Tal qual o Papa, João de Deus é pop!

João de Deus é entrevistado por Oprah Winfrey em Abadiânia, 

João de Deus caiu nas graças dos gringos, mas isso não tem nada a ver com a visita que a apresentadora norte-americana, Oprah Winfrey, fez, esta semana, ao médium goiano. Desde que fundou a casa Dom Inácio de Loyola, nos idos dos anos 70, na pequena cidade de Abadiânia (localizada entre Brasília e Goiânia) para amparar as pessoas em busca de mais espiritualidade e curas para suas chagas da alma e do corpo, sua fama correu o mundo. Hoje, 80% da clientela do espaço é formada por estrangeiro e já passaram por lá celebridades como a atriz Shirley MacLaine, Xuxa e até o presidente Lula.

Antes de tudo quero deixar registrado que não acredito nessas coisas, minha fé é de uma ignorância ululante, minha iconoclastia inabalável, mas reconheço que João de Deus está longe de ser um charlatão. Para mim ele é um ser iluminado, seja lá o que isso significa dentro da minha concepção simplista e pragmática de ver as coisas. Qualquer dia desses, eu vou lá para ver se ele cura meu coração doente de paixão por uma garota que não vale à pena.

Já vi algumas imagens e fotografias de suas “cirurgias espirituais” com utensílios pontiagudos como tesouras, canivetes, facas, bisturis e pinças enfiadas pelo nariz, orelhas, dos pacientes e, confesso que fiquei impressionado. Cortes sem anestesias e sem profusão de sangue. Enfim, citando Nelson Rodrigues, como não explico o inexplicável, não entro nesses detalhes.

Mas vendo o burburinho provinciano da imprensa brasileira em torno da passagem de Oprah Winfrey pelo país, registrei coisas que me incomodaram e que vão além dos poderes espirituais de João de Deus. Resvala na hipocrisia que cercam as pessoas quando são atingidas nos pontos mais vulneráveis.

Na reportagem exibida pela televisão, só vi madames e dondocas que, despidas de suas fragilidades físicas e da alma, só andam para cima e para baixo em limusines com cascata e jacaré. Ora, bolas, essas cretinas têm os benefícios de luxuosos planos de saúde que todo o dinheiro que elas têm pode comprar, de modo que deveriam tomar vergonha na cara e deixar que as pessoas carentes, aquelas que realmente precisam, sejam agraciadas pelo “dom” de João de Deus. Elas que vão para as grandes metrópoles brasileiras, para Paris, Miami ou o quinto dos infernos.

Tudo bem, as portas do hospital espiritual de João de Deus estão abertas a todas as religiões, passam por lá gente de todos os tipos. E pelota, se entra um pobre matusquela, porque não pode entrar um rico afamado e hipócrita? Depois que a agulha e o camelo resolvam esse impasse lá em cima.

O que me incomoda, sobretudo, é a banalização da notícia ou o pior, a espetacularização da “não notícia”. E o que é mais hediondo ainda, o interesse que se esconde por trás das notícias. Todos os dias morrem miseráveis nos hospitais da rede pública por falta de atendimento, negligencia e não sei mais o quê. Pouco é noticiado e quando vira notícia chega a nós de forma generalizada. Outro dia morreu o filho de um alto funcionário do governo num hospital particular, em Brasília, e estão querendo botar o FBI, a Interpol e a Scotland Yard para resolver o imbróglio, vejam vocês como são as coisas.

Milhares de pessoas passam diariamente pela casa Dom Inácio Loyola, gente comum, simples como eu e você e ninguém fica sabendo, não registra nada. Melhor que seja assim. De modo que, não sei porque esse carnaval idiota em torno da Oprah. A única notícia aí é que ela tem muito dinheiro. E só. Fico pensando de que forma a ela vai trabalhar essa notícia lá na América.

O Papa é pop. João de Deus também!

* Este texto foi escrito ao som de: O Papo é pop (Engenheiros do Hawaii – 1990)

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A dor da perda dentro de nós mesmo

Max von Sydow e o novato Thomas Horn, figuras estranhas em NY...

Eu nunca deveria a ter deixado saber que eu gostava dela. Nunca. Este foi o meu erro e não me perdoo por isso. Daí ela tripudiou em cima e deu no que deu. O seu sadismo foi o meu 11 de Setembro. O seu desprezo ainda é o meu 11 de Setembro. Um 11 de Setembro cinza como o que assombra a vida dos americanos há 11 anos. E não era para ser coincidência, os números onzes. Um 11 de setembro que também atormenta a alma ingênua do pequeno Oskar Schell, que perdeu o pai na tragédia que abalou o mundo, por sinal, uma brilhante estreia do ótimo Thomas Horn no drama Tão forte e tão perto.

Um dos indicados ao Oscar de melhor filme deste ano, o filme, dirigido por Stephen Daldry (As horas e O leitor), fala da dor da perda dentro de nós mesmo diante do imprevisível, do desconhecido ou o que é pior, do conhecido que não queremos conhecer ou que fingimos não conhecer. “A vida parece fazer sentido, mas não faz porque alguém jogou um avião contra um prédio”, grita ele com a mãe, num surto de maturidade infantil. “Você não pode deixar que um estranho te mate”, pondera.

