As eternas musas do Rock ‘n’ Roll

Warhol e a musa Edie Sedgwick, inspiração para Femme fatale

Warhol e a musa que inspirou Femme fatale

Bem, parafraseando Nelson Rodrigues, sem musas, por mais inatingíveis que elas sejam, o sujeito apaixonado, poeta desvairado, Lord Byron de sim mesmo, não consegue chupar nem um chica bon. Pois bem, eu não sou poeta, nem escrevo canções de amor, mas coleciono musas aos milhares. De modo que há uma para todo tipo de estação, estilo e gosto. Algumas, de tão lindas são radiantes como raios de Sol, outras, desmilinguidas, só fingem simpatia, também tem as platônicas com pose de “semi-divina”, além das esnobes sádicas, assim como as adoráveis educadas.

Bom, a mitologia grega ensina que musas são entidades com capacidade de inspirar a criação artística ou científica. No folclore da música, muitas foram essas entidades que inspiraram grandes estrelas do rock ‘n’ roll e não foram poucas que se tornaram maiores do que seus fãs, seja pela beleza trágica que elas emanavam, pelo carisma arrebatador de suas personas ou importância que cada uma teve na cena musical da época em que foram reverenciadas.

Mas afinal, que são essas divas? É o que tenta solucionar os autores Michael Heatley e Frank Hopkinson em Músicas e Musas – A verdadeira história por trás de 50 clássicos do pop. Um colega meu disse que o título tinha a minha cara, por isso fui ali na Livraria Cultura do Casa Park e comprei uma edição.

Gostei, mais acho que a obra peca por não trazer a história de alguns hits clássicos sobre o tema como a épica, Angie, canção dos Stones escrita em 1973 em homenagem a primeira mulher de David Bowie, Julia, canção que John Lennon escreveu para o Álbum Branco em homenagem à mãe, além de Woman, uma declaração de amor a sua eterna musa nipônica, Yoko Ono.

Mas tem lá Dear Prudence, outra faixa do álbum de 1968 dos Beatles que fala sobre a irmã de Mia Farrow (atriz de O bebê de Marianne Faithfull 2Rosemary), Prudence Farrow, que despertou preocupação de Lennon por conta de sua obsessão por meditação, daí os versos. “Querida Prudence, porque não sai para brincar?/Receba o novo dia”, canta.

Também temos a revelação da identidade da famosa Femme fatale da emblemática canção do Velvet Underground, inspirada numa das musas de Andy Warhol, a socialite californiana, Edie Sedgwick, que teve morte trágica quatro anos depois, após uma vida de excessos, aos 28 anos. “O legista declarou a causa da morte de Sedwick como ‘indeterminada/acidente/suicídio”, revela o livro.

Roqueiros mais recentes como Bono Vox e Noel Gallagher declaram o amor a suas esposas em canções como Sweetest thing e Wonderwall. A primeira, em homenagem a Alison Stewart, com quem o vocalista do U2, incrivelmente, está casado até hoje. A segunda, em reverência a Meg Mathews, com quem o mentor do Oasis ficou casado por cinco anos. “É sobre a minha namorada porque ela tinha acabado de perder emprego e não tinha dinheiro nem nada”, disse ele, certa vez, numa mal-humorada declaração de amor.

As surpresas para mim foram as músicas Carrie Anne e Suite: Judy Blue Eyes. Escrita em 1967 por Grahan Nash, junto com os colegas do Hollies, Allan Clarke e Tony Hicks, a faixa era uma declaração de amor a loirinha Marianne Faithfull. Filha de uma baronesa austro-húgaro e sobrinha-neta do barão Leopold von Sascher-Masoch, Faithfull despontou na swinging londrina dos anos 60 como interprete da balada vitoriana, As tears go by, escrita pela dupla Mick Jagger e Keith Richards.

Já a icônica Suite: Judy Blue Eyes é um fotograma musical de pouco mais de sete minutos sobre a relação entre Stephen Stills (ex- Buffallo Springfield) e Judy Collins, cantora de country music de bastante sucesso nos anos 60. “Bem, há três coisas que os homens podem fazer com as mulheres: amá-las, sofrer por elas ou transformá-las em literatura. Eu tive minha parcela de sucesso e fracasso e, todas as três”, diria o cantor, anos depois.

* Este texto foi escrito ao som de: Crosby, Stills & Nash (1969)

CSN

Lincoln, Spielberg e Daniel Day-Lewis

O astro inglês em personificação fria, melancólica e pétrea...

O astro inglês em personificação fria, melancólica e pétrea…

Duas coisas sempre me irritam no cinema de Steven Spielberg: o patriotismo, ufanismo infantil e o sentimentalismo boboca de seus “filmes sérios”. Em Lincoln, seu mais recente trabalho em cartaz na cidade, indicado a 12 Oscars, todos esses excessos foram limados quase que até o osso. Tudo bem, ainda há uma pequena dose de maniqueísmo, quase imperceptível, aqui, mas você está querendo o quê? Spielberg não é o Michael Haneke de Hollywood e encerramos o assunto por aqui. E quer saber? Para mim, seu melhor filme ainda é o meigo, sincero e lúdico, E. T. – O extraterrestre (1982).

