos Visuais (Hugo Cabret) – Cinema em 3D, aboletado de efeitos visuias só presta com conteúdo e isso é o que mostra o singelo e melancólico, Hugo Cabret, de uma poesia visual deslumbrante.

Melhor Direção de Arte e Figurino – Se ninguém não falasse nada, duvido que acreditaria ou mesmo saberia que, O artista, é um filme de nosso tempo. Pois bem, muito dessa veracidade se dá ao talento dos atores, mas, sobretudo, dos figurinos e impecável direção de arte, que nos faz viajar na era dos filmes mudos.

* Este texto foi escrito ao som de: 21 (Adele – 2011)

Einstein – A ciência da vida

Acredite, mas até Einstein enfretou grandes dificuldades no começo da carreira

Outro dia me peguei assistindo, numa dessas madrugadas insones, o épico Gandhi (1982), filme ganhador de três Oscars. Lá pelas tantas, alguém fala da comoção e perplexidade mundial diante da morte da “grande alma”. Várias celebridades se mostram chocadas, uma delas o cientista, Albert Einstein, que deixou registrado para a posteridade sua tristeza e indignação pela morte do líder indiano. “As gerações futuras não irão acreditar que existiu um dia na Terra um homem como Mahatma Gandhi”, resumiu.

E era verdade. Einstein fazia alusão à humildade divina e simplicidade quase incômoda de um líder que se afirmava no outro, no próximo. Ou seja, apesar de sua importância para o povo de seu país, que era enorme e, sobretudo, para a humanidade naqueles anos de conflitos, Mahatma Gandhi nunca deixou de ser o que sempre foi em sua essência: um homem do povo, um homem simples.

O próprio Albert Einstein tinha urticárias febris quando o tratava como se fosse um ser superior. No auge da fama, era comum vê-lo fazendo suas viagens de segunda classe. Para o grande homem da ciência o mais importante era o ser e não o ter.

Só por causa desse episódio e do comentário de Einstein sobre Ghandi, me senti motivado a ler uma biografia desse emblemático homem da ciência do século 20. Para tanto, recorri ao meu amigo Maguete, que é um grande admirador de tudo relacionado à astrologia, química e física, ou seja, das artes exatas. Portanto, fã de carteirinha de Albert Einstein e ele me saiu com, Einstein – A ciência da vida, da editora Ática, escrito por Denis Brian.

Antes de tudo, é bom que se diga que o físico alemão faz parte do meu universo cultural desde a adolescência e a razão se deve ao meu melhor amigo da época, o Fernando, que amava o trabalho desse grande homem e que morreria precocemente afogado nas praias de Ilhéus. Até hoje ainda não tive coragem de ler um livro que ganhei dele sobre as similaridades entre o Einstein e o Humberto Rohden, enfim…

Mas voltando à biografia, vale dizer que ela é bacana, rico em detalhes, mas eu ainda estou bem no começo. De qualquer forma, já deu para entender a origem desse humanismo latente do Einstein que marcaria sua trajetória até a morte dele, em 1955. Einstein era um sujeito avoado, que não tinha nenhuma preocupação ou apego com dinheiro e que gostava de passar horas e horas discutindo sobre física, química ou matemática com amigos, alunos e entendidos no assunto.

“Nós dois não damos a mínima para as alturas!”, desdenhou certa vez, num comentário com à primeira mulher.

Bem, aos 18 anos ele foi embora para Suíça, para estudar, e arrumou uma confusão dantesca com a família por se apaixonar por uma mulher, quatro anos mais velha, a sérvia, Mileva. A mãe seria uma opositora ferrenha do romance e como se não bastasse, ainda tinha que enfrentar a intolerância do pai, que não queria vê-lo metido com teorias e cálculos, o pressionando a trabalhar numa empresa de seguro. “Essa senhorita é responsável pelos momentos mais amargos da minha vida”, desabafou a mãe, chateada com a relação do filho.

