Não tenho pena do Anderson Silva!

Lamentável cenas como essas no UFC, um esporte que deveria ser extinto da face da Terra

Lamentável cenas como essas no UFC, um esporte que deveria ser extinto da face da Terra

Todo mundo está com pena do Anderson Silva. Eu não. Minha preocupação é maior com o Schumacher. Seria muita sorte se o Anderson Silva e não o Schumacher tivesse quebrado a cabeça. Quem sabe assim, com todos os lutadores de UFC se quebrando todo no ringue, esse esporte ridículo e insano não seria extinto de vez da face da Terra? Não dá pra acreditar que, em pleno século 21, eventos desse tipo ainda rolam, mas se tem platéia o que eu posso fazer?

Meu irmão, que gosta e entende do assunto, me deu a resposta à pergunta cretina que fiz, explicando-me, simples, porque o UFC ainda é permitido, tolerado e bajulado pela imprensa esportiva:

– Tem muito dinheiro envolvido!

Sim, eis a questão, o deus dinheiro.

Mas o que eu não entendo, dou cabeçada na parede para entender, é porque o povo, a massa ignara e bovina, fica de joelhos diante de uma modalidade esportiva tão primitiva. Tem gosto para tudo, Cristo. Sim, porque a imagem que me vem à cabeça quando vejo dois lutadores se matando dentro dessas quatro cordas é a de homens das cavernas com seus tacapes. Ou de gladiadores nas arenas romanas, mas tudo isso foi há muito tempo atrás, meu chapa. Estamos agora em pleno século 21. Pelo menos eu acho.UFC

“Mostre-me um homem violento que teve um final feliz e farei dele meu mestre”, disse certa vez o Bruce Lee, que vivia dando porrada nos outros.

De qualquer forma, a cena do Anderson Silva esfarelando sua canela na perna do adversário é tão horripilante quanto, sei lá, um tiro à queima roupa. Certa vez, vi uma briga de rua num boteco e um dos caras chegou a jogar tijolo na cabeça do outro que já estava todo arrebentado no chão. A mesma coisa é no UFC que, até pouco tempo atrás, eu nem sabia o que diabo era.

E o gozado é o frenesi que a imprensa esportiva faz em cima do Anderson Silva, do evento em si, tudo um lixo, um nojo. Festa em Las Vegas, celebridades na plateia e cobertura de Oscar. “É o Brasil disputando o cinturão de campeão no UFC!”, fazem alarde alguns idiotas da objetividade.

Daí o babaca quebra a perna e, de repente, uma cortina de hipocrisia vem à tona, com os repórteres agindo como se não tivesse nada a ver com aquilo ou adotando uma postura moralista. “Será agora que o campeão irá abandonar a carreira?”. “Como os organizadores do evento irão agir daqui para frente depois desse episódio lamentável”, foram algumas frases idiotas que ouvi aqui e acolá.

Sabe, até acho ou achava charmoso o boxe, que o cinema glamorizou em filmes antológicos, mas não tenho muito saco, nem sangue para ver neguinho esmurrando o outro como galo de briga só para saciar o sadismo da raça humana. Para mim isso é um retrocesso de vida, algo hediondo, macabro e vil. Tão vil quanto matar gente inocente em guerras liderada por líderes egoístas.

Por mim, que o Anderson Silva e os seus pares podem quebrar a cabeça. Vou torcer pelo Schumacher. 

* Este texto foi escrito ao som de: Cachorro grande (2005)

Cachorro grande

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As três faces de Eva (1957)

Joanne Woodward em cena, encarnando uma das três perturbadoras personas...

Joanne Woodward em cena, encarnando uma das três perturbadoras personas do filme…

É um drama dos mais arrebatadores, mas bem que poderia ser um autêntico filme de terror, dado a natureza macabra da trama escrita por Nunnally Johnson, que também assina a direção do filme baseado em fatos reais. Narrado com pegada documental, a produção foi uma das primeiras tentativas de Hollywood de falar sério sobre distúrbios mentais. Aqui conta a trajetória de uma dona de casa simplória que sofre fortes dores de cabeça e, quando isso acontece, sua personalidade altera completamente. O caso é diagnosticado como dupla personalidade, mas Eva tem um problema mais sério e complicado, como a trama irá nos mostrar.