Dito tudo isso, confesso que fiquei deslumbrado – não encantado, veja bem -, com sua história sobre os últimos quatro meses de vida daquele que talvez tenha sido o presidente norte-americano mais importante da história da América. Na trama escrita pelo dramaturgo Tony Kushner (Munique), a partir da obra biográfica de Doris Kearns Goodwin, ele narra a tensão e percalços palacianos enfrentados pelo político para ter a 13ª Emenda aprovada pelo Congresso, ato que acabaria com a escravidão nos Estados Unidos. Em termos de princípios humanistas, definitivamente, não era pouca coisa.Assim, desafiando o humor azedo de toda uma nação e de gente que odiava “Deus por ter criado os negros”, Abraham Lincoln, com sua sabedoria e paciência dos grandes líderes, resistiu a todas as dificuldades para honrar os soldados que morreram pela liberdade de 4 milhões de negros, numa guerra sangrenta civil que vitimou, em quatro anos, dos dois lados, 600 mil vidas. Como diria aquele personagem de Marlon Brando em Apocalipse now (1979): “O horror, o horror!”.

“Minha confiança é uma medula profunda”, diz diante da quase a desistência de um de seus correligionários. “Não fale Lincoln 2comigo sobre luto”, repreende a mulher (Sally Field), temerosa com a ida do primogênito para o front.

Com uma narrativa lenta, clássica e exuberante em que as hegemonias dos diálogos e do texto se sobressaem, Lincoln traz como pano de fundo, a partir da imagem quase de “semi-divino” do 16º presidente dos Estados Unidos, o lado humano do poder. E um lado humano esse com todas as suas contradições e desafios, elemento às vezes fragilizado pela ineficiência da lei, da ignorância dos homens que as criam, do próprio sistema em que elas estão inseridas.

“Eu não concordo com a igualdade em todas as coisas. Somente com a igualdade perante a lei”, diz o congressista Thaddeus Stevens, personagem vivido pelo sempre excelente Tommy Lee Jones.

E por falar em atuações, que encanto (agora sim) a atuação do ator inglês Daniel Day-Lewis no papel-título. Sóbrio, comedido e introspectivo dentro da grandeza do personagem, ele quase que é o filme por si só. Bom, muitos atores encarnaram nas telonas Abraham Lincoln, dos quais o sempre correto Henry Fonda, em A mocidade de Lincoln (1939), mas nenhum deles se compara a personificação fria, melancólica e pétrea de Lewis, com sua altura encurvada, cartola de bruxo nas mãos, olhar desolador.

Claro, o Oscar é uma grande bobagem, sempre foi, mas se o ator não levar mais uma vez o prêmio de Melhor Ator – ele já venceu por Meu pé esquerdo (1989) e Sangue negro (2007) -, será mais um daqueles erros hediondos, cretinos cometidos pela Academia.

No auge de sua maturidade como homem de cinema, Steven Spielberg, quer você goste ou não dele, ainda é um mestre na arte de entreter o público e aqui tem o controle total de um drama de proporções épicas, paradoxalmente, introspectivo. Daí o grande charme dessa produção que conta com momentos marcantes como a dramaticidade da fotografia soturna, sombria, quase escura da Casa Branca ou ainda na habilidade do diretor em dosar suspense, humor e comoção eufórica na cena da tensa votação da 13ª Emenda, no Congresso norte-americano.

“Você acha que escolhemos para nascer?”, pergunta um combalido Lincoln, envelhecido em dez anos diante das pressões do poder.

Não sei dizer, mas que bom estar aqui para ver mais um espetáculos da sétima arte como esse, promovido por Abraham Lincoln, Spielberg e Daniel Day-Lewis.

* Este texto foi escrito ao som de: History: America’s Greatest Hits (1975)

América

Os dilemas cruciais de Mr. Babbitt

Lewis, um escritor entre os opostos da política...

Lewis, um escritor entre os opostos da política…

Há uma áurea das aventuras de Jay Gatsby no romance, Babbitt, livro de Sinclair Lewis escrito em 1922 que terminei de ler outro dia, junto com a biografia do Elton John, do crítico musical inglês, David Buckley. Talvez seja o contrário, já que a obra do segundo foi publicada depois do primeiro, se é que vocês entenderam o que eu quis dizer, certo? Sim, porque quando Scott Fitzgerald causou furor com O grande Gatsby, em 1925, sua obra mais badalada, Babbitt, de Sinclair Lewis, já tinha três anos de estrada.

E faço a conexão entre os dois títulos porque ambas têm mais ou menos a mesma temática, ou seja, a hipocrisia da sociedade americana diante do “deus dinheiro” e do mundo de aparências em que todos vivem, enfim, uma realidade não tão diferente da nossa já que a mediocridade humana é universal.

É meu chapa, e eu sou assim, leio vários livros ao mesmo tempo porque tenho medo de que minha vida seja breve. Ainda mais que algumas amigas minhas andam sonhando com o meu suicídio eminente… Por isso que, onde quer que você vá, seguindo os meus passos, irá encontrar milhões de títulos literários me cercando.

