Barry Lyndon (1975)

Artesão da imagem, Kubrick, fez de cada sequência desse filme uma aventura pictórica

Artesão da imagem, Kubrick fez de cada sequência desse filme uma aventura pictórica

Bem, até que se diga o contrário, para mim, Barry Lyndon, com suas três horas de duração, é de longe o melhor filme de Stanley Kubrick e ponto final. E por vários motivos, mas, sobretudo, pelo estilo clássico da narrativa e, claro, pela elegante e soberba fotografia premiada com um Oscar mais do que merecida. O trabalho um tanto quanto desconhecido do grande público ainda levaria as estatuetas de melhor trilha sonora, direção de arte e figurino, enfim, todos eles quesitos técnicos, departamentos que o cineasta fazia questão de acompanhar de perto. Muito de perto.

E o perfeccionismo do diretor fez com que ele pesquisasse sobre esse projeto por quatro longos anos, que é o hiato entre essa produção e seu filme anterior, Laranja mecânica. Na trama baseada em livro de William Makepeace Thackeray, Kubrick adapta para as telonas uma história do século 18 que, de certa forma, é sobre todos nós.

Trata-se da trajetória de ascensão e declínio do jovem irlandês Redmond Barry (Ryan O’Neal, em atuação estupenda e no auge da carreira), um camponês que após um crime em sua aldeia, ganha o mundo até se tornar um homem de posses em Londres, ao se casar com Lady Lyndon (Marisa Berenson). Antes disso, ele viveria uma série de aventuras, sendo desertor do exército britânico, prisioneiro recrutado do exército prussiano, o inimigo, jogador malandro de carteado nas cortes, espião e amante imoral.

“Barry era um sujeito Inteligente para fazer fortuna, mas não para mantê-la”, diz o narrador, em Barry Lyndon 2tom de farsa, o que o filme é do início ao fim. “Foi no reinado de George III que os personagens citados viveram e brigaram. Bons ou maus, bonitos ou feios, ricos ou pobres, agora eles são todos iguais”, diz a melancólica nota final do filme, numa síntese humana devastadora.

A exuberância do visual de Barry Lyndon foi algo sem precedente no cinema até então. A perfeição é tamanha que o filme passaria sem problema como se fosse uma produção dos dias de hoje, filmada em digital e maquiada com todos os tipos de truques e efeitos. Mas como grande artesão da imagem que era, Kubrick fez questão de filmar o longa inteiro com luzes naturais, sempre rodando das nove da manhã às três das tardes e usando lentes especiais para as cenas, o que dá um caráter pictórico deslumbrante ao filme. Aliás, algumas sequências parecem, de fato, telas em movimento, o que só nos faz aproximar do enredo vitoriano de Barry Lyndon.

“Em geral, o que me atrai é um tema que oferece possibilidades visuais interessantes. (…) Barry Lyndon estava nessa terra misteriosa do desejo de criar. É tão indefinível quanto tentar explicar por que achamos uma mulher atraente ou porque nos casamos com outra”, ironiza o diretor sobre a escolha do escritor Thackeray no livro Conversas com Kubrick, do crítico francês Michel Ciment.

Vale lembrar que o cineasta embarcou nesse projeto depois de desistir de fazer um filme sobre a vida de Napoleão Bonaparte, um de seus ídolos. E fico pensando o que esse artista visionário e talentoso faria com uma das figuras mais emblemáticas da história no cinema. Deus realmente não dá asa à cobra.

* Este texto foi escrito ao som de: Quando o carnaval chegar (Chico Buarque, Nara Leão & Maria Bethânia – 1972)

Quando o carnaval chegar

Diretores – Clint Eastwood

O cineasta dirigindo a si mesmo no clássico "Impacto fulminante": "Vá em frente, faça o meu dia!".

O cineasta dirigindo a si mesmo em “Impacto fulminante”: “Vá em frente, faça o meu dia!”.