Preocupado com a situação, o marido (David Wayne) meio abobalhado, machista e autoritário da vítima resolve buscar auxílio dos médicos e os dois vão parar no departamento de psiquiatria. Lá o Dr. Curtis Luther (Lee J. Cobb) se empenha no caso. Com o tempo descobre o problema, mas a questão é como lidar com ele e o filme gira em torno dessa problemática.

De uma complexidade rara no cinema, As três faces de Eva é perturbador nos dias de hoje, imagina nos distantes anos 50. Daí a apresentação formal sobre o tema pelo jornalista Alistair Cooke.

As três faces de EvaMas muito da bizarrice da trama contada está na marcante e inesquecível atuação da atriz Joanne Woodward, que abiscoitou o merecido Oscar de Melhor Atriz. E poderia levar mais dois porque em cena ela se multiplica em outras duas personas, cada uma mais diferente e complexa que a outra. É uma coisa espantosa, sua personagens de repente sente fortes dores de cabeça e, num piscar de olhos, ela é outra pessoa completamente diferente.

A primeira é a passiva de comiseração Eve White, quem apresenta o problema para o espectador. A segunda a lasciva e vulgar Eve Black, o alter ego do mal de Eva White, a Mr. Hide da trama. Mas eis que lá pela metade da história surge uma terceira figura, a doce e segura Jane, mas a essa altura nossa cabeça já estará tão biruta quanto o da própria personagem.

“A vida é uma cidade cheia de ruas perdidas e a morte é a praça do mercado onde cada um se encontra”, diz uma das três citando Shakespeare.

Roteirista de filmes importantes como Vinhas da ira e Os doze condenados, Nunnally Johnson se saiu bem aqui como diretor, sobretudo na direção de atores. E não apenas pela performance angustiante de Joanne Woodward, mas também do veterano Lee J. Cobb, que depois da fita, teve problemas sérios com as autoridades norte-americanas por conta de suas inclinações comunistas.

Já Joanne Woodward resolveu dá um tempo na carreira depois de casar com o astro Paul Newman. Sorte nossa que esse intervalo durou pouco.

* Este texto foi escrito ao som de: I never loved a man the way I Love you (Aretha Franklin – 1967)

Aretha Franklin

Jukebox Sentimental – Donna

O jovem astro Ritchie Valens e a musa inspiradora Donna...

O jovem astro de origem mexicana, Ritchie Valens, e sua musa inspiradora Donna…

Tem uma imagem poética que o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues adorava citar constantemente em seus textos. Não sei se vocês conhecem, mas era uma referente ao escritor francês Marcel Proust que, ao mordiscar uma madeleine, num daqueles charmosos cafés parisienses, deu origem à monumental obra Em busca do tempo perdido. A coleção de textos de Proust não só é sua obra mais importante, como também uma das mais significativas da literatura universal. Bem, ainda não a li, mas os três volumes da editora Globo que tenho estão bem ali guardadinhos na minha estante mágica.

Mas por que estou dizendo isso afinal? Ah, sim, lembrei, é porque outro dia, no TCM, me flagrei assistindo ao filme La Bamba sobre a trajetória do cantor norte-americano de origem mexicana Ritchie Valens -, e ao ouvir a balada Donna, sofri um desses processos remissivos viajando no tempo.

Sim, num piscar de olhos, me chapa, flanei em nuvens do passado e logo me vi mais jovem do que sou agora, com uniforme branco em detalhes marrom e tudo mais, lá nos meus tempos de secundarista. Naquela época eu era um rapazote ingênuo, com o futuro ainda embaçado, mas completamente apaixonado, perdido de amores por uma garota tão linda e fascinante quanto a Donna de Ritchie Valens. Nossa, mas como ela era linda, com seus cabelos cor de milho e olhos azul paraíso.

Isso é o que uma canção é capaz de fazer. Ou seja, tão sensorial quanto um La Bambaperfume ou o gosto de uma bolacha, mais ainda o beijo molhado de um caso fortuito, essa fórmula sonora mágica é capaz de feitos transcendentes, inefáveis. E por que decidi encerrar minha série Jukebox sentimental com Donna e não La Bamba, a música mais quente do filme? Nada a ver com Sá e Guarabira, e sim com o fato deu ser um sujeito extremamente sensível.