Mas, como vocês já têm lido por aqui, Babbitt é uma crítica irônica sobre a vida medíocre da classe média norte-americana do início do século passado. Cheio de si, nosso herói George Babbitt é o típico cidadão norte-americano preocupado em ter um trabalho “convencional” que lhe dê dinheiro suficiente para comprar o conforto necessário para sua família, ou seja, uma casa decente onde possa alojar a esposa boçal sempre preocupada com a mobília lustrosa do santo lar e os filhos que só querem saber de curtir a vida às custas da grana do pai.

Assim, a filha caçula, meio debiloide e deslumbrada, só está interessada em saber se o papai Babbitt vai comprar um conversível Babbittmaneiro para curtir o weekend em família, enquanto que o primogênito não quer saber de fazer o gosto do coroa e terminar a faculdade de direito.

“Eu já não aguento aquilo. Talvez seja muito bom para certos sujeitos, (…) mas o que eu quero agora é entrar na mecânica. Acho que serei um bom inventor”, argumenta o filho, aparentemente, bem resolvido, para desgosto do pai.

O tema central, aparentemente, se mostrar ser, mesmo que em forma de crítica, o capitalismo estampado no melhor estilo american way of life, mas nas estrelinhas, o autor revela as tensões travadas entre a liberdade de expressão e o surgimento de novas ideologias humanistas como o comunismo.

Na trama, a novidade política é revelada na forma de manifestações grevistas que assustam os empresários esnobes da provinciana Zenith, mas também no conflito pessoal de Babbitt, uma espécie de ater ego do escritor que não sabe se revela sua simpatia pela doutrina insurgente ou se cala diante das pressões locais com medo de retaliações morais e financeiras.

“Um vago terror o perseguia agora constantemente. (…) Todos os dias imaginava desconsiderações”, narra o autor, revelando a onda de desprezo sofrido pelo personagem.

Houve um tempo em que as escolhas partidárias poderiam, por puro preconceito, macular a imagem de um homem de bem, mesmo que este homem de bem em questão seja um farsante ululante como George Babbitt. Não muito diferente de hoje, onde homens ditos sérios e corretos se escondem atrás de ideologias políticas desgastadas, para se beneficiar nas costas da esperança alheia.

Eis a moral desconcertante dessa obra atemporal que recomendo a vocês.

* Este texto foi escrito ao som de: American IV: The Man Comes Around (Johnny Cash – 2002)

Cash III

As duas facetas de uma tragédia

Mais de 240 pessoas morreram num incêndio irresponsável

Mais de 230 pessoas morreram em mais um incêndio irresponsável

Os corpos iam chegando aos poucos no Instituto Médico Legal (IML). Alguns, chamuscados de fumaças e fuligens, mal davam para ser reconhecidos. De repente, na penumbra silenciosa da sala fria, toca um telefone celular. Os agentes do instituto se entreolham espantados, até porque percebem que a chamada não vem dos aparelhos que estão de posse de cada um. O espanto é maior ainda ao perceber que o barulho cada vez mais incessante sai do bolso de um dos mortos. Tomado de medo e pavor, um dos funcionários atende, receoso, o celular fantasma daquela sala fria e escura cheia de cadáveres. Do outro lado da linha, um pai desesperado busca informações, notícias sobre a filha que não existe mais.

Assim como você, fui acordado ontem com a notícia trágica que abalou o país, ou seja, o incêndio que matou mais de 230 pessoas (até o momento que escrevo este post), numa boate da cidade gaúcha de Santa Maria, a Kiss. Uma tragédia que deixou o país inteiro em estado de choque, até porque, grande parte dos mortos, tinha menos de 25 anos de idade. Ou seja, com uma vida inteira pela frente ceifada.

Uma tragédia que pegou todo mundo de surpresa, inclusive a presidente Dilma que, de viagem oficial a Santiago do Chile, cancelou sua passagem pela região em solidariedade às famílias das vítimas. “Quem precisa de mim agora é o povo brasileiro e neste momento de tristeza nós estamos juntos”, disse ela, sem conseguir conter as lágrimas.

Ao ouvir essa triste notícia na manhã de ontem, me lembrei, imediatamente, de outra tragédia do gênero que marcou o Brasão_de_Santa_Maria_(RS).svgpovo brasileiro, a do incêndio criminoso do Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, em 1961, onde mais de 500 pessoas morreram num inferno de fogo que durou menos de 20 minutos. Tragédia essa bem contada pelo jornalista Mauro Ventura, no livro-reportagem, O espetáculo mais triste da Terra.

O incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, durou menos de cinco minutos e, até o momento em que escrevo este texto, mais de 230 pessoas morreram. “Só pensei que em minha mãe e nos meus filhos que estão em Belém”, disse uma das sobreviventes, após o grande susto.

Assim como as centelhas e fagulhas de fogos que se espalharam pela espuma tóxica da boate, logo a notícia da tragédia gaúcha correu o planeta, com matérias em vários veículos do mundo inteiro. “Força Brasil, estamos rezando… Nós amamos vocês…”, dizia uma mensagem estrangeira solitária vinculada, não sei se no twitter ou no facebook.