Para Albert Einstein, que amava matar o seu tempo tocando violino, a saída era conseguir uma vaga como professor de exatas, cargo que seria mais fácil de conquistar, conseguindo a cidadania suíça. Enquanto não saía o emprego de professor e a tal cidadania, ia se virando para criar a filha Lieserl, que dizem, ainda não cheguei lá, seria dada à doação.

Como se vê, não existe nenhum Jesus caindo do céu e a vida foi difícil para todos, até para os grandes homens, entre eles esse grande gênio da humanidade.

* Este texto foi escrito ao som de: Radio-Activity (Kraftwert – 1975)

Meryl Streep brilha em A dama de ferro

Só uma zebra daquelas tira o Oscar de Meryl Streep no próximo domingo

Guardo grande admiração, certo fascínio mesmo por mulheres fortes, de caráter obstinado e que, definitivamente, sabem o que querem. Uma pena que grande parte delas são sombreada pelo signo da soberba, do desprezo e da arrogância. Margaret Thatcher foi tudo isso e muito mais. Mas em seu caso, tais atributos faziam até sentido dentro de sua rotina, ou seja, da liturgia do poder que a cercava.

Bem, eu nem sabia disso tudo quando via aquela mulher de rosto expressivo, meio carrancudo e cabelo laqueado na televisão ao lado de Ronald Reagan e dos principais líderes do mundo ou de bobeira na Câmara dos Comuns em Londres. Na verdade, nem tinha noção de sua importância no cenário mundial, mas me simpatizava com a figura.

Uma simpatia que ganha proporções quase épicas e encontra razão de ser com o sucesso do filme, A dama de ferro, um dos destaques do Oscar deste ano. E não pelas indicações, que são apenas duas, mas pelo desempenho soberbo de Meryl Streep, a favorita ao prêmio de melhor atriz, impecável na pele da líder britânica. Portanto, é bom que se diga logo, o filme se resume ao talento surpreendente dessa atriz que começou fazendo filme, olha vejam, com Woody Allen.

“Sou uma espoja”, disse ela, modesta, minimizando o sucesso de seu desempenho magnífico. “Ela mudou os rumos da política, foi uma grande quebra de status quo”, acredita Streep.

Interessante a forma como a diretora Phyllida Lloyd conduz a narrativa dessa cinebiografia política, intercalando as memórias de uma mulher solitária, que teve o poder em suas mãos, por durante longos 11 anos, com o seu passado de glória. No filme, vida privada e vida pública se misturam e se complementam de forma despretensiosa, honesta.

Filha de dono de mercearia, desde jovem Margaret Thatcher teve que vencer as barreiras dos preconceitos, tanto de classe – por causa da origem proletária da família -, quanto de sexo, – devido ao secular machismo da sociedade inglesa.

Obstinada, tenaz e brilhante ela se impôs contra tudo e contra dos, tornando-se não apenas a primeira mulher líder do partido conservador, na Inglaterra, mas a primeira-ministra da Europa. Mais do que isso, foi a mulher mais poderosos do século 20 e, a cargo dessa importância, mudou a face da história.

A ascensão gloriosa de Thatcher é sublinhada no filme pela, em cenas de uma poesia visual emblemática, como a dos sapatos da poderosa primeira-ministra nadando na maré dos calçados sisudos masculinos. Ou quando ela trilha soberana, num corredor, cercada por homens.

“Eu não posso passar o resto da minha vida lavando louça de chá”, advertiu o marido, quando foi escolhida como esposa.

Para ajudar a contar essa história, imagens do final dos anos 70 e dos anos 80, se entrelaçam com as memórias de uma Thatcher fragilizada, assombrada pela velhice e o fantasma do marido morto, que sempre foi um cavalheiro, enquanto a mulher esteve à frente da maior potência europeia na época.

Momentos polêmicos de sua carreira, como o embate contra os trabalhistas, a posição ferrenha ao comunismo, que lhe rendeu o apelido, “dama de ferro”, e os conflitos com os argentinos na Guerra das Malvinas, não são negligenciados.