Os dois não se entendem mais, agora que o homem da vida de ambos foi embora. Ele era uma das 50 pessoas presas no 106º andar de uma das torres do World Trade Center. “Eu queria que fosse você”, vomita o filho rebelde na cara da mãe. “Eu também”, admite ela. Na pele de pessoas de verdade, de pessoas comuns num dia de cão, em dias de tormentas, num presente sombrio e futuro triste, os três, Tom Hanks, Sandra Bullock e o pequeno Thomas Horn fazem o espectador refletir sobre o quanto somos pequenos diante da dor e da perda.

As boas lembranças se tornam mais forte e presente para o pequeno órfão quando ele acha uma misteriosa chave dentro de um jarro azul num envelope com a inscrição Black. Fantasia que a palavra faz referência a um sobrenome e, tendo em vista descobrir algo relacionado ao pai, ao seu grande herói, parte num périplo doentio e confuso pelos endereços mais estranhos da barulhenta Nova York. Um lugar, na cabeça do ansioso e arisco Oskar, que não passa de um grande arranha-céu para mortos e que um dia não terá mais lugar para tanta gente.

“Não vale a pena procurar por algo fácil de encontrar”, deixou como legado o pai, um joalheiro que aspirava uma carreira melhor para si.

Baseado no romance homônimo de Jonathan Safran Foer, Tão forte e tão perto tem um desfecho bobo, pouco improvável, irritante até, mas deixa o público com o coração cortado de tristeza. Os mais emotivos se afogarão em lágrimas, mesmo que o pequeno Oskar Schell, às vezes seja um chato na sua condição de filho que ama, em demasia, um pai. Sorte dele por ter alguém para amar. Ainda mais um pai.

Para mim, a melhor parte do filme é quando o veterano ator sueco, Max von Sydow (O sétimo selo), entra em cena esbanjando densidade sem dizer uma palavra. Figura enigmática, com um passado escuro e frio como seu país de origem, ele está de luto diante da vida e condenou a si próprio viver em silêncio. Sua ferramenta de comunicação é um mero bloco e uma inseparável caneta, além das concisas palavras SIM e NÃO, gravadas nas palmas das mãos.

O sofrimento e a dor do jovem Oskar Schell na trama é ilustrativo, nos mostra como é tão fácil conseguir machucar as pessoas profundamente. Seja por causa de um amor não correspondido e do desprezo que este amor não correspondido acompanha, seja por meio de atos de covardia de terroristas desalmados.

O mundo é realmente um abismo escruro e cruel.

* Este texto foi escrito ao som de: Beautiful freak (Eels – 1996)

O adeus ao formidável Millôr Fernandes

Assim como Chico Anysio, o cerebral, Millôr Fernandes, já está fazendo falta...

Certa vez um conhecido de Millôr Fernandes, num rasgo de empolgação, o homenageou dando ao filho o seu nome. Apesar de lisonjeado, ele ficou desconfiado. Pouco tempo depois, o mesmo sujeito deu ao segundo filho o nome de Marcel, reverenciando o escritor francês, Marcel Proust, célebre autor de, Em busca do tempo perdido. O grande jornalista e eterno humorista não perdeu a piada. “Toma cuidado, a bicha é o Marcel!”, brincou.

Este era o estilo inconfundível de um dos maiores artistas e intelectuais que este país já teve. Inteligente, criativo, irônico, iconoclasta e, sobretudo, independente, Millôr Fernandes fazia troça até do próprio nome, Milton, que, segundo ele, o camarada do cartório, de forma enfeitada e rebuscada, registrou Millôr. “Todos os homens nascem original e morrem plágio”, disse certa vez, como bom frasista que era.

Multimídia bem antes da palavra existir, foi, não necessariamente nesta ordem, jornalista, escritor, cartunista, artista plástico, teatrólogo, tradutor, poeta, atleta e, nas palavras de Ruy Castro – um grande admirador seu -, “sem prejuízos de outras funções, pensador”. Brasileiro, genuinamente, carioca, nos deixou aos 88 anos com a sensação de que não terminou tudo o que veio fazer por aqui. “A vida é um saque que se faz no espaço entre o tic e o tac”, escreveu. “Nunca fiz nada com a intenção de ser herói”, garantiu.

Contudo, Millôr se notabilizaria fazendo as pessoas rirem. Mas se furtando de um tipo de humor que anda em desuso nos dias de hoje, aquele feito de forma inteligente e séria. Os traços inconfundíveis das inúmeras charges que criou seriam sua marca registrada. “O homem é o único animal que ri. Lê rindo que ele mostra o animal que é”, provou.

Ok, bem antes de o revolucionário O Pasquim cair como uma boba na cabeça dos conservadores e idiotas de plantão, nos anos 60, ele já agitava as redações cariocas com a revista Pif-Paf, espécie de embrião inconsciente do tablóide por onde passara a nata da intelligentsia brasileira. Ele um deles, claro. E, para aqueles que acham que a única criação coletiva da qual fez parte foi o ousado e infernal jornal, basta lembrar que Millôr também ajudou a inventar o frescobol, o esporte carioca por excelência. Acha pouco?!