E, enquanto eu ouvia as notícias pela tevê ou internet, ficava incomodado com as várias facetas da tragédia. Uma delas era a do sadismo da imprensa que, com o afã de dar o furo sensacional, a chamada do século, o post mais rápido na mídia, cometiam erros hediondos, atreladas a uma série de clichês, como o número exato de mortos que subia e descia vertiginosamente, a cada chamada ao vivo. Era como se o sofrimento e a dor das pessoas fosse uma espécie de bolsa de valores informativa.

Uma repórter especialista em esporte da Globo chegou a dizer que Santa Maria era a cidade natal da presidente Dilma. Depois corrigiu dizendo que Santa Maria era uma cidade do estado natal da presidente Dilma. Após levar um pito fenomenal no “ponto” que fica ao seu ouvido, presumo, a linda repórter corrigiu, meio que sem graça, que finalmente a presidente Dilma “fez toda a carreira política no Rio Grande do Sul, mas ela é mineira”.

Enfim, corpos espalhados num velório coletivo no complexo do ginásio de esporte da cidade, imagens de um caminhão frigorífico com os cadáveres das vítimas, a cena tosca e desesperadora das pessoas quebrando uma parede à picareta, na marretada, a notícia de que não havia mais coroa de flores para homenagear os mostos de um incêndio irresponsável, ou seja, uma cidade inteira consternada, abalada, um domingo triste, sem esperança, cheio de lágrimas e sofrimento, uma realidade dolorosa que espero não ouvir ou ver tão cedo.

Notícia trágica é ruim de todo jeito, mesmo quando dada de forma irresponsável.

Agora que a tragédia aconteceu, todo mundo se sente à vontade para condenar, criticar, avaliar o caos. Por que as pessoas nunca fazem estardalhaços para evitar o mal pior aconteça. Talvez porque ninguém tenha bola de cristal. O ser humano é imprevisível…

* Este texto foi escrito ao som de: Longe demais das capitais (Engenheiros do Hawaii – 1986)

Longe demais das capitais

Jukebox Sentimental – As tears go by

Mick Jagger e a namorada que imortalizou   As tears go by

Mick Jagger e a namorada que imortalizou a canção As tears go by

A imagem clássica ainda perdura fresca em minha memória. Era um final de tarde como a de hoje, ou seja, cinza e melancólica, quando escutei pela primeira vez os acordes arrebatadores de uma balada triste cantada por voz melíflua que eu não conseguia identificar de quem. A luz translúcida e tímida do crepúsculo rasgando, liricamente, a sala escura iluminada apenas pelas luzes verde e vermelha do dial da rádio em que a canção estava sintonizada e os versos, “It is the evening of the day”, surgia no ambiente numa mística áurea de coincidência.

Qual não foi a minha surpresa quando no final da transmissão, o DJ da rádio Executiva -, que nem sei se existe mais -, revelou que se tratava de mais um sucesso da banda inglesa Rolling Stones. Sim, porque para mim, Mick Jagger e companhia só cantavam covers de blues ou rocks cafajestes sobre temas como a última chance, orgias satânicas e falta de satisfação.

Mas não, os meninos “feios, sujos e malvados” de Londres eram capazes de uma boa dose se sentimentalismo, mesmo que para isso tenham sido forçados. Sim, porque reza a lenda que As tears go by nasceu da pressão, depois que o empresário da banda Andrew Loog Oldham trancou Mick Jagger e Keith Richards em sua cozinha, com a promessa de só soltá-los, depois que a dupla lhe entregasse um sucesso que não falasse de sexo.

Foi assim que teria surgido uma das canções mais famosas dos Stones, uma das que eu mais gosto, originalmente chamada de As time go by, numa referência, imagina, à clássica canção do filme Casablanca (1942). Bom, outro mito que circunda a faixa é de que ela teria sido escrita por Jagger e Richards numa resposta à épica, Yesterday, dos Beatles. Não sei se isso é verdade, a única certeza que tenho é Casablancade que a música faria sucesso primeiro na voz da gatinha, Marianne Faithfull – que Mick Jagger andou dando uns beliscões gostosos -, para depois ganhar um arranjo vitoriano de cordas imponentes dos Stones.

Adoro o tom de ternura da letra bem simples e toda vez que levo minhas sobrinhas para passear no parque de diversões, no clube, na praia, lembro-me de As tears go by e dos versos: “Este é o entardecer de cada dia/Eu sento e vejo as crianças brincarem/Eu posso ver os rostos sorridentes (…)/Enquanto as lágrimas caem”.

Pode prestar atenção, toda banda de rock de verdade, com um bom guitarrista à tira colo, sempre tem um cartel de baladas na gaveta. Com o Led Zeppelin é assim, com os meninos do The Who e do Kinks idem, e com os Stones não poderia ser diferente, alojando debaixo das asas da banda hits sentimentais do balacobaco como, Lady Jane, Angie, Loving cup e tantos outros.

