Pato Fu no Fica 2014

Nem a simpatia da gatinha Fernanda Takai conseguiu me animar...

Nem a simpatia da gatinha Fernanda Takai conseguiu me animar no show da banda mineira

Em termos de animação foi um dos shows mais sem graças que vi na minha vida. Tudo bem, cheguei bem nos minutos finais da apresentação dos mineiros do Pato Fu no FICA 2014, ouvindo apenas sete ou oito músicas, mas tenho impressão que, mesmo se eu tivesse acompanhado desde o início, a banda não ia conseguir me animar do frio atroz que fazia em Goiás Velho nessa sexta-feira.

Claro que o fato de eu não ser fã deles não contribuiu em nada, mas eles tiveram a chance de me tocar. Não conseguiram. Então porque insistir em ficar até o final ou mesmo ir ao show? Ora bolas, primeiro porque não tinha nada para fazer. Segundo porque não tinha assunto para o post de hoje. E terceiro porque a Fernanda Takai é uma gracinha.

Mas valeu a experiência. Primeiro porque me lembrei do único disco deles que tive em casa. Eu não, o meu irmão, o honesto Isopor (1999), do qual só uma música me marcou, Made in Japan. Fora essa, tem outras duas ou três canções de toda a discografia da banda que devo conhecer, uma delas Sobre o tempo, última faixa da noite.

“Agora uma que talvez seja a primeira canção que vocês ouviram do Pato Fu na vida. Vocês ou seus pais, ou seus avós”, brincou Takai, que até se caracterizou de diabinha e tudo.

No palco a banda faz tudo direitinho, são bem entrosados e animados, mas só para ser muito fã para ficar empolgado com eles. Nem mesmo a simpatia da gatinha Fernanda Takai me entusiasmou. Acho que estou ficando velho mesmo, sem saco para espetáculos do tipo. Já boa parte do público pulou, cantou e se empolgou. Completamente cheia de gás essa garotada, já estou começando a ficar com inveja dessa meninada e com medo da velhice.

Mineiros de Belo Horizonte, o Patu Fu é da mesma geração do Skank, que é uma banda que gosto muito. Mas das gerais, bom mesmo é a turma do Clube da Esquina e ponto final. Amanhã será a vez de a baiana Gal Costa pisar no palco do Fica 2014. Vamos ver a cantora consegue mexer comigo.

* Este texto foi escrito ao som de: Isopor (Patu Fu – 1999)

Isopor

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Godzilla (2014)

Sai da frente que a fera está solta... Nova versão do clássico japonês empolga

Sai da frente que a fera está solta… Nova versão do clássico japonês empolga

Como era bom chegar as férias do meio ano só para eu e meu irmão gêmeo (que é muito mais normal do que eu) zarparmos para Brasília e curtir as novidades que a gente não tinha no interior de Goiás. E uma delas, veja só, era ver a versão em desenho animado da Hanna-Barbera para o clássico japonês Godzilla, exibido aqui no Brasil pela extinta tevê Manchete. Não sei por que cargas d’água a Manchete não pegava no interior de Goiás! Pelo menos não na antena lá de casa.

Uau! Como era legal ver o monstrengo verde entrar em ação e detonar tudo o que encontrava pela frente. Era só acionar um botão vermelho que fazia tan-na-na e lá vinha ela cheio de fúria e os dentes todo arreganhados. Aliás, além do Godzilla, outra atração japonesa que eu adorava ver era Spectreman, um andróide descolado que defendia a terra de horrendas criaturas extraterrestres.

Foi com essas lembranças nipônicas que outro dia assisti extasiado ao festejado Godzilla, em cartaz em zilhões de cinemas pelo país. O filme, dirigido pelo britânico Gareth Edwards, é diversão do primeiro ao último minuto. Confesso que superou minhas expectativas, que já eram boas. A trama todo mundo conhece. Após testes nucleares realizados pelos EUA, alguns gigantes pré-históricos são ressuscitados, causando terror e destruição no Japão, na América, enfim, em todo o resto do mundo. Entre eles está um réptil feroz que a humanidade aprendeu a odiar, mas que também guarda um velado gesto de comiseração por ele. Sim, porque ele é um monstro do mal que faz o bem e quem conhece a história do Gojira sabe do que estou falando.Godzilla

“Mãe, olhe, um dinossauro!”, diz inocente um guri, que podia ser qualquer um de nós, diante da televisão.

