Discoteca Básica (12) – Willy and the poor boys

Nos anos 70 o Creedence, liderados por John Fogerty (segundo da dir. para esq.) foi maior do que os Beatles

Uma ousadia, mas deu no New Music Express. Em 1971, o Creedence Clearwater Revival foi eleito a melhor banda de rock ‘n’ roll de todos os tempos. Acima, inclusive, dos Beatles. Um sacrilégio, mas foi o que aconteceu. E, se pensarmos bem, de certa maneira era mesmo. Explosivos no palco e com uma sonoridade enxuta, fulminante com uma bala de 38, o grupo de São Francisco liderado pelo menino prodígio John Fogerty meio que reinventou o som que veio do Sul dos Estados Unidos.

Bom, meu pai sempre foi um cretino ululante. Mas uma das boas e raras coisas que fez foi me mostrar o caminho das pedras de tudo o que era bom em música. Era dono de uma coleção de vinil formidável e o que ele não conseguia em “bolachão” tinha em fita cassete. Se você for da era glacial, certamente saberá do que estou falando. Então, a primeira vez que ouvi Creedence foi numa dessas fitinhas cassete vagabunda da Basf ou TDK, não sei, comprada em banca de camelô, com os maiores sucessos do grupo escritos num papel de cartolina cor-de-rosa.

A voz rascante de John Fogerty cantando Jambalaya, sucesso do cantor country Hawk Williams, um de seus ídolos, e Molina, latejou durante muito tempo em minhas entranhas. Compositor de primeira grandeza que também tirava onda de arranjador e produtor dos próprios discos, Fogerty, que dividia com o irmão Tom as guitarras, era um garoto californiano que renegou a onda Power flower e cena psicodélica de São Francisco.

Sua mistura concisa de blues, rockabilly e rock ‘n’ roll deram origem a uma sonoridade inovadora cheia de alma e energia denominada swamp boogie, o som do pântano. Talvez por isso, naquele início dos anos 70, quando o rock progressivo dava sinais de independência, eles foram denominados os salvadores do gênero que nomes como Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e Elvis Presley ajudaram a perpetuar.

Confesso que foi osso duro de roer escolher um álbum da curta, mas fulminante discografia da banda para o quadro Discoteca Básica. Poucos grupos musicais tiveram o talento de produzir uma carreira cheia de discos bons. Acho que só os Beatles.

Junto com o baterista Doug Clifford e o baixista Stu Cook, os irmãos John e Tom Fogerty criaram obras fundamentais gravadas em menos de três anos. Está tudo lá. Do sucesso arrebatador Proud Mary, single do disco de estréia Bayou country – que venderia mais de um milhão de cópias, naquele ano de 1969 -, passando pela tríade fulminante Lodi, Bad mood rising e Green river, faixa-título do segundo trabalho, eles reinaram absoluto.

Mas a obra-prima, para mim, é o fantástico Willy and the poor boys, o último dos três registros de 1969 da banda que traz uma capa gozada com os integrantes como artistas de rua encenando um Shuffle. Crítica escancarada ao Vietnã na raivosa Fortunate son, reverência às origens do country rock em Cotton Fields e It came out of the sky, além experimentações vigorosas em Feelin’ blue, The midnight special e Effigy.

Mesmo que o álbum seguinte Cosmo’s factory seja uma pérola e canções como Who’II stop the rain e Long as I can see the light permaneçam afetivamente guardadas num cantinho especial das minhas memórias, Willy and the poor boys é de uma grandeza duradora porque, como bem destacou o crítico de música Ross Fortune, sintetiza com perfeita primazia a receita certeira que marcou a trajetória da banda: um som enxuto, limpo e carregado de blues.

* Este texto foi escrito ao som de: Bayou country, Green river, Willy and the poor boys e Cosmo’s factory (Creedence Clearwater Revival – 1969/1970)

Filmes inéditos no CCBB Brasília

Alden Ehrenreich e Vincent Gallo no estranho Tetro, de Francis Ford Coppola, todo rodado na Argentina

Eu ainda frenquentava a Faculdade e sonhava um dia em ser um respeitado crítico de cinema quando pegava ônibus, quase todos os dias, para assistir filmes exibidos na Academia de Tênis. Eram poucas as linhas urbanas que tinham para lá, com horários ingratos, de modo que, quase sempre, dependia da caridade de alguma alma burguesa para voltar para casa.

Na época só tinham duas salas de cinemas apertadinhas no luxuoso complexo, mas Marco Farani, proprietário do local, brindava os raros espectadores com uma programação primorosa, rara. Foi ali que revi o clássico de Pasolini Saló. Também onde assisti pela primeira vez uma produção do Irã, não me lembro qual, só recordo que filmes realizados em países do Oriente Médio estavam na moda naqueles dias.

Com o tempo, o espaço foi ampliando até se tornar num grande templo do cinema na cidade, abrigando, inclusive, um importante Festival Internacional, o FICBrasília. Bem, o sonho acabou e não teve happy end. Vítima de misterioso incêndio, as salas de cinema da Academia de Tênis agora só existem na lembrança. Outro dia dei uma passadinha lá e o cenário é desolador, mais parecendo uma cidade fantasma. Só que sem os fenos rolando ao sabor do vento e caubóis valentões.

Restaurada, a sala de cinema do Centro Cultural Banco do Brasília (CCBB) volta incinerar a capital do país com programações interessantes e estimulantes. Sorte nossa porque, há tempos que a cidade está carente de espaços alternativos que possam atender o apetite dos cinéfilos locais com uma programação que privilegie filmes de arte, cults e de países cuja cinematografia passa ao largo do mainstream. Não é o único já que a Embracine recentemente voltou com as progamações alternativas privilegiando o cinema autoral e intimista do mestre Eric Rohmer.

No CCBB, o público poderá conferir até 15 de maio a exibição de filmes que nunca foram exibidos nos cinemas de Brasília. Coisa rara e a mostra é um reflexo sintomático do vazio que assola os cinemas de Brasília. São produções inéditas por aqui de nomes como o badalado cineasta francês François Ozon e o argentino Daniel Burman.

