Tim Maia (2014)

O ótimo ator Badu Santana não consegue fugir da caricatura do polêmico cantor

O ótimo ator Badu Santana não consegue fugir da caricatura do polêmico cantor

O chato é que a maioria das pessoas que vão assistir ao filme Tim Maia, só conhece o artista das músicas de coletânea ou pelos milhares de escândalos e polêmicas que ele se envolveu ao longo da vida. Mas tudo bem, quem sabe depois de ir ao cinema e ver a cinebiografia, o sujeito se interessa a ouvir, para valer, os trabalhos do início da carreira do cara, onde estão gravados os melhores trabalhos, sem fazer, digamos, “juízo de valor”.

Mas a julgar pelo filme de Mauro Faria, tal desafio será difícil de realizar, acontecer. Isso porque o longa-metragem que entrou em cartaz esta semana em todo o país, deixa muito a desejar em vários aspectos. Baseado na boa biografia de Nelson Motta lançada em 2006, o projeto escorrega na narrativa maçante, na caricatura dos personagens e na abordagem patética de alguns episódios. O rei Roberto Carlos, por exemplo, ao contrário do livro, é mostrado de forma imbecilizada, na pele de um bobão aproveitador e traidor. A sequência do primeiro encontro entre os dois amigos, após o sucesso do primeiro, parece piada e, eu, se fosse o Robertão, processava a produção. Aqui, sim, caberia um processo.

Os dois atores que vivem o cantor em cena – Robson Nunes e Babu Santana -, por mais que se esforcem, não conseguem fugir do caricatural e superficialismo. Daí tem o fator sentimento (e não sentimentalismo) que transbordou com sinceridade no roteiro de projetos idênticos como Dois filhos de Francisco e Gozanga – De pai para filho e que aqui não passa nem perto.

Quem narra a história é Fábio (Cauã Reymond), um cantor romântico dos anos 60 que Tim Maia 2chegou a emplacar um grande sucesso na época, o hit Stella, mas que não passou disso e que se viu, de repente, boa parte da vida como músico de apoio e grande amigo de Tim. Ele conta como o “Tião Marmiteiro” cresceu complexado com o fato de ser pobre e um mulato “sem chance na vida” e como essa condição à margem desde a infância pobre e difícil, na Tijuca, o levaria a tentar a sorte nos Estados Unidos, depois de brigar com Roberto Carlos quando os dois faziam parte do grupo musical os Sputniks.

Ao voltar, depois de ser deportado por roubo e envolvimento com drogas, Tim Maia se vê na rua da amargura mais uma vez, mas a vida parece lhe esboçar um sorriso depois de um encontro com o rei Roberto Carlos em São Paulo. O sucesso, a rápida passagem por Londres, sua conflituosa relação afetiva, o envolvimento com a obscura seita Cultura Racional e os anos de vício pesado com drogas e bebida estão lá, mas narrados de forma tão sórdida e fake do ponto de vista da narrativa, que até dá desânimo de ver o filme até o fim.

A trama só começa a esquentar quando entra em cena a música e o genial gingado soul do artista que, junto com Jorge Ben, sacudiu o cenário musical com uma mistura envolvente de samba, rock, soul e MPB. O momento em que o ator Badu Santana levanta a galera ao som da contagiante, A Festa de Santo Reis – sucesso do segundo disco de Tim, de 1971 -, é de arrepiar. Aliás, era aqui onde eu queria chegar, ou seja, que alguns artistas são praticamente impossíveis de serem retratados no cinema. Deveriam ser conhecidos apenas pelas obras em si e nada mais.

* Este texto foi escrito ao som de: Tim Maia (1971)

Tim Maia