Rapaz pobre nascido em Pacoima, no Vale de São Fernando, na Califórnia, Ricardo Esteban Valenzuela Reyes virou estrela do rock da noite para o dia, seguindo as pegadas de Elvis Presley e Chuck Berry. Isso graças aos ouvidos clínicos do executivo da música Bob Keane, que percebeu ali uma joia rara. Já em 1958, aos 17 anos, o precoce artista já tinha emplacado três hits nas paradas dos sucessos: Come on, Lets go, Donna e o mega sucesso La Bamba, meio que surrupiada do folclore cancioneiro mexicano.

Donna é uma escancarada e sincera declaração de amor de Ritchie à sua musa, então uma jovem de classe média alta que os pais não queriam saber de vê-la envolvida com um “italiano”. Quando Ritchie Valens a escreveu, estava proibido de ver a garota dos seus sonhos, daí o desespero de alguns versos, mas o amor falou mais forte e triunfou sobre o preconceito. “Eu tive uma garota/Donna era o seu nome/Desde que ela me deixou/Eu nunca mais fui o mesmo”, diz um dos versos simples, mas sincero.

Naqueles meus quinze, dezesseis anos, adorava ouvir Donna incessantemente, me imaginava nos braços da minha secundarista de olhos azuis e cabelo cor de milho, deixando o cheiro de seu perfume me enfeitiçar. Para mim, essa canção vem embrulhada em papel celofane cor saudade, saudade dos meus dias de adolescente. E toda às vezes que a ouço, uma página desses tempos de inocência me vem à cabeça.

Tragicamente morto em um acidente aéreo, Ritchie Valens não teve a chance de ver sua meteórica carreira chegar ao estrelato, mas as canções que escreveu ainda hoje embalam alguns corações solitários. O meu é um deles.

* Este texto foi escrito ao som de: Ritchie Valens (1959)

Ritchie Valens

“I know not what tomorrow will bring”

Nada mais na vida me deprime do que festa de fim de ano, é quando quero desaparecer...

Nada mais na vida me deprime do que festa de fim de ano, é quando quero desaparecer…

Acho que 2013 foi um ano bom, mas não tenho nenhuma ilusão de que o ano que vem será melhor. Primeiro porque não sou hipócrita e nem ingênuo. Segundo porque não ando com muito saco pra nada. Nem comigo mesmo. De modo que vou deixando a vida me levar e vou indo até onde der, aonde puder, até quando aguentar. Se 2014 for melhor ou no mínimo bom tudo bem, que sorte e a vida segue na mesma. Estrelas são estrelas e o céu é azul, que diferença faz?

Sabe, não suporto essa frescura de virada do ano com foguetório no meu ouvido, sorriso engessado no rosto alheio, todo mundo fantasiado de fantasma e uma felicidade fake de cassino para, no dia seguinte, a gente continuar a agir do mesmo jeito que antes. Ou até pior. Como se esse rito de passagem não significasse nada. Como não significa nada porque é só mais um dia depois do outro e nada mais.

Também não sou de ficar fazendo listinhas de metas a serem cumpridas ou qualquer bobagem do tipo. Se já está uma barra viver, imagina se vou ficar impondo limites, imposições ou regras. Que as coisas fluem naturalmente, se forçar a barra, me caro, fica pior. Aprendi isso com uma menina que me deu um fora daqueles. Ela disse que eu era um sujeito que “forçava demais a amizade” e esse foi o fora mais estiloso, autêntico e esnobe que levei na minha vida. Nunca esqueci, foi uma lição para a vida toda.

PessoaBem, ainda estou tentando desenvolver um estilo de vida que não precise necessariamente da minha existência. É um troço meio complicado de conseguir e, se um dia eu descobri como se faz isso, não vou contar pra ninguém, é claro. E para aqueles que não entenderam o que eu quis dizer, é mais ou menos como querer desaparecer durante essas festas de fim de ano. Tipo assim, ir para um lugar no fim do mundo, esconder numa choupana no cume do nada. Entrar debaixo da terra.

Ontem fui fazer caminhada no parque e me deu um tédio tão grande, mas tão grande que pensei que fosse ter uma overdose de falta de ímpeto. Ia andando com minha garrafinha matusquela de água ao redor daquelas pessoas que não me diziam nada, não representavam nada para mim, com o tênis me calejando os pés, e querendo ficar invisível. Daí, comecei a pensar na vida e as coisas só pioraram.

