Passagem para Índia (1984)

David Lean exibindo sua exuberante eloquência visual

O mestre esteta David Lean exibindo sua exuberante eloquência visual

O inglês David Lean, com seu cinema grandiloquente, é um dos grandes estetas da imagem da sétima arte. Eu acho. Se você assistiu alguma vez na vida Lawrence da Arábia, sabe do que estou falando meu caro. Se não, I’m sorry! Dirigido em 1984, Passagem para Índia é um filme menor em sua carreira, mas igualmente deslumbrante no que diz respeito ao visual e às inquietações culturais e sociais de um daqueles exóticos lugares do planeta. Nesse caso, o foco é a Índia de Mahatma Gandhi. Mas o olhar está situado bem antes da figura marcante do líder religioso.

Baseado em obra de E. M. Foster, a trama, ambientada nos 20, traz como pano de fundo os conflitos acirrados entre ingleses e indianos (os mesmos que, num futuro próximo, iriam projetar a figura do carequinha infernal). O primeiro, na condição de colonizador esnobe e violento. O segundo, trilhando a imagem do colonizado subjugado e submisso. Dentro deste contexto, em primeiro plano, surge a figura de duas inglesas que, por motivos pessoais e diferentes, viajam pela primeira vez rumo a este destino exótico. Lá está a trabalho, servindo o judiciário local de forma canalha, o filho de uma delas que, por acaso, também é noivo da outra.

“O oriente é o oriente. É uma questão cultural”, avisa um cicerone local as duas recém visitantes, já não suportando o lugar que elas olham com espanto, deslumbramento e encanto. “A índia é um lugar perigoso para os recém-chegados”, continua o sujeito, com visível má vontade.India

Mesmo não suportando o calor infernal do lugar, enfim, as diatribes sociais que esquenta ainda mais a região, o clima hostil reinante entre os dois povos, elas querem aproveitar ao máximo o passeio. O olhar curioso delas perscruta os costumes, a religião, com sua particularidade estranha, a comida, e claro, as atrações turísticas, com direito a um tour no lombo de um elefante e visita às místicas cavernas indianas “no cume do mundo”. Lá, ciceroneadas por um médico local de simpatia e solicitude comoventes, interpretado pelo ótimo Victor Banerjee, elas acabam se envolvendo num mal-entendido em que resulta na falsa acusação de estupro de uma delas, a mais jovem, evidentemente.

“Tenho 25 anos de experiência aqui e não vi desgraça maior quando ingleses e indianos tentam ficar íntimos”, ironiza um sádico chefe local inglês, cheio de preconceito e arrogância.

Apesar do tom, excessivamente maniqueísta adotado por David Lean, que também assina o roteiro, Passagem para a índia é um daqueles eletrizantes filmes turísticos que nos convida a largar tudo e ir para o destino que entortou a cabeça do beatle George Harrison. Preste atenção no lirismo com que o diretor filme a lua sobre o rio Ganges.

Meio que um catálogo turístico-didático sobre o país, David Lean nos apresenta aqui, com sua habitual elegância e exuberância visual, os prós e contra da Índia. Está lá, por exemplo, não só as hostilidades ignóbeis dos ingleses esnobes com relação aos indianos, mas também os absurdos domésticos, como os incompreensíveis casamentos arranjados entre eles – um assunto extremamente cultural -, o complicado entendimento da religião, assim como a hipocrisia, preconceito e intolerância que separam os dois povos.

Contudo, a beleza plástica do filme em nenhum momento ofusca as atuações marcantes de atores como o já citado indiano Victor Banerjee, a bela Judy Davis, também James Fox e os veteranos Alec Guinness e Peggy Ashcroft, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

Bem, eu disse um filme menor. Mas menor entre os grandes entenderam?

* Este texto foi escrito ao som de: Rubber soul (The Beatles – 1965)

Rubber_Soul

Da vergonha do racismo

Acho um retrocesso essa coisa de discriminar uma pessoa por conta da cor da pele

Acho um retrocesso essa coisa de discriminar uma pessoa por conta da cor da pele

Minha mãe tem uma amiga carola que, assim como ela, acredita que Jesus vai cair do céu, surfando numa nuvem, entre plumas de mil megatons, anunciando sua segunda vinda ao mundo. Uma bobagem de babar na gravata, mas não falo nada para não cortar o barato das velhinhas. Além do mais, elas têm, sim, o direito de pensar e achar o que quiserem. Mas outro dia, essa amiga de mamãe me deixou fulo da vida, tipo assim, sapateando como uma bailarina espanhola. E tudo porque, ela, que não sai da igreja e se diz uma cristã corretíssima, se indignou, veja você, com o Cristo negro de Ariano Suassuna, no clássico, O auto da Compadecida. E olha que o Jesus queimadinho, como diz o personagem João Grilo (Renato Aragão/Didi), era ninguém menos do que o Antônio Carlos Bernardes Gomes, o nosso Mussum.