Será contemplada a filmografia de nove países, 13 no total, alguns trabalhos aguardadíssimos, como Film Socialisme, o mais novo projeto do anárquico diretor franco-suíço Jean-Luc Godard. Diretor do aclamado O homem sem passado, cult movie do início da década do finlandês Aki Kaurismäki também participa do encontro que reúne ainda trabalhos dos brasileiros Paulo Nascimento e do mestre do cinema verdade brasileiro Eduardo Coutinho, aqui com sua obra experimental Moscou, no qual sonda os bastidores da montagem de uma peça de Tchecov.

Conferi, na última quinta-feira, Tetro, o estranho, mas autoral filme de Francis Ford Coppola todo rodado na Argentina e pago com o dinheiro que o cineasta ganhou fabricando vinho. Tem a espanhola Carmen Maura e o outsider Vincent Gallo no elenco e uma fotografia em preto e branco leitosa. Não sei se gostei ou não do que vi. Só sei que, se não fosse por espaços como o cinema do CCBB, só iria assistir o “novo” do diretor de Apocalipse now, sabe-se lá quando. Viva os espaços alternativos. Viva o cinema de arte!

As perturbadoras criaturas de Alfred Hitchcock

Em Os pássaros, Hitchcock transformou essas adoráveis criaturas em demônios de asas

Certa vez, prestes a embarcar num navio, eis que Hitchcock é surpreendido com a encomenda de 50 canários. O presente de grego fora enviado pelo ator e amigo Peter Lorre, numa de suas endiabradas pegadinhas. Para vingar, o mestre do suspense não deixou por menos. Todas as noites, religiosamente, ele enviava telegramas noturnos ao colega de trabalho, dando notícias das adoráveis criaturas, uma por uma. Maldade pura, não?

Divertido, talvez o episódio tenha deixado traumas irreversíveis no inconsciente do celebrado diretor porque, anos mais tarde, ele não excitaria nem um pouco em tocar projeto que seria uma de suas mais bizarras criações, o tenebroso suspense Os pássaros.

Recentemente revi o filme no Telecine Cult, acho que pela trigésima vez, não sei, e pude conferir a força e impacto dessa produção que seria um marco na filmografia do cineasta inglês. Realizado sob enorme pressão já que todos esperavam um trabalho de peso como fora o projeto anterior, o perturbador Psicose, grande sucesso de crítica e público, Os pássaros impressiona.

Quase dois anos sem filmar, essa incrível história de ação, suspense e, sobretudo, terror, teria como base um conto da escritora inglesa Daphne Du Maurier, de quem Hitchcock já havia vertido para as telas o drama da inesquecível Rebecca. O curioso é que o diretor queria adaptar a novela para sua série de tevê, mas ao ler num jornal sobre ataque de aves numa cidade de São Francisco, farejou cinema, e dos bons.

Com roteiro de Evan Hunter, o filme contaria com inovadora técnica de efeitos especiais e enredo apocalíptico no qual seres humanos se veriam vítimas das forças da natureza. “O cinema foi inventado para que semelhante filme pudesse ser feito”, teria dito o cineasta francês François Truffaut, na época do seu lançamento. “Os pássaros representam a erupção do caos, do imprevisível”, constataria o diretor norte-americano Peter Bogdanovich. “Basicamente é um filme do Juízo Final”, defenderia.

Após esbarrar com um desafeto dos tribunais numa loja de pássaros, o cínico advogado Mitch Brenner (Rod Taylor), a jovem Melaine Daniels (‘Tippi’ Hedren) resolve pregar uma peça diabólica em sua vítima. Para tanto, viaja até o balneário de Bodega Bay, norte da Califórnia, para presentear a irmãzinha caçula de seu suposto inimigo com dois canários. Mas ao chegar ao seu destino, é surpreendida por misteriosos ataques de aves na região. Não demora muito para que a população inteira do local também seja ameaçada pelos singelos e dóceis animais.

A cumplicidade do mestre do suspense com seu público extrapolava os limites da realidade e ficção

Meio que dando uma piscadela ao espectador que ia assistir ao filme, Hitchcock, dono de um senso de humor fora do sério, saia com o seguinte comentário sobre a sua mais recente cria. “Não teria feito o filme se se tratasse de abutres ou aves de rapina, o que me agradou foi que se tratava de pássaros comuns, pássaros de todo o dia. Entende esse estado de espírito?”, disse numa entrevista a Truffaut, com a calma de quem rouba sorvete de criança.

Por mais que os elaborados efeitos visuais, pelo menos para época, desperte a atenção do público, o grande segredo desse suspense de terror está na habilidosa narrativa costurada por Hitchcock, um diretor que sabia, como poucos, dá ao espectador o que ele queria ver. Detalhe que pontua o filme do início ao fim.

Às vezes, tal generosidade extrapolava os limites da realidade e ficção, deixando que seus seguidores fiéis soubessem mais até que os personagens de suas tramas. Um exemplo perfeito dessa cumplicidade audiovisual está na sombria cena em que os corvos, um a um, vão surpreendendo a personagem de ‘Tippi’ Hedren no recreio de uma escola. Uma deliciosa curiosidade: grande parte daquelas aves que você vê ali eram de cartolina.

Algumas passagens do filme são macabras, como aquela em que um fazendeiro tem os olhos arrancados por um fulminante ataque desses seres alados. Mais tarde, o diretor revelaria que a cena fora inspirada no relato de um camponês que detalhou a ele como um dia um bando de corvos arrancou os olhos de uma ovelha. Mais bizarro impossível.

Sem trilha sonora, conduzido apenas por perturbadores momentos de silêncio, além dos infernais barulhos das aves, grande parte domada no set por Ray Berwick, o sujeito que também ajudaria Burt Lancaster a contracenar com pardais em O homem de Alcatraz, Os pássaros traz premissa pavorosa. E se um dia os pássaros e os outros animais da face da Terra trancafiassem os seres humanos em gaiolas e jaulas apertadas?