Apesar das inúmeras atividades, Millôr era uma personalidade discreta. Raramente dava entrevistas e sua vida pessoal era guardada a sete chaves. “Tenho um horror sincero à popularidade. Gosto da notoriedade”, explicava. Não é de se estranhar que, por causa disso, talvez, as novas gerações de jornalistas hoje mal sabe quem foi Millôr Fernandes, muito menos a dimensão do seu trabalho e de sua obra que é, digamos assim, quase infinita.

Mas para aqueles que têm dúvida, basta dar uma olhada nas sessões de literatura estrangeira das livrarias e folhear algumas edições de escritores de língua inglesa ou russa. Eu mesmo fucei minha estante mágica e lá encontrei O jardim das cerejeiras e Tio Vânia, do dramaturgo russo, Tchechov, além, claro, de Hamlet, de Shakespeare, e o divertido, Pigmaleão, do rabugento dramaturgo irlandês, Bernard Shaw. Deve ter mais coisas.

Também homem de teatro, Millôr Fernandes escreveu a quatro mãos, com o amigo Flávio Rangel, o clássico texto da peça, Liberdade, liberdade, afamado libelo contra a ditadura, mas foram as mais de 100 traduções e adaptações que o tornaram célebres na classe teatral. São raros os textos de Shakespeare que sobem ao palco brasileiro que não seja uma tradução sua.

Uma grande referência cultural para mim, adorva me divertir lendo o seu blog e, assim como mago do humor, Chico Anysio, Millôr Fernandes já está fazendo falta. Ambos devem estar aprontando lá em cima com o onipresente. Se é que ele existe…

Frases geniais de Millôr Fernandes

“O Ego é a única coisa que vaza para cima”.

“Um turista é um idiota que se julga poliglota”.

“O pior cego é o que vê tevê”.

“Nós, os humoristas, temos muita importância para ser presos e nenhuma para ser soltos”.

“Viver é desenhar sem borracha”.

“Eu sou um homem antigo, do tempo em que relógio tinha ponteiro”.

“O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”.

* Este texto foi escrito ao som de: Ellington at Newport (Duke Ellington – 1956)

Bancando o Sherlock Holmes apaixonado

Fazia suas caminhadas na praça central... Uma dia ela apareceu...

Fazia suas caminhadas rotineiras na praça central do bairro pelo menos duas vezes por dia. Uma pela manhã, bem cedo, e a outra no final da tarde, próximo ao crepúsculo.  Acreditava que estava perdendo peso, embora os ponteiros da balança insistissem em dizer o contrário.

Por causa disso já ia desistindo de fazer seu cooper light diário mas um dia, sem que ele percebesse, viu ela saindo pelo portão grande escuro da casa onde morava. Uma casa bonita e branca, onde sabia que vivia também um senhor gordo, com cara de boneco de neve, dono de uma camioneta cinza, dessas 4×4 e não sei mais o quê. “Será que ela era casada com esse vovô natalino?!”, perguntou ele, de si para si, com a pulga atrás da orelha.

Sim, porque ela, com suas feições delicadas e singelas, era baixa, clara como uma manhã de verão e cabelos castanhos quase louros. Numa conclusão precipitada, bancando o Sherlock Holmes apaixonado, ariscaria que estava diante de um anjo adolescente, ainda mais quando viu que ela levava num dos braços, uma dessas pastas descoladas da Tinker Bell ou da Hello Kitty, não dava para ver direito. “Num mínimo deve ser filha do coroa, só pode ser isso!”, torcia.

No dia seguinte, uma sexta-feira, lá estava ele de novo, firme e forte no seu trote rotineiro. Como num daqueles toques mágicos que só a rotina seria capaz de criar, deu sorte de vê-la saindo de casa mais uma vez. Na verdade, na mesma bat hora, o que o fez deduzir que ela fazia algum curso, talvez inglês ou mesmo uma faculdade, mas seu rosto forte e maduro denunciava que ela seria, quem sabe, uma professora. “Meus Deus, como consigo descobrir isso?”, se angustiava, depois de lembrar que não acreditava em Deus uma ova.

Dois dias depois, agora um domingo, lá estava ele novamente trotando com a determinação de um Emil Zatopek, só que sem os afamados coturnos. No peito, um coração aceso e no rosto um sorriso primaveril, daqueles de anúncio de margarina. Por causa do dia, nem imaginava que fosse ver sua nova paixão platônica ali, mas o imprevisto é mesmo um diabo inconveniente e eis que lá estava ela, na calçada, com uma linda garotinha a tira colo. “Será sua filha?”, se torturava.

Poucos minutos depois, um carro para à porta e leva a guria que deveria ter lá seus quatro, cinco anos. Das duas uma: ou a pequena é sua sobrinha ou ela é separada e o pai veio pegar a filha para um passeio. Uma terceira hipótese rondava sua cabeça: “Será que ela é mãe solteira?”, indagou intrigado.

… Bem, há seis dias que o tênis branco dele está jogado debaixo da cama. Desanimado, deixou o cooper matinal para tarde e o trote de fim de tarde para o dia seguinte… E o dia seguinte nunca chega… Quem afinal é aquela garota que balançou seus nervos, seu coração, fez tremer sua alma, o fazendo perde o sono ao som de Bread ou Elliott Smith?