As tears go by, que toco legal no violão, é especial por vários motivos, sobretudo pela forma enigmática, quase mágica que a escutei pela primeira vez, por conta da voz de anjo de Mick Jagger, quase irreconhecível, por causa da letra singela e simples que fala de crianças e das coisas banais da vida, além do arranjo soberbo que nos remete à Idade Média, dos tempos dos menestréis.

“Minha riqueza não pode comprar tudo/(…) Tudo o que eu escuto é o som da chuva caindo no chão/Eu sento e olho enquanto as lágrimas caem”, diz outro verso que adoro.

Não tem jeito, as grandes coisas surgem da simplicidade.

* Este texto foi escrito ao som de: December’s Children (And Everybody’s) (The Rolling Stones – 1965)

As tears go by 2

A união de Elton John e Renate Blauel

Antes de sair do armário o astro pop tentou provar do mel

Antes de sair do armário o astro pop tentou provar do mel

Não sei vocês, mas eu estou contando os dias para o show do Elton John em Brasília agora em março. Eu sei, eu sei, apesar da cara, não sou trouxa, o sujeito não está lá essas coisas, nem de longe é o grande astro que foi no auge da carreira, mas o Elton John é o Elton John, certo? O cara já vendeu mais de 250 milhões de discos e foi a trilha sonora de milhares de pessoas ao longo desses anos todos e se ele cantar apenas Rocket man, sua música e do Bernie Taupin que mais gosto, já valeu o preço do ingresso…

Mas a enrolação acima é só para contar que terminei a biografia do artista que estava lendo, aquela escrita pelo jornalista e crítico musical David Buckley, lembram? Andei escrevendo alguma coisa sobre ela aqui nesse espaço. Pois bem, terminei de ler sim e aqui vai mais um comentário sobre a vida de Elton John.

Antes de tudo, quero deixar registrado que gosto muito de biografias, mas nem todas são boas, de modo que o gênero tende a ser um grande jogo de erros e acertos. No caso deste trabalho, não foi nenhuma coisa ou outra, mas me deleitei com muitas passagens e revelações.

Não gostei por completo da biografia porque não é um registro oficial do artista, enfim, como aquele catatau formidável do Keith Richards ou do Neil Young, escrito por ambos, mas uma espécie de coletânea com falas, “aspas” e entrevistas do artista garimpadas pelo autor mundo afora. Não que isso tire a credibilidade do biógrafo, mas sei lá, não é a mesma coisa.

Contudo, para quem só conhecia o cantor e compositor inglês pelos seus álbuns, diga-se de passagens os primeiros trabalhos, os mais Elton John biografiaformidáveis, impactantes e geniais, o livro acabou sendo uma importante fonte de pesquisa, uma lanterna de Diógenes sobre a vida de um dos maiores ícones da música pop.

Por exemplo, num imaginei que, por trás daquele talento monstro e sensibilidade artística fora do sério, escondesse um artista frágil e inseguro, de uma timidez desconcertante, sobretudo, porque houve um tempo em que 2% de todos os discos vendidos no mundo eram os dele. Mas a verdade é que ninguém é o que aparenta ser, nem mesmo o Elton John com toda aquela persona meio “pavônica”.

A insegurança como artista no final dos anos 70, o desconforto com a aparência feia diante da proeminente careca e gordura, além de certo incômodo também com relação ao homossexualismo o levariam mergulhar de cabeça nas drogas e no álcool. Sim, tal qual muito de sua estirpe, Elton John foi buscar na bebida e na cocaína seus melhores amigos e confidentes.

A mistura explosiva de depressão e baixa estima fizeram com que uma estranha união, pelo menos para os padrões de Sir Elton John, se realizasse em 1984, na Igreja de St. Mark, em Darling Point, Sydney, em 1984, quando ele se casaria com a engenheira de som, Renate Blauel.

“Casei-me porque não queria enfrentar o verdadeiro problema da minha vida, o fato de ser dependente de drogas”, ele admitiria anos mais tarde.

O artista só encontraria a plena felicidade quando saísse do armário de vez e assumisse seu grande amor, o cineasta canadense, David Furnish, com quem vive até hoje. A felicidade, já ensinava o mestre Frank Capra, não se compra, e pode estar onde menos esperamos, sendo uma surpresa até mesmo para um grande astro pop como Elton John.

Terminei de ler a biografia sobre o artista, mas não os posts sobre o livro. Aguardem…

* Este texto foi escrito ao som de: Captain Fantastic and Brown Dirty Cowboy (Elton John – 1976)

Captain Fantastic

A cientologia segundo Paul T. Anderson

Joaquim Phoenix e Seymour Hoffman, atuações de peso num roteiro estranho

Phoenix e Hoffman, atuações de peso num roteiro estranho

Para ser sincero, eu ia escrever sobre o novo do Spielberg, Lincoln, mas como não consegui ver a cabine organizada para imprensa, na segunda, vou de Paul Thomas Anderson e o seu estranho, O mestre, que entra em cartaz hoje em várias salas de cinema país. E para começo de conversa a fita, com sua narrativa obscura – não sei se isso foi uma opção do diretor ou faltou algo mesmo -, fala, a partir de referências, da criação da Cientologia, a polêmica doutrina que tem como seguidores grandes astros da indústria do entretenimento como Tom Cruise e John Travolta, além de Priscilla Presley e a filha Lisa Marie, ambas, respectivamente, ex-mulher e filha do rei do rock, Elvis Presley.