Putz, nada mais na vida me deprime do que festa de fim de ano porque faz até uma simples caminhada no parque virar pura chateação. É como se eu estive em Marte ou numa outra estação. Pois bem, outro dia, numa mesa de bar, me perguntaram o que eu queria ser na próxima encarnação. Respondi que não queria nem aparecer aqui. Acho que é por aí e tem um verso do grande Fernando Pessoa que sintetiza de forma perfeita o que quero dizer.

“I know not what tomorrow will bring”.

Os Beatles é que tinham razão. “Tomorrow never knows”.

* Este texto foi escrito ao som de: Crocodiles (Echo and The Bunnymen – 1980)

Crocodiles

 

Ender’s Game – O jogo do exterminador (2013)

No filme, Harrison Ford é um instrutor responsável por recrutar jovens soldados

No filme, Harrison Ford é um instrutor responsável por recrutar jovens soldados

Minha sobrinha de 13 anos vive me chamando para jogar vídeo game com ela, mas acontece que odeio esse jogo porque nunca sei que botão estou apertando e qual função ele está executando, mesmo eu não tirando os olhos da tela. De modo que, sendo bem sincero, o único jogo de games que gostei na vida foi um bem neardenthal da atari de corrida. O que me fez ir assistir Ender’s game – O jogo do exterminador, com um pé atrás.

Ainda não sei bem por que fui ver esse filme. Acho que por falta de opção. Sim, não sei você, mas ando de saco cheio de assistir essas animações de Natal de fim de ano. Então como sempre fui muito fã de Harrison Ford, desde Guerra nas estrelas e Indiana Jones, resolvi dar um crédito à produção dirigida e escrita pelo sul-africano Gavin Hood.

A história de ficção científica é baseada na obra do escritor sci-fi Orson Scott Card, escrita no final dos anos 70. Se eu bem entendi, a trama, que se passa num futuro próximo, em 2064 (no filme), gira em torno de um grupo de jovens com QI acima da média convocados por entidade de segurança secreta universal para defender a Terra de invasões alienígenas. Entre os militantes destaca-se o jovem Ender (Asa Butterfield). Ele será destacado pelo coronel Graff (Harrison Ford) a liderar uma equipe de talentosos soldados numa batalha virtual que irá salvar a humanidade do caos.

“O propósito dessa guerra é evitar guerras futuras”, explica Graff, que adota uma postura meio autoritária e paternalista diante do jovem escolhido.

A missão para qual Ender foi designada, ou seja, lutar contra os temidos Formics – uma variação Ender's Gamemutante de insetos da família das formigas – foi bem sucedida, mas ele se sente culpado por ser herói na condição de genocida, entrando em conflito com seus superiores. E o filme termina assim, o que tudo indica, irá gerar algumas sequências se essa primeira versão do livro render bons frutos na bilheteria.

Um pouco norteado por clichês bobocas que envolvem o velho maniqueísmo intergaláctico de sempre, além dos velhos embates entre os personagens sobre autoridade, arrogância e competitividade, Ender’s Game não me surpreendeu, mas também não me desagradou. Na verdade, nem sei se gostei do filme, o que me faz chegar a conclusão que, fitas de ficção científica para mim só aquelas produções toscas dos anos 40 e 50, ou produções clássicas do gênero como 2001: Uma odisseia no espaço e Inimigo meu. Ambas com visual impactante, mas trazendo nas entrelinhas discussões filosóficas interessantes. Pelo menos melhor do que Avatar com certeza Ender’s game é.

“Se não tolera desrespeito, então não desrespeite”, ensina um dos orientadores da missão.

Temas como os acontecimentos do 11 de setembro e os inimigos ocultos que rondam esse episódio triste, assim como a polêmica questão da privacidade universal levantada pelo ex-agente da CIA Edward Norton, vem à tona de forma velada, fazendo o filme mais interessante do que aquela complicada engenharia visual que eu não entendo nada.

Atores de peso como Harrison Ford, Viola Davis e Ben Kingsley incrementa o elenco, mas quem rouba a cena mesmo é o jovem Asa Butterfield, um colosso dentro de sua pequenez física.