Como um Sherlock Holmes apaixonado que fracassou em sua missão, ele não descobriu quem era o velho com cara de bola de neve, ainda não sabe quem era a garotinha da calçada e, sobretudo, o nome de sua rosa da casa grande e bonita. Aonde ela vai todos os fins de tarde e quem era o sujeito do carro que apanhou a guria no domingo de manhã? Afinal, era a guria sua filha?

Não saber como responder a essas perguntas banais, mas para ele essenciais o angustiava em demasia, de modo que parou de correr… Pior, começou a engordar…

* Este texto foi escrito ao som de: Figure 8 (Elliott Smith – 2000)

Bread: doce como pão de mel

Alguns confundiam as canções do Bread com a dos Bee Gees

Agora que estou tendo tempo de sobra, volta e meia dou um teco na nova novela das seis da Rede Globo, Amor eterno amor, só para curtir a saga do domador de búfalos Carlos, vivido pelos belos olhos azuis, Gabriel Braga Nunes. A trama foca em crendices espíritas, almas do além e bobagens afins, mas é bem legal e estou gostando pacas.

Outro dia, me emocionei muito ao ouvir a baladona, Everything I own, da banda norte-americana, Bread, tema do casal Gabriel (Felipe Camargo) e Beatriz (Carolina Kasting). O grupo californiano fez um enorme sucesso no início da década de 70 com seu rock pop suave e melodias bem construídas, emplacando, além do sucesso acima, coisas deliciosas como Diary, Baby I’m-a want you e o hit, The guitar man, regravado algum tempo atrás pelo Cake.

De modo que, digam o que quiserem da Vênus Platinada, mas uma coisa é fato, nenhuma emissora no Brasil ou no mundo faz novelas tão boas como a Globo e, para embalar essas histórias da vida real, com uma margem de erro bem pequena, uma trilha sonora de primeira. Amor eterno amor não seria diferente. Traz desde Johnny Cash, com sua voz gutural na assombrosa, Solitary man, a Lenine, com a linda, O silêncio das estrelas. Ainda vou descobrir que grupo toca aqueles temas rústicos das cenas no Pará…

Mas voltando ao Bread, foi uma felicidade ouvir a canção porque marcou muito a minha adolescência, me fazendo lembrar os tempos em que cultivava as primeiras paixões. Não me esqueço de quando passava a propaganda da coletânea na televisão e, claro, não demorou muito para eu adquirir o CD, sobretudo, porque, os discos de carreira mesmo do Bread, só importando.

Liderada por David Gates, o principal compositor, a banda é pouco conhecida no Brasil pelo grande público e um daqueles clássicos casos em que suas canções são creditadas a grupos de peso como Bee Gees ou ABBA. Já corrigir muita gente que, sem querer, cometia esses equívocos.

Para mim, o Bread está no mesmo nível de bandas que fizeram um enorme sucesso por aqui, geralmente com seus “one hit wonders” e que, por vários motivos, não tiveram seus sucessos devidamente creditados. Outros exemplos recorrentes são The Marmalade, com o inconfundível sucesso, Refletions of my life, Buffalo Springfield, The Hollies e o America, o fantástico grupo dos anos 70 que teve alguns trabalhos produzidos por ninguém menos do que George Martin.

Enfim, algumas músicas, assim como as afamadas madeleines proustianas, têm assim, um efeito remissível, quase que como pedras de Bolonha em nossas vidas. Toda vez que ouço Coldplay, por exemplo, me lembro da minha gatinha de olhos de estrela. Quando ouço Bread, me lembro dos meus primeiros beijos, beijos doces, como gosto de pão de mel.

* Este texto foi escrito ao som de: The Best of Bread (1973)

Homens primatas nos ringues

Voltamos aos tempos das cavernas com a onda dos lutadores de UFC...

Fique tranquilo porque não vou escrever novamente sobre O planeta dos macacos, mas sim sobre homens primatas do nosso tempo, trogloditas que estão na moda, ultimamente, se esforçado para mostrar que têm mais músculos pelo corpo, do que massa encefálica na cabeça. São os lutadores de UFC – Ultimate Fighting Championship e até ontem mesmo eu achava que esta sigla fazia referência a alguma coisa ligada à camada de ozônio ou creme de barbear. Pode?!

Mas antes de seguir falando sobre o assunto, gostaria de deixar claro uma coisa: eu odeio a Sandy e quero que ela morra. Simples assim. Para mim, algumas pessoas deveriam desaparecer da face da Terra como a debiloíde da Sandy, o chato do Galvão Bueno, o príncipe Carlos e esses lutadores do UFC.

E quer saber? Acho Deus um sujeito desocupado e cretino porque leva o nosso querido Chico Anysio embora e deixa para trás essa turba ignara e cretina.

Mas voltando ao tema do post, fico pensando que graça tem de ver dois brutamontes acéfalos trocando sopapos, pontapés, mordidas, dedadas nos olhos e todo tipo de sortilégios dentro de um ringue. É por isso que tem gente por aí espancando o próximo pelas ruas das grandes metrópoles de graça, já virou uma mania nacional.

Daí a senhora Sandy me sai da sua gaiola para dizer que adora trocar socos e que não perde uma luta desses gorilas, francamente, não sei o que dizer, nem o que escrever. Ou voltamos nos tempos das cavernas ou perdemos o senso do ridículo. Corre o risco de ser as duas coisas.