Logo, o personagem do formidável ator Philip Seymour Hoffman, o mestre em questão, é baseado na figura de L. Ron Hubbard (1911 – 1986), fundador da seita religiosa que, desde os anos 50, vem conquistando a atenção de celebridades e volumosas somas de dinheiro.

Na trama ele é um celebrado e carismático intelectual que viaja o mundo para divulgar as teorias de uma nova forma de ver a criação da humanidade. A base de tudo estaria no seu livro A causa, obra polêmica que prega, entre outras coisas, a ancestralidade do espírito e a cura da alma a partir do controle de si mesmo. E quando se fala em vidas passadas é algo em torno de trilhões de ano.

Um dia, sem que ele e sua família percebam, vê infiltrado entre seus convidados e séquitos, a figura do desnorteado e alcoólatra  Freddie Quell (Joaquim Phoenix), um jovem que, atormentado pelos horrores da guerra, não consegue conter seus ataques de violência e impulsos sexuais. Ele é alguém visivelmente atormentado que, por onde passa causa problemas com sua misteriosa bebida, criada, clandestinamente, e por isso encontra na figura de Lancaster Dodd (Seymour), uma espécie de pai, mentor, enfim, mestre.The Master 2

Juntos, eles irão descobrir o limite entre a confiança e a manipulação, baseada a partir de temas como loucura, espiritismo, fé e charlatanismo. “A preocupação é que um dia um pobre coitado doente de leucemia o procure com a ideia de cura e”, questiona um dos vários céticos que perseguiriam o irrefutável Dodd.

Diretor de filmes elogiosos, dos quais o que mais gosto, o sombrio, Sangue negro (There will be blood – 2007 ), Paul Thomas Anderson é um homem de cinema talentoso, dono de um estilo independente em que sobressai seus roteiros inquietantes, com cara de filme de arte. Fora isso, o cineasta tem a habilidade de reunir em seus projetos um elenco formidável como esse de O mestre que, além de Seymour e Phoenix, conta ainda com a bela Amy Adams, na pele de Peggy, a esposa forte e autoritária de Dodd.

Mas aqui em O mestre Anderson se chafurda tanto em sua narrativa soturna que fica difícil de entender o que ele que falar ou mostrar claramente. Embora pontuado por uma impecável direção de arte charmosa que rescende nostalgia, atuações arrebatadoras que renderam duas indicações ao Oscar – Seymour e Phoenix – o projeto carece de uma história mais amarrada já que saímos da sala de cinema com a impressão de que vimos algo que está faltando alguma coisa.

Mas isso não quer dizer que o filme seja uma droga, pelo contrário, é melhor do que muita porcaria que está por aí embalado como projeto sério. Embora pertinente ao trazer à baila tema polêmico, O mestre só é um trabalho difícil que tem entre outros atrativos o fato de ter trazido de volta para as telonas o ator Joaquim Phoenix, que um dia cismou que é um cantor de rap, hip hop, seja lá o que for.

Como vê, o ator destrambelhado encarnou bem a loucura da vida real nas telas.

* Este texto foi escrito ao som de: The masterplan (Oasis – 1998)

Oasis The Masterplan

Os segredos insanos de Anne Sexton

Uma vida entre a loucura e a arte confessional

Uma vida entre a loucura e a arte confessional

Ei, você sabe quem foi Anne Sexton? Não se sinta constrangido porque eu também não sabia quem era a figura até assistir, outro dia, no CCBB, a peça Sexton, que fica em cartaz no espaço até o dia 03 de fevereiro. E sendo sincero, achava que Sexton fosse algum trocadilho com a palavra sexo ou no mínimo um nome masculino, de modo que faço a pergunta cretina e pertinente: Quem afinal foi Anne Sexton?

Bom, para começo de conversa, a guria em questão foi uma das poetisas mais relevantes de seu tempo, vencedora do Prêmio Pulitzer em 1967 e dona de um estilo bastante pessoal e confessional, no qual escancarava, sem o menor constrangimento, seus segredos íntimos mais insanos.

Na vanguarda da literatura, recheou seus textos confidenciais com temas que rondavam uma rotina marcada pela angústia, depressão, solidão, desespero e suicídio, mas também com questões pouco usuais no mundo da poesia, mas inerente ao seu universo como menstruação, aborto, masturbação feminina e adultério.

“O final de um caso é sempre a morte/Ela é a minha oficina/Olho escorregadio, fora da tribo de mim mesma o meu fôlego encontra-te ausente/Escandalizo os estão presentes/Estou saciada/De noite, só, caso-me com a cama”, escreveu em Balada da masturbadora solitária.