“Não negocio com criminosos e bandidos. Essa é uma guerra que começamos e que vamos terminar”, diz ela categoricamente, ao se desvencilhar dos americanos, que queriam uma saída diplomática. “Um dos grandes problemas do nosso tempo é que somos governados por pessoas que se preocupam mais com sentimentos do que com pensamentos e ideias. Pensamentos e Ideias. Isso me interessa”, ensina.

Controladora, Maggie, como era chamada cariosamente pelos admiradores e, jocosamente, pelos detratores, era uma mulher forte que escondia com astúcia o seu lado meigo, descontraído, uma faceta quase obscura distante dos holofotes do poder.

Com seu jeito sóbrio de vestir, era vaidosa ao extremo, mas completamente consciente da hora de sair em cena. Bem ou mal, é este lado que sobressaí em , A dama de ferro, e que Meryl Streep encarna tão bem.

* Este texto foi escrito ao som de: Sound affects (The Jam – 1980)



Varekai e o mito de Ícaro em Brasília

Evocando o mito grego de ìcaro, Varekai encanta o público com números como o dos russos alados

Levei minha afilhada para ver o Cirque du Soleil, ontem, numa sessão só para convidados. Ela adorou. Eu nem tanto. Achei chato e cansativo e nem um pouco com cara de circo. Mas o Cirque Du Soleil é isso. Uma mistura de espetáculos da Broadway com desfile de escola de samba e arte circense. O resultado é uma explosão de cores, movimentos arrojados e performances arrebatadoras, mas, no fundo, essa euforia das pessoas com relação às montagens da maior trupe do mundo, não passa de deslumbramento burguês.

Com estreia hoje em Brasília, para público pagante, Varekai é tudo isso e um pouco mais. Quarta montagem a desembarcar no Brasil, depois de Saltimbanco, Alegría e Quidam, o espetáculo encanta, deslumbra porque traz em sua essência, a arte do impossível, quando se trata de movimentos e superação dos limites do corpo, contudo, são apresentações que carecem de alma, no que diz respeito à emoção.

Desta vez, o mito de Ícaro entra em cena para falar da identidade nômade que existe dentro de cada um de nós. A própria origem romena do nome, “onde quer que seja”, evoca essa premissa. Assim, criaturas bizarras como ogros, anões, fadas, calangos gigantes, feras pré-históricas e palhaços entram em cena num clima de terror e magia. Confesso que minha afilhada ficou um pouco assustada no início.

Na verdade, não se entende muito os enredos, as mise en scènes do Cirque Du Soleil. Tudo é muito interativo e sensorial. O segredo é embarcar na viagem e deixar a imaginação correr solta e para isso é preciso ter uma imaginação de Jules Verne.

Acontece que quando as histórias da trupe canadense tende a ser intelectual e erudito demais, entedia. Quando a narrativa ganha contornos circenses, de fato, a interação com o público é imediata e espontânea. Daí o sucesso arrebatador dos clowns, eternos mestres do riso, que nessa montagem, estão nitidamente ligados com os trejeitos universais de Charles Chaplin.

O grandalhão norte-americano Gordon White, por exemplo, que encarna espécie de ogro guardião, é de uma simpatia comovente, quase infantil e munido de sensível criatividade cênica é capaz de dar vida e identidade lúdica a duas simples lâmpadas.

Já a dupla de palhaços, Mercedes Hernandez e Steven Bishop – ela argentina e ele australiano -, recorrem às estripulias do teatro de variedades para dar vida a um mágico sem talento nenhum e sua assistente redondinha atrapalhada. Talentosos, os dois artistas voltam em cena em diversos quadros, para alegria do público e, com certa dose de sofisticação, arranca gargalhadas trepidantes em momentos como aquele em que Bishop, nunca caricatura do cantor belga, Jacques Brel, duela pela atenção do público e da mira do canhão de luz, sem sucesso. Absurdamente simples, mas sensacional.

As performances dos artistas asiáticos mirins também são de tirar o fôlego, assim como dos acrobatas suspensos no ar. Ainda mais depois do recente acidente com o cabo de aço envolvendo o elenco da peça, Xanadu, no Rio de Janeiro. Não dá para não ficar com um frio na barriga quando vemos aqueles pássaros humanos voando por cima de nossas cabeças.