A habilidade com que o diretor Gareth Edwards dosa pirotecnia visual, suspense e dramaticidade, é louvável. É cinema espetáculo da melhor qualidade que há tempos não via no cinema. O monstro mais querido da face da terra demora entra em cena, mas quando isso acontece é arrebatador. Também assustador. As cenas dos duelos entre os titãs são de tirar o fôlego e tem gosto de nostalgia, pois lembram aquelas montagem toscas feitas com maquetes que víamos pela televisão. De mais a mais, os primeiros 15 minutos do filme, com a linda Juliette Binoche desfalecendo diante de um acidente radiotivo são de cortar o coração, assim como a tragédia pessoal vivida pelo ótimo personagem do ator Bryan Cranston.

O humor e ironia com que algumas falas surgem são exemplares, algumas delas caras às barbaridades causadas pelos americanos no passado, como o fantasma da bomba atômica. “A nossa prioridade são os cidadãos”, diz um pedante militar que é lembrado imediatamente sobre o atentado que chocou o mundo, quase sessenta anos depois. “A arrogância do homem é achar que a natureza está sob o nosso controle, quando na verdade é o contrário”, alerta o cientista vivido pelo ator japonês Ken Watanabe.

Claro que etnocentrismo infantil e ridículo norte-americano se esquece das origens japonesas dos criadores de Godzilla, se colocando como os salvadores da pátria, mas se eles têm a maior fatia do bolo na produção, que mal há nisso?

* Este texto foi escrito ao som de: Think tank (Blur – 2003)

Think tank

Lá pelas bandas de Cora Coralina

Além da arquitetura colonial, um dos destaques da cidade histórica é a efervescente cena cultura, destaque para o FICA

Além da arquitetura colonial, um dos destaques da cidade histórica é a efervescente cena cultura

Chego hoje à cidade de Cora Coralina, a histórica Goiás Velho (GO), para participar do Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA). Conheço esse charmoso e acolhedor recanto do Brasil central e profundo há tempos. Já estive por aquelas bandas de Cora Coralina pelo menos umas duas ou três vezes, mas nunca participando do festival, que tem uma proposta diferente, conscientizadora.

Este ano o evento conta com presenças marcantes, entre outros, do cineasta e roteirista Hilton Lacerda (Tatuagem) e o documentarista Eryk Rocha, filho do genial baiano Glauber Rocha. Só pelos dois já valem minha ida, mas também pelo clima de livro de história que a cidade tem. A impressão que temos é que, caminhando pelas ruas estreitas, curtas e arcaicas da cidade, o tempo todo, nós, respiramos o ar em sépia.

Goiás Velho ou a Cidade de Goiás já foi, no passado, uma importante vila administrativa do Império, com o nome de Villa Boa de Goyaz. Mas a origem remonta aos distantes anos de 1727 e tem como fundador ninguém menos do que Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, nome indígena para diabo velho. Não demorou muito para a vila se transformar em capital da comarca e até fins do século 18 o local era importante point de extração do ouro.

Com a mudança da capital do estado para Goiânia nos anos 30 e 40 a condição de importante cidade colonial da região ficaria mais evidência, sobretudo com a preservação singular da arquitetura colonial do lugar.

Bartolomeu Bueno da SilvaAlém da arquitetura colonial, um dos destaques da charmosa cidade histórica é a efervescente cena cultura da cidade que tem, entre as atrações, a emocionante procissão do fogaréu, manifestação religiosa de origem medieval realizada durante a Semana Santa. Por incrível que pareça, eu, goiano do pé rachado, nunca tive oportunidade de ver pessoalmente o evento. Assim como o Festival Internacional de Cinema Ambiental, que já vai para sua 15ª edição.

Mas a grande emoção mesmo é transitar tranquilamente pelas ruas de pedras da cidade secular e admirar a beleza da arquitetura das casas, das igrejas, prédios administrativos como a casa onde morou o ilustre cidadão Bartolomeu Bueno e a Igreja da Boa Morte. Por onde a gente passa possível ouvir os versos telúricos da grande poetisa Cora Coralina, um exemplo de amor às suas origens.

“Goiás, minha cidade…/Eu sou aquela amorosa/De suas ruas estreitas/Curtas/Indecisas/Entrando/Saindo/Uma das outras/Eu sou aquela menina feia da Ponte da Lapa/Eu sou Aninha”, escreveu ela no poeta Minha cidade.