E, até por ter sido uma das melhores amigas de Sylvia Plath (1932 – 1963), Sexton alimentava um incrível senso de autodestruição, talvez potencializado por severos transtornos mentais, um dos detalhes que, assim como a grande parceira de pena, também a levaria ao suicídio em 1974, aos 46 anos.

Os conflitos familiares, a perda da guarda da filha para a sogra tirana, os encontros e desencontros amorosos com milhares de amantes Sextone o sentimento de culpa com relação ao marido, os desafios da arte que abraçou como forma de escudo diante dos problemas, tudo
isso é abordado no texto sincero da dupla Helena Machado e Julianna Gandolfe.

Mas o grande barato da peça é a poderosa atuação de Jessica Cardoso, como uma Anne Sexton negra. Confiante em cena, não seria exagero assegurar que a jovem atriz é alma da peça, desnudando com força e competência todos os sentimentos de frustração, medo e isolamento da poetiza.

Gostei da direção de arte estilosa que capta com honestidade a aura retro dos anos 60, reforçada por trilha sonora que vai de Elvis Presley a Beatles, passando pela sonoridade suja dos meninos do Velvet Underground.

Mas, como vocês já sabem, fui assistir à peça de olhos vendados, sem nenhuma informação prévia e por isso mesmo fui pego de surpresa com a cena de sexo quase explícito no clímax da dramaturgia. Mas ainda com a galera da parte de cima da arquibancada que ficaram de pé, empolgadíssimos com o esfrega e esfrega dos personagens, com direito a pescoço levantado na ponta dos pés e uma pergunta me perturbou na saída da encenação: afinal, os dois atores transaram ou não transaram em cena?

Enfim, como eu não quis ficar de pé tal qual a turba ignara da parte mais alta do teatro, sobretudo para não ter a desagradável surpresa de ver uma trolha dura me mirando, não posso responder essa questão.

Mas a primeira questão acima sim, e digo com satisfação que fiquei encantado, deveras, com a trajetória árdua, esquizofrênica, perturbadora e ousada de Anne Sexton. Poeta da própria dor que foi embora cedo talvez sem saber se deus existisse e que, como declarou Nelson Rodrigues, ama os suicidas.

* Este texto foi escrito ao som de: Elvis at Sun (Elvis Presley – 1955)

Elvis at Sun

Quando a morte é uma prova de amor

"Amor" é daqueles filmes que nos deixa achatado na poltrona

“Amor” é daqueles filmes que nos deixa achatado na poltrona

O cinema de Michael Haneke é duro, denso e sem concessões. É como uma coroa de espinho em nossa consciência e alma. Não há aquele que não saia machucado, com o ego esmagado da sessão de um de seus filmes. Formado em psicologia, filosofia e teatro, o diretor de filmes como Caché (2005) e A fita branca (Das weibe band – 2009) leva todo o seu aprendizado da vida e do que ela tem de pior e intricada para as telas, não seria diferente com o pungente, Amor (Amour – 2012), sua obra mais recente vencedora da Palma de Ouro em Cannes.

Indicado em cinco categorias no Oscar deste ano – inclusive melhor diretor e filme – esse drama intimista e incômodo que está em cartaz na cidade vem levando milhares de pessoas às lágrimas com a história do casal Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), octogenários no final de suas jornadas, vilipendiados pela tragédia e humilhação da velhice.

Bem, ele você sabe quem é. Foi um dos protagonistas do filme que lançou Brigitte Bardot no cinema, em 1956, o provocante, …E Deus criou a mulher. Ela também não passa despercebida, embora seja mais difícil, é o lado feminino no drama, Hiroshima, mon amour, obra-prima de mestre Alain Resnais, rodado em 1959.

Em cena eles vivem uma triste realidade que atinge todos sem exceções, pobre, rico, azul, preto ou branco, enfim, qualquer ser humano que respira e acha que o tempo é só um tic tac no relógio. Assim, após sofrer um AVC, a pragmática Anne fica com parte do corpo paralisada e quem irá cuidar e se entregar de corpo e alma para que sua vida, agora sem valor, seja um pouco melhor, é o amável Georges, o parceiro de uma vida inteira. Ele lhe prometeu que não deixará que ela volte para o hospital e, dia e noite, noite e dia, lá está ele na cabeceira da cama da amada como um anjo da morte velando sua vida.Amor 2

Aos poucos, após dois derrames seguidos, a deterioração física de Anne passa ser cada vez pior e o que antes era um corpo vivo com voz firme, olhar tenaz e cheio de ternura, agora não passa de um pedaço de carne podre em cima da cama mugindo seus últimos dias:

– Dói, dói, lamuria ela, agônica, prisioneira da doença, da dor, da tortura de uma vida privada pelo tempo implacável.

Cru até o talo, até o osso, de uma coragem visceral e perturbadora, Amor é daqueles tipos de filme que nos deixa achatado na poltrona e, quando conseguimos sair de lá, do fundo da nossa caverna interior é só para chorar, chorar, chorar lágrimas de esguicho. “O que você diria se ninguém fosse ao seu enterro?”, pergunta ela antes de mergulhar em profundo estado de decadência. “Nada”, responde ele, com a descrença dos velhos.