Pois bem, essa senhora, temente aos ensinamentos do catolicismo, subiu em seu caixote de querosene e, de guarda-chuva em punho, esbravejou possessa, quase cega, a seguinte estultice. “Jesus preto uma ova, Jesus negro uma pinóia! Ele era clarinho e de olhos azuis”, disse irada. Mais do que revoltado com o Jesus Cristo de Hollywood que ela evocou – o mesmo que mora no inconsciente de zilhões de pessoas -, fiquei indignado com a hipocrisia dessa senhora que, além de uma ignorância obtusa, se mostrou de um racismo ululante.

CompadecidaDaí, fiquei pensando o seguinte. O que diabos então essa desgraçada faz na igreja todos os dias se comete um pecado banal, ultrapassado e vergonhoso como esse? Se existe um inferno, quero que ela passe sua eternidade ali. Na verdade, tive vontade de lhe dar uma banana daquelas, mas me lembrei da elegância do lateral brasileiro Daniel Alves que, no último fim de semana, foi vítima de racismo na Espanha, e tirou de letra a situação. Primeiro, que mania porca esses espanhóis tem de ficar jogando banana no campo, viu. Segundo, que deprimente, passado todos esses anos, a humanidade se mostrar tão pequena se sujeitando a julgar uma pessoa pela sua cor. Acho isso o fim da picada, uma coisa bisonha, medonha, digna de vergonha alheia, além de um baita de um retrocesso.

O mais triste é que episódios assim não param de acontecer aqui e acolá mundo afora. Recentemente, nos Estados Unidos, o proprietário de um time de basquete de Los Angeles, revelou seu lado racista ao condenar a namorada por ela ter tirado uma foto com o Magic Johnson. Coitado dele porque os dois esportes mais populares do mundo, o futebol e o basquete, tem seus maiores ídolos negros, Pelé e Michael Jordan, e ele sai com essa pérola. Digno de pena.

Mas pena mesmo, fiquei de uma tia minha que não gosta de negros, homossexuais e índio. Ou seja, tudo que é minoria ela abomina. Assim como essa amiga carola de minha mãe titia Magui não sai da igreja, vive com um terço enrolado nas mãos e uma bíblia debaixo do braço, mas outro dia, ao ver uma matéria sobre os Estados Unidos na tevê, se referiu ao presidente Barack Obama como “aquele preto”. Quando ouvi isso quase que cai do sofá. Eu sei que ela se referiu a ele desse jeito porque era mais fácil, já que a infeliz não sabe dizer o nome correto do presidente dos Estados Unidos. O que só demonstrou não só o tamanho de sua burrice, mas de sua pobreza de espírito também. Mais do que isso, que o Brasil, um país multirracial, é uma nação de preconceituosos e esnobes.

Sabe de uma coisa? Às vezes ou o tempo todo fico com vergonha de mim mesmo quando me olho no espelho. Pior, ainda continuo acreditando naquela frase que abre o filme Os doze macacos. “A raça humana deveria ser extinta da face da Terra”.

* Este texto foi escrito ao som de: What’s going on (Marvin Gaye – 1971)

Narvin

Beija-me, idiota! (1964)

Dean Martin provando a suculenta carne de Kim Novak, aqui na pele de uma dublê de esposa

Dean Martin provando a suculenta carne de Kim Novak, aqui na pele de uma dublê de esposa

A piada é impagável. Dean Martin, numa paródia de sim mesmo nessa deliciosa comédia de Billy Wilder, é Dino. Ou seja, um cantor de sucesso fissurado em mulheres que vai parar no trailer de uma dublê de prostituta que o esnoba pelo seu estilo de cantar.

“Imagino que nunca tenha ouvido falar dos Beatles?”, diz ela.

“Claro. E canto melhor do que os três”, nem titubeia o cantor galã.

“São quatro”, corrige energicamente a garota.

“Não soube? Um deles deixou o cabelo na guitarra e foi eletrocutado” ironiza.

Rápida como um gatilho no oeste, a anedota traz na sua essência a inconfundível marca de um dos mais importantes roteiristas e cineastas que já passou por Hollywood. Por sinal, um dos meus heróis do cinema. Nascido na Alemanha, Billy Wilder chegou à América no auge da indústria cinematográfica fugindo do bafejo do mal de Adolf Hitler.

E como todo imigrante europeu que arriscou a seguir no ramo naqueles pioneiros anos, comeu o pão que o diabo amassou, até conseguir escrever seus primeiros roteiros. Para sair detrás da mesa para o olho na câmera foi um passo e logo se tornaria um dos grandes da sétima arte com títulos consagrados na história como Crepúsculo dos deuses (1950), A montanha dos sete abutres (1951), Quanto mais quente melhor (1950), Se meu apartamento falasse (1960)e Beije-me, idiota! (1964), que revi outro dia quase morrendo de ri.

Sim, porque Billy Wilder era assim. Falava de coisas seriíssimas com um grau de irreverência e Beija-Me, Idiotacinismo incômodos, mas agindo como se nada tivesse acontecido. Isso porque em todas as suas histórias o ser humano era um canalha incorrigível e, na maioria das tramas, os heróis românticos sujeitos com extrema vocação para ser gigolôs e prostitutas. Fosse ele o diretor de Os dez mandamentos, teria colocado Moisés vendendo entrada para a passagem do Mar Vermelho. Quer ver?

Em Beija-me, idiota!, Ray Walston é um simplório professor de piano chafurdado numa pequena cidade do interior de Nevada que nutre um ciúme doentio pela bela esposa Sofia (Felicia Farr). O sonho dele e do amigo Cliff Osmond, o frentista do único posto da cidade, é de se tornarem numa dupla de sucesso do show bussiness e a grande chance parece ter caído do céu com a chegada à cidade do grande astro da música, Dino (Dean Martin, num papel que só poderia ser dele).

Ele, Dino/Dean Martin, está ali por acaso, depois que um trecho da rodovia teve que ser desviado para este fim de mundo e, não tão por acaso também, ele cai nas mãos desses dois compositores amadores que irão fazer de tudo para vender uma música para ele. Inclusive entregando de bandeja a sensual esposa disfarçada na pele da prostituta Polly the Pistol (Kim Novak, numa reencarnação suculenta de Marilyn Monroe).

A habilidade com que Billy Wilder e o co-roteirista I. A. L. Diamond lapidam frases cheias de duplo sentidos, acompanhadas de situações embaraçosas, uma a atrás da outra, ao longo do filme é de tirar o fôlego. Ainda mais quando tem como protagonista dessas pérolas ninguém menos do que Dean Martin, um dos galãs comediantes mais festejados de sua época.

Claro que a hipócrita sociedade do início dos anos 60 não gostou nem um pouco de ver uma esposa de família se passar por prostituta para ajudar o marido a vender suas canções, mesmo que fosse para o Dean Martin. Resultado: esnobado pela crítica e repudiado pelo público, o filme amargaria um senhor fracasso. Passado 50 anos depois de sua estreia, Beija-me, idiota!, parece tão inocente como um passeio de Chapeuzinho vermelho pela floresta.

* Este texto foi escrito ao som de: Dino: Italian love songs (Dean Martin – 1962)

Dino

Diretores – Steven Spielberg 

O diretor testando o tubarão mecânico de um de seus maiores sucessos

Testando tubarão mecânico que hoje pode até não meter medo, mas na época assustou muita gente

Eu aprendi a admirar Steven Spielberg odiando. Explico. No começo, não ficava nem um pouco empolgado com o cinema espetáculo, cinema entretenimento que ele fazia, mas fui me acostumando aos poucos. Percebi e aprendi a entender que ninguém, da nova geração de cineastas, fazia tão bem produções com o mero objetivo de divertir o público do que ele. Por ironia, a primeira resenha de um filme que escrevi na vida foi do Steven Spielberg, mas não motivado por ele, que estava na crista da onda, mas pelo roteiro inédito do cineasta Stanley Kubrick, que tinha acabado de morrer. O filme? Inteligência artificial.

Para quem não sabe, nos anos 70, Spielberg foi um dos integrantes da corrente cinematográfica que tomou de assalto Hollywood com projetos independentes, temáticas ousadas e muita droga, sexo e rock ‘n’ roll. Suas contribuições dessa época foram os suspenses, Encurralado (1971) e o grande sucesso Tubarão (1975). E pensar que ele fora um aluno medíocre que começou a carreira atrás das câmeras na televisão.

A consagração viria nos anos 80, com o sucesso arrebatador do personagem Indiana Jones, imortalizado nas telonas por Harrison Ford. De lá para cá, aplacado pela megalomania e excessos de sentimentalismo, o diretor galgou altos e baixos com produções relevantes e respeitáveis como A cor púrpura (1985), A lista de Schindler (1993) e Jurassic park (1993).

Enfim, goste ou não do cara – e eu ainda não me decidi sobre isso – uma coisa é digna de respeito. Ele sabe o que está fazendo, ou seja, entende de cinema, fazer filmes é sua praia.

IndianaTop Five – Steven Spielberg

O império do sol (1987) – Baseado em romance autobiográfico do escritor inglês J. G. Ballard é de longe o melhor filme do diretor para mim. Ainda menino, Christian Bale está impagável e irreconhecível na pele de um mimado filho de diplomata que desce ao inferno ao se perder dos pais durante a 2ª Guerra Mundial. Drama da melhor qualidade e sem as pieguices costumeiras do cineasta.

E.T. – O extraterrestre (1982) – Poucos diretores como Spielberg são talentosos em arrancar ótimas atuações de crianças, mas aqui quem rouba a cena é um horroroso boneco emborrachado com síndrome de Dorothy de Mágico de Oz. “Casa, eu quero voltar para casa!”, lamuria o monstrengo o filme inteiro.

Tubarão (1975) – Ok, o tubarão mecânico utilizado nas filmagens é tosco e hoje, na era digital, pode até não convencer, mas na época fez com que muita gente deixasse de tomar banho de mar, com medo de ficar sem as pernas e muitas outras coisas. O mérito da tensão e suspense que ronda a fita do início ao fim está na montagem competente.