O pior é que a mídia anda dando muito ibope para esse esporte de gladiadores e só pode ser por dois motivos: falta do que noticiar ou muita grana rolando e também acho que são as duas coisas. Outro dia mesmo peguei a Veja no jardim de casa e lá estava o Anderson Silva, o grande ídolo do momento, na capa. Nem sabia, na minha santa ignorância, que esse sujeito existia e, caramba, a revista vai e me sai com 10 páginas, meu chapa, eu disse dez páginas sobre o assunto. Quando vi aquilo fiquei babando na gravata, comendo sabão.

Mas estou reclamando do que porque tinha até um ator da novela Fina Estampa tirando onda de lutador e agora o assunto do momento é o reality show que a Globo está promovendo, desde ontem, com esses macacos de luvas, tendo, veja você, a “fofinha” da Sandy como apresentadora e o Galvão Bueno narrando as lutas. Ou seja, uma mistura de tudo o que não presta, de tudo o que é irritante ocupando o mesmo horário e programa. Uma espécie de Big Brother da mediocridade ao quadrado. E digo ao quadrado porque o Big Brother já é uma estultice consagrada.

Antigamente, para saciar a sede de sangue dos imperadores, gladiadores duelavam até a morte em arenas que eram verdadeiros circos do horror. Ao longo dos anos, as pessoas têm se digladiando em guerras absurdas, insanas e desnecessárias que atravessam séculos e mais séculos. E até pouco tempo atrás, era até charmoso ver pugilistas trocando socos em cima do ringue, o cinema glamourizou o esporte nas telonas e o genial jornalista, Norman Mailer, pintou um belo retrato sobre os bastidores do boxe, a partir do confronto entre dois nomes de peso do pulilismo no livro, A luta.

Enfim, não perco tempo vendo demonstrações de sadismo gratuito como essas lutas de UFC nem aqui, nem na China. Prefiro ver o Mickey Mouse tirando onda de aprendiz de mago no clássico, Fantasia (1940). Sabe como é, né, sou um sujeito sensível.

* Este texto foi escrito ao som de: I should coco (Supergrass – 1995)

Videoteca B. (13) O planeta dos macacos

Charlton Heston socorrido por seus amigos símios no clássico de 1968…

A primeira resenha crítica que escrevi sobre um filme foi de O planeta dos macacos, há muitos e muitos anos atrás. Para vocês terem ideia de quanto tempo faz, eu nem tinha barba branca na época. Pois bem, outro dia revi a fita e como a história de 1968, embora um autêntico produto de seu tempo soe atual dentro de premissa niilista.

Baseado na novela do escritor francês Pierre Boulle, o longa narra a aventura do astronauta Taylor (Charton Heston) num planeta estranho onde, macacos falantes, dominam humanos que não passam de meras caricaturas dos homens da caverna. É difícil de ele acreditar, aceitar, inclusive, mas ali, os primatas evoluíram da raça humana. E a pergunta que não quer calar dentro de sua cabeça é: Como isso aconteceu? “Se este povo é a melhor coisa que tem por aqui em seis meses vamos dominar o planeta”, pensa, equivocadamente.

Aos poucos, o outrora importante militar do governo norte-americano vai se familiarizando com os verdadeiros donos do planeta e da recepção hostil dos anfitriões. Isso porque, ao contrário de outros de sua espécie, Taylor guarda uma particularidade que assombra os símios, ele fala, logo, é considerado o elo perdido entre o homem e o macaco. “Tire suas mãos imundas de mim seu macaco imundo”, grita ao ser caçado após uma de suas fugas.

Tratado como cobaia, Taylor luta dia e noite por sua sobrevivência e explicação para o pesadelo em que vive. Para tanto, conta com a ajuda de dois chimpanzés amigáveis e de espírito aventureiro, os atores Roddy McDowall e Kim Hunter, ambos debaixo de quilos e mais quilos de maquiagens.

Um dos primeiros filmes de ficção científica abordado de forma séria, O planeta dos macacos até hoje causa impacto. Primeiro pelo enredo angustiante, permeado por evocações darwinianas e questões sociopolíticas, entre elas o racismo, uma praga daqueles conturbados anos 60.

Segundo por conta do impressionante trabalho de maquiagem de John Chambers, vencedor de um Oscar Especial. Personalizadas, as máscaras seguiam os traços dos atores, fazendo com que cada orangotango, gorila ou chipanzé fosse diferente um do outro.

Outro aspecto do filme que chama atenção é o fato de colocar os humanos, aqui representado pela figura do arrogante e superior Taylor, na pele dos animais, reacendendo, já naqueles tempos, a questão dos maus tratos.

A antológica cena final, com o astronauta estarrecido diante da imagem da Estátua da Liberdade, soterrada pela areia e ondas do mar é reveladora. Denuncia não só que ele o tempo todo estava no mesmo lugar, como foi vítima da truculência, ganância e egoísmo da raça humana, fazendo do longa um escancarado libelo contra a Guerra Fria.

“Não procure pela verdade Taylor. Pode não gostar do que vai ver”, avisou o intolerante, Dr. Zaius, o guardião da verdade da origem dos macacos.