* Este texto foi escrito ao som de: Soundtracks (Can – 1970)

Can Soundtracks

Crônica de uma vida de mulher – Arthur Schnitzler

Sem o sentimentalismo das obras do séc. 19, o romance prima pelas nuanças psicanalíticas

O autor vienense era muito próximo de Sigmund Freud, daí as nuances psicanalíticas da narrativa

O nome de Arthur Schnitzler chegou a mim via Stanley Kubrick já que, De olhos bem fechados, seu último trabalho, é adaptação de um conto do escritor austríaco. Agora se você me perguntar por que no momento estou lendo Crônica de uma vida de mulher do autor, não sei dizer. Na época em que comecei a ler até saberia explicar, mas agora não me lembro mais. Simplesmente tirei o livro da estante e comecei a devorá-lo. Mas acho que tem alguma coisa a ver com Sigmund Freud. Isso porque a literatura de Schnitzler é bem psicanalítica.

As afinidades entre os dois intelectuais da Viena do “fim de século” eram mais estreitas do que se poderia imaginar. Além de vienenses, compartilham o ofício da medicina e ambos tinham origem judaica, frequentando o mesmo círculo social. Freud jogava cartas com o irmão de Arthur Schnitzler e chegou a ser operado por um cunhado do escritor.

Sabe-se que Arthur Schnitzler e Freud trocaram cerca de dez cartas ao longo da vida e se encontraram poucas vezes. Numa missiva de 1922, parabenizando os 60 anos do amigo romancista, o pai da psicanálise diagnosticava o motivo da distância entre ambos. “Penso que eu tenho evitado contato convosco devido a uma espécie de medo do duplo”, teria justificado.

Talvez por conta dessas particularidades pessoais e profissionais que Arthur Schnitzler certa vez chegou a dizer numa entrevista da época que se sentia “irmão gêmeo” de Freud.

Cafés vienensesBom, o nariz de cera enorme aí só para dizer que, Crônica de uma vida de mulher, escrito por Schnitzler em 1928, três anos antes de sua morte, bem que poderia ter sido extraído de um prontuário clínico de Freud. Digo isso por conta do mergulho profundo do autor não apenas na psique da personagem central da trama, a desnorteada Therese Fabiani, mas de como sua trágica e turbulenta vida se reflete, do ponto de vista social, no declínio de toda uma sociedade, no caso aqui, o império Autro-Húngaro.

“De quebra, um fado individual é sempre mote eficaz para desmascarar a realidade social abrangente”, comenta o tradutor Marcelo Backes no prefácio da obra.

Uma autêntica jovem austríaca de família decadente, Therese, cuja vida o leitor passa a compartilhar a partir dos 16 anos, perde o pai para insanidade e convive às turras com a mãe esnobe, uma escritora medíocre de folhetins que não admite ter chegado ao fim do poço, vivendo de aparências. O irmão Karl, com quem ela também não se dá muito bem, é um jovem ambicioso estudante de medicina que, como a maioria de seus pares, se mostra simpatizante dos ideais nacional-socialistas, apresentando assim uma mentalidade anti-semita.

Quando a mãe, na condição de cafetina, tenta jogá-la nos braços de um velho asqueroso, sem se entristecer, ela que é uma jovem romântica que ainda preserva os valores do conservador século 19, decide seguir seu próprio caminho. E é aí que, entrando em choque com a falta de princípios morais do século que estar por vir, ela enfrentará e sentirá, na pele, a verdadeira vida.

Na condição de narrador onisciente, Arthur Schnitzler detalha a vida de sofrimento e perversões da jovem Therese, vivendo um romance passageiro atrás do outro. Um dia, por descuido, engravida e passa a ter como fardo o pequeno Franz, peça determinante em seus dias finais.

Longe do sentimentalismo característico de boa parte dos romances do século 19, Crônica de uma vida de mulher é contundente ao evidenciar a solidão da mulher em meio a uma sociedade machista. Algo que, de lá para cá, muito pouco mudou.

* Este texto foi escrito ao som de: O anel do Nibelungo (Richard Wagner – 1848/1876)

Richard Wagner

Gente como a gente (1980)

Os Jarrett, uma família destroçada por momentos tristes e trágicas

Os Jarrett, uma família destroçada por momentos tristes e trágicas

Três títulos ali do final dos anos 70 e começo dos anos 80 que sempre eram exibidos nos especiais de fim de ano, durante um bom tempo, povoaram meu inconsciente de guri curioso. Não sei se pelos personagens que eu via de relance nas propagandas, pelos nomes que estrelavam a fita ou alguma coisa do tipo. Tootsie (1982), aquele filme em que o Dustin Hoffman se veste de mulher, era um deles. Kramer vs. Kramer (1979), também protagonizado por Dustin era outro. Mas esses eu vi, conhecia a história, matei a vontade de ver e tudo o mais. Gente como a gente (1980), a estreia de Robert Redford na direção, o terceiro filme desse triângulo eu não conhecia. Vi outro dia no Telecine Cult e achei formidável.