Indiana Jones – Os caçadores da Arca Perdida (1981) – Eis a fórmula infalível para uma fita de sucesso de público e bilheteria. Galã no auge da carreira protagoniza um autêntico herói de carne e osso que dá sopapos em nazistas asquerosos, vilões cretinos e ainda rouba o beijo da mocinha no final. No meio disso tudo, zilhões de cenas de aventura e uma trilha sonora marcante, aqui assinada pelo veterano John Williams, eterno parceiro de Spielberg.

Lincoln (2013) – Confesso que fui ver o filme cheio de preconceitos e saí da sessão, envergonhado. Um olhar duro, cético e distante sobre a grande figura da história estadunidense, além de cinema da melhor qualidade. Atuação de Daniel Day-Lewis é um sundae.

* Este texto foi escrito ao som de: With a little help from my friends (Joe Cocker – 1969)

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Os 70 anos de O pequeno príncipe

As primeiras anotações do livro surgiram em 1935, mas o autor só começou a escrever nos anos 40, em NY

Primeiras anotações do livro surgiram em 1935, autor só começou a escrever nos anos 40, em NY

A primeira escola em que pus os pés na vida se chamava O pequeno príncipe e ficava ali em Taguatinga Sul. Eu me lembro, como se fosse hoje, do uniforme todo branco com o desenho do personagem emblemático da literatura infantil, estampado, com cores vivas, na camisa. Também não me esqueço da linda professora Solange, com seus longos cabelos cacheados, mas eu estava apaixonado mesmo era pela paquera do meu irmão, uma gatinha loura cheia de sardas. E foi assim que teve início minha obsessão por sardas e a mania desavergonhada de flertar com a mulher do próximo. Definitivamente sou um cara de pau incorrigível.

Enfim, anos mais tarde, caiu em minhas mãos uma edição de O pequeno príncipe, com o famoso personagem de Antoine De Saint-Exupéry metido em seus trajes nobres e, como num daqueles processos proustianos remissivos, me lembrei de toda a história contada acima.

Clássico da literatura, o livro, que já vendeu mais de 140 milhões de exemplares e é a segunda publicação mais traduzida em todo o mundo, completa 70 anos, despertando até hoje, um misto de paixão e estranhamento nos leitores. Talvez seja pela simplicidade ingênua, um tanto quanto sentimental do autor, que esboçou os primeiros desenhos da obra em 1935. Minha mãe, por exemplo, se irritou com a curiosidade do guri lourinho que a tudo pergunta e é justamente essa nunca renuncia do personagem em perguntar, uma característica típica das crianças, que me fascina. Contundo, dei de presente para minha afilhada uma edição luxuosa comemorativa do livro e ela escanteou o livro porque achou a história chata. Normal…Principe

Assim, lá em casa, por enquanto, só eu gosto de O pequeno príncipe. E por quê? Ora, porque para mim é um dos livros mais bem escritos por um adulto direcionado para criança ou que traz uma história sobre comportamento infantil destinada para adultos. Entenderam? Nem eu. Mas o que eu quis dizer é que o livro atinge tanto o público infantil, quanto o adulto e fiquei feliz em saber que o escritor pensou nos dois públicos quando escreveu o livro, no início dos anos 40, em Nova York, onde passou uma temporada de 2 anos.

Veja bem, amo de coração O menino do dedo verde, de Maurice Druon, outro escritor francês, Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll,é uma história marcante com sua psicodelia narrativa, mas O pequeno príncipe tem uma coisa assim meio etérea, mística e, fascinantemente, puro. “Amar não é um olhar para o outro. Mas ambos na mesma direção”, diz um trecho do livro que gosto muito.

Uma das passagens que mais gosto do livro é quando ele conhece a raposa que lhe ensina sobre o verdadeiro sentido da amizade. Aliás, toda a essência do livro está concentrada nesse encontro mágico. “Se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…”, ensina ela. “O essencial é invisível aos olhos e só pode ser sentido com o coração”, continua o animal sentimentalmente racional.

Humanista, o escritor francês Antoine De Saint-Exupéry foi um patriota que deu a vida morrendo pelo seu país durante a 2ª Guerra Mundial. Parte dessa experiência está contida no livro que ganhou algumas versões importantes, uma delas o musical dos anos 70. O que poucos sabem é que o genial Orson Welles chegou a comprar os direitos autorais do livro, pensando em adaptar para o cinema o texto com ajuda de Walt Disney, mas o projeto não vingou porque o criador do Mickey Mouse e Disneylândia, não queria trabalhar com o diretor de Cidadão Kane. Para finalizar, acho que aquela raposa do segundo disco do Belle & Sebastian, é uma referência velada ao livro O pequeno príncipe.

* Este texto foi escrito ao som de: Et moi et moi et: Jacques Dutronc (1966 – 1969)

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Rio 2 (2014)

O humor despretensioso de Carlos Saldanha é o grande atrativo do filme

O humor despretensioso de Carlos Saldanha é o grande atrativo do filme

Yes, nós também temos banana! Ou melhor, dizendo, também sabemos fazer animação de qualidade. A prova concreta dessa realidade é o grande sucesso do brasileiro Carlos Saldanha a frente de filmes como A era do gelo e Rio, esse último com nova sequência em cartaz na cidade já algumas semanas. Fui ver a produção outro dia com as minhas sobrinhas e gostei muito, ri bastante, embora ache que o primeiro projeto ainda seja infinitamente melhor.

O legal do estilo de Carlos Saldanha é o humor despretensioso a reboque de personagens, aparentemente, losers. Blue, a arara azul de Rio, por exemplo,nos encanta pelo jeito frágil, carente e dependente que esboça diante de sua “dona”. No primeiro filme ele é um filhote da espécie que se perde na cidade do Rio de Janeiro em meio à agitação urbana, crime organizado (mostrado de forma bem sutil) e alegria contagiante do carnaval.

Agora casado, com filhos e dependente da esposa que não é mandona, nem controladora, apenas mais enérgica e com iniciativa, ele se perde com toda a família em seu habitat natural, ou seja, a selva amazônica. Mas só por um tempo, já que são encontrados, meio que sem querer, veja só, pelo sogro.Ele logo vê que a filha casou com um, digamos assim, banana, e quer colocar o sujeito na linha. Só que a tarefa não será nada fácil. Muito pela relutância dele em não querer em ser outra coisa do que ele mesmo. Mas também por conta da intromissão de um bando de mafiosos que estão dizimando o patrimônio maior da fauna brasileira, a floresta.Rio-2

A sutileza com que o diretor Carlos Saldanha e sua equipe de roteiristas e desenhistas abordam temas como ecologia ou a preservação da natureza, claro, assim como defende a criatividade como arma de defesa no lugar da violência, é louvável. Basta prestar atenção na divertida partida de futebol promovido entre as araras vermelhas (que não são inimigas, mas adversárias no ecossistema) e as araras azuis. Aliás, um dos momentos mais divertidos do filme está nesse confronto esportivo que tem como narrador uma anta que é a cara do Galvão Bueno.

No fim, Blue, com seu jeito desajeitado, diplomático e medroso de ser, acaba se dando bem a sua maneira, unindo forças com quem já está acostumado a pegar no pesado para vencer o mal. A floresta amazônica está salva dos vilões do verde e ele bem na fita com a família e o que é mais importante, com o sogro. Despretensioso, divertido e ao mesmo tempo ecologicamente correto, Rio 2 é um inteligente libelo junto à garotada na defesa pelo nosso bem maior: a natureza.

Gozado que outro dia eu estava lendo O menino do dedo verde, livro do francês Maurice Druon com fortes inclinações ecológicas escrito nos anos 50, e lamentei o fato de, nos dias de hoje, ainda termos essa preocupação com o verde que nos cerca. O ser humano, de fato, é digno de vergonha.

* Este texto foi escrito ao som de: # 1 Record (Big Star – 1972)

Big Star No1 Record

Nicolas Behr – BrasíliA –z

O poeta durante a Bienal do Livro de Brasília: "Brasília precisa de mim", diz.

O poeta durante a Bienal do Livro: “Brasília precisa de mim”, diz.

Goste ou não, Brasília precisa de Nicolas Behr. E quem disse isso, sem dar a menor pelota para a modéstia, foi o próprio poeta, durante a Flip – Feira Literária Internacional de Paraty, de 2011. Quando soube dessa declaração, emocionada e orgulhosa, a filha de Lucio Costa não vacilou. Pegou o telefone e ligou para o autor de livros como Poesília, La brasilíada e Braxília revisitada. “E precisa, mesmo, Nicolas! Precisa muito de você, sim!”, disse ela, do outro lado da linha.

De longe o poeta mais importante da cidade, Nicolas Behr, apesar de não ser daqui – mas do Mato Grosso -, tem com Brasília uma relação de sangue, corpo e alma. Enfim, definitivamente o escriba tem o lugar na palma da mão. Afetiva e fisicamente. Para demonstrar isso, ele acaba de lançar mais um livro em homenagem à cidade em que vive desde os anos 70. Produção independente, BrasíliA-z – Cidade-palavra é um minidicionário amoroso e afetivo com 206 verbetes sobre o quadrado localizado no coração do Planalto Central.

“Queria compartilhar 40 anos de Brasília, as coisas que eu sei, as coisas que acho interessante as pessoas saberem”, me contou ele durante a Bienal. “Gostei muito de fazer o livro, dei o melhor de mim, caprichei, é um presente para a cidade, um diálogo com a cidade que me recebeu quando chegue aqui nos anos 70”, emendou, com aquele jeitão simpático de ser.

E o livro é caprichado mesmo. Mais uma vez, Nicolas Behr acertou em cheio. O único problema é que essa deliciosa obra é curta demais. Você acaba de ler o livrinho que tem mais informação do que parece ter e fica com vontade de ler mais. Sei lá, meio assim com água na boca e os dedos coçando. Divertido, engraçado, crítico, irônico, informativo, contemplativo e carinhoso, BrasiliA-z tem ainda o importante papel de reparar equívocos e injustiças históricas. Se não fosse pelo poeta, ninguém saberia, por exemplo, quem foi ou que relevância teve um Joaquim Cardozo, o engenheiro responsável por calcular as curvas de Niemeyer.

Ou ainda anedota incríveis, como a de outro engenheiro que, por medo de uma brincadeira de JK, mandou cortar uma árvore próxima do acampamento só porque o presidente disse que mandaria enforcá-lo caso ele não concluísse determinada obra dentro do prazo. “Vai no barracão, pega um machado e corta aquela árvore. Agora”, deu a ordem.

Culturalmente bastante ativo na cidade, Nicolas Behr transitou com desenvoltura em todas as tribos e correntes. Também esbarrou com todo mundo. Comprou vinis das mãos do Renato Russo, cansou de ver shows da Cássia Eller em pé no Bar Bom Demais, vendeu seus livros nas apresentações de um então desconhecido Djavan bem ali na Escola Parque. Ele era da Turma dos Cabeças, mas sempre esbarrava com a Turma da Colina – a “tchurma do Renato Russo” – na rodoviária do Plano recarregando as baterias depois de uma noitada com pastel Viçosa e caldo de cana. “Eram alegres e inofensivos. Tudo pose. Super criativos”, descreve no verbete dedicada à gangue punk.

Há muitas lendas urbanas, “causos”, histórias pessoais entrelaçadas com a rotina da cidade, mas em todas elas Brasília é personagem principal. E tudo escrito com esmero de um ourives da palavra. Alguns verbetes o poeta levou a tarde inteira para deixar do jeito que queria. Muito do que está ali foi extraída de sua monumental biblioteca que tem mais de 500 títulos dedicados só à Brasília. “Quando cheguei aqui Brasília parecia uma esfinge. Não a decifrei ainda, mas ela também não me devorou”, ironiza, com seu estilo inconfundível.

* Este texto foi escrito ao som de: Dois (Legião Urbana – 1986)

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Cinco suculentos verbetes de BrasíliA – z

Arco do Triunfo – Quando Brasília for demolida, daqui centenas de anos, a única obra arquitetônica que será poupada é aquele monumento mau gosto na entrada do Pontão, no Lago Sul. Quem não viver não verá.

Costura – Pegue a agulhinha, caia na tesourinha e com as linhas do Eixão comece a costurar a cidade. E depois descosture. Brasília é desdobrável.

Filhas de JK – O nome das esculturas, em bronze, no espelho d’água do Palácio da Alvorada é As Iaras, mas a conhecemos como As banhistas, obra de Alfredo Ceschiatti. Mostram duas mulheres com as mãos na cabeça. Dizem que são as filhas de JK puxando os cabelos, pois não queriam vir morar em Brasília.

Galera – Nos tempos da minha juventude não usávamos a palavra tribo. Nem, “e aí, véi!”. Falávamos joia, bacana, legal, barato, bicho, cara, lance… Galera? Não usávamos.

Pombal de Dona Eloá – Dona Eloá, a esposa do presidente Jânio Quadros, pediu a Niemeyer um ninhal para as pombas da Praça dos Três Poderes. Aquele monumento (!), que mais parece um prendedor de roupas, foi a única obra que Jânio Quadros fez em Brasília nos 207 dias do seu mandato, pois renunciou.

Telefonema – Em 1980 eu estava no Rio de Janeiro e resolvi ligar para o Drummond. Ele atendeu com toda a gentileza. Eu o chamava de “Sr. Carlos”. Disse a ele que estava preparando um livro chamado O Drummond Brasiliense, fazendo paródias de seus poemas, transpondo-as para Brasília. Ele ouviu, pacientemente, alguns poemas-paródias e no final disse: “Olha, cuida da sua poesia. Deixa a minha em paz”.

Yvanet – Ela morava na mesma quadra do que eu, a 415 Sul. Num sábado à tarde, perguntei se queria passear comigo na beira do Lago. Topou. O Paranoá ficava perto, atrás da Vila Telebrasília. Eu tinha uns 16 e ela, uns 14. Chegamos à beira do Lago, onde ainda existem aqueles pés enormes de eucaliptos. Sentado num tronco caído, pedi que ela tirasse a blusa (estava sem sutiã) e desfilasse para mim os seios nus.

O velho fuzil (1975)

O filme conta a tragédia de uma família inteira engolfada pelas agruras da guerra

O filme conta a tragédia de uma família inteira engolfada pelas agruras da guerra

Mountauban, França. 1944. Anos de guerra, truculência, sangue, morte e tudo o que o médico humanista Julien Dandieu (Philippe Noiret) quer saber é cuidar dos seus feridos. “Não faço política!”, avisa, quando avista um pequeno pelotão nazista invadir o hospital em que trabalha. Mesmo assim, ele perde a batalha e – preservando a integridade da família -, vê um paciente seu todo estropiado, acusado de terrorismo, ser levado para prisão.

Vencedor do César de melhor filme em 1976, O velho fuzil, de Robert Enrico, que acaba de sair em DVD pela Versátil Vídeo, incomodou público e crítica na época de seu lançamento. O público pela violência, a crítica pelo clichê temático. Clichê temático?! Bem, ficaram incomodados com plot do justiceiro que quer vingar a morte da família. Será? Bom, sem se abalar, o cineasta se defendeu. “Todos os temas já foram explorados no cinema em vários filmes, mas nem todo mundo viu esses filmes”, ironizou.

Fuzil 2E é com ironia que o diretor abre O velho fuzil, quando mostra Dandieu e a família num passeio idílico de bicicleta pelo Sul da França. Corte e logo o vemos em apuros no hospital, na sequência narrada acima. Ao voltar para casa, ele cai nos braços da filha e da mulher Clara (Romy Schneider), ao som de tiros e imagens de soldados enforcados pelo caminho.

Preocupado, não pensa duas vezes. Com ajuda do amigo François (Jean Bouise), consegue levar a esposa e a filha sãs e salvas, para um castelo que tem no interior do país. Mas o que era para ser um porto seguro se transforma na sucursal do inferno. Isso porque quando o médico chega para rever a família, encontra não só eles mortos, mas todo o vilarejo, dizimados pela chacina selvagem dos nazistas.

A cena em que ele destrói, a socos e pontapés, uma imagem de Cristo – mostrando sua descrença no divino depois de tudo o que aconteceu -, dentro da Igreja, é de fazer inveja aquele pastor evangélico que andou chutando uma santa católica no passado. Revoltado, abalado, ensandecido, Dandieu recupera então um velho fuzil usado pelo pai para matar javalis e se transforma num autêntico selvagem, um justiceiro da família e do vilarejo em que mora, enfim, um Rambo de terno e gravata que não deixa pedra sobre pedras. Preste atenção na sequência bem construída em que nosso herói queima um oficial nazista com um lança-chamas tendo apenas como barreira um espelho. Mero lirismo do caos.

Em entrevista disponibilizada como extras do DVD, o diretor Robert Enrico revela que foi motivado a realizar o filme por lembranças da infância e que o projeto, apesar de todo mundo falar da violência, é um libelo contra as atrocidades da guerra. Mais do que isso, explica que os horrores do front é tema secundário em seu filme, chamando atenção para a alegria e romantismo que impera no affair turbulento entre o desajeitado – mas bom ator Philippe Noiret -, e a exuberante Romy Schneider. Desnudada de seus papéis de lindas princesas, ela encarnar aqui uma alegre esposa infiel que baila com desventura por entre camponeses e oficiais desejados. Um clássico do cinema mundial recuperado do limbo do esquecimento por quem gosta e entende de cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: Ágaetis Byrjun (Sigur Rós – 1999)

Sigurs

Gabo (1928 – 2014)

Cem anos de soldião não me encantoui na primeira vez que li... Ninguém é perfeito!

Cem anos de soldião não me encantoui na primeira vez que li… Ninguém é perfeito!

Todo mundo teve uma fase Gabriel Garcia Márquez e temos que dizer o que é. Ou seja, não adianta ficar com marola e fazendo pose só para agradar ou impressionar os outros. Eu li Cem anos de solidão e achei de uma chatice ululante. Todo mundo falando sobre realismo mágico, alegoria político e não sei mais o quê e para mim o livro nem fez cócega no prazer. Desculpa aos fãs de Gabriel Garcia Márquez, mas esse clássico da literatura mundial não bateu. Não ainda, nessa primeira leitura que fiz nos tempos de faculdade, mas motivado por minha gatinha renascentista, vou reler o livro só para ter o direto da dúvida.

A decepção com o livro foi tamanha que até hoje não comprei um exemplar dessa obra consagrada. Isso mesmo, meu chapa, na minha estante mágica não tem Cem anos de solidão e isso é uma vergonha, eu sei. Mas ninguém é perfeito. Sim, porque até os clássicos não compreendidos merecem o aconchego solar de minha estante mágica.

Não tem Cem anos de solidão, mas tem Crônicas de uma morte anunciada, Ninguém escreve ao coronel e Memória de minhas putas tristes. Dos três, só li os dois primeiros que comprei num sebo, portanto, nutro um carinho especial por eles. Mas que fique registrado que o primeiro livro do Gabo que comprei foi, Crônica de uma morte anunciada,e motivado pela técnica jornalística ali embutida. “O livro é sensacional porque começa já com a morte do personagem principal”, me contou um professor esbaforido.Crônica

Uma história em que o autor já entrega o fim logo nas primeiras páginas é de arrepiar, de uma coragem incrível, pensei. E foi assim que li pela primeira vez um livro de Gabriel Garcia Márquez. Depois foi Ninguém escreve ao coronel, título que faz parte do Ciclo Macondo, e tido por especialistas como uma de suas grandes obras. A trama gira em torno da espera angustiante do personagem do título por uma carta que lhe trará o pagamento da aposentadoria atrasada pelos meios burocráticos que o faz viver na pobreza com a mulher. “Ninguém escreve ao Coronel”, avisa o carteiro, o desiludindo semanalmente.

Curtinho, o livro, o segundo que publicou na vida, numa época em que vivia na penúria, na França, é, talvez, uma das mais esmagadoras críticas da literatura à ação da burocracia.

Agora não li O veneno da madrugada, mas afirmo de olhos fechados, sem medo de errar e ser feliz, que a adaptação de Ruy Guerra para a obra seja uma das melhores para o cinema da obra do escritor colombiano. Injustamente negligenciado, o filme de 2004, que foi exibido no Festival de Cinema de Brasília, conta a história de um alcaide raivoso, rancoroso e ganancioso vivido por um Leonardo Medeiros espetacular. Fazendo uso do poder de autoridade que tem, ele toca o terror no vilarejo que está cercado por uma chuva fétida sem fim. Assim como em Cem anos de solidão, o surrealismo dá a tônica da trama numa crítica ao abuso de poder e a violência.

“Agora nem precisa de bússola para chegar a este fim de mundo. Basta seguir o cheiro de podre dessa vaca”, diz um dos personagens.

Mas enfim, seja nas páginas de um livro ou em boas adaptações de seus livros para o cinema, lá estarei eu apreciando a obra do escritor colombiano, gostando ou não. Porque é assim que é feita a vida. De contradições e de desmistificações.

* Este texto foi escrito ao som de: Tropicália (Caetano Veloso – 1968)

Caetano

De olhos bem fechados (1999)

Stanley Kubrick, Tom Cruise e Nicole Kidman entre sexo, ciúmes e voyerismo...

Stanley Kubrick, Tom Cruise e Nicole Kidman entre sexo, ciúmes e voyerismo…

Sendo bem sincero. Só comecei a prestar atenção de verdade em Stanley Kubrick na faculdade. E de trás para frente. Explico. Já tinha assistido a 2001: Uma odisseia no espaço, claro, sabia que o épico Spartacus era dele e que ele tinha feito um filme sobre pedofilia, mas não me aprofundara. Só fui fazer isso na faculdade e o ponto de partida foi o polêmico e último trabalho que dirigiu, ou seja, o suspense psicológico De olhos bem fechados.

Meticuloso, Kubrick levou mais de dez anos para filmar um filme depois de Nascido para matar e foi buscar uma história que há tempos flertava, um texto do médico e austríaco Arthur Schnitzler, Breve romance de sonho.

Para quem conhece ou já leu alguma coisa de Arthur Schnitzler, deve saber que suas tramas são norteadas pela psicanálise e os meandros do mundo do sexo em todas as suas nuances. Pela psicanálise porque o tema era recorrente em seu tempo e o escritor e médico era amigo, distante, mas amigo de Sigmund Freud. Já o sexo diz respeito a uma experiência de vida.

A adaptação de Kubrick e Frederic Raphael para este universo repleto de perversidades e voos do inconsciente nos leva para a Nova York dos dias Mascaraatuais. Mas precisamente para dentro do quarto do casal Bill e Alice. Tom Cruise e Nicole Kidman. Ele é um médico bem sucedido e ela uma especialista em arte desempregada. Eles transitam pela alta sociedade e, um dia, são convidados para uma festa glamorosa na casa de Victor Ziegler (Sydney Pollack).

Tem início aí uma jornada reflexiva e exemplar sobre o desejo, ciúme, voyeurismo e fidelidade. “Sexo no andar de cima”, responde a maliciosa Alice, sob efeito de baseado, respondendo uma pergunta do marido, na defensiva, por também estar flertando com garotas na festa.

Não sei se foi intenção de Kubrick, mas assistimos ao filme, do começo ao fim, excitados, como se estivemos em estado de desejo durante toda a exibição. A valer pelo talento intuitivo e provocativo do cineasta, talvez essa tenha sido mesmo sua intenção. E quando nós vemos a deliciosa Nicole Kidman com sua pele alva como a neve, despida ao longo da trama, como se fosse um saboroso aperitivo, aí sim, vemos que ele foi bem matreiro.

Misterioso, o filme, norteado por uma fotografia renascentista, é permeado de códigos sombrios não decifrados depois que os créditos começam a subir. A referência sutil ao arco-íris de Dorothy em O mágico de Oz, o Fidelio da Ópera de Beethoven ou aquela nebulosa sociedade secreta com seus faunos e rituais macabros. “Não são pessoas comuns. Nem vou dizer os nomes delas porque você não vai consegui dormir”, avisa Ziegler, tentando livrar o rabo.

Nos corredores da faculdade, era comum o burburinho das pessoas comentando a espetacular cena de orgia, protagonizada por lindas e deslumbrantes mulheres. Verdadeiras deusas do prazer escolhidas a dedo. Claro que De olhos bem fechados é muito mais do que este momento de êxtase, com sua intricada armadilha narrativa costurada entre o sonho e a realidade, mas até hoje a cena continua incólume no inconsciente do fauno aprisionado dentro de cada um de nós. Homens ou mulheres.

“A realidade de uma noite, para não dizer de uma vida inteira, pode ser toda a verdade”, ironiza cheia de mistérios a saborosa Alice.

* Este texto foi escrito ao som de: Mighty Joe Moon (Grant Lee Buffalo – 1994)

Joe Moon