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, disse certa vez o escritor russo Leon Tolstoi (1828 – 1910). Lembro dessa frase todas às vezes que mergulho no Goiás profundo, no Goiás Brasil central, localizado lá pelas bandas de Cora Coralina. Às vezes é preciso entrar em nós mesmo, mergulhar fundo em nossas próprias raízes, só assim vamos entender o outro.

* Este texto foi escrito ao som de: Pequi(Marcelo Barra – 2007)

Pequi

O tempero da vida (2003)

No filme o pequeno Fanis tem ensinamentos de culinária e sobre a vida com o avô

No filme o pequeno Fanis tem ensinamentos de culinária e vida com avô

Todo mundo que gosta de escrever sobre culinária ou se aventurar na cozinha atrás de um avental, deveria ver, pelo menos uma vez na vida, a comédia dramática turco-grega, O tempero da vida (2003), que está dando sopa no Telecine Cult este mês. Nem sei se o filme é bom do ponto de vista técnico, mas, apesar do melodrama excessivo, acho que a fita tem uma temática lírica tocante sobre o universo gastronômico. É a história de Fanis (Georges Corraface), um astrofísico que recorda toda a infância que passou ao lado do avô, um filósofo culinário especialista em temperos e condimentos na hipnotizante Istambul. O velhinho simpático e faceiro agora está nas últimas e ele, num processo remissivo proustiano, recorda com lágrimas e risos, não apenas todos os segredos da cozinha turco-grega que aprendeu com o grande amigo, mas também o sabor da vida e o gosto dos outros.

“Tenho medo de certos sons pouco antes de uma refeição. Por trás de cada grande evento da minha vida estava o som da campainha ou do toque do telefone”, diz o nosso narrador-protagonista, quando recebe a notícia da doença do querido “baboo”. “Na cozinha de Istambul você sempre tem a sensação de algo está faltando e não me refiro à comida, mas as pessoas”, lamenta, ele, que também acaba virando um excelente chef.

De repente, esse momento triste da sua vida o faz lembrar quando brincava enfurnado no armazém do velho, cercado de todos os ingredientes e sabores necessários para preparar um bom prato, mas também a complexa natureza humana. As armadilhas do primeiro amor, as contradições políticas e religiosas de seu país, o tempo todo em crise com os vizinhos gregos e cipriotas. Para todos os defeitos, O tempero da vida não deixa de ser um filme político e crítico a uma lamentável situação que marcou a vida desses três povos tão próximos, mas de origens e identidades. É um filme, sobretudo, que fala sobre raízes, identidade e patriotismo.O tempero da vida

“Os turcos nos mandaram embora com ‘gregos’”, recorda Fanis, lembrando uma das várias crises políticas que presenciou. “Fui impedido por algum tanque”, ironiza, quando perguntado por que levou tanto tempo para voltar para casa.

E, em se tratando de um filme em que a comida é um personagem, boa parte da trama os atores estão envoltos numa mesa cheia de deliciosos quitutes que surgem também como metáforas para a vida. Aliás, a narrativa foi construída em forma de um delicioso menu de dar água na boca. “Assim como o sal, fale sempre de coisas que as pessoas não podem ver”, ensina o avô sábio. “Usar às vezes um tempero errado pode provar outro ponto de vista”, continua.

Baseado nas memórias do diretor Tassos Boulmetis, nascido em Istambul, O tempero da vida, numa primeira e rápida impressão, até parece uma daquelas barulhentas comédias italianas com muito humor, tragicomédias familiares e comida a rodo entre uma cena e outra, mas trata-se de um autêntico filme turco-grego. “Aqui as almas se abrem como mexilhões no vapor!”, explica um dos personagens, no famoso banho turco.

Apesar do final conservador e do melodrama excessivo, o filme é bem delicioso de se ver. Daquelas fitas que faz a gente sair da sessão e comer em um bom restaurante ou colocar o avental e se perder na cozinha. “Na nossa cozinha, a sobremesa é o epílogo de todo o conto de fada”, diz agora o já maduro Fanis.

Que assim seja.