A história, de uma simplicidade incrível, gira em torno de uma família classe média alta norte-americana destroçada por momentos tristes e recordações trágicas que envolvem morte e tentativas de suicídio. Após perder o irmão mais velho num acidente, o jovem Conrad (Timothy Hutton) é atormentado pelo sentimento de culpa. O peso em seu coração é tão grande que um dia tenta suicídio cortando os pulsos.

O comportamento estranho de Conny preocupa o pai afetuoso (Donald Sutherland), mas nem Gente como a gentearranha a sensibilidade da fria, imprevisível e egoísta mãe (Mary Tyler Moore), que o culpa por tudo o que aconteceu. “Ele nos desrespeita e você pede desculpa”, condena, ríspida, o marido. “Tudo o que temos em comum com as mães é superficial”, se defende o filho, amargurado pela perda, pela dor, pela rejeição.

À medida que a situação se avança, a complexa convivência do que restou dessa família só piora e tudo indica que é um caminho sem volta. Daí a figura importante de Dr. Berger (Judd Hirsch), um psiquiatra que não inspira muita confiança, mas é eficiente no tratamento com seu paciente. O desfecho sem happy end é exemplar e pouco usual em produções hollywoodiana.

Embora a pieguice em alguns momentos dê o ar da graça, Gente como a gente – cujo título original (Ordinary people) é um sundae -, impressiona pelo realismo desse conflito familiar. A cena em que o marido, recordando o dia do enterro do filho, questiona a futilidade e egoísmo da esposa e implacável. Protagonizando seu primeiro filme, a linda Elizabeth McGovern é um deleite aos olhos com sua beleza à la Ana Paula Arósio.

Disputando as principais categorias do Oscar com Touro Indomável, o filme de estreia de Robert Redford abiscoitou quatro estatuetas: Melhor Filme, Diretor, Ator Coadjuvante (Timothy Hutton) e roteiro para Alvin Sargent.

Conhecido pelo porte de galã, Redford, que sempre foi um ator no mínimo profissional, se mostrou aqui, nesse debute, ser um ótimo diretor, daqueles que sabe dosar com elegância climas densos numa trama. Melhor ainda como diretor de atores. Beleza não põe à mesa.

* Este texto foi escrito ao som de: V (Legião Urbana – 1991)

V

Eu não acredito em Natal!

Eu não acredito em Natal pq o sujeito passa o ano inteiro como lobo e no final do ano vira cordeiro...

Eu não acredito em Natal pq o sujeito passa o ano inteiro como lobo e no final do ano vira cordeiro…

Eu não acredito em Natal. E sabe por quê? Ora pelotas, porque o ser humano é formidável, né? Passa o ano inteiro agindo como lobo e quando chega o fim de ano, por conta do espírito natalino ou qualquer bobagem do tipo, se comporta como cordeiro. Eu, não. Eu sou mau e sem escrúpulos o ano inteiro, os 365 dias do ano e tenho orgulho disso. Além de espelho, lá em casa nunca faltou óleo de peroba. Por isso que quero que Papai Noel, o espírito natalino e todas essas fantasias de fim de ano explodam.

Revoltado? Quem? Eu? Imagina! Só tenho senso de ridículo. Sim, porque é só chegar o Natal e as festas de Fim de Ano e as pessoas ficam mais cínicas e hipócritas. Só que elas não se dão conta desse fenômeno comportamental. Agem como autistas afetados, igual a muitos políticos ou gestores de merda.

E daí me vem o governo com a maior canalhice me enganar dizendo que o país está ok, que tudo está bem, enquanto que nos sabemos que não está nada bem. Está tudo uma merda, uma joça daquelas e o povo burro e medíocre, sorriso amarelo estampado no rosto, garantindo que está tudo supimpa, as mil maravilhas.