Bom, assisti ao filme numa sessão lotada, com gente chorando, velhos cheirando a naftalina, todos em estado de desconforto, oprimidos pelo o que viu na tela. Definitivamente Amor não é uma fita para a terceira idade, embora os protagonistas estejam nessa faixa-etária. Com certeza, muitas pessoas que ali estavam, assim como eu e minha família, viveram o drama de cuidar de um ente querido em seus últimos dias de vida e algumas cenas são chocantes, deprimentes, desconcertantes e sufocantes de se ver, mas o diretor Michael Haneke faz isso sem derramar uma gota de sangue ou recorrer à violência gratuita. Na poesia do caos sobre a condição humana que orquestra de sua cadeira de cineasta niilista, ele arranca lágrimas e comiseração alheia, mas a grande vítima somos nós mesmos, vencidos pelo senhor tempo, tempo, tempo, como já dizia Caetano Veloso.

Em suma, a velhice é uma desgraça e, quando peguei o carro para ir embora, me lembrei daquela frase do Peter Townshend em My generation. “Espero morrer antes de ficar velho”.

* Este texto foi escrito ao som de: Sinfonia nº 8 (Franz Schubert – 1822)

Schubert

Neymar não é Garrincha, nem Pelé

Só existiu um anjo de pernas tornas, já o "penacho" de Neymar tem vários...

Só existiu um anjo de pernas tornas, já “Neymar penacho”…

Outro dia quase engasguei com o jantar quando ouvi o Ruy Castro dizer no Jornal Nacional que o Neymar era o novo Garrincha do povo ou tinha tudo para ser o novo Garrincha do povo. Que asneira era aquela, porra!? E logo o Ruy Castro!!!  Será que ele está gagá, mas já? E tudo por conta de uma matéria sobre os 30 anos da morte do jogador. Brincadeira, maneira mais ridícula de homenagear o grande Mané, o gênio do futebol, a única e verdadeira alegria do povo e algum cretino ululante pode descer de sua ignorância ignara e reclamar dando patadas rutilantes no asfalto:

– Mas o Pelé, gente! E o Pelé!

Ora bolas, o Pelé era a aristocracia em campo, a realeza de chuteiras com direito a manto crivado de pedras preciosas e coroa dourada. Agora o Mané, não, o nosso Mané Garrincha era o povo em carne e osso, o povo em dribles e malemolência futebolística, enfim, o povo em sua autêntica expressão popular.

Outro espírito de porco pode descer de sua caverna de estultice e perguntar de si para si:

– Ei, mas vem cá… Quando o Garrincha jogava bola você nem era nascido!

Mas e daí, meu caro, e daí, só porque eu leio a Bíblia não quer dizer que eu seja crente, cristão ou seja lá o que for. Quando os Beatles também surgiram eu nem sonhava em aparecer por aqui e, no entanto, não existe banda que mais me emocionam encanta, me deixa feliz em todo o mundo.

E tem outra coisa, Mané Garrincha tinha uma coisa que o cretino do Neymar ainda não tem que provavelmente nunca vai ter que é: Estrela solitária 2História. Assim, mesmo que eu não tenha visto o grande gênio de pernas tortas jogar, eis que sua história perdura, fazendo com que sua saga entre os “Joões” da vida seja eterna.

Já Neymar, não, Neymar é um mané que teve sorte na vida e acha que, só porque joga uma bolinha aqui e acolá, se dá ao direito de ser comparado com o grande Garrincha. Nem o argentino Messi que é infinitamente maior e melhor do que o Neymar se acha o tal, porque Neymar “cabelo de penacho” tem que achar que é deus e logo deus que não existe!

E tem mais, o nosso Mané era dono de um coração gigantesco, dono de uma generosidade sem fim, avesso a ostentações e exibições. Mané Garrincha era autêntico na sua simplicidade de ser. Neymar é mascarado e exibido, com aquela pose de estelinha “new wave” do futebol brasileiro. E outra coisa, não tem personalidade nenhum, amarelando no primeiro rojão quando todos nós, torcedores sofredores precisam. Quem não se lembra da cara dele de barata tonta perdida na eliminação da Copa América de 2011?

Mané Garrincha não, com sua força interior despojada, carregou uma Copa do Mundo inteira nas costas, a de 62, no Chile, quando um Pelé machucado quase jogou por ralo abaixo nossa esperança, mas eis que surge do nada um anjo de pernas tortas para nos salvar. O resultado? Ora, o bicampeonato mundial.

Bom, por tudo isso e muito mais que as comparações entre os dois jogadores devem ser limadas da face da Terra até porque Mané Garrincha só tem um e Neymar são vários como uma cópia malfeita de si própria, um produto criado por uma imprensa esportiva que, tal qual aquele personagem do alemão Bertolt Brecht (1898 – 1956), é sedenta de heróis, factoides e debiloides. Como já dizia o filósofo Lulu Santos, “assim caminha a humanidade”.

* Este texto foi escrito ao som de: Assim caminha a humanidade (Lulu Santos – 2003)

Lulu Santos