Estrondoso sucesso, esse marco do cinema de ficção científica teria outras quatro sequências que não tiveram o mesmo êxito da trama original. Mesmo assim, gostava de ver os capítulos de uma série que era exibida na Globo. Um dos maiores astro de seu tempo, Charlton Heston só faria uma pequena participação na história seguinte: De volta ao planeta dos macacos (1970).

Grande admirador da saga dos macacos falantes, o sombrio cineasta Tim Burton se aventurou refilmar o clássico filme em 2001, mas assim como o herói Taylor, nadou, nadou e morreu na praia. Já ensinava o mestre Nelson Rodrigues, algumas histórias não convêm desenterrar.

* Este texto foi escrito ao som de: S. F. Sorrow (The Pretty Things – 1968)

Morre o mago do humor brasileiro!

Poucos artistas foram tão completo e unânime no Brasil como Chico Anysio, uma lenda nacional

Chico Anysio talvez tenha sido o maior de todos os brasileiros, uma espécie de herói nacional que pelo menos uma vez por semana levava alegria, diversão e humor ao povo sofrido do nosso Brasil, um povo que ele tanto amava e homenageava em seus programas. Mostrando a ele a cara de um país que queria que estivesse bem e quando não estava, fazia questão de ridicularizar com suas críticas sociais e políticas divertidas feitas por meio de tipos inesquecíveis como o vampiro brasileiro Bento Carneiro, Bozó, Alberto Roberto, Pantaleão, Salomé e tantos outros. Tipos esses que não eram mera caricatura, como bem lembrou o grande amigo Boni, mas personagens com alma.

“Não posso consertar nada, mas tenho a obrigação de denunciar tudo”, disse certa vez.

Eu era um daqueles garotos que toda quarta ou sábado à noite, de banho tomado, cheirando à lavanda de mamãe, sentava no sofá só para rir, estrondosamente com um dos mais de duzentos personagens que criou. “Quero que pobre se exploda!”, dizia o corrupto, Justo Veríssimo, uma de suas personas, infelizmente, mais atuais.

Chico Anysio é um desses talentos no qual a palavra gênio, tão banalizada nos dias de hoje, na boca de qualquer um, inclusive na minha, pode ser empregada de olhos fechados por todos, sem medo de ser feliz. Sim porque gênio de verdade são poucos como foi Charles Chaplin, John Lennon ou Picasso. E claro, o nosso Chico Anysio, que era insubstituível, único, uma unanimidade.

O grande Chico, o nosso Chico era, por assim dizer, uma espécie de semideus da nossa cultura, da nossa arte e do nosso humor e ele vai fazer falta, sobretudo pela inteligência e naturalidade que fazia a gente rir. Caramba, Chico Anysio marcou minha infância e para sempre a minha vida. Para mim o maior e mais completo artista deste país. Por isso que ele será eterno dentro do meu coração. Acho que depois da morte dele o humor no Brasil não terá mais graça nenhuma!

Tive oportunidade de entrevistá-lo em 2007, por telefone, quando o humorista esteve em Brasília junto com Tom Cavalcante com o espetáculo Chico.Tom. Estava com uma voz fraca, já debilitada pela idade avançada e carregava certa amargura por não estar fazendo televisão no veículo que o consagrou nacionalmente como uma lenda na sua área. Confessou que estava na geladeira porque disse algo que um diretor da Vênus Platinada não gostou, daí que não entendo a hipocrisia da Rede Globo agora que ele partiu.

Depois o vi novamente numa apresentação no CCBB, onde emocionou o público com o seu carisma, com sua simplicidade, com seu humanismo, com sua modéstia e, claro, com sua genialidade espontânea. O velho companheiro de guerra Agildo Ribeiro é que estava certo. “Por mais que você fala é o mínimo que possa dizer sobre ele”, lamentou. “Não vamos ter outro Chico Anysio. Pode ter um parecido, mas igual nunca”, disse, com voz embargada, o amigo e conterrâneo, Renato Aragão, o nosso eterno Didi. “Não tenho medo de morrer, tenho pena”, ele próprio se torturava.

Enfim, Chico Anysio morreu. Com ele morre a cara do humor brasileiro.

Dez personagens marcantes da minha galeria afetiva do mestre:

Bento Carneiro – Ele vinha do aquém do além, adonde que véve os mortos só para assustar os seus pares, mas era ele quem mais tinha medo de tudo. Assombração 100% nacional, Bento Carneiro, com seu sotaque roceiro era um monstrengo às vessas, desnutrido e atrapalhado. Mesmo assim, fazia questão de rogar sua praga.“Minha vingança sará malígrina!”.

Bozó – O personagem, com seus dentes proeminentes e gagueira inconfundível, assim como Alberto Roberto, era meio que um exercício de metalinguagem do mestre. Aqui, tendo como foco de piada a emissora que durante muito tempo foi sua casa e “símbalo” de poder Global. “Eu-eu trabalho na Globo, tá legal!?”, dizia o personagem, mostrando o amuleto com o ícone mais famoso da televisão brasileira.

Coalhada – Zarolho e cabelos encaracolados, Coalhada era o perna de pau por excelência, mesmo assim gostava de tirar onda de craque. Vascaíno roxo, Chico Anysio, assim como a maioria dos brasileiros, era amante daquele que como ele, era paixão nacional, o futebol. No humor ele foi o nosso Pelé.

Haroldo – Ok, Clô, personagem de Marcelo Serrado, em Fina estampa pode ter virado mania nacional, mas Chico Anysio, como todo gênio que se preza, já havia derrubado as barreiras do preconceito e previsto a força do mundo gay com a divertidíssima biba, Haroldo, o hétero machão. “Agora sou hétero. Mordo você todinha!”, se assanhava a bicha assanhada.

Jovem – As piadas desse mago do humor miravam todos os públicos, os jovens não eram exceção, daí o personagem Jovelino Venceslau, que não suportava a sufocante proteção da mãe. “Pô, mãe! Eu sou jovem!”, reclamava. “Vai ficar com cara de bundão, ó, ó”, debochava dos desafetos. Agora fala uma coisa, o jovem não é a cara do Juca Ferreira, o ex-ministro da Cultura?

Justo Veríssimo – De todos os personagens de Chico Anysio, talvez Justo Veríssimo seja o mais atual. Deputado corrupto que ostentava seu inconfundível bigode de escova a la Chaplin, meio Hitler, ele sempre leva a melhor quando o assunto era ter vantagem sobre alguém, de preferência se fosse pobre. “Tenho horror a pobre!”, alardeava para depois sentenciar. “Quero que pobre exploda!”.

Nazareno – Autêntico machista brasileiro esse tipo sempre colocava a mulher que era um dragão no chinelo e aí dela se desse um pio: “Ca-la-da! Senta aí!”, mandava. Barrigão de fora e arrastando asas para cima da empregada gostosona ele explicava o ódio mortal que sentia da esposa. “Isso não é mulher…”, justificava. “Tá com pena? Leva ela!”, provocava.

Pantaleão – O velho cegueta de um dos olhos que surfava em sua cadeira de balanço com semblante de D. Pedro II lembrava meu avô e acho que o avô de muitos espectadores que gostava de ouvir histórias do arco da velha. Se era verdade ou não seu discurso fantasioso não importava já que a mulher nunca o deixava mentir: “É mentira, Terta?”.

Professor Raimundo – Chico Anysio não escondia de ninguém que o personagem que mais ele estimava de sua galeria de 209 tipos era o Professor Raimundo, o primeiro que criou e que abriria as portas de seu talento tanto no rádio, quanto na televisão. Sua escolinha, era um desfile dos grandes colegas e talento do humor: “É vapt-vupt!”, soltava ele o bordão que marcou nossos fins de tarde. “E o salário, ó…”, deixava o seu recado aos governantes.

Tin Tones – De todos os personagens do mestre o que mais me impressionava e assustava era o pastor Tin Tones, paródia divertida do maluco fanático Jim Jones, mentor de afamado suicídio em massa ocorrido no final dos anos 70. Gênio profeta, Chico já debochava dos religiosos hipócritas que assaltam hoje nossas madrugadas para se aproveitar das almas dos mais fracos. “Podem correr a sacolinha…”, pedia aos fiéis, mirando os seus bolsos.

* Este texto foi escrito ao som de: Baiano e os novos Caetanos (Chico Anysio – 1974)

O drama metafísico de Terrence Malick

Em A árvore da vida, Brad Pitt é um pai severo em conflito com os filhos

Olha eu aqui outra vez falando do Brad Pitt. Agora tendo como desculpa o drama metafísico, A árvore da vida, do festejado e enigmático cineasta norte-americano, Terrence Malick. Vencedor da Palma de ouro do Festival de Cannes do ano passado, o filme traz uma discussão teológica e filosófica sobre a origem e o fim da vida, do universo, a partir da trajetória de uma família de classe média dos anos 50, os O’Brien. Tenho para mim que Malick espirou um pouco em sua vida pessoal para contar a história conturbada desse clã. Talvez não, não sei.

Enfim, a obra erudita causou polêmica e dividiu o público, por onde passou, mas confesso que não entendi o motivo de tanta celeuma. Até porque o longa tem enredo fechado e cheio de obscuridades intimistas. A citação do Livro de Jó, longo na abertura, pode soar pretensioso, aos olhos dos religiosos, mas para mim não passa de mera especulação narrativa de um homem religioso, culto às filosofias teológicas e ao seu conceito de Deus, bem próximo da opinião daquele heterônimo de Fernando Pessoa, acho que Alberto Caeiro, o que diz assim:

“Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo. E entraria pela minha porta adentro dizendo-me: ‘Aqui estou!’. Mas se Deus é as flores e as árvores, e os montes e o Sol e o luar, então acredito nele, (…) e a minha vida é toda uma oração e uma missa e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos”.

Daí o fato dos filmes de Malick contemplar a natureza em toda a sua plenitude, lembra de O novo mundo? Em A árvore da vida, ela se manifesta por meio de exuberantes cascatas, cânions sinuosos e vulcões ferventes, mostrando como somos pequenos diante da imensidão do mar e da grandeza dos desertos e, porque não, do próprio universo. Formas superlativas que nos cercam, surgindo aqui como metáfora diante da dor da perda. “A única maneira de ser feliz é amar”, diz Jack, um dos filhos do rebento O’Brien.