A cena final em que a doce ‘Tippi’ Hedren é atacada por seus amiguinhos de pena potencializa a dramática hipótese.

 * Este texto foi escrito ao som de: After the gold rush (Neil Young – 1970)

Brasília é o Big Brother da corrupção

Janela indiscreta, de Alfred Hitchcock, o talvez o mais famoso "Big Brother" que se tem notícia

Em Janela indiscreta, clássico suspense de Alfred Hitchcock de 1954, James Stewart encarna um fotógrafo com a perna engessada que passa o tempo todo bisbilhotando a vida alheia da janela do seu apartamento. Refém de uma cadeira de roda, ele presencia diante dos seus olhos, diariamente, a comédia da vida privada e também às tragédias.

A direção de Hitchcock é elegante, narrativa envolvente e desfecho exemplar. Ou seja, na visão perturbadora do mestre do suspense, desde o século passado que ninguém escapa ao voyeurismo da humanidade. Dito isso, me lembrei de uma frase do cronista, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues que é um sundae. “Se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém falava com ninguém”, debochava o autor de A vida como ela é.

Em A rosa negra, outro clássico do cinema da década de 50 dirigido por Henry Hathaway, Orson Welles vive um líder mongol vil e ganancioso que sonha dominar o mundo, a começar pelos seus vizinhos China e Índia. Em dado momento da trama, um dos seus subordinados vira para dois forasteiros ingleses que estão prestes a conhecer o temido comandante e dispara. “Cuidado com os mil olhos de Kubla Kahn!”.

A dupla de penetras não entende bulufas e continuam seguindo em sua misteriosa jornada no Oriente. Até perceberem que, não só seus passos e movimentos estão sendo vigiados, mas de tudo o que anda, mexe e respira ao redor deles. Não, não é a rosa negra. São os mil olhos de Kubla Kahn!

“Se você quer o retrato do que será o futuro imagine uma bota pisando o rosto humano para sempre”, vaticinou o escritor que criou a expressão "Big Brother"

 Escrito em 1949 pelo inglês George Orwell, 1984 é um marco da literatura sócio-humanista com sua crítica feroz contra o controle e abuso dos regimes totalitaristas. “Você quer o retrato do que será o futuro imagine a bota pisando o rosto de um humano”, vaticinou o escritor.

A trama densa e claustrofóbica retrata o cotidiano de um regime político repressivo e são famosas as passagens da obra em que o autor mostra a arbitrária fiscalização e controle de um governo fictício na vida dos cidadãos de um país imaginário que tanto poderia ser a Alemanha nazista de Hitler, a Itália fascista de Benito Mussolini ou a América demente do século 21. É o Big Brother camarada, o “olho que tudo vê”.

Li o livro há muito tempo atrás, mas recentemente vi o filme de Michael Radford adaptado do romance de George Orwell na TV a cabo e achei perturbador. Sobretudo por sua atualidade. Diga-se de passagem, a expressão “Big Brother” foi extraída desse incisivo trabalho e traz uma sentido mais universal e realista do que servi de título para um programa vazio e superficial onde uma dúzia de macacos são enjaulados num mundo de plástico para serem assistidos por milhares de outros símios com cabeça de vento. Como diria os Titãs, naquele velho hit: “Homem primata, capitalismo selvagem”.

Na próxima sexta-feira (29), o mundo irá voltar os olhos para o “casamento do século”, como a imprensa provinciana e sensacionalista do mundo inteiro está chamando a união do abobrinha príncipe William e da fake Kate Middleton, a plebeia, mais sem sal do planeta. Serão bilhões de voyuers paparazis desocupados ligados na cerimônia mais cafona da face da Terra. Oh, mundo tão desigual, imbecil e banal.

Hoje, em Brasília, vivemos vergonhosamente a farra dos vídeos e telefones grampeados com autoridades e representantes do governo do primeiro escalão envolvidos em escândalos de corrupção. Não tem jeito, Brasília e a Big Brother da corrupção, onde uma verdadeira promiscuidade audiovisual assola o Planalto quase que diariamente.

Aqui, nessa terra de ninguém, qualquer cretino das esferas mais altas tem sua videoteca particular dos poderes pobres, escusos e hediondos. Brasília é a Sodoma e Gomorra dos vídeos sujos que tem o luxo de ter uma promotora esquizofrênica que faz de sua falsa desgraça metalinguagem pobre, dissimulada, de quinta categoria. É uma espécie de Big Brother da roubalheira.

Como bem observou a jornalista Ana Maria Campos no seu twitter, “quase todos os escândalos no Distrito Federal estão relacionados a escutas e vídeos”. Abrindo um precedente nas denúncias. “Filmou? Não? Então não tem prova da corrupção”, brinca ela.

Em Brasília, se não filmar não é Big Brother.

Batman de Tim Burton é o Coringa

Batman de Tim Burton foi o melhor já feito, embora Michael Keaton não empolga como o cavaleiro das trevas

Não é uma regra básica, mas geralmente o primeiro de tudo sempre é o melhor. Talvez por isso aquela famosa frase: O primeiro “não sei o quê” a gente nunca esquece. Bem, o primeiro Batman no cinema foi inesquecível. Lembro do frenesi que foi o lançamento até hoje, com uma campanha de publicidade agressiva, avassaladora.

O ano era o de 1989 e o diretor Tim Burton ainda não tinha feito a sua obra-prima Edward mãos de tesouras, que seria realizado no ano seguinte, mas nos deu de presente a aventura arrebatadora do cavaleiro das trevas, aqui em sua essência. Revendo o filme outro dia no canal por assinatura TCM, pude constatar que muito do sucesso dessa adaptação se deve à honestidade com que o diretor reproduz um dos heróis mais admirados do planeta.

Materializado pela primeira vez em 1932 das penas de Frank Foster, o homem-morcego ganharia as páginas dos quadrinhos em 1939, depois de ser lapidado nos traços e conceito pelo desenhista Bob Kane e o escritor Bill Finger. Entusiasta das lendas vampirescas que deram origem ao diabólico Drácula, Kane deu asas a uma criatura sombria, dono de uma amargura inquietante e psique perturbadora. Todos esses elementos claustrofóbicos foram respeitados e assimilados pelo diretor Tim Burton.

Traumatizado pela morte dos pais, brutalmente assassinados em sua frente, quando ele ainda era menino, o jovem Bruce Wayne promete vingar sua tragédia pessoal. Se auto-exila, um desterro inclusive da alma, e viaja o mundo inteiro pesquisando e tentando entender os sinuosos e tortuosos caminhos da mente criminosa.

Avesso às armas de fogo, instrumento que tirou a vida dos seus entes queridos, Wayne, diferente dos outros heróis, não é dotado de poderes mutantes e treina todos os tipos de artes marciais e técnicas de combate, fazendo do intelecto e do talento para desvendar mistérios, eficientes mecanismos de defesa e ataque. Bilionário, filantropo e playboy nas horas vagas, o estranho personagem faz uso de sua riqueza para se cercar de sofisticados aparatos tecnológicos, tendo como armadura uniforme que lembra a figura do morcego, outro fantasma de sua infância, e disfarce perfeito.

Jack Nicholson, soberbo, escarnou como ninguém o vilão Coringa

Mesmo que Michael Keaton esteja apenas regular como o excêntrico Bruce Wayne, será seu alter ego Batman, o magnetismo instantâneo entre o público e o cinema gótico de Tim Burton. Nessa trama seminal baseada nos primeiros quadrinhos do herói, ele surge de suas trevas mais recônditas para salvar Gothan City, aqui um simulacro soturno da cidade de Nova York, das mãos do psicótico clown do mal Coringa.

Aliás, pode-se dizer com toda propriedade que o Batman de Tim Burton está calcado na figura insana desse arquiinimigo poderoso, magistralmente interpretado por Jack Nicholson. “Você já dançou com o diabo sob a luz do luar?”, indaga ele toda vez que está diante de sua vítima.

Demente, insolente e vingativo, o eterno Joker assombra o espectador com sua gargalhada mefistofélica desenterrada entre o cinismo eloqüente e o deboche mais infantil. “De onde ele tira esses brinquedos sensacionais?”, pergunta ele, de si para si, quando seu antagonista surge do nada munido dos mais estranhos apetrechos.

Outros “Batmans” já tinham sido evocados, tanto na TV, como a caricata e hilária série tocada pela dupla Adam West e Burt Ward, quanto no próprio cinema, entre eles, a esperta e pavoroso versão de Christopher Nolan, com Chistian Bale na pele do ambíguo justiceiro.

Mas nenhum deles foi tão bem-sucedido em sua plenitude como Burton, que com narrativa simples e direção de arte competente – vencedora do Oscar – conquistou o público não apenas com os dramas introspectivos do homem-morcego, mas, sobretudo, com o carisma nefasto do eterno vilão Coringa.

Claro, Helther Legder causou impacto na sua caracterização do vilão, em Batman – O cavaleiro das trevas, mas com o mesmo charme eloquente de Jack Nicholson, impossível.

Cap. 12 David Bowie e a tríade insana

Andy Warhol odiou a música que David Bowie escreveu para ele, mas adorou seus sapatos de couro amarelo

No verão de 1971, a grande sensação da cena cultura de Nova York era a peça Pork. A montagem, desenvolvida em 29 atos, foi escrita pelo artista plástico Andy Warhol a partir de mais de duzentas horas de gravação de conversas telefônicas noturnas entre o artista e sua melhor amiga, a socialite Brigid Berlin.

Quando o espetáculo chegou a Londres, David Bowie e a mulher Angie foram conferir a apresentação e logo ficaram amigos do elenco e da equipe de produção. O convívio com esse grupo de comportamento radical e extravagância visual, de uma forma ou de outra, contribuiria com a construção dos primeiros esboços do que viria a ser a persona Ziggy Stardust.

“Eles tinham muito em comum. A maior parte da equipe de Warhol era formada por católicos desertores e transformava os rituais e proibições numa paródia irreverente”, escreve o jornalista e biógrafo Marc Spitz na biografia Bowie.

A cena gay vigente em Londres nas badaladas casas noturnas como Sombrero Club e Country Club, também foi importante fonte. “O Sombrero tinha uma pista de dança. (…) A área de baixo era escura e discreta. Havia muitas drag queens, muita gente, meninos e meninas”, conta o empresário Leee Black Childers, um dos membros da peça Pork.

Assim, avançados cultural, social e sexualmente, os Bowie, sob o espectro da alma “wildeana”, partiram para sua mais nova aventura. O aríete dessa nova jornada seria os contatos do empresário Tony Defries na América onde, com sua persistência, conseguiria um contrato para o seu pupilo com a RCA, o mesmo selo de Elvis Presley. No outono de 1971, o casal Bowie partiu para Nova York para assinar um contrato modesto de dois anos, três discos e pouco mais de R$ 37 mil dólares. Quando chegaram à suíte do Warwick Hotel, palácio do magnata William Randolph Hearst onde também hospedava o rei do rock, se depararam com o catálogo inteiro de Elvis em vinil, uma cortesia dos diretores de sua nova casa.

Bowie não conheceria Elvis nessa estadia na Big Apple, mas teve a oportunidade de estar frente a frente com o ídolo da pop art Andy Warhol. Tocou para ele a música que fizera em sua homenagem em Hunky dory e cujos versos mais emblemáticos eram: “Andy Warhol parece uma aberração”. Warhol evidentemente não gostou, mas foi educado, elogiando os sapatos amarelos de couro que ele usava. Anos mais tarde, numa entrevista à revista Rolling Stone, Bowie se lembraria do episódio assim:  “Conheci esse homem que era um morto-vivo. De pele amarelada, peruca da cor errada, óculos pequenos. Estendi minha mão, e o cara se encolheu, então pensei, ‘Esse sujeito não gosta de carne, obviamente é um réptil’”, recorda.

O encontro com Lou Reed no restaurante chinês Ginger Man seria melhor, apesar do mau-humor e quase mutismo do ex-líder do Velvet Underground. “Espero que a gente se veja novamente, isso foi uma grande emoção para mim”, disse um bajulador Bowie.

Dias depois, David Bowie fecharia com chave de ouro sua segunda estadia em Nova York ao encontrar com o ídolo Iggy Pop. Vivendo a fase do ópio, mergulhado em crises medonhas que o fazia ficar dias em frente da TV, completamente estático, o insano líder dos Stooges recebeu com desdém o convite do ascendente astro britânico. “Ah, bacana. Como ele sabe quem eu sou?”, teria dito ao amigo e empresário Danny Fields.

O encontro aconteceria no Max’s e seria reproduzido pelo diretor Todd Haynes no quase biográfico filme sobre David Bowie Velvet goldmine. “Eu gostei do que vi”, diria anos depois Iggy Pop. “Grudei nele”, confessou.

* Este texto foi escrito ao som de: The who sings my generation (The who – 1965)

70 anos do nosso rei Roberto Carlos!

O artista celebra 70 anos de vida sem desfazer de seu eterno carisma, talento e humildade

“Ele é uma invenção de Deus que deu certo”. O comentário é do maestro e compadre Eduardo Lage, num elogio rasgado ao patrão, amigo e irmão camarada Roberto Carlos. Não poderia ser mais exagerado, mas diante do carisma, talento e humildade de um dos maiores nomes da nossa música, o nosso rei, que no último dia (19) completou 70 anos de vida, totalmente justo. Bem, não acredito em Deus, de modo que acho a frase uma bajulação ululante, mas parafraseando alguém que não me lembro agora, assim como os Beatles, quem não gostar do Roberto, boa pessoa não é.

Aprendi a gostar do artista desde pequeno, ouvido os discos do meu pai que tinha uma coleção sensacional, formidável. E aquela voz marcante, inesquecível, inconfundível, entre em meus ouvidos para nunca mais sair. Ainda guardo com carinho na lembrança os especiais antigos da Globo e ficaram marcados em minha memória pelo menos dois momentos mágicos. A do cantor metamorfoseado de Charles Chaplin, um dos meus heróis, e o clipe da música Guerra dos meninos. “Lá, lá, lá, lá, lá lá, lá!”. Lembram?

Como todo fã de Beatles que sou, adorava os sucessos da fase Jovem Guarda, de hits como Parei na contramão e O calhambeque, mas são seus discos e canções da década de 70 os mais tocantes, onde estão suas músicas mais emblemáticas e sofisticadas. Também as mais influentes. Junto com Erasmo Carlos, Roberto escreveu os mais belos registros de nosso tempo. O que faz com justiça ele ser, de fato, o nosso monarca eterno.

Quer ver? Tente escolher uma canção que você goste. Jesus Cristo, As curvas da estrada de Santos, Detalhes, Quando, A montanha, É preciso saber viver, Emoções, As flores do jardim de nossa casa, Eu te amo, Eu quero apenas, E não vou mais deixar você tão só, difícil escolher, né? É por isso que Roberto é o que é.

Mas tem um detalhe importante que sobressai de todas as qualidades que ele tem. A simplicidade. Mesmo com todo o sucesso, fama, dinheiro e realizações que ele tem, Roberto Carlos esbanja humildade, simplicidade e candura. Ele falando parece um monge, uma entidade metafísica que conforta, encanta e estimula nossa alma. É de um carisma e magnetismo sem igual e sabemos que é tudo sincero. Roberto Carlos é o que é e ponto final.

Sem falar na discrição dele que é um charme. Nos anos 60, quando todos no meio musical estavam preocupados na briguinha boba entre a MPB e o pessoal das guitarras Roberto se manteve distante. Com isso conquistou admiração de nomes como Caetano Veloso entre outros. A oposição ao regime militar foi feita da maneira mais discreta possível e as manifestações de solidariedade a qualquer tipo de causa também. Ou seja, sempre foi de uma elegância monarca incrível.

Tive o prazer de ir a um show do artista no Ginásio Nilson Nelson uma vez. Estava a trabalho e vi a apresentação lá na frente. Quase fui esmagado pelas coroas eufóricas que, histéricas, tentavam de todo jeito pegar uma das rosas jogadas pelo cantor. Mas pude ver bem de perto o magnetismo e espontaneidade de um homem que chegou aos 70 anos de vida em paz consigo mesmo e com o seu fiel público, eternos súditos.

O Rei está vivo. Vida longa ao Rei.

* Esse texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos Acústico (Robeto Carlos – 2001)


Discoteca Básica (11) Dark side of the moon

A banda em 1973, no auge da carreira

Um dia, no curso de inglês, calhou do assunto ser música e não demorou muito para um dos colegas falar que odiava o Pink Floyd. Tomei um susto. Eu não conhecia tão bem a banda a ponto de dizer que gostava ou não. Mas o pouco que eu conhecia era o bastante para achar o som da banda inglesa interessante.

O fato é que esse colega meu que não gostava do Pink Floyd me deu de presente o CD do The Wall que ele guardava em casa e nunca, sabe se lá porque carga d’água, teve coragem de jogar fora. Me deu a caixinha com uma satisfação irradiante nos olhos, como alguém que se livrara de um grande peso. Sorte minha.

E foi assim que entrei de uma vez por todas no universo etéreo do grupo e do gênero chamado rock progressivo, que sempre achei que era algo meio de outro mundo. The Wall é uma obra-prima. Wish were you here e a canção homônima um encanto só. O álbum de estréia The piper at the Gates of dawm revolucionário, apontando uma nova direção para a psicodelia que não fosse Sgt Pepper’s e suas crias. Atom heart mother, o disco da vaquinha que o Renato Russo confessou um dia ter quase furado o seu de tanto ouvir, adoravelmente estranho. Mas o meu álbum de cabeceira da banda é o sombrio Dark side of the moon, uma pérola do século 20.

Claro, as músicas que o Pink Floyd escreveu para o cinema e que preencheram filmes como Zabriskie point, do mestre Michelangelo Antonioni, entre outros, são maravilhosas, mas Dark side of the moon é imbatível.

Espacial e enigmático como uma esfinge o disco tem uma áurea espectral que ressoa, faixa a faixa, no tema da loucura. E não era por menos já que Roger Waters, o cérebro da banda, estava prestando uma homenagem ao gênio Syd Barret, mentor do grupo que sofria de esquizofrenia e estava trancafiado em algum manicômio da Inglaterra. “And everything under the sun is in tune/But the Sun is eclipsed by the moon”, canta ele em Eclipse. “The lunatic is on the grass”, reverbera em Brain damage”.

Vocais orgásticos (Breathe reprise), solo de sax melancólico (Us and then), o pulsar de uma batida de um coração (Speak to me) e até o tilintar de uma caixa registradora (Money). Enfim, todos os elementos imagéticos e sonoros surgem com complemento nessa grande sinfonia progressiva que o disco.

Em 2007, Roger Waters veio ao Brasil com a turnê do disco Dark side of the moon e eu fui lá conferir a apresentação do grandalhão no Morumbi. Não era a mesma coisa se fosse uma performance com os quatros integrantes do grupo, mas mesmo assim não deixei de me emocionar com as canções que ele cantou do disco que uma espécie assim de monólito do rock progressivo.

 * Esse texto foi escrito ao som de: Dark side of the moon (Pink Floyd – 1973)

 

Assim nasceram os épicos bíblicos

A Paixão de Cristo: A mais fantástica de todas as histórias

Nos anos 40 os irmãos Harry e Jack Cohn estavam à frente do poderoso estúdio Columbia. Eles se odiavam e um dia tiveram uma briga estrondosa por causa de religião.

– Não meta o nariz na parte dos negócios, retrucou raivoso Harry diante da proposta do irmão Jack de fazer um filme bíblico.

– Só pensei que podíamos fazer um filme bíblico, Harry, só isso, continuou Jack. – Tem um monte de histórias boas na Bíblia, argumentou.

– Que diabos entende você da Bíblia?, desafiou o irmão. – Aposto que você não sabe nem o Pai-Nosso!

– Claro que sei, desafiou Jack.

– Sabe o cacete! – ironizou Harry. – Aposto cinqüenta dólares que você não reza o Pai-Nosso. Vamos lá, aposte o dinheiro ou cale a boca.

Assim, cem dólares foram colocados sobre uma mesa.

– Tudo bem, reze, disse Harry aos faniquitos.

– Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…, começou Jack, com orgulho soberbo.

– Pare, pare, irritou-se Harry, entregando o dinheiro ao irmão com relutância, arrematando zangado. – Achei que você não soubesse.

Bem, a história é de um surrealismo ululante, mas a segunda onda de filmes religiosos que invadiram Hollywood em meados da década de 40 e 50 começou assim, de um mal-entendido escandaloso entre dois ignorantes no assunto.

Mas, que segunda onda era essa afinal? Bem, nos anos 20 e 30 o poderoso diretor e produtor Cecil B. De Mille, já uma legenda naqueles auspiciosos anos, havia implementado a primeira incursão no gênero ao arregaçar as mangas e colocar Moisés para atravessar o Mar Vermelho e Jesus dependurado numa cruz em grandes produções de sucessos como Life of Moses e The king of Kings.

O poderoso diretor e produtor Cecil B. DeMille acreditava ser o escolhido de Deus para adaptar a Bíblia para o cinema

Nos anos 40, mais poderoso do que nunca – a ponto de o dramaturgo Nelson Rodrigues sempre mencioná-lo em tom de piada em suas crônicas quando queria enfatizar algo grandioso – De Mille novamente encabeçaria a segunda onda de épicos bíblicos com a realização, em 1949, da clássica história de amor e traição vivida por Sansão e Dalila. E porque, não? Afinal, eles tinham na figura de Cristo um garoto-propaganda formidável e como símbolo simples, mas eficiente, a cruz.

Daí para frente o que se veria era um enxame de inspirações caça-níqueis que se materializaram em superproduções épicas com temáticas religiosas tque marcariam toda uma geração como Quo vadis (1951), O manto sagrado (1953), Os dez mandamentos (1956), Ben-Hur (1959), Barrabás (1961), O rei dos reis (1961), Cleópatra (1962), A queda do império romano (1964), A Bíblia… No início (1965) e tantas outras.

O que poucos sabiam é que, por trás de conflituosos duelos financeiros e, hediondas brigas por bilheterias, muitos desses filmes traziam em seus enredos veladas críticas e observações sobre as doenças e vilanias do mundo moderno como a ganância dos homens no poder perpetrada na figura do faraó Ramisés em Os dez mandamentos, o homossexualismo em Ben-Hur, o medo e as conseqüências da ascensão do nazismo em Quo Vadis.

O curioso ainda é que os mais tocantes filmes sobre o tema não tiveram Jesus Cristo, a figura central da fé cristã, como protagonista principal. Aliás, algumas delas nem aconteceram de fato, como a trajetória após a libertação na Páscoa do ladrão e assassino Barrabás, romanceada por Pär Lagerkvist, ou a trágica saga do judeu nobre Judah Ben-Hur, roterizada por Karl Tunberg, a partir de um argumento, olha vejam só, do escritor norte-americano Gorel Vidal.

Bem, ao usar como esteio uma das maiores história de todos os tempos, a Paixão de Cristo, muitos desses filmes faz com que seus personagens, de uma maneira ou de outra, cruzem com os caminhos do Salvador, construindo verdadeiros ensaios sobre a moral, a fé, a culpa, o perdão e, sobretudo, o amor ao próximo.

A seguir, um top five pessoal com curiosidades e comentários dos melhores filmes bíblicos que me marcaram

Sansão e Dalila (1949) – É a maior história de amor e traição que a humanidade já conheceu e que o cinema já contou. Tirada do Velho Testamento, narra história de um judeu dotado de força descomunal que tem seus sentimentos negligenciados pelos interesses escusos da diabólica rainha dos filisteus Dalila, interpretada pela deliciosa Hedy Lamarr.

Realizado com recursos tecnológicos medíocres para época, um detalhe que hoje faz a alegria de gente como Steven Spielberg, o filme, dirigido pelo próprio Cecil B. DeMille tem momentos mágicos, como a furiosa sequência em que Sansão, armado de uma queixada de burro, mata uma legião de soldados ou a cena final em que, cego e com as madeixas recuperadas, ele põe abaixo um templo inteiro. Gosto daquele em que ele mata um leão com as próprias mãos.

Quando o filme estreou, o comediante Groucho Marx foi ver o filme e quando viu o ator Victor Mature na pele do herói bíblico tomou um susto, mas não perdeu a piada. “Não assisto a filmes em que o busto do ator seja maior do que o da atriz”, disse.

Peter Ustinov soberbo como o imperador Nero em Quo Vadis, botando fogo nos cristãos e em toda Roma

Quo Vadis (1951) – Baseado na novela do escritor Henryk Sienkiewicz, o roteiro dessa primeira grande superprodução religiosa não tinha como fonte a Bíblia, mas se encaixou com perfeição ao gênero, tanto que é um dos maiores sucessos da safra. Na história, o bonitão Robert Taylor vive um arrogante comandante romano pagão que reluta em não aceitar Jesus e a fé cristã em seu coração. O amor da bela jovem Lígia (Deborah Kerr) é a única coisa que ele quer que preencha seu peito.

Mas Roma é governada pelo insano imperador Nero, matricida que é uma caricatura afetada de Hitler. Sua sede de poder é inesgotável, os limites da loucura também não têm fim até o dia em que ele coloca fogo em Roma, dado início a derrocada de um dos maiores impérios que o mundo já conheceu.

Produção imponente que chegou a ter John Houston como diretor e o galã Gregory Peck na pele do aristocrata romano, Quo Vadis, rodado no mítico estúdio Cinecittá, em Roma, contou com 60 mil figurantes, mais de 50 leões conseguidos nos circos europeus e admiração do papa Pio XII. Na trama, as sinuosas armadilhas urdidas pelos caminhos passionais da ideologia, aqui travada no embate ferrenho entre a fé cristã e a força eloquente romana.

Dirigido por Marvyn Leroy, homem de confiança do produtor Louis B. Mayer chamado às pressas para tocar adiante o projeto, o filme tem nas atuações o ponto alto. Destaque para os coadjuvantes, entre eles o excelente Peter Ustinov, como o nefasto Nero e Leo Genn aqui soberbo como o diplomata e governador Caius Petronius, o homem que radiografou a vida mundana dos submundos de Roma na clássica obra Satíricon, imortalizada por Fellini nas telonas.

Preste atenção nas magníficas cenas que reproduzem o circo de Roma, cujo ápice está na batalhar mortal entre um touro irascível e o gigante judeu Ursus.

Richard Burton no clássico do gênero que foi o primeiro filme em cinemascope da história do cinema

O manto sagrado (1953) – Esse épico tonitruante passado na época de Cristo foi o primeiro filme rodado em cinemascope da história do cinema. Baseada na obra de Lloyd C. Douglas, narra trajetória do centurião Marcellus Gallio, o ator Richard Burton num de seus primeiros papéis expressivo. Ele é o soldado encarregado de supervisionar a crucificação de Cristo, mas ao ganhar o manto que cobria o filho de Deus num jogo de azar, no pé da cruz, tem sua vida transformada para sempre.

Também estrelados por Jean Simmons e Victor Mature, esse clássico do gênero renderia uma continuação no ano seguinte, com o gradalhão Victor Mature como um dos heróis da arena de Roma em Demetrius e os gladiadores.

A cena de maior impacto está logo nos primeiros minutos, quando manto de Cristo, como num passe de feitiçaria, enforca um dos soldados de Roma, quase o matando.

Os dez mandamentos (1956) – Segundo o escritor, crítico de cinema e jornalista Ruy Castro, Cecil B. DeMille acreditava ser o escolhido de Deus para adaptar a Bíblia inteira para as telas. E só não fez isso por falta de tempo. Responsável por inaugurar o gênero ainda na década de 20, o mítico diretor e produtor, que já havia contado a vida de Moisés no cinema, volta às origens nessa mega, hiper, superprodução de 1956.

O filme traz a assinatura do grande mestre e um elenco fabuloso encabeçado por Charlton Heston, que aqui segue os passos de sofrimento e cativeiro do patriarca hebreu. Fazem parte do cast ainda astros como Anne Baxter, Edward G. Robinson, Vincent Price e Yul Brynner, magistral na reencarnação do faraó Ramsés.

Figura respeitada na corte egípcia, na condição de príncipe, Moisés renega uma vida de privilégios e ostentações para salvar o seu povo da escravidão. Perseguido pelo faraó Ramsés, vive décadas no exílio até ser o escolhido de Deus para conduzir os hebreus à liberdade. Mas não será fácil, enfrentando obstáculos como a travessia do Mar Vermelho e a descoberta, no Monte Sinai, das tábuas sagradas que trazem os Dez Mandamentos.

Norteado pelo tema da inveja e da esperança, o filme teve o roteiro baseado nas escrituras sagradas e cenas rodadas no próprio país dos faraós onde uma população inteira de figurantes fora usada, cerca de 60 mil pessoas. E não só isso, cenários suntuosos foram erguidos da noite para o dia e uma legião de técnicos desembarcou na região do Nilo para DeMille pudesse realizar seu sonho megalomaníaco.

Num dos documentários sobre o filme, o astro Charlton Heston lembraria a grandiosidade do set num episódio divertido em que um dos câmeras não consegue ouvir as instruções do diretor, depois outros dois fracassam na tentativa de filmar a famosa cena do êxodo.

Charlton Heston (esq.) na furiosa e inesquecível corrida de bigas no maior e melhor de todos os épicos

Ben-Hur (1959) – Talvez o mais emblemático dos épicos já realizados, essa produção dirigida pelo mestre Willian Wyler foi ganhadora de 11 Oscars, incluindo o de melhor filme, diretor e ator para Charlton Heston. Um feito notório que só seria quebrado quase 40 anos depois com a bobagem sentimentalóide Titanic. O roteiro do filme, escrito por Karl Tunberg, em cima do argumento do então jovem e promissor escritor Gore Vidal, é uma jóia rara.

Importante membro de família nobre da Palestina, Judah Ben-Hur reencontra o amigo de infância Messala (Stephen Boyd), agora um arrogante comandante da guarda romana. Mudado e enfeitiçado pelo poder, ele tenta usar o companheiro do passado para tirar proveito em favor dos interesses de Roma na luta contra a ascensão do cristianismo.

O intento fracassa e como represália ele joga a mãe e a irmã do amigo judeu no calabouço, condenando-o a passar o resto de sua vida nas galés romanas. Mas um acidente em meio terrível batalha naval lhe dá a chance da liberdade e a esperança de vingar seu passado.

Pavorosa fábula sobre a vingança, a trama gira em torno de conceitos morais perturbadores como a culpa, o perdão, o medo da solidão e o rancor. “Você guarda muito ódio em seus olhos. Isso é bom, o ajuda a manter-se vivo”, ensina o general da galé que ele ajuda salvar. Mas o que poucos sabem é que o filme traz velada passagens que fazem alusão ao homossexualismo. Preste atenção nos personagens masculinos no filme.

Rodado no longínquo ano de 1959, o filme conta com uma das cenas mais fabulosas e inesquecíveis do cinema, na famosa sequência da corrida de bigas. Os cenários e sets são deslumbrantes e a direção de arte impecável, uma perfeição. Mas o melhor momento do filme é o mais intimista e teatral de todos. É quando Ben-Hur, quase desfalecido de sede, é ajudado pela figura mítica e imponente de Cristo, que perturba e emociona o espectador sem mostrar o rosto ou dizer uma palavra. Bom cinema é assim.

“Livre, quem, eu?!”, Anthony Quinn em dúvida no papel do personagem-título 

Barrabás (1961) – Não sei vocês, mas eu sempre tive curiosidade de saber o que tinha acontecido com o ladrão e assassino, Barrabás, depois de ser libertado, na Páscoa, em troca de Cristo. Mistério solucionado pelo escritor Pär Lagerkvist em sua novela que deu origem ao roteiro do clássico filme de 1961 estrelado por Anthony Quinn.

Nem precisa dizer que a atuação de Quinn está soberba, mas o grande mérito está no ótimo roteiro que explora os dramas da culpa e da consciência pesada do personagem que não consegue entender porque foi escolhido para viver no lugar do Salvador.

Atormentado por esse fantasma dia e noite e renegando a doutrina cristã, ele irá viver incríveis aventuras e tragédias pessoais que o tornará um dos mais destacados heróis do circo de Roma como gladiador, local onde todas as tramas do gênero parecem terminar. O desfecho é surpreendente e exemplar.

Meio século + um de Brasília

 
51 anos da Brasília dos meus sonhos e dos meus pesadelos

Brasília da minha infância querida, infância perdida, das minhas férias escolares, dos estranhos lugares, das peladas das quadras e parquinhos do Guará I e II. Brasília fabulosa e enigmática, cidade espectro de órbitas distantes, estação planetária de arquitetura espacial esfuziante, obra-prima do gênio de Oscar Niemeyer, Brasília do hoje, do ontem e do depois.

Brasília de geografia estranha, curiosa e labiríntica, urbes faraônica de riscos e traços imponente, meio etérea, cidade do caos e do acaso desconcertante no meio do Planalto Central. Canteiro outrora de obras candangas, de candangos operários, argamassa e massas de uma massa incessante de imigrantes, “estrangeiros” que, assim como eu, aprendeu amar e a pisar esse chão distante de nossa terra natal.

Brasília do cerrado coberto por um céu deslumbrante e infinito, onde o Sol é mais brilhante e as estrelas mais radiantes, quem sabe mais felizes do que essa minha tristeza secular. Brasília do verde exuberante dos gramados do Plano Piloto, com seus ipês gigantes e coloridos, às vezes tortos, aquarelas eloqüentes de uma terra sem mar.

Brasília dos escândalos hediondos, das artimanhas escusas do Poder, das Satélites que gravitam em torno do centro das intrigas palacianas, dos interesses nefastos e corrupções levianas, da soberba litúrgica que habitam seus castelos vazios de sentimentos sociais, catedrais de políticos nenhum.

Também Brasília da imprensa presente e atuante, que dá voz às injustiças, impunidades e indignações da sociedade, insatisfações refletidas em milhares de páginas de jornal e blogs, como o da Ana Maria Campos, espaço que hoje também é aniversariante, como essa cidade vibrante que completa meio século de vida mais um.

Brasília que caminha no ritmo frenético das oportunidades, mas também das desigualdades abissais ululantes, dementes. Cidade cosmopolita, torre de Babel de embaixadas distantes, clubes elitistas e periferias esquecidas.

Brasília do rock candango, berço de bandas seminais como Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana, do Faroeste Caboclo de Renato Russo e sua narrativa anárquica, lírica de aventuras perdidas.

Brasília de horizonte longínquo, de parques gigantes, parques cidades, parques verdejantes, Parque da Cidade, das superquadras abstratas, como a poesia concreta e enigmática do poeta Nicolas Behr. Brasília utopia de JK, utopia do meu ser, enfim, Brasília dos meus sonhos e pesadelos mais recônditos, Brasília da esperança e da fé…