O gran finale, com os movimentos aéreos dos russian swings, levou a plateia ao delírio e tinha razão de ser. Usando futuristas pranchas de aços, 12 vermelhos demônios alados alçavam seus voos mirabolantes, como quem desafia a lei da gravidade, a lei do espaço, a lei dos pássaros.

No Cirque du Soleil, mesmo você não entendendo nada, faz um tour divertido além da fronteira da imaginaçãonão entender nada, mas e daí? Arte não é para entender e sim para sentir. That’s entertainment, já dizia o poeta urbano, Paul Weller.

No festival de movimentos e vigor físico, nada supera os russos alados e suas pranchas futurísticas. São dozes demônios rubros bailando no ar em seus mirabolantes voos que desafiam a lei da gravidade, do espaço e dos pássaros. E porque, não, da imaginação. Cirque Du Soleil é isso, uma viagem além da fronteira da realidade. Você entendendo ou não.

* Este texto foi escrito ao som de: We’re only in it for the money (Mothers of invention – 1968)

Jairo Ferreira e o cinema de invenção

“Chupo filmes para renovar meu sangue”, gostava de provocar Jairo.

Até parece provocação, mas a mostra, Jairo Ferreira – Cinema de Invenção, estreia no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) de Brasília, justamente na semana da grande festa do cinema mundial, o Oscar – o que para os entendidos, nada mais é do que sinônimo de convencionalismo no mundo cinematográfico -, ou seja, o oposto do que foi o agitado e contestador Ferreira.

Enfim, coincidência ou uma dessas peças que o mundo das artes e da cultura adora nos pregar, o fato é que o crítico de cinema, cineasta, ator, fotógrafo de cena, poeta e jornalista paulistano, Jairo Ferreira (1945 – 2003), foi um dos mais ativos e importantes pensadores da arte em película, autor do cultuado livro, Cinema de invenção, corrente marcada pelo experimentalismo criativo. Resumindo, Jairo Ferreira é sinônimo de Cinema Marginal e ponto final.

Logo, a mostra que acontece de hoje até 04 de março em Brasília, apresenta os principais filmes do movimento – mais de vinte títulos -, obras como os clássicos, A mulher de todos, de Rogério Sganzerla – ícone do cinema marginal – além de A herança, de Ozualdo Candeias, Jardim da guerra, de Neville d’Almeida, e o marco do gênero, Limite, de Mário Peixoto.

Contudo, a grande surpresa do encontro fica por conta mesmo da exibição da raríssima filmografia do diretor, formada por dois longas-metragens, um média e seis curtas, a maior parte rodados em Super-8, num período que vai de 1973 a 1980. “Chupo filmes para renovar meu sangue”, gostava de provocar.

Realizados artesanalmente, seus trabalhos nunca foram exibidos comercialmente e a mostra Jairo Ferreira – Cinema de invenção dá a oportunidade de quem não vive sem cinema e tem fome de novas descobertas, de conferir toda sua filmografia reunida num único espaço. Uma chance realmente ímpar aos amantes do cinema de provocação, de contestação, de invenção.

São filmes como O guru e os guris e Ecos caóticos, este último uma homenagem experimental ao poeta maranhense, Sousândrade. Também é destaque do encontro o media-metragem, Horror Palace Hotel, em que Jairo Ferreira colhe depoimentos dos principais nomes do cinema de horror no Brasil como, José Mojica e Ivan Cardoso.

Um pensador e artista à margem da margem do cinema, Jairo Ferreira pregava que o exercício cinematográfico tinha que ser um constante trabalho de experimentalismo narrativo, estético e criativo. Características que marcaram verticalmente a cinematografia do cinema marginal, corrente que remava contra todos os dogmas e preceitos selvagens do cinema comercial. Daí a máxima do poeta norte-americano, Ezra Pound, pontuar seus anseios e ambições como criador e estudioso da sétima arte. “Inventores são homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo”.