Natal cinzaMas fique calmo meu querido porque ano que vem tem mais, a festa continua, mais do mesmo porque é ano de eleição, ano de Copa do Mundo e o escambau, enfim, uma esculhambação total, uma putaria geral. De modo que espero não estar aqui para ver tudo isso de novo. Não eu que já estou velho, com barba branca na cara e tudo o mais, sem o menor saco – fazendo trocadilho com a canção do The Who -, para ser enganado de novo.

Sabe aquela canção do John Lennon do primeiro disco dele, God? Aquela que diz que “deus” é um conceito para medir nossa dor? Pois é meu chapa, estou assim como ele, ou seja, não ando acreditando em nada, nem mesmo em mim. Sobretudo em mim. Ainda mais em mim. E que a dor carcomida e fétida me coma os ossos como um câncer, só para saber se eu existo, se eu estou aqui. Só para me sentir.

Eu não acredito em Natal. E não acredito porque é uma data que me traz tristes recordações e este ano estou mais triste ainda do que nos natais anteriores porque perdi um amigo cedo demais. E nós não sabemos o que fazer porque deus não existe e Papai Noel não pode me trazer a cura dos males da vida naquele saco fajuto que ele carrega nas costas para cima e para baixo. Aquele saco de merda cheio de sonhos esfacelados e promessas mal cumpridas.

Bem, ontem passei a tarde inteira atrás de presentes para as minhas sobrinhas e aquelas pessoas que acredito, que são poucas, tão poucas que conto nos dedos de uma das minhas mãos. Sim, enquanto ninguém estava olhando, me disfarcei de cordeiro do ano e lá estava eu enfrentado fila, estacionamento cheio, chuva fria, as musiquinhas natalinas irritantes no meu ouvido só para garantir o Natal feliz das minhas crianças. Daquelas pessoas que amo. Mesmo assim, eu não acredito no Natal.

* Este texto foi escrito ao som de: Mind games (John Lennon – 1973)

Mind games

Amar foi minha ruína (1945)

A diabólica Ellen Berent, prestes a aprontar mais uma das suas...

A diabólica Ellen Berent, prestes a aprontar mais uma das suas…

E quem disse que amor em excesso não pode matar? Que o diga Ellen Berent (Gene Tierney), a diabólica megera do drama, Amar foi minha ruína (Leave her to heaven – 1945), filmaço exibido outro dia no telecine cult. É evidente que ninguém faz novelas como a gente, mas essa trama de 1945 dirigido por John M. Stahl não ficaria muito atrás de nenhum folhetim escrito por Janete Clair ou Gilberto Braga. E ao observar que a fita é dos anos 40 ficamos mais Impressionado ainda.

Baseado em fatos reais, o filme conta a história do amor doentio da socialite Ellen Berent pelo escritor Richard Harland (Cornel Wilde). Os dois se conhecem no trem e o interesse mútuo é imediato. Ela é uma autêntica garota mimada que sempre teve tudo na vida e nunca gostou de perder. Ele um escritor de sucesso que dedica boa parte de sua atenção e afeto à literatura e com o irmão deficiente (Darryl Hickman).

Dona de um comportamento exótico e intenso que fascina Richard, o espectador não sabe no começo quem ela é direito e para quem veio. Logo Ellen demonstra ser uma vilã de novela das oito, exibido um ciúme doentio de todos aqueles que se aproximam dele ou desperte interesse de seu amado. Assim, ela não vê com bons olhos o carinho dele com o irmão doente, com um grande amigo de infância, enfim, até com a própria irmã Ruth (Jeanne Craine), de quem Richard gosta muito e dedica o livro que acaba de escrever.

“Ela ama demais e isso não é bom”, diz alguém próximo ao casal.Leave her to heaven 2

Mas as coisas começam a ficar bem feias quando ela transforma o ciúme patológico em maldade, colocando em risco a vida de pessoas inocentes, entre elas o irmão deficiente de Richard e o bebê que carrega na barriga. A cena clímax do lago em que ela apronta uma das suas, é de chocar até satanás. Ao ser desmascarada, Ellen tenta tirar a própria vida, arruinando o destino daquele que ela, emotivamente equivocada, sempre defendeu e lutou.

Bastante contundente para época e até impactante para os dias de hoje por abordar de forma escancarada temas como suicídio, Amar foi minha ruína, que traz participação de Vincent Price, antecedeu, de certo modo, o perturbador enredo de Um lugar ao Sol, filme de 1951 de George Stevens com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift. Foi não apenas a maior bilheteria dos estúdios Fox daquele ano, como de toda a década. Rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz pela atuação soberba de Gene Tierney e uma estatueta merecida pela bela e leitosa fotografia. Aos cinéfilos de plantão, vale traçar um paralelo com clássico

Eu citei as novelas globais, mas há muito de Shakespeare no filme, sobretudo no título, tirada de uma frase de Hamlet, quando o fantasma pede ao herói atormentado que desiste de sua vingança contra a Rainha Gertrude:

“Que o céu a julgue”, teria dito o soturno ser.

* Este texto foi escrito ao som de: American idiot (Green Day – 2004)

American Idiot

Jukebox Sentimental – I can’t stop loving you

 

Ray Charles e seu coro angelical de belas negras embalou o Natal de minha infância

Ray Charles e seu coro angelical de belas negras embalou o Natal de minha infância

Não gosto nem um pouco do Natal porque é uma data que me traz recordações tristes, baby. Sendo bem sincero, posso contar nos dedos de uma das minhas mãos os momentos felizes que essas comemorações de fim de ano me trouxeram. Bem poucas, garanto, não chegam a cinco. Mas há um espaço mágico da minha infância em que as luzes laranja daquela árvore de natal piscavam sem parar na escuridão da sala e eu ouvia, em estado de êxtase, essa canção de Ray Charles sem saber quem ele era. Aliás, eu nem sonhava em saber quem era Ray Charles naquela época porque nem os Beatles eu conhecia. Acho que, se muito o Elvis Presley, por causa dos vinis do coroa.

“Não posso parar de amar você/Eu moldei minha mente/Para viver nas memórias/Dos tempos de solidão/Não posso parar de amar você”, canta o artista, com um coro de vozes negras de arrepiar, e os versos entravam em minhas entranhas como um soro da vida, um sol da manhã e da noite.

E, como num passe de mágica, ao ouvir a canção novamente por esses dias, volto no tempo e estou agora deitado no chão da sala de estar da minha casa, não sei se em Brasília ou em algum outro lugar. Só sei que tenho sete ou oito anos e ouço no escuro da minha solidão essa canção angelical, norteado pelas luzes laranja da árvore de Natal e o verde sonho do dial do aparelho de som ligado, ambas iluminando minha alma inocente.

Elvis“É inútil dizer/Então vou apenas viver minha vida nos sonhos de ontem/(Sonhos de ontem)/Aquelas horas felizes que tivemos”, continua o artista cego, no breu de sua emoção.

Gozado que sempre achei que I can´t stop loving you fosse uma autêntica canção de Ray Charles, tamanha a emoção em que o artista imprime à essa versão e aqui entra em cena o talento de um intérprete nato. Poucos têm esse dom. Elvis Presley foi um deles, mas aí meu chapa, é outra história.

Mas quer saber? Outra história uma pinóia porque, escrita pelo cantor country Don Gibson que a gravou em 1957, a música ganhou um toque épico graça à interpretação emotiva de Ray Charles e seu coro de garotas negras lindas e angelicais, mas também imortalizada na voz do rei do rock. “Embora faça tanto tempo/Ainda me deixam pra baixo/Dizem que o tempo cura um coração partido/Mas o tempo parou desde que nos separamos”, diz o verso mais contundente.

Sim, e o tempo pode ser uma cura ou não, depende de como o seu relógio do amor esteja funcionando e, no meu caso, parece que ele parou, está quebrando a algum tempo, me fazendo sofrer ad eternum, como um Prometeu da era moderna. “Não posso parar de amar você/(…) É inútil/(…) Estou decidido a viver/A viver da memória nos momentos de solidão/não posso parar de amar você”, os versos se confundem em minha cabeça.

Esse ano, como das outras vezes, meu Natal é triste e cinza como uma noite no Pólo Norte sem Papai Noel. Mas tenho a fantasia de uma alegria nostálgica todas às vezes que vejo as luzes laranja da árvore de Natal da minha infância. Uma imagem pseudolírica que me fazem ser levados pelas ondas sonoras da voz de Ray Charles.

* Este texto foi escrito ao som de: I can´t stop loving you (Ray Charles – 1962)

Ray Charles 3