Ele é revoltado com o pai severo e autoritário (Brad Pitt, também produtor da fita) que tem um jeito bem particular de mostrar o seu afeto com a família. E não só isso, carrega o peso da perda do irmão do meio, morto aos 19 anos e que ele nunca esqueceu, agora que é um arquiteto de renome (Sean Penn) perdido nas grandes sombras dos arranha-céus.

A narrativa não linear de Terrence Malick é contemplativa e de uma beleza sem igual, elementos já conhecidos dos seguidores do diretor que, ao longo dos 40 anos de carreira, só dirigiu apenas cinco longas-metragens. Entre os quais, Além da linha vermelha, sua versão angustiante sobre a afamada batalha de Guadalcanal. Sim, porque enquanto Spielberg transformava a guerra do Pacífico em espetáculo em O resgate do soldado Ryan, Malick transcendia o assunto em sua história.

Bem, não sei se fui capaz de captar algo de mais profundo em, A árvore da vida, a não ser, claro, o fato de ser um belo filme de arte, como são todos os trabalhos do diretor, que passa a maior parte do tempo dando aulas de filosofia nos Estados Unidos e na França. Há claro, uma intricada reflexão sobre o sentido da vida neste seu mais recente filme, mas este é um assunto por demais saturado nos dias de hoje, de modo que fiquemos atentos apenas aos atrativos estéticos dessa obra singular.

Avesso à badalação da mídia, acho que por motivos religiosos, Terrence Malick raramente dá entrevistas ou faz comentários sobre seus trabalhos e a carreira. Não faz mal, seus filmes falam por si e como.

* Este texto foi escrito ao som de: Another green world (Brian Eno – 1975)

Exposição: Quero ser Marilyn Monroe

Marilyn Monroe na intimidade, um dos destaques da exposição em SP

No filme, O pecado mora ao lado, do genial Billy Wilder, Marilyn Monroe é a vizinha dos sonhos de Tom Ewell agora que a esposa está ausente e a casa um deserto do Saara. Ele é um marido antiquado, meio quadradão que resolve ousar um pouco convidando a amiga deliciosa para um drink e numa noite, brincando ao piano juntos, ele não resiste e tasca um beijo quente nela, caindo no chão. Os dois se recompõem num instante e ele se desculpa com essa: “Perdão, senhorita. Isso nunca me aconteceu antes”. Com a sinceridade de uma criança ela devolve: “Pois comigo acontece todo dia”.

Era desse jeito mesmo, vagando entre a ingenuidade sincera e a fragilidade velada que Norma Jeane se transformaria num dos maiores mitos que o cinema já teve a partir da persona, Marilyn Monroe. Passados 50 anos de sua misteriosa morte, em agosto de 1962, a admiração em torno da atriz continua mais sólida do que nunca e a exposição, Quero ser Marilyn Monroe, que acontece até o dia 04 de abril, na Cinemateca de São Paulo, ajuda a entender a razão.

No espaço que um dia já foi matadouro e hoje é elegante centro cultural, estão reunidas mais de 120 fotografias e pinturas desse verdadeiro sex symbol registradas por gente como o papa do pop, Andy Warhol, e o grande fotógrafo francês, Henri Cartier-Bresson. Uma deliciosa catedral de carne, Marilyn Monroe atiçou as mentes e lentes mais incríveis de seu tempo. Interessante é o material inédito da intimidade de um dos maiores ícones da cultura de massa do século passado.

Uma pena eu não poder conferir a exposição in loco, se tivesse oportunidade, pegaria um avião agora mesmo e saia lá na Cinemateca, um lugar que gosto muito e já fui inúmeras vezes. Mais triste ainda o fato do evento não ser itinerante. Seria interessante saber a reação do público de Brasília diante do mito, por exemplo.

Enfim, o legal do encontro ser na Cinemateca é que corre, paralelamente, mostra de filme com 15 títulos em que ela atuou como mero coadjuvante ou estrela, entre eles o já citado acima, além de outra pérola de Marilyn e Wilder, juntos, Quanto mais quente melhor, considerado por muitos especialistas a maior comédia de todos os tempos. Eu acho…

Mas em minha opinião, o melhor filme com Marilyn, curiosamente também o último da lenda, Clark Glabe, seria Os desajustados, amarga história de um grupo de losers dirigida pelo mestre John Huston. Mesmo assim, fiquei morrendo de vontade de ver o documentário, Marilyn Monroe: o fim dos dias, um dos destaques dessa mostra.

Até hoje ninguém sabe direito o que aconteceu com a diva, que foi encontrada morta em sua casa, na Califórnia, aos 36 anos, no auge da carreira. Suicídio, assassinato, overdose?! Nunca ficou claro também a obscura relação dela com os Kennedy. Whatever… O que importa é que Marilyn era um furacão em pessoa que tinha uma sensibilidade à flor da pele. Mas, sobretudo, de uma fragilidade e carência incríveis. “Não quero ser inatingível, quero ser abraçada, quero ser amada como uma garota comum”, disse ela certa vez.

Cada vez mais, o mito de Marilyn Monroe é parecido com o de James Dean. São duas figuras inerentes aos dias em que viveram.

* Este texto foi escrito ao som de: The genius of Ray Charles (1959)