* Este texto foi escrito ao som de: Clara Crocodilo e Tubarões voadores (Arrigo Barnabé – 1980/1984)

Os traços inconfundíveis de Benício

O gaúcho Benício é o mago dos traços femininos

Se não me engano, acho que a primeira vez em que ouvi falar do desenhista Benício, ou melhor, José Luiz Benício, foi da boca do meu amigo Pedrão, que tem uma sensibilidade ímpar quando o assunto é quadrinhos, desenhos e ilustrações em geral. Mais tarde, outro colega meu desenhista e pintor de mão cheia, o Maguete, fez aguçar a minha admiração por este talentoso artista gaúcho há décadas radicado no Rio de Janeiro, onde tem um escritório no Leblon.

Lembrei desses dois chapa ao ver, recentemente, na GloboNews, uma entrevista com o grande ilustrador brasileiro. E se você está chateado por não saber de quem se trata, não tem problema não, porque, mesmo sem nunca ter ouvido falar de Benício, hoje com 76 anos, com certeza tem gravado em sua memória os traços inconfundíveis que o consagrou desde os anos 60, quando realizou trabalhos marcantes para gigantes como a Coca-Cola e a Esso.

Se não, então tire aquela fita em VHS velha e empoeirada dos Trapalhões de sua estante e se deleite. Isso mesmo, influenciado pelo trabalho de artistas como o norte-americano, Norman Rockwell, Benício desenhou mais de 300 cartazes de filmes brasileiros, num período de 30 anos. Só da turma do Didi, ficou responsável por todos, além dos inesquecíveis, Dona flor e seus dois maridos, O beijo no asfalto e Independência ou morte, segundo ele, sua obra-prima.

Sempre a cargo de suas tintas a guache, Benício, um amante das belas e sinuosas curvas femininas, cunhou um estilo único em traços inconfundíveis, uma prova desse talento está no trabalho, A super fêmea, clássico da pornochanchada que lançou a musa Vera Fischer. Os desenhos de Benício parecem ganhar vida, são quase reais, tanto, que dá vontade de beliscar uma deles. É uma arte pontuada pelos detalhes, pela precisão, pelo olhar atento e minucioso.

O amor do artista pelas mulheres o levou a ser reconhecido como o rei das pin-ups brasileiro e é fácil saber o porquê dando uma conferida em seu site oficial, onde estão arquivados os desenhos mais deliciosos dessa categoria.

Mas a técnica sofisticada de Benício pode ser conferida em diversos seguimentos da mídia como em capas de livros – no caso os pocket books -, publicidade, além de matérias especiais e editorias de revistas como a, Playboy, Isto É e Veja, entre outras. Gosto em particular da série, “Divas”, em que homenageia lindas mulheres do cinema como, Marilyn Monroe, Ava Gardner, Greta Garbo, Rita Hayworth, Audrey Hepburn, entre outras, em pinceladas únicas.

Como não podia deixar de ser, a arquitetura também foi reverenciada por esse grande artista, que desenhou marcantes ilustrações na área. Quer ver? Quando você for ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro e se encantar com o teto em estilo belle epóque do espaço, lembre-se de seu nome.

Vou falar uma coisa para vocês. As coisas belas da vida que nos cercam ficam bem mais exultantes pelos olhos e mãos desse mago dos traços, nosso Michelangelo da ilustração.

* Este texto foi escrito ao som de: Mustang cor de sangue (Marcos Valle – 1969)

J. Hoover segundo Clint Eastwood

Soterrado por quilos de maquiagem Leonardo DiCaprio encarna o temido J. Hoover

Cinebiografia sobre homens que marcaram a história da humanidade é um exercício perigoso do qual alguns cineastas adoram se meter. E quando esses homens importantes da história da humanidade tiveram um papel negativo ou, digamos assim, no mínimo dúbio, então é quase como que mexer com poderosa carga explosiva. Mas nada que no auge dos seus 80 anos a lenda viva, Clint Eastwood, com toda a experiência que a vida no cinema lhe deu, temesse.

Daí que, amparado pelo talentoso roteirista, Dustin Lance Black (vencedor do Oscar por Milk – A voz da igualdade), e o brilho de Leonardo DiCaprio, soterrado por quilos de maquiagem, o eterno homem de Alcatraz não deixou se intimidar nem um pouco com esse possível imbróglio e levou para as telas a trajetória do polêmico e diretor do FBI, John Edgar Hoover.

O recorte do filme tem como foco a ascensão do homem que deu uma identidade única ao sistema de segurança nos Estados Unidos, transformando o FBI, organização da qual foi patrono, numa das mais importantes entidades do ramo no mundo. Tudo isso conquistado num período de 48 anos, oito mandatos presidenciais e dezoito secretários de Justiça.

“Inovadores não são aclamados, não num primeiro momento”, acreditava Hoover, que antes, trabalhava na Biblioteca do Congresso americano.

Pois bem, sua história começa em 1919, numa época em que vilões e herois ditavam as cartas, ou seja, quando os primeiros eram encarnados na figura demoníaca dos vermelhos comunistas bolchevistas e os segundos, em ousados gângsters transformados em ídolos do cinema. Meticuloso e metódico, pouco a pouco, o jovem Hoover foi demonstrando seu valor e talento na luta contra o crime até alçar a condição de diretor do FBI.

Uma de suas grandes contribuições na cruzada para profissionalizar a instituição, foi a inclusão do sistema de impressões de digitais, projeto recebido na época com certa resistência, mas quando morreu, em 1972, os arquivos do FBI possuíam mais de 200 milhões de dedões catalogados. “Informação é poder”, acreditava. “Somos os mocinhos, somos o FBI”, debochava dos opositores.

Embora respaldado por narrativa burocrática, no filme, Clint Eastwood humaniza a figura de Hoover, desnudando, até onde pode e consegue, as duas facetas de um dos homens mais poderosos da América. Mostra como a obstinação e a autoconfiança do diretor o levaram a prender os mais temíveis criminosos de seu tempo, entre eles, os inimigos públicos, John Dillinger e Baby Face, além do seqüestrador do filho do aviador, Charles Lindbergh.

Mas também revelando o quanto de crédito ele realmente teve nas ações que fizeram a sua suposta glória, assim como o poder e a vaidade o levaram a cometer as maiores arbitrariedades contra alguns setores da sociedade americana. Não é à toa que o presidente Harry Truman chegou a comparar o FBI à Gestapo Nazista.

“Nossa missão é o bem estar do cidadão americano”, defendia-se, Hoover. “O que o bebê Kennedy quer agora?”, resmunga numa das cenas mais divertidas da fita, mostrando o peso do cargo.

Contradições que justifica a sombria e escura fotografia do filme, como que enfatizando o quão obscura foi a trajetória de um dos homens mais poderosos da América. Por exemplo, o que escondiam os arquivos secretos do temido diretor do FBI, destruídos logo após sua morte?

E afinal, J. Hoover gostava ou não de molhar a rosquinha? Enfim, segredos que, bem ou mal, ele conseguiu esconder graças ao amparo de duas mulheres importantes em sua vida.

Uma delas foi a secretária Helen Gandy (Naomi Watts), com quem ele desejava se casar, mas o máximo que conseguiu foi transformá-la em sua fiel escudeira. Foi Gandy quem deu cabo dos temidos arquivos do diretor logo após a sua morte.

A outra foi a protetora e vigilante matriarca (Judi Dench), uma mulher obcecada pelo sucesso e que, numa das cenas de maior dramaticidade do filme, revela que não queria saber do filho andando para baixo e para cima de bolsinha na mão, não. “Prefiro mil vezes ter um filho morto do que homossexual”, avisou.

Bem, os mitos existem para serem derrubados. Pelo menos é o que mostra o mestre Clint Eastwood nesse drama intrigante.

* Este texto foi escrito ao som de: A girl called Dusty (Dusty Springfield – 1964)