* Este texto foi escrito ao som de: On the greek side of my mind (Demis Roussos – 1971)

demis Roussos

As grandes seleções da minha Copa

O futebol alegre e solar do camaronês Roger Milla, uma das sensações da Copa de 90

O futebol alegre e solar do camaronês Roger Milla, uma das sensações da Copa de 90, na Itália

Sim, porque essa que vai rolar aqui no Brasil, chamada de a “Copa das Copas”, essa não é minha nem debaixo de porrete, não quero ela nem de graça a desgraçada. E não quero nem saber de notícia nenhum sobre o mundial, a não ser de que deu tudo errado. Na verdade, já ando de saco cheio das matérias temáticas que começaram a sair nos telejornais baba ovo brasileiros que estão só interessados, claro, nos anunciantes. Não suporto, nem aguento ver ver a cara e ouvir a voz do Tino Marcos. Essa seleção de jogadores vendidos e mascarados para mim é uma piada sem graça.

Mas um dia já gostei de Copa do Mundo. A última que me marcou foi a de 1986, no México. Confesso que o mundial de 1990 eu só acompanhei para cumprir tabela. Contudo, algumas seleções me marcaram nos torneios que vi e outras por terem entrado na história numa época em que eu nem andava por aqui. Segue abaixo uma lista delas sem obedecer à ordem cronológica.

Brasil (1982) – Não levou o caneco, mas entrou para história como uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos. Para mim é e ponto final. Que elenco! Júnior, Toninho Cerezo, Zico, Falcão, Sócrates e o meu grande ídolo Éder, com sua esquerda potente.

EusébioDinamarca (1986) – O mundial teve grandes seleções, como a Argentina de Diego Maradona – campeã daquele ano – e o Uruguai de Rubén Sosa, mas a grande sensação foi a Dinamarca de Brian Laudrup, com seu estilo tático veloz devastador que valeu o apelido de “dinamáquina”. Eu juro que pensei que eles no mínimo iam chegar à final. Tanto que era minha segunda opção depois do Brasil.

Holanda (1974) – Não é preciso ter vivido a época para saber que o carrossel holandês comandado pelo elegante meio-campista Johann Cruyff foi uma das grandes maravilhas que o bom futebol nos deu. Os charmosos vídeos da Copa da Alemanha apresentam uma movimentação rápida, versátil e contagiante. A laranja mecânica do futebol é eterna em minha memória.

Camarões (1990) – Foi a Copa da alegria em meu coração só por conta do futebol bonito, solar dos leões da seleção de Camarões, que tinha a frente o simpático atacante Roger Milla. Inesquecível a bola roubada no meio de campo em cima do extravagante goleiro colombiano René Higuita, um dos gols mais festejados nas histórias da minha Copa.

Portugal (1966) – A figura forte de gladiador do moçambicano-português Eusébio, morto em janeiro deste ano, lhe conferiu a alcunha de Pantera negra. Talvez o maior ídolo do futebol português de todos os tempos, o atacante foi um dos responsáveis pela chegada da seleção lusitana à semifinal da Copa de 1966, realizada na Inglaterra – a melhor até hoje – sendo um dos protagonistas da desclassificação brasileira no mundial.

Argentina (1978) – Tendo o zagueirão Daniel Passarella segurando as pontas atrás e o grandalhão atacante Mário Kempes detonando tudo na frente, a argentina de 78 levou o caneco com o aval dos militares – numa situação parecida com a seleção canarinho na Copa de 70 – mas também com um futebol bonito e raçudo. Para mim as imagens marcantes de arquivos são dos gramados tomados por papel picado.

* Este texto foi escrito ao som de: Secos & Molhados (1974)

Secos & Molhados

São Bernardo (1972)

Para o ator Othon Bastos o personagem Paulo Honório foi o papel mais importante que fez no cinema

Para o ator Othon Bastos o personagem Paulo Honório foi o papel mais importante que fez

E não é que coincidentemente estava passando São Bernardo de Leon Hirszman outro dia, no Canal Brasil! Justamente na semana em que entrevistei o grande ator Othon Bastos, durante o IV Anápolis Festival de Cinema. Arrisco dizer que essa pérola do cinema nacional está entre os cinco grandes filmes já realizados. Para o ator de 81 anos, simplesmente é o seu melhor momento no cinema.

“Na verdade essa é a grande interpretação que tenho como ator, esse personagem me deu essa oportunidade como ator, isso para mim é o grande achado. São Bernardo para mim é o meu grande trabalho”, me disse orgulhoso.