E no começo ninguém dava nada por ele. Era assim digamos uma espécie de dólar furado.  Por isso que Clint Eastwood começou a carreira de verdade como ator não na América, terra das oportunidades, mas na Itália, sob as asas de Sergio Leone, o mestre do Spaghetti westers. E olha que ele se deu bem, encarnando como poucos, o caubói mal-humorado, caladão e que sempre se dá bem no final. Quase sempre. E se alguém algum dia pensou num discípulo para John Wayne, no gênero faroeste, este, claro, só poderia ser Clint Eastwood. Dúvida?! Então me convence do contrário.

Mas nem só de caubóis se faz um homem e o bom e velho Clint deixou de lado a winchester 22, para abraçar uma potente magnum 44, personificando um dos mais temidos, implacáveis e amados policiais de rua, o incorrigível Harry Callahan. “Vá em frente, faça o meu dia”, diz ele, sem se abalar, para um assaltante matusquela no formidável Impacto fulminante. A frase por si só já vale o filme todo.

Mas houve um tempo em que o ator quis ser diretor e uma nova etapa na carreira de Clint Eastwood se deslanchou diante dos olhos de milhares de fã. Claro, o começou atrás das câmeras, assim como diante delas, não foi nada fácil. Mas mais uma vez ele encarou o desafio com naturalidade e fez do clichê em vários gêneros uma fórmula de sucesso. “Eu não era nenhum cineasta, mas sabia quem era Howard Hawks”, disse certa vez nos anos 50, se referindo a um de seus ídolos. Parece que deu certo.

Ao contrário dos homens truculentos que ele viveu nas telas, Clint Eastwood, hoje um octogenário, se revela um homem sensível e romântico à moda antiga que gosta de jazz, belas mulheres e o conforto da família. Não se iluda meu chapa, os brutos também amam.

 Clint Eastwood 3Top five – Clint Eastwood

As pontes de Madison (1995) – Poucas vezes o adultério foi ilustrado nas telas de forma tão singela e emocionante. Que um dia em encontre uma Francesca na minha vida e sejamos felizes para sempre na vida e na morte. A cena dele acenando para amante uma nova oportunidade ou um adeus, debaixo de chuva, me fez chorar algumas vezes.

Os imperdoáveis (1992) – Quando Clint fez esse filme o faroeste, gênero que ajudou a consolidar, estava na berlinda e ele meio que engessado atrás das câmeras. Um clássico ganhador do Oscar de melhor filme, esse trabalho de peso é um divisor de águas em sua carreira como cineasta. Na trama, ele vive o solitário e amargo William Munny, um pistoleiro aposentado que vai à forra com seu passado.

Bird (1988) – Autor de algumas de suas trilhas, Clint, que toca com delicadeza um piano, faz aqui uma empolgante e visceral homenagem a um de seus ídolos da música. Forest Whitaker na pele do grande saxofonista Charlie Parker está uma uva.

Sobre meninos e lobos (2003) – Penso eu que a maturidade de Clint como diretor veio com esse drama cheio de suspense sobre a história de três amigos testados pelos sortilégios do destino. Um filme sobre famílias destroçadas, amigos em conflitos e a perda da inocência. Definitivamente um filme sobre “meninos e lobos”.

Impacto fulminante (1983) – “Não é sobre um homem que defende a violência. É sobre um homem que não compreende uma sociedade que tolera a violência”, disse o ator e diretor certa vez sobre o personagem Harry Callahan. Precisa escrever mais alguma coisa?

* Este texto foi escrito ao som de: Charlie Parker at Storyville (2005)

Charlie Parker

Valsa Nº 6 no CCBB

É a primeira vez que um texto de Nelson Rodrigues é adaptado com esse formato

É a primeira vez que um texto de Nelson Rodrigues é adaptado para o teatro com esse formato

E quem disse que criaturas inanimadas não podem ter vida? O carioca Grupo Portátil de teatro provou que sim, com a inusitada e ousada montagem para boneco da peça psicológica de Nelson Rodrigues, Valsa Nº 6, em cartaz em curta temporada no CCBB Brasília. Hoje, infelizmente, é o último dia, mas se você correr dá tempo de ver ainda.

Basta dizer que é a primeira vez que um texto do nosso maior dramaturgo é adaptado para o teatro nesse formato. Confesso que gostei muito do que vi. Se algum dia o espetáculo voltar à cidade, por favor, não fique por aí marcando bobeira tentando ver qualquer bobagem nos cinemas da cidade. Corra para o teatro.

Texto de 1951, Nelson Rodrigues escreveu a peça na tentativa de lançar a irmã Dulce Rodrigues como atriz, então – como na música de Fábio Jr. -, uma jovem de 20 e poucos anos bonita e prendada, que sabia, entre outras coisas, dançar balé e tocar piano. Mas o dramaturgo se viu motivado a escrever um monólogo de verdade, depois de presenciar todos os dias, na porta do Teatro Dulcina, na rua Alcindo Guanabara, Copacabana, filas de dobrar o quarteirão para ver a peça de Pedro Bloch, As mãos de Eurípides. Estarrecido com o sucesso alheio, ele esperava o monólogo terminar para perguntar deslumbrado ao colega:

“Quanto deu? Quanto deu?”.

A ideia de construir um texto em que um único ator vivia um elenco inteiro de personagens imaginários parecia um sundae para um autor criativo e revolucionário como Nelson, mas liricamente falando, ele foi buscar inspiração para o seu poema dramático em algo mais tocante. Como conta o jornalista e biógrafo Ruy Castro em O anjo pornográfico, todas às vezes que ele lanchava sozinho, numa leiteria na Cinelândia, ouvia dos fundos do cinema Império os sons do filme, À noite sonhamos. Na trama, Cornel Wilde, no papel do tuberculoso Chopin, tocava todos os dias a dita valsa para uma suspirante George Sand, interpretada por uma tal de Merle Oberon. Mais poético e suburbano do que isso impossível.Nelson

Acontece que o texto de Nelson Rodrigues na época, embora prestigiada pela crítica, foi um retumbante fracasso de público. Uma injustiça reparada com o tempo por montagens sensíveis e criativas como essa da Cia Portátil. Em cena, os atores Flávia Reis, Júlia Scheffer e Guilherme Miranda, sob a batuta do diretor Alexandre Boccanera, se revezam para dar vida a Sônia, personagem onipresente em forma de boneca cuja estética foi inspirada na personagem Noiva cadáver, de Tim Burton. Ela está morta, mas não sabe que morreu. Na verdade, ela não sabe de nada. Sua voz vinda do túmulo, do além mundo, perambula fantasmagórica pelo espaço em busca de respostas que não podem ser respondidas.

“Quem é Sônia?… E onde está Sônia?”, diz a boneca espevitada, em busca de sua existência inexistente.

Dando voz a vários personagens, a mãe, o pai, o médico da família, a mulher vulgar, o bêbado e o noivo, enfim, ela vai, de forma fragmentada, construindo pistas de sua trajetória, daquilo que foi ou o que não é mais, ou pior, o que é de fato, ou seja, uma menina de quinze anos assassinado por seu amante casado.

Elementos cênicos e narrativos diversos como pequenos balcões/mesas, simbolicamente representando pianos, inúmeras variações do tema central, a Valsa Nº 6– algumas bem modernas -, e lindas animações sombrias impressionistas, elaborados por um casal de brasileiros radicados no Canadá, ajudam a montar esse quebra-cabeça psicológico divertido e bizarro que só o genial Nelson Rodrigues poderia criar.

* Este texto foi escrito ao som de: Cripple Crow (Devendra Banhart – 2005)

devendrabanhart-cripplecrow

Inch Allah (2012)

No filme, médica canadense sente na pele os problemas do conflito entre árabes e judeus

No filme, médica canadense sente na pele os problemas do conflito entre árabes e judeus

Confesso que já vi um bocado de filmes sobre a crise entre palestinos e israelenses, um tema mundial, diga-se de passagem, explorado à exaustão pelo cinema, mas poucas produções me chocaram tanto quanto o drama Inch Allah, em cartaz na cidade, por enquanto, no Libert Mall. E o curioso é que se trata de um olhar de alguém que não é da região, a canadense Anaïs Babeau-Lavalette, que conta aqui a história de Chloé (a gatíssima atriz Evelyne Brochu), uma ginecologista que trabalha num posto das Nações Unidas em Ramallah, na Cijordânia.

A cansativa rotina de trabalho é divida com a tensão extenuante de um território marcado por disputas políticas e religiosas sem fim. E assim, volta e meia, ela tem que interromper o trabalhar para que soldados judeus confiram se tudo está certo no local. E a cada dia que passa, ela, uma estrangeira, sente na pele de uma maneira bem próxima, os problemas enfrentados pelas pacientes que passam pela unidade da ONU, uma delas Rand (Sabrina Quazani), que está prestes a ter um bebê e cujo marido está preso esperando pelo julgamento.

“Essa não é a sua guerra”, alerta outra amiga que faz parte da milícia de Israel.

Inch Allah 2Mas não tem como não ligar, nem deixar de pensar nisso e a ligação com a realidade na faixa de Gaza se estreita ainda mais quando ela passar a dar uns beijos em Faysal, o teimoso e radical irmão de Rand que é militante da causa palestina. “Já roubaram de você alguma coisa insubstituível?”, pergunta ele cheio de raiva e rancor a recente paquera, quando essa o leva junto com a família, para um passeio à antiga aldeia que agora pertence ao território judeu.

A câmera tremulante da diretora Anaïs Babeau passeia por uma Palestina deprimente, suja, miserável e carente de segurança e serviços sociais de toda ordem. O muro da Cisjordânia que divide os dois países mostra isso de forma contundente.

Do lado de cá da Palestina, crianças e adultos catam e brinca em meio a uma montanha de lixo. Do lado de lá de Israel tudo é deserto, árido, mas limpo. Do lado de cá da Palestina quase todos os dias um civil inocente é morto vítima da truculência do vizinho intolerante e transformados em mártires de uma causa sem solução. Do outro lado de lá, em Israel, solados andam com metralhadoras dentro dos transportes públicos e turistas são reféns de atos de terroristas bárbaros como as imprevisíveis bombas que explodem no meio de um café, por exemplo, repleto de gente.

A cena dos celulares das vítimas tocando sem parar é desesperadora. Mais ainda a do bebê que morre nos braços da médica porque os soldados judeus não deixam que o parto seja feito de forma correta, mas bem ali, no meio da rua, entre os alaridos de pessoas, buzinas e tiros de um conflito irracional, demente e sem fim. Talvez por isso o título em árabe, Se deus quer”, soa como uma tristonha provocação.

* Este texto foi escrito ao som de: The masterplan (Oasis – 1998)

Masterplan

Lendo Carlos Drummond na igreja

Velado pela luz translúcida e espectral do lugar vou decodificando os versos do poeta mineiro

Velado pela luz translúcida e espectral do lugar vou decodificando os versos do poeta mineiro

O dramaturgo Nelson Rodrigues costumava dizer que deus frequenta as igrejas vazias. E somente as igrejas vazias. Bem, sem ele existe e o conceito de deus for esse mesmo, então eu concordo e acredito em meu eterno guru. E só por isso que eu frequento as igrejas vazias, sobretudo aquelas ornamentadas com os translúcidos vitrais góticos, exuberante arte oriental do século X que se difundiu na Europa renascentista.

E bem ali perto de onde eu trabalho, tem uma igreja cuja arquitetura atípica me encanta com sua estrutura piramidal e ornamento que lembra o chapéu de uma freira. A igreja Rainha da Paz da Octognal atualmente é o lugar que busco quando me sinto triste e por baixo ou quando quero me deslumbrar com a luz do sol atravessando aqueles coloridos vidros com mensagens espirituais, contemplar a beleza desse momento, presenciar o silêncio ensurdecedor da paz lendo um livro de Drummond.

“Antes deles outros silêncios penetrem, outras solidões derrubem e acalentem meu peito”, diz um trecho do metafísico poema Os últimos dias, do livro A rosa do povo. Por sinal, bem apropriado ao momento. “Que a terra há de comer/Mas não como já./(…) E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar partida menos imediata”, continua outro verso.

A rosa do povoPois bem, não acredito mais em deus, se é que um dia eu acreditei nele e não sei mais rezar, mas quando entro numa dessas igrejas deslumbrantes com seus vitrais repletos de luz e paz, é como se eu esboçasse uma possível crença em algo inatingível, é como se eu soubesse rezar.

E meio que hipnotizado, fico a decodificar aquelas figuras estranhas, abstratas e enigmáticas dos vitrais da Igreja Rainha da Paz. Quem afinal é o mascarado misterioso ajoelhado ao lado direito de Nossa Senhora? E quem é o santo ajoelhado ao seu lado esquerdo? Com seu manto gélido complementado de vestes azuis, a mãe de Jesus, mãos juntas abraçadas com o espírito santo, parece velar pelo lugar. E quem mais seria, se ela é a Rainha da Paz. “Por fim, o meu coração imaculado triunfará”, diz uma das mensagens na parede e como eu queria acreditar nele como acredito na imponência visual dos vitrais.

Lendo Carlos Drummond na igreja, descubro outro jeito de encarar o poeta, outra faceta do poeta mineiro que surge na capa do livro com semblante de Fernando Pessoa. É um escritor que tem a certeza e o medo da morte. “Adeus minha presença, meu olhar e minhas veias grossas, meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro…”, continua ele no poema Os últimos dias, que leio velado pelas luzes dos vitrais da igreja Rainha da Paz. Paz que busco e não pareço encontra em nenhum outro lugar, senão na igreja Rainha da Paz.

Visto de cima, o teto da Igreja Rainha da Paz da Octogonal lembra uma grande e ofuscante estrela branca ou um enorme botão de rosa alva, uma rosa de espiritualidade que desabrocha dentro do meu coração quando estou dentro da igreja.

* Este texto foi escrito ao som de: Flowers (Echo & the Bunnymen – 2001)

Echo - Flowers

Minutos atrás (2013)

No filme de Caio Sóh, personagens quixotesco fazem uma jornada rumo ao nada...

No filme de Caio Sóh, personagens quixotescos fazem uma jornada rumo ao nada…

Cinema do CasaPark. Ontem (25), por volta das 21h. Um casal se estatela diante do cartaz de um filme e se espanta com o elenco global. Na verdade apenas dois atores são rapidamente reconhecidos num primeiro olhar. O galante Vladimir Brichta e o gordinho Otávio Muller, o nosso eterno Sardinha de Vale tudo, lembra?O terceiro ator no pôster é o cantor e compositor Paulinho Moska que já é pouco conhecido do grande público, o que dizer ali na fotografia, todo molambento, cabeludo e com uma barba de bode do século 17. O casal aponta para o que vê e correm para a bilheteria derramando pipoca e gotas de euforias.

Na sessão, eles, eu e mais três espectadores estamos atentos aos créditos iniciais do filme Minutos atrás, de Caio Sóh, em cartaz na cidade somente numa sala de cinema e exibido em formato digital. Um cenário árido logo explode nas telas junto com uma fotografia fosca em segundo plano. Nos primeiros minutos, o cantor Paulinho Moska, na pele do cavalo Ruminante, numa espécie de clown apresentador, canta uma cantiga que irá introduzir o espectador no que parece ser o enredo do filme.

Desfigurado pela miséria de sua condição física, existencial, financeira e moral, Alonso (Britchta), dramatiza em tom de farsa a realidade em que vive com os amigos. “Aqui é o lugar onde deus e o diabo falam mal dos outros sem ninguém ver”, debocha. E quando olhamos para a paisagem seca, dura e triste que o cerca, e para figura caquética que discursa, acreditamos mesmo que seja.

Não foram dez minutos de filme e o casal empolgado com o cartaz de atores globais poucos Minutos atrás cartazminutos antes da sessão abandonar o lugar. Com certeza eles ficaram incomodados com a estranheza do roteiro que tem de familiar apenas o cartaz com alguns rostos conhecidos e aqui faço algumas observações. 1. Em tempos de Google, ainda tem gente que escolhe filme vendo cartazes, sem antes fazer uma pesquisa sobre o que está rolando na praça. Às vezes, por preguiça, compra gato por lebre. 2. Alguns espectadores não estão preparados para o diferente, o inusitado, o surpreende e, muitas vezes, perdem a chance de ver algo mágico. 3. O cinéfilo de verdade é aquele sujeito que está atrás de algo novo, instigante e inovador e não se deixa engessar pela programação tosca de algumas produções no cinema e na televisão. 4. É preciso certa bagagem cinematográfica e literária para se aventurar diante do diferente nas telas.

Na trama, os amigos Nildo (Otávio Muller) e Alonso (Britcha), junto com o cavalo Ruminante, atravessam a solidão do sertão com sua carroça cheia de quincalharias e esperança. Eles estão atrás de algo que nem sabe direito e a impressão que temos é que eles estão o tempo todo girando em volta de si mesmo, rumando a lugar nenhum. “Sair desse lugar já é um atalho para o novo”, filosofa Alonso, sem saber direito o que acabou de dizer.

Muitas aventuras os esperam pelo caminho e a reflexão sobre esse ato de coragem rumo ao nada é que é o grande mérito do filme que surge como uma fábula sobre a solidão, a esperança, a busca do novo. Uma jornada, diga-se de passagem, que tem muito de Beckett, Ionesco, o Mágico de Oz e Dom Quixote de Cervantes.

Que pena fiquei desse casal, que perdeu a chance de ver boas atuações, sobretudo de Otávio Muller e, veja você, Paulinho Moska que, mesmo quase não falando em cena em sua estreia como ator, é infinitamente melhor, por exemplo, do que Giovanna Antonelli no ridículo S.O.S. Mulheres ao mar. Tem gente que não sabe separar o joio do trigo ou, como disse certa vez o Oscar Wilder, só sabe o preço de tudo e o valor de nada.

* Este texto foi escrito ao som de: Paebiru (Zé Ramanho e Lula Côrtes – 1975)

Paebiru

A rotina dos engarrafamentos em BsB

Trafegar pelas vias da cidade está cada vez mais difícil, ação dos governantes não facilita

Trafegar pelas vias da cidade está cada vez mais difícil, ação dos governantes não facilita

Ontem fui vítima de um engarrafamento histórico em Brasília, que virou a cidade do caos, a cidade do debilóide governador Agnelo Queiroz, que com sua cara de buldogue autista, não consegue solucionar um problema sequer dessa cidade. Toda vez que chove é assim, ou seja, o trânsito vira uma baderna daquelas. Daí soma-se as manifestações – que virou uma rotina, uma epidemia -, a falta de energia que transforma os semáforos em samba do criolo doido, os acidentes que paralisam tudo. Resumindo, ontem gastei 2h30 para chegar ao trabalho. Deu para escutar uns três discos do Echo & the Bunnymen, comer um dos bolos de fubá da dona Rosa, além de ouvir o Estevão Damácio, da CBN, espumar, esculhambando o sistema de tráfego do DF.

Mas o trânsito de Brasília está uma vergonha mesmo. Por sinal, a cara do governante da cidade, uma bosta. Toda manhã é esse suplício para levar os filhos na escola e chegar ao trabalho. A minha sorte é que não tenho filhos. Mas os outros, que tem, fica atrapalhando a minha vida. São filas e mais filas de carros, incompetência dos órgãos que cuida do setor, mais a habitual falta de educação dos motoristas de Brasília, que são verdadeiros ogros ao volante. O que acho gozado é que constrói viadutos, ampliam as vias e o problema persiste, na verdade parece piorar. Por que será? NÃO SEI!

DetranCarro demais? Gente demais? Falta de oficiais do setor para organizar a baderna? Falta de civilidade ao volante? Falta de competência do governador e de seus subordinados para resolver o problema que é só mais um desse governo? Nesse caso, alô, alô alienígenas estou aqui embaixo, por favor, há alguma vaga aí em Marte, Plutão ou planetas adjacentes? Sim, por que estou de saco cheio do planeta Terra, cheio dos seres humanos, cheio de mim mesmo.

O pior de tudo é que o sistema de transporte do DF é uma merda. Além de sucateados, os ônibus coletivos acabam refém da mesma situação nos trânsitos da cidade. Daí tem o metrô, mas corremos o risco de sermos estuprados em plena luz do dia e se tem uma coisa que preso demais é o meu anel. Enfim, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come e não quero saber dessa história de bicho pega e muito menos come. Só quero ver quando a Copa do mundo chegar, que vergonha que vai ser!

Claro, a população está revoltada, indignada com tudo isso, mas carambolas, fazer manifestação debaixo de chuva e em plena segunda-feira, bem em frente as nossas casas? Ao invés de prejudicar seus pares, que tal criar o maior quipropó bem ali na casa no governador ou ainda no palácio do Buriti? Tudo bem, gente inocente da população iria sair prejudicada do mesmo jeito, mas pelo menos iria incomodar as autoridades.

Ah, mas o governador vai de helicóptero, então? Que ele caia então e não sobre nem as cinzas!! Juro que vou embora com a primeira alienígena que me conquistar. Se nenhuma espaçonave não baixar por aqui, vou para o quinto dos infernos mesmo, que deve ser bem melhor do que o raio dessa cidade.

* Este texto foi escrito ao som de: Crocodiles(Echo & the Bunnymen – 1980)

Crocodiles

Laranja mecânica (1971)

Alex, o delinquente personagem do livro vivido de forma excepcional por Malcolm McDowell

Alex, o delinquente personagem do livro vivido de forma excepcional por Malcolm McDowell

De tal surreal, a história parece folclórica, mas aconteceu de verdade. Depois de trabalhar no Serviço Colonial Britânico na Malásia, entre 1954 e 1960, o escritor Anthony Burgess recebeu a notícia de que tinha um tumor no cérebro. Desesperado e inconsolado, ele voltou para casa e escreveu o maior número de livros que conseguiu. Entre os títulos estava Laranja mecânica.

 Clássico da ficção científica junto com obras referências como Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell e Fahrenheit, de Ray Bradbury, o livro, que li impactado, deu origem à marcante adaptação homônima de Stanley Kubrick em 1971. O filme icônico ficou tão fixado no inconsciente coletivo das pessoas, que muitas delas esqueceram que Burguess era o autor real da obra. Talvez por isso mesmo, em 1987, ele revisitou seu trabalho num musical na tentativa de reconquistar sua “autoria” da história. Ah, sim, e a história do tumor cerebral foi um equívoco médico já que o escritor viveria até os 76 anos de idade.

Histórias tragicômicas a parte, não tem jeito de falar em Laranja mecânica e não se lembrar do filme de Kubrick, indicado a quatro Oscar, inclusive melhor filme, diretor e roteiro adaptado. A infame e trágica trajetória de Alex, um jovem delinquente que tocava o terror pelas ruas de uma Londres futurística e decadente, influenciou milhares de artistas mundo afora, sendo talvez uma das referências pop cinematográficas mais revisitadas dos últimos tempos.

Há quem diga que David Bowie se inspirou no visual andrógino do personagem do filme para criarCapa da nova edição do livro Laranja Mecânica o igualmente bizarro Ziggy Stardust. Na canção The fly, do U2, os versos “Alex descends into hell for a bottle of Milk/Korova 1”, é uma citação explícita ao filme e por aí vai.

Mas quando Laranja mecânica foi lançado, a hipócrita sociedade da época e os críticos, chocados com a violência que viram nas telas, torceram o nariz. Irritado com a repercussão negativa da fita, banida na Inglaterra e em países como o Brasil, Kubrick recolheu as latas dos filmes dos cinemas. Sobretudo depois que uma onda generalizada de crimes foi associada às estripulias de Alex e sua gangue. A intolerante e temida crítica de cinema Pauline Kael cuspiu na cara do diretor ironizando que ele teria “assumido a perspectiva deformada de um jovemzinho depravado”.

O fato é que, gostem ou não, não tem como ignorar o tom profético do filme que fala, entre outras coisas, da institucionalização da violência. Estão aí os Black blocs para não me deixar mentir. Depois de cometer inúmeras atrocidades, uma delas, cinicamente ao som de Singing in the rain, o jovem Alex vai parar numa instituição de reabilitação. A sequência em que ele passa por uma lavagem cerebral, com os olhos estatelados diante das piores atrocidades humanas, é tragicômica. É a violência dentro da violência, a violência de cima para baixo.

“É a terceira idade indo à forra contra a juventude”, debocha de sua própria desgraça, ao ser linchado por mendigos idosos depois de deixar a clínica, completamente incapaz de cometer qualquer gesto de violência física ou sexual.

Perambulando entre o kitsch e o clean, com trilha norteada por Beethoven do início ao filme e narrativa pontilhada de humor negro, Kubrick mais uma vez provou ser aqui um cineasta à frente de seu tempo. “Minha loucura é bem controlada!”, brincou certa vez em entrevista ao crítico Michel Ciment.

Já pensou se não fosse?

* Este texto foi escrito ao som de: Slideling (Ian Mcculloch – 2003)

Ian

Diretores – François Truffaut

Ninguém falava tão bem sobre as mulheres com o cineasta francês

Ninguém falava tão bem sobre as mulheres com o cineasta francês

O cineasta francês François Truffaut é o príncipe da elegância cinematográfica. Eu sei, a frase é boa de doer, mas não é minha e sim do crítico Pepe Escobar. Nem precisa dizer que concordo com ele em gênero, número e, como dizia o atrapalhado Ibrahim Sued, em “degrau”. E tem mais, ninguém falava tão bem sobre as mulheres na tela como ele. Basta conferir meia dúzia de seus filmes para saber do que estou falando. E o diretor fez do tema da solidão na infância uma de suas obsessões. Sua obra-prima e um dos clássicos do cinema, Os incompreendidos, é a prova disso. Mas têm outros, como o telúrico O garoto selvagem, uma espécie de Mogli do cinema francês.

Bom, como todo mundo que gosta de cinema, cheguei ao Truffaut via nouvelle vague, o movimento cinematográfico francês do final dos anos 50 e início dos anos 60 que fez a cabeça de zilhões de pessoas mundo afora. De Glauber Rocha a Domingos de Oliveira. De Coppola a Bertolucci. Passando por Wim Wenders, Fassbinder e, veja você, até Steven Spielberg.

Eram os meus tempos de descobertas na faculdade e, impressionado com a postura anarquista de Godard nas telonas, me surpreendi ainda mais com o contraste de estilo de seu colega de câmera em abordar com sutileza e paixão, a poesia da vida cotidiana ou as diabruras do amor e do universo feminino.

Mas tem uma associação entre o Truffaut e o pessoal do Clube da Esquina que gosto muito e que, de certa forma, foi uma grande motivação para eu mergulhar ainda mais na obra do diretor francês. O filme Jules e Jim, que nem gosto tanto assim, é uma espécie de obra marco na carreira dos músicos do movimento, uma espécie de ponto de convergência entre todos eles e que mudou a vida de Milton Nascimento para sempre. Isso é o que conta o compositor Márcio Borges em Os sonhos não envelhecem – A história do Clube da Esquina e o resto, meu caro, é história. Cinema e música e vice-versa tudo a ver.

Os incompreendidosTop Five – François Truffaut

Os incompreendidos (1959’) – Primeiro filme de Truffaut que vi na vida e até hoje é o seu trabalho que mais me comove com a história meio que autobiográfica do jovem solitário Antoine Doinel (Jean Pierre-Léaud), espécie de alter ego do diretor. Vencedor do prêmio do Festival de Cannes em 1959, a obra foi o ponto de partida tanto para o cineasta, quanto para o ator.

O homem que amava as mulheres (1977) – O filme é uma declaração de amor às mulheres e o personagem do filme, que bem poderia enquadrar em qualquer trama de Nelson Rodrigues, é um dos meus personagens preferidos.

A noite americana (1973) – Um dos melhores exercícios de metalinguagem já realizados pelo cinema, o filme mostra com ironia e elegância os bastidores da fábrica de sonhos do cinema.

Jules e Jim (1962) – Um dos filmes mais românticos de Truffaut, confesso que subestimo um pouco essa obra que tem um valor sentimental afetivo por conta da associação com o Clube da Esquina.

A história de Adele H (1975) – Amante dos livros, Truffaut presta uma homenagem aqui ao grande escritor Victor Hugo, numa adaptação impecável e com atuