Ninguém ama ninguém… (Por mais de dois anos) (2015)

Ninguém ama ninguém

Nova adaptação das histórias de Nelson Rodrigues em cartaz nos cinemas não passa de clichê vagabundo…

A obra de Nelson Rodrigues é para mim uma flor da obsessão, para usar uma expressão do próprio dramaturgo e cronista. E foi por essas e outras motivações que fui ver, outro dia, ali no Libert Mall, Ninguém ama ninguém… (Por mais de dois anos). Que lástima. Dirigido por Clovis Mello, o filme é um clichê vagabundo do começo ao filme, apostando todo o potencial do texto incômodo e sincero do escritor nas frases de efeitos e caricatura dos personagens.

Em suma a trama se resume no remendo de cinco histórias bombásticas em que a natureza humana expõe suas fraquezas por meio do adultério, soberba, sovinice, vaidade e desejo. Não escapa nem uma defunta vítima de pneumonia. “Nem todo mundo tem a sorte de amar a mulher certa”, lamenta um dos amantes, que deseja a mulher do próximo.

Ainda bem que a reconstituição de época é magnífica. Gosto particularmente dos cartazes estilosos que resgata a estética visual da época, mas difícil de superar as adaptações da obra de Nelson Rodrigues, como fez, doa a quem doer, a Globo, com a série apresentada pelo saudoso José Wilker no Fantástico.

Quem discordar de mim que “atire a primeira pedra”, que era como Nelson Rodrigues queria batizar sua coluna no jornal Última hora. Sorte nossa que o mago da imprensa brasileira, Samuel Wainer, ventilou um nome que eternizou o jeito fatalista do escritor falar das imoralidades humanas.

A vida como ela é…

* Este texto foi escrito ao som de: Blue rose (Rosemary Clooney – 1956)

Blue rose - Rosemary Clooney

Táxi Teerã (2015)

Táxi Teerã.jpg

No filme, o diretor Jafar Panihi, preso recentemente em seu país, brinca de chofer para fazer duras e divertidas críticas contra o Islã…

O título do novo filme do cineasta iraniano Jafar Panihi é sim, uma referência ao clássico de Martin Scorsese dos anos 70, mas, guardado as devidas proporções, a temática aqui é mais contundente. Trata-se de um desabafo on the road do cineasta pelas ruas da capital do país que, como diz um dos passageiros-personagens da fita, mais mata gente depois da China. Estamos falando do premiado diretor iraniano que amargou alguns anos na cadeia e está proibido de deixar o Irã por fazer fortes críticas contra o regime em seus filmes, denunciando a intolerância do regime islã.

A fita, premiada em Berlim e Veneza, já começa tensa, com a ausência de créditos e no final abrupto e simbólico, vamos entender o motivo. Ao todo, sete clientes, entre eles uma sobrinha do diretor, um aspirante a diretor de cinema e um antigo vizinho que esbarra com ele pelo caminho, ajudam a contar as mazelas políticas e sociais que a tirania da religião esconde dentro de narrativa pseudo documental.

Há muito humor no discurso de Táxi Teerã, mas por baixo da sutileza cômica das histórias ouvidas pelo chofer Panihi, surge uma onda de tristeza, indignação e revolta. Ninguém mais quer saber de ouvir sobre pessoas enforcadas por crimes menores ou presas por descrever a dura, cruel e opressiva realidade do país.

“Ninguém nasce criminoso, as pessoas viram bandidos pelas circunstâncias”, lamenta ironicamente uma professora ofendida pelo machismo de um outro passageiro.

As contradições, radicalismo e absurdos do regime são questionados num outro momento divertido, que é o diálogo com a sobrinha do diretor que, assim como ele, sonha em ser cineasta. Ela questiona a dificuldade de fazer um filme em que os dogmas religiosos de sua cultura não a atrapalhe, nos levando, mesmo que sutilmente, ao mesmo problema que causou a prisão de Panihi. Mesmo vigiado pelo sistema opressor de seu país, o diretor segue em frente firme e forte. Mesmo amordaçado, o cinema ainda é uma poderosa arma contra as injustiças humanas.

* Este texto foi escrito ao som de: The Doors (1967)

Doors

O homem na varanda do Antonio’s

José Carlos Oliveira 2

Carlinhos Oliveira (à dir.) com ilustres amigos, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Vinicius, Sérgio Porto e Chico Buarque

Agora que eu não sou mais um alcoólatra de plantão, posso falar dessas coisas. Nenhum outro cronista descreveu a boêmia carioca, com seus bares folclóricos e personagens marcantes do que o capixaba José Carlos Oliveira, o Carlinhos Oliveira. Durante muito tempo, sentado num desses redutos da boa vida e do prazer, ele, um boêmio incorrigível da Zona Sul, foi o “homem na varanda do Antonio’s”, aquele observador tímido e baixinho que registrava, com seu estilo elegante e coloquial, o cotidiano do carioca sob o ensolarado sol, mas, sobretudo, à noite, que é quando os gatos eram mais pardos.

 

“Conheço bem a noite, nela não me perco, pelo contrário, ela me sitia, circunscreve e julga”, escreveu ele em uma de suas crônicas, dezenas delas só no falecido Jornal do Brasil, um dos maiores diários desse país onde trabalhou por 23 anos.

Eram os agitados anos 60 e 70, uma época em que o romantismo e a inocência assaltavam os personagens ao invés da desenfreada violência de hoje. Um período de grande efervescência cultural, encontros do balacobaco e figuras surreais por bares míticos como o Vilariño, o Juca’s Bar, o Amarelinho, o Jangadeiro, o Veloso (Atual Garota de Ipanema), o Zeppelim e tantos outros. A maioria deles, tocados por portugueses e alemães, que parecem ter inventado aqui na cidade maravilhosa essa feérica modalidade.

Para o jornalista e escritor Jason Tércio, organizador das crônicas, Carlinhos de Oliveira “foi o primeiro e único cronista até hoje a construir uma narrativa panorâmica da boemia brasileira, embora muitos de seus contemporâneos e antecessores tenham sido também adeptos desse estilo de vida”.

E a turba ignara que transitava por esses redutos cheirando a álcool e petiscos, era de arrepiar. Entre tantos outros, gente do naipe de um Paulo Mendes Campos, Hugo Bidet, Roniquito, Vinicius de Moraes, Jaguar, Leila Diniz, Tarso de Castro, Lúcio Rangel, Chico Buarque de Hollanda, Carlos Drummond de Andrade e a dupla sensação da Bossa Nova, Vinicius de Moraes e Tom Jobim, personagem da deliciosa crônica, Vinicius e o português.

Os temas de suas crônicas eram os mais variados. O amor, a falta dele, amigos, encontros e desencontros, o mulherio, os cafajestes, arte, dinheiro, sexo, e, em tempos de ditadura, até mesmo política. Mas também novidades como o surgimento da casa de show Canecão, a vinda ao Brasil da banda inglesa Herman’s Hermits, uma possível visita da família real ao bar Antonio’s. Contudo, o cenário, na esmagadora maioria das vezes, era a mesa de um boteco, tendo como cúmplices sempre um copo de uísque e o doce barulho do mar.

“Culpa não me cabe se no Antonio’s acontecem coisas. Ali a atualidade e a fantasia frequentemente se misturam de forma irremediável”, fez mistério certa vez em um de seus textos.

* Este texto foi escrito ao som de: There’s a Kind of Hush All Over the World (Herman’s Hermits – 1967)

Herman's_Hermits_-_There's_A_Kind_Of_Hush_All_Over_The_World

Estorvo (2000)

Estorvo

O diretor Ruy Guerra (dir.) e o ator cubano Jorge Perugorría, nos bastidores do filme baseado em obra de Chico Buarque

Estorvo é quando você atrapalha alguma pessoa e é como ando me sentido ultimamente. E daí alguém se julga no direito de te dizer o quanto você está errado só porque você está meio por baixo e triste. Típico. O mundo está cheio de gente te dizendo o que é certo ou errado fazer. “Este sou eu, dá pra notar que eu tenho que dar um jeito na minha vida”. Por que será que me identifico muito com essa frase da animação Ratatouille?

 Estorvo também é o nome de um livro do Chico Buarque adaptado para o cinema pelo diretor moçambicano Ruy Guerra. Bom, não li esse romance do Chico Buarque, mas vi o filme do Ruy Guerra outro dia no Canal Brasil e, assim como eu, o personagem da trama parece que é um estorvo na vida das pessoas que cruzam o seu caminho.

O clima soturno da narrativa narra o tempo inteiro pelo cineasta lembra o noir godardiano, Alphaville (1965). E assim como no clássico francês, há um personagem que vive em fuga o tempo todo vivido pelo cubano Jorge Perugorría. E o que torna o filme mais perturbador ainda é que, do começo ao fim, não sabemos do quê e nem o porquê, embora alguns rastros, indícios surgem aqui e ali. Será por causa da irmã rica e esnobe (Bianca Byngton)? Ou talvez os familiares bizarros que vivem numa chácara? Tem ainda um grupo de amigos que parece mais ter saído de um circo dos horrores.

Às vezes, a impressão que o diretor quis passar era essa mesmo, ou seja, de que o filme é uma grande fuga. Em se tratando do genial e enigmático Ruy Guerra, talvez seja só isso mesmo. E a intimidade entre o cineasta e o grande nome da música brasileira lhe permite que ele, parceiro de composições e até de texto teatral no passado, ouse numa interpretação pessoal e livre da obra original.

* Este texto foi escrito ao som de: Construção (Chico Buarque – 1970)

Construção - Chico Buarque.jpg

Da hipocrisia das tragédias

Attacks in Paris aftermath minute of silence

Todo tipo de violência é repugnante, mas somos responsáveis pelo o que plantamos. EPA/LAURENT DUBRULE

Não tem muito tempo e andou circulando pela internet um vídeo fortíssimo com a execução de 200 crianças sírias no Oriente Médio. Acho que foi no Iêmen. O terrível massacre era de autoria do mesmo Estado Islâmico que, na semana passada, reivindicou os atentados que mataram mais de 120 pessoas em Paris, deixando dezenas de feridos. Bem, que eu me lembre, a mídia mundial e aqui no Brasil não fez tanto alarde e nem esbanjou comoção piegas, como fez uma edição do Jornal Nacional, com relação ao primeiro caso. Já o episódio num dos maiores cartões postais do planeta deixou consternado até mesmo quem nunca foi a Paris ou atravessou o Atlântico. Mas eu entendo. É mais chique verter lágrimas em francês.

Nesse mesmo período, uma polêmica nas redes sociais questionou o fato de os brasileiros ficarem mais sensibilizados com os atentados na cidade-luz, do que com a tragédia ambiental no interior de Minas Gerais que matou sete pessoas, deixando dezenas de desaparecidos e destruição em proporção ululante. Verdade ou não é fato que as notícias que foram bafejadas da Torre Eiffel ofuscaram o mar de lama que soterrou Mariana.

Mas que diferença faz tudo isso se em todos os casos houve mortes, dor e um revoltante e latente estado impunidade, desconfiança e terror? O triste episódio envolvendo o Rio Doce, em Minas Gerais, é deprimente porque as autoridades brasileiras, dos deputados corruptos, passando pelo governo federal e os próprios diretores da empresa, que funciona com capital estrangeiro, já que um dos sócios é inglês, não moveram uma palha no sentindo de uma ação efetiva e punitiva. Falam em multas milionárias, mas duvido que no final a Samarco vá sair no prejuízo.

“O Rio? É doce. A Vale? Amarga. Ai, antes fosse mais leve a carga”, escreveu profeticamente, certa vez, o poeta Carlos Drummond de Andrade, num poema que nunca foi publicado em livro.

No caso dos franceses, sem querer se cínico, mas já sendo, o fato é que, a França, assim como as outras grandes potências que dominam o mundo e vem sofrendo na mão dos terroristas, está pagando por gestos criminosos do passado. Ou seja, aqui se faz aqui se paga e nesse caso, por anos de opressão e exploração de países pobres africanos e asiáticos. Até hoje, a relação do país com a comunidade árabe é tensa. Alguém aí já assistiu A batalha de Argel?

Não estou dizendo que violência se combate com violência. E nem estou defendo que o que aconteceu na França foi merecedor ou bem feito. Não mesmo, porque crime nenhum, seja qual ideologia, religião ou motivação que se siga, vale à pena. Sou contra ao radicalismo. Mas somos responsáveis por nossos atos e tudo volta. Plantamos o que colhemos. Sempre plantamos o que colhemos. Em quem leva a pior nesse acerto de contas? Civis inocentes!

* Este texto foi escrito ao som de: Teenage head (Flamin Groovies – 1971)

Flaming Groovies

A valsa do imperador (1948)

No filme, a bela Joan Fontaine e Bing Crosby contracenam com poodle e vira-lata...

No filme, a bela Joan Fontaine e Bing Crosby contracenam com poodle e vira-lata…

De todos os parceiros que o genial cineasta Billy Wilder teve para escrever roteiros, Charles Brackett, com certeza, foi um dos mais bem-sucedidos. Mesmo que, na hora de tecer suas formidáveis histórias, eles se atacavam um ao outro atirando listas telefônicas e tudo o que encontravam pela frente.  Mas quem se importava com isso se o espectador sempre encontrava boas tramas nas telonas quando ia ao cinema? Da cachola da dupla saiu grandes sucessos como, Cinco covas no Egito (1943), A mundana (1944), o ganhador do Oscar, Farrapo humano (1945) e A valsa do imperador (1948), talvez o mais fracos dos filmes de Billy Wilder na minha humilde opinião.

Uma das minhas implicâncias com a fita tem a ver com o protagonista Bing Crosby, o rival empolado de Frank Sinatra não só na música, mas também no cinema. Aqui ele se passa por um caixeiro viajante que tenta vender para o imperador da Áustria aquelas vitrolas que tinham como símbolo um cachorro, lembra? Mas acontece que o seu mascote vira-lata arruma confusão com a cadela poodle de uma condessa (Joan Fontaine) e ele, sem se dar contar, logo está numa confusão diplomática em que a moral dos seres humanos e animais está em xeque. E, em se tratando de Billy Wilder, o segundo sempre leva vantagem.

Mesmo uma obra menor na fantástica filmografia de Billy Wilder, A valsa do imperador traz elementos do marcante estilo cínico e cruel do diretor. Ou seja, aqui, como em qualquer uma de suas histórias, alguém sempre vai levar vantagem sobre o outro, mesmo que esteja em jogo o amor e o humanismo. Quer ver? O vendedor Virgil Smith quer se casar com a bela condessa Johanna (Joan Fontaine), ela é a mulher de sua vida, mas está disposto a abrir mão do matrimônio para se dar bem no negócio. E Billy é contundente ao qualificar seu caráter.

“Americanos fazem qualquer coisa na sua insana ambição”, cutuca uma aristocrata arrogante ao falar do yankee que invade a corte. “É um vulgar, impossível, detestável e grosso. Em uma palavra: americano”, arremata outro.

A ironia também se faz notar pelo estilo pomposo da produção, que remete àqueles filmes de Hollywood de época cheio de bailes, valsas e aristocratas metidos. E para Billy Wilder o tema é caro, já que remete as suas origens.

Uma das sacadas do roteiro, claro, está na comparação debochada, do início ao fim, da moral entre animais e humanos. Na visão niilista de Billy Wilder, o ser humano não presta, vale menos que um cachorro. E ele deveria estar certo, para estrelas como Bing Crosby e Joan Fontaine – a cara da Ingrid Bergman -, concordarem em contracenar com poodle e vira-latas.

* Este texto foi escrito ao som de: Harvest (Neil Young – 1992)

Harvest

Prefiro os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille

Charlton Heston naquela que é a melhor versão da história do patriarca hebreu...

Charlton Heston naquela que é a melhor versão da história do patriarca hebreu…

Está todo mundo consternado com a nova sensação da televisão brasileira, a versão de os Dez mandamentos, da Record. Eu vi algumas cenas e não fiquei nem um pouco impressionado. Para falar a verdade, nem fez cócegas no meu entusiasmo. Fico impressionado com a falta de informação das pessoas e o deslumbramento fácil das massas ignaras. O que poucos notam é que a “grande produção” farofa da emissora de Edir Macedo não passa de mera manipulação para pegar o espectador humilde, simplório e ignorante. O mesmo tipo de que se emociona com a pieguice e grosseria dos cultos shows que acontecem pelos tempos mundo afora. Eu não caio nessa lorota.

Desculpe, mas sou saudosista de uma época que não vivi, enfim, nostálgico de um período que não pertenci, e os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille, o clássico dos anos 50 imortalizado por astros como Charlton Heston (Moisés) e Yul Brynner (Ramsés), ainda é a melhor versão dessa história, passados quase 60 anos. E com um detalhe importante. Tirando a parte da travessia do Mar Vermelho, tudo feito no muque, ou seja, sem truque de imagens.

Uma das maiores produções de todos os tempos, o filme levou cinco anos para ser feito, mobilizando milhares de figurantes e cenários suntuosos. Para se ter ideia da megalomania do projeto, o roteiro tinha mais de 300 páginas, algo inédito para época. Setenta tinham diáolgos e 1200 storyboards foram desenhados para dar ação a história do homem que libertou o povo de deus do jugo egípcio.

Então com 75 anos, não era a primeira vez que Cecil B. DeMille filmava a história da travessia do Mar Vermelho. Uma versão pioneira por ele foi realizada em 1923. Mas agora o diretor e produtor queria eternizar sua trajetória em Hollywood com a maior produção de todos os tempos. E para que essa meta fosse conquistada, não mediu esforços. Só no Egito a equipe passou dez meses. Estúdios gigantescos da Paramount foram mobilizados para que os suntuosos cenários ganhassem vida. Cenas no sagrado Monte Sinai foram filmadas.

A escolha do ator que iria interpretar o personagem não foi difícil. Depois de ter trabalhado com Charlton Heston em O maior espetáculo da Terra (1952), DeMille lhe deu o papel do patriarca hebreu após ver a estátua de Michelangelo num museu de Roma. “Ele achou que o Moisés de Michelangelo tinha a minha cara”, lembraria Heston, anos depois.

A voz de Deus também foi feita pelo ator, depois de uma visita a um dos templos cristãos mais antigos localizado em Israel. “Eu comentei com o Sr. DeMille que se alguém chegasse a falar com Deus era algo que vinha de dentro”, comentou o ator. “Felizmente o rabino do templo concordou e foi assim que também fiz a voz de Deus”, recordaria orgulhoso.

Até 1963, com a realização de Cleópatra, com Liz Taylor no papel-título, Os Dez Mandamentos ostentava o título de filme mais caro de todos os tempos, perdendo o posto para a história da rainha do Egito. Mas Cleópatra não foi um sucesso na época e por um triz não teve a produção abortada, quase levando os estúdios Fox à falência. Os Dez Mandamentos foi um sucesso do começo ao fim.  E como Cecil B. DeMille comentaria entre os seus atores. Será um filme que os seus netos poderão assistir algum dia.

* Este texto foi escrito ao som de: Paul Simon (1982)

Paul Simon

Prisioneiro do Passado (1947)

No filme, Bogart, um fugitivo em São Francisco, só vai mostrar o rosto quase a metade do filme...

No filme, Bogart, um fugitivo em São Francisco, só mostra o rosto quase a metade do filme…

Boogie, como Humphrey Bogart era chamado entre os amigos, não era exatamente um galã na essência da palavra, mas tinha charme de sobra e era bom ator. Mas demorou muito para que esse talento fosse percebido por produtores e críticos. E quando isso aconteceu, ele já se encontrava com idade avançada. Mesmo assim, não desperdiçou a chance, que veio pela primeira vez na pele do gangster, Duck, no formidável A floresta petrificada (The petrufied forest, 1936). A consagração aconteceu como o cínico Rick, de Casablanca. Depois disso foi só colher os frutos. Uma deles como protagonista do noir, Prisioneiro do passado (Dark passage, 1947).

Com roteiro e direção de Delmer Daves (quem?), conta a história de Vincent Parry, um prisioneiro que foge de uma prisão de São Francisco, tentando se manter invisível diante da polícia e da sociedade. Por isso, quase a metade do filme não vemos o seu rosto, mas o seu ponto de vista a partir de um trabalho de câmera impressionante.

Sua única aliada é uma milionária excêntrica (Lauren Bacall), que solidariza com ele por achar, assim como aconteceu com o pai, que foi condenado injustamente. Um dia, Parry pega um táxi e o chofer lhe dá a dica de um cirurgião plástico clandestino que o transforma num novo homem. O homem que vai provar sua inocência tem a cara de Humphrey Bogart.

Soturno, o filme é de uma ousadia sem igual, por trazer uma de suas maiores estrelas até então, Bogie, quase que metade da trama, anônimo. É mais ou menos como se hoje Tom Cruise passasse parte da história sem mostrar o rosto. A narrativa baseada em história de David Goodis, é cheia de reviravoltas, e coloca em evidência a atuação coadjuvante de Agnes Moorehead, uma mulher que curte a felicidade em cima da desgraça alheia.

Uma daquelas preciosidades do cinema clássico que pode ser conferida numa luxuosa caixa com outros três filmes: O último refúgio (High Sierra, 1941) e os marcantes Uma aventura na Martinica (To have and have not, 1944) e O falcão maltês (The maltese falcon, 1941).

* Este texto foi escrito ao som de: Black Sabbath Vol. 4 (Black Sabbath – 1972)

Black Sabbath Vol. 4

O abismo prateado (2013)

Filme é baseado livremente na canção "Olhos nos olhos" de Chico Buarque...

Filme é baseado livremente na canção “Olhos nos olhos” de Chico Buarque…

Assisti o drama O abismo prateado, de Karim Aïnouz, outro dia, com clima de déja vù. Não entendi o porquê até me recordar que comecei ver a fita não sei onde com algumas imagens refrescando minha memória. É a história de Violeta (Alessandra Negrini), uma dentista que acaba de se mudar para Copacabana com o marido (Otto Jr.) e o filho (João Vitor da Silva) adolescente. Numa bela manhã, após uma noite tórrida de amor, recebe uma mensagem desagradável no celular. É a voz do marido lhe dizendo adeus, que ela seja feliz na vida. E quando entra Chico Buarque de Holanda e a música Olhos nos olhos, na qual o filme é inspirado livremente.

Mas não se iluda porque é uma adaptação livre mesmo, já que o roteiro não tem aquele clima de rancor e mágoa da letra do compositor. Segundo o diretor Karim Aïnouz, se ateve somente a ideia de “olhos nos olhos”. E a partir daí, constrói uma trama marcada por elipse e enigmas, com a personagem de Alessandra Negrini zanzando como se estivesse perdida ou não sabendo o que fazer.

Um filme menor no sentido de produção, O abismo prateado, assim como em outros trabalhos anteriores do diretor – destaque para O céu de Suely (2006) e Praia do futuro (2014) -, centra a narrativa na psique atormentada dos personagens. Joga fachos de luz aqui e acolá e, entre uma cena e outra, até pescamos o que está acontecendo, mas é o fator subtendido o grande barato do filme. Por que ele foi embora? O que ela vai fazer? E o que vai acontecer com o filho? Eles vão voltar? Para o bem e para o mal O abismo prateado é um filme onde não acontece nada, mas também acontece tudo. É pagar para ver.

O elemento surpresa fica por conta de uma garotinha (Gabi Pereira) e o seu pai (Thiago Martins), assim como Violeta, perdidos na noite carioca em busca de um rumo na vida, depois que a mulher o deixou. São eles, pai e filha, quem vai dar carona à amiga até o aeroporto. A partida para todos parece ser a melhor saída. No final, a van cruzando a ponte com um lindo pôr do sol acenando não deixa de ser um sinal de esperança para esses três desajustados.

Ah, sim, e se alguém descobrir o que significa esse título estranho me conta, tá?

* Este texto foi escrito ao som de: Meus caros amigos (Chico Buarque – 1976)

Olhos nos olhos

Dashiell Hammett e a Continental Op.

Antes de imortalizar suas histórias policiais o escritor também brincou de detetive...

Antes de imortalizar suas histórias policiais o escritor também brincou de detetive…

Elementar, meu caro leitor, mas seja você fanático ou não pelo fleumático detetive, Sherlock Holmes, criação de Arthur Conan Doyle, o fato é que Sam Spade, o personagem da mesma estirpe inventado por Dashiell Hammett (1894 – 1961), é um dos símbolos da moderna literatura policial. Mas bem antes de Humphrey Bogart dar corpo e charme ao policial nos anos 40, na elegante adaptação cinematográfica de John Houston, um sujeito sem nome baixinho, meio careca, gordo e suarento, cujo único endereço parecia ser a Continental Detetive Agency de São Francisco, onde trabalhava, dava os primeiros passos para imortalizar o gênero.

Publicadas na revista Black mask, suas histórias eram marcadas por estilo ríspido, direto, com ritmo acelerado e diálogos contundentes, sempre confrontando ou em contato com tipos rudes, calejados e decididos. Também pudera, porque o ambiente em que eles viviam era de meter medo. As ruas agitadas das grandes metrópoles, onde se escondia o submundo do crime nos da Lei Seca, das quadrilhas organizadas e assassinatos brutais. É nesse mundo urbano e fatal, fraudulento e ganancioso que Dashiell Hammett faz seu detetive sem passado e, aparentemente sem alma, circular. Ah, sim, e que conste nos autos. Antes de se aventurar pela literatura Hammett, que chegou a ser roteirista de prestígio em Hollywood, também brincou de detetive por aí. Sorte nossa que não levou nenhum balaço.

“Foi com ele que Hammett pôs a literatura de mistério para ferver tirando daquela água morna dos detetives cerebrais e meio frescos”, escreve Ruy Castro na apresentação do livro de contos da Companhia das Letras que estou lendo. “Hammett vestiu um trench coat em seu detetive, calçou-lhe galochas, enfiou-lhe um chapéu na cabeça, armou-o com um 38 e o obrigou a sair de casa, mesmo que estivesse chovendo”, ironiza o jornalista.

Nessa primeira história que estou lendo, nosso detetive anônimo tenta desvendar o assassinato de um homem rico, não milionário, que estava prestes a se casar com uma bela jovem. Detalhe importante, o testamento do velho não agradava o único herdeiro que deixou. A suspeita também recai sobre o irmão da garota que vi com bons olhos a diferença de idade entre os pombinhos. Quem será o criminoso dessa primeira trama recheada de mistério e situações de risco?

“A partir de amanhã de manhã passaremos nosso tempo caçando o rival de Gantvoort à pata daquela gatinha”, diz enigmático nosso Sherlock Holmes americano.

* Este texto foi escrito ao som de: Grievous angels (Gram Parsons – 1974)

Grievous Parsons