Baseado em obra homônima de Graciliano Ramos, o filme é uma obra-prima com sua narrativa concisa, árida, lenta e interpretações viscerais. Othon, na pele do amargo Paulo Honório, é a atuação em pessoa. Aqui ele é um pequeno proprietário de terras que com perspicácia e obstinação, se transforma num fazendeiro de respeito à frente da propriedade São Bernardo. “Na verdade, nunca soube quais foram os meus atos maus e os meus atos bons”, diz em momento de reflexo sobre sua personalidade seca.

Homem de negócio, ele não dá ponto sem nó e cada passo à frente seu é no sentido de evoluir como empreendedor. Até o casamento com a tímida e retraída professora Madalena (Isabel Ribeiro) é no sentido de obter alguma vantagem. Mas estudada e aberta à nova ideias, ela não deixa que o temperamento bruto do marido sufoque sua maneira de ver o mundo, a vida, as pessoas. É desse conflito entre dois mundos diferentes que se constrói parte da narrativa quase épica de Leon Hirszman.Graciliano Ramos - São Bernardo

“Madalena chegou aqui com bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos se esbarraram com minha brutalidade e o meu egoísmo”, admite Honório. “Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. Foi esse modo de ser que me mutilou. Sou um aleijado”, agoniza na solidão de sua aspereza.

Homem de esquerda norteado por diretrizes humanistas, o diretor Leon Hirszman cria aqui, a partir da poderosa obra de Graciliano Ramos, um contundente ensaio sobre a natureza humana. “O Leon me tranquilizou dizendo que ele queria era o lado político que eu tinha dentro de mim”, contou o ator Othon Bastos, explicando a construção do personagem.

O tempo todo o leitor/espectador percebe-se que Paulo Honório não é um homem mau por natureza, mas porque as agruras da vida e o do ambiente que o cerca o deixou assim. O ciúme, o fantasma do comunismo, da traição, o medo da ruína financeira surgem em seu horizonte como fantasmas de uma realidade massacrante dia a dia.

“Mulher sem religião é uma coisa horrível”, quando nota as ideias avançadas da mulher diante dos convidados.

A fotografia estourada de Eduardo Escorel influenciou muito diretor de fotografia do cinema de retomada e a trilha sonora de Caetano Veloso, construída à sombra do experimental do disco Araçá azul, lançado na época, é no mínimo tocante, com sua vocalização que parece surge do fundo da alma. Assim como os dramas e espectros dos personagens dessa trama inesquecível.

* Este texto foi escrito ao som de: Araçá azul (Caetano Veloso – 1972)

Araçá Azul

Diretores – Ethan e Joel Coen

Estilosa homenagem da dupla de irmãos ao gênero noir

Estilosa homenagem da dupla de irmãos ao gênero noir. Billy Bob Thornton impecável

Depois dos irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani, a outra dupla fraterna que mexeu comigo no cinema foram os Coen – Ethan e Joel -, e por um motivo muito simples. Eles têm o que hoje anda raro em Hollywood e, sobretudo, no cinema nacional: ousadia. As tradicionais esquisitices dos filmes que escrevem, dirigem e produzem é o ponto alto de uma carreira que começou em 1984, com o suspense Gosto do sangue.

E com ousadia e rebeldia criativa eles têm subvertido a lógica do cinema, reconstruindo, reinventando e refletindo sobre o cinema que fazem e aquele que se desenvolve em volta deles. Às vezes acertam, às vezes não. Os acertos são bem maiores e inesquecíveis, vide o perturbador Onde os fracos não têm vez. O primeiro filme que vi da dupla genial foi O homem que não estava lá (2001), uma homenagem ácida ao cinema noir dos anos 40 e 50, com o ótimo Billy Bob Thornton como protagonista. De lá para cá não paro de me surpreender.

Seja com roteiro original ou adaptado, o lance de Ethan e Joel é fazer anarquia em cima da lógica apresentando personagens com nomes estranhos, situações bizarras e arremate exemplar. Os roteiros malucos cheios de referências, reviravoltas e surpresas sempre deixam o espectador, para o bem ou para o mal, de queixo caído. Acredite, você não encontrará clichês em seus filmes, ao não ser como elemento irônico.

É de artistas criativos e provocadores assim que o cinema seja lá onde ele for feito, precisa.

Ethan e Joel Coen – Top five

Onde os Fracos Não Têm VezOnde os fracos não têm vez (2007) – Baseado em romance homônimo de Cormac McCarthy, o filme – Melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator coadjuvante (Javier Bardem) -, reinventa o gênero cinematográfico americano por excelência, o faroeste, com boa dose de ironia e provocação. O roteiro é uma verdadeira engenharia narrativa e as atuações estupendas, com o espanhol Javier Bardem dando show como um serial killer meio futurista.

O homem que não estava lá (2001) – Homenageando outro gênero norte-americano, o noir, narra a história real de Ed Crane (Billy Bob Thornton), um barbeiro que se mete em enrascada por causa de US$ 10 mil dólares. A moral é bem simples: o crime não compensa, mas quem são os vilões e os mocinhos? O cuidado e beleza da direção de arte sufocam.

E aí, meu irmão, cadê vocês? (2000) – A relação que tenho com essa comédia dramática é quase afetiva. Norteado pelo absurdo e surrealismo, eles contam a história de três prisioneiros (George Clooney, Tim Blake Nelson e John Turturro) que escapam da prisão durante a grande Depressão Americana. A melhor parte é quando o trio se disfarça de um grupo caipira, mandando vê no microfone.

Barton Fink – Delírios em Hollywood (1991) – Cheio de referências a ícones da cultura americana, narra as desventuras de um dramaturgo que se vê engolfado pelo medíocre esquema hollywoodiano de fazer cinema. As coisas se complicam com a chegada de um vizinho de quarto bem maluco. John Turturro e John Goodman em atuações impecáveis.

Gosto de sangue (1984) – A poderosa estreia dos irmãos Coen é tida por especialistas como a obra-prima da dupla. Realizado em clima de produção independente, é um suspense cheio de surpresas, trazendo o que o Texas tem de pior. Poucas vezes o espectador foi cativado com tamanho cinismo e crueldade.

* Este texto foi escrito ao som de: The wild, the innocent & the Street Shuffle (Bruce Springsteen – 1973)

Bruce Springsteen - The wild

Mazzaropi – Uma antologia de risos

O personagem criado pelo comediante representa o Brasil profundo

O personagem criado pelo comediante representa o Brasil profundo

O personagem caipira criado por Mazzaropi para o cinema, a partir de referências do teatro de variedades, representa o Brasil profundo. Embora muita gente que veja seus filmes ou batem o olho numa imagem do artista não tenha a sensibilidade para notar isso. Essa figura frágil ingênua, um pouco atrapalhada e ignorante chegou até os dias de hoje seguindo os passos dos Jesuítas, a catequização dos índios, os bandeirantes. Quem me chamou atenção para o fato foi o jornalista, crítico de cinema e cineasta Celso Sabadin. Aliás, foi motivado por seu documentário Mazzaropi, exibido outro dia no Canal Brasil, que tirei da minha estante mágica um livro sobre o comediante que há tempos estava adiando para ler.

Escrito por Paulo Duarte, um entusiasta da obra do ator, diretor e empresário, Mazzaropi – Uma antologia de risos, lançado pela Imprensa Oficial dentro da coleção Aplauso Especial, não é o livro definitivo sobre a trajetória do comediante, até porque é um olhar de fã. Daí a abordagem sempre otimista e exagerada do texto que também não é lá grande coisa. Mas como material informativo a obra corresponde aos anseios. Estão lá, além de imagens raríssimas, como fotogramas dos filmes, sinopse das tramas – algumas com comentários – uma pequena biografia de Mazzaropi, filho de imigrantes portugueses e italianos nascido em São Paulo em 1912.

O problema é que, por ser um livro de fã, Paulo Duarte, anestesiado pelo entusiasmo, se anula às “críticas positivas” aos problemas técnicos dos filmes do grande Mazza, por exemplo. Houve um tempo na carreira do artista que, protegido pelo prestígio da fama e sucesso que conquistou ao longo da carreira, ele, à frente da produtora que criou, a PAM Filmes, ligou o piloto automático e negligenciou alguns dos seus trabalhos.Jeca tatu

Fora isso, tem o problema temático de alguns de seus filmes que, além de uma pobreza de conteúdo, vem carregado de preconceitos embutido no inconsciente coletivo das pessoas. No dia a dia Mazzaropi era uma pessoa simples, que tratava bem seus funcionários e empregados, mas, na condição de empresário, era conhecido pela famigerada mão de vaca, proibindo, por exemplo, que um copo de leite fosse extraviado dos currais de sua fazenda. Também não era nada fácil de lidar com ele na hora de acertar o cachê de suas estrelas. Esses detalhes e outros estão abertamente no documentário de Celso Sabadin, que teve todo o cuidado em não denegrir a carreira de um dos grandes nomes do cinema nacional.

De origem humilde, como livro mostra, Mazzaropi sonhou com a carreira de artista desde pequeno. “Desde criança eu tinha mania de ser artista. Queria andar no arame, fazer tudo que via no circo. Em Curitiba, em já media casimira fazendo pose! Vendi, imaginando uma câmera na frente! Tinha isso no sangue…”, disse certa vez.

E tinha mesmo. O avô caboclão, era tocador de viola e contador de “causos” e Mazzaropi cresceu vendo as apresentações dele, seu primeiro ídolo, em eventos culturais pelo interior de São Paulo. Como a escola não era um lugar que o agradasse, aos poucos ele foi deixando que a arte tomasse conta de sua vida, fazendo pequenas apresentações entre uma atração principal e outra nos circos da vida.

Um dos pioneiros na formatação da indústria do cinema no Brasil, o estilo de Mazzaropi, assim como viria a ser o de Renato Aragão no futuro, era uma amalgama de várias influências e referências. Ia do já citado teatro de variedades, passando pela pornochanchada, e claro, tendo como base profunda, o homem simples do campo. “Talvez Mazzaropi tenha morrido cedo demais. Mas será que o Brasil de hoje teria espaço para ele? A julgar pelo sucesso recente de 2 filhos de Francisco, para todos os efeitos um filme ‘caipira’, é muito possível que sim”, defende o respeitado crítico de cinema Rubens Ewald Filho, no prefácio do livro.

* Este texto foi escrito ao som de: Leandro & Leonardo Vol. 4 (1990)

Cadê você

Olho nu (2012)

Destaque no Festival de Brasília, filme traz várias facetas de Ney Matogrosso

Destaque no Festival de Brasília, filme traz várias facetas de Ney Matogrosso

Ney Matogrosso foi um furacão que passou pela música brasileira e até hoje, aos 72 anos, suas labaredas de ousadia, descontentamento e anarquismo reverberam nas canções que canta, nos gestos sensuais e provocadores que faz em cima do palco. Ney Matogrosso é o tipo de artista que não leva desaforo para casa. Nunca levou. A trajetória do homem e da persona performática está registrada no documentário Olho nu, em cartaz na cidade. Dirigido por Joel Pizzini, o filme, exibido no Festival de Brasília em 2012, é um mosaico de sensações, lembranças, desabafos e revelações desses dois Neys.

“Adoro ser subversivo. Só sei ser subversivo”, escancara em dado momento do filme. “O tempo é uma invenção. Não existe ontem, hoje e amanhã. O tempo é”, reflete em outro instante.

Conhecido por seu estilo lírico, sensorial, Pizzini se envereda por narrativa fragmentada nada convencional, desnudando passo a passo, os segredos, medos, manias e verdades do artista. Filho de militar, aos 17 anos Ney Matogrosso foi expulso de casa. O pai não aceitava o jeito sensível com que o menino e adolescente viam o mundo. Mais tarde o coroa, numa entrevista que é um verdadeiro achado, revela que aprendeu aceitar o filho do jeito como é. “Eu queria ser pintor, rabiscava em papel de pão, no chão, na terra”, revela.

Olho nuNem Ney sabia que tinha o dom de cantar, ser cantor era uma realidade distante e inimaginável. Quando fez parte de um coro musical pela primeira vez, achou que fosse passar despercebido num grupo de 60. Quando o maestro ouviu a voz do rapaz tomou um susto. Viu ali um talento raro, um timbre singular, joia rara. Quando subiu ao palco pela primeira vez, em Brasília, na UnB, um lunático gritou da plateia: veado! Enfurecido Ney mandou parar o show no alto e encarou o sujeito: “O que você disse? Repete se você for homem”, desafiou. “Nunca subi no palco como uma pessoa, mas como um personagem”

O bacana de Olho nu – e isso tem irritado algumas pessoas -, é que ele vai muito além, como tinha de ser, do que as pessoas conhecem do artista, que é a da imagem dele rebolando livre, leve e solto em cima do palco ou pela sua passagem pela fenomenal grupo, Secos & Molhados. E o melhor ainda é que Joel Pizzini – que busca imagens de seu clássico filme Caramujo-flor  no qual Ney Matogrosso faz o protagonista -, traz esse olhar revelador e desconhecido da intimidade de do artista sem aprofundar no que traz de novo, deixando que o público assimile a novidade do jeito que dá.

O material de arquivo são raros, vastos e reveladores. São fotos, imagens e entrevistas do artista nos bastidores dos shows, no camarim preparando a elaborada maquiagem glam rock, na intimidade de sua bela casa, andando super à vontade com os pés nos chão, peito nu, de bem com a vida e a natureza. A homossexualidade, a amizade colorida com Cazuza, a relação com as drogas estão lá, mas mais uma vez expostos de forma subjetiva e há quem acuse Pizzini aqui de preservar a imagem do artista aos olhos do público. Será?

Bem, sai da sensação com vontade de escutar todos os discos da carreira solo do artista. E só por isso o documentário já valeu.

* Este texto foi escrito ao som de: Água do céu-pássaro (Ney Matogrosso – 1975)

Ney matogrosso

A Braxília de Lelé e Nicolas Behr

No filme de Danyella Proença, texto do poeta Nicolas Behr ganha olhar sensível

No filme de Danyella Proença, texto do poeta Nicolas Behr ganha olhar sensível

Desde que entendo por gente lá em casa eu ouvia falar o nome Lelé. Houve um tempo que achei que fosse alguma coisa referente à expressão “Lelé da cuca”, mas na verdade era como não só meu pai, mas uma legião de amigos e conhecidos chamava o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé. Um dos pioneiros no Hospital Sarah, quando o lugar nem era chamado de Rede Sarah, mas “Equipus”, meu pai conheceu de perto o homem que deu uma identidade à arquitetura de Brasília junto, claro, com o Oscar Niemeyer e Lucio Costa, quem disse certa vez que Lelé era o construtor da cidade, ele a tradição e Niemeyer o criador.

Bem, para quem conheceu o Lelé, sabe que ele foi muito mais do que isso. Doce, um gentleman no trato com as pessoas, era também uma figura humana ímpar. Meu pai sempre gostava de repetir isso. Todas essas recordações vieram à minha cabeça ontem, no meio da tarde, quando soube da morte do Lelé pelo blog de uma amiga querida. De repente, uma tristeza de infância bateu no meu peito por causa dessa figura fantasmagórica que nunca conheci em carne e osso, mas que sempre habitou minha infância de maneira poderosa e indelével.

Assim como o arquiteto Lelé, o poeta Nicolas Behr e sua obra estão entranhados no DNA da cidade que foi sonhada por Juscelino Kubitschek e criada por Oscar Niemeyer. Sua poesia, tais quais os traços arrojados do arquiteto carioca, estão marcadas em minha alma a ferro e fogo de forma absurdamente afetiva e emocional. Por isso que, ao ver pela primeira vez ontem, no Anápolis Festival de Brasília, o curta Braxília, da cineasta Danyella Proença, não contive as lágrimas e chorei copiosamente.Lelé

Chorei porque amo a cidade que Nicolas Behr inventou da cidade inventada por Oscar Niemeyer. A sua Braxília é a minha Brasília. Ou a sua Braxília é a minha Braxília. E, até ver o filme ontem nas telas pela primeira vez, não sabia que gostava tanto de Brasília/Braxília, que hoje faz parte de mim num processo fisiológico natural. Uma cidade que desde guri, quando passava minhas férias na casa dos meus primos no Guará, aprendi a amar, entender e aceitar com todas as suas contradições, mas que também exala conceitos como diversidade e pertencimento. Futurismo e modernismo. Sonho e utopia. Temas que, de uma forma ou outra estão presentes no filme e evidentemente na poesia de Nicolas Behr.

“Poesia foi para mim uma forma de sobrevivência, mas não sei se teria virado poeta se não tivesse vivido aqui”, revela o poeta, com seu estilo inconfundível. “Brasília foi minha Pasárgada”, compara, citando o grande poeta modernista Manuel Bandeira.

A delicadeza e cuidado com que Danyella Proença decodificou o texto literário bem particular de Nicolas Behr no audiovisual é sublime. Sobretudo pela simplicidade quase transcendente, transformando o poeta personagem de si mesmo. E, ciente inconscientemente do ícone que virou para Brasília, Nicolas Behr incorpora essa persona com atrevida ousadia.

“Moço, é aqui que passa o ônibus para Braxília”, pergunta ele, faceiro, numa parada de ônibus.

Se for, é para lá que quero ir.

* Este texto foi escrito ao som de: Uma outra estação (Legião Urbana – 1997)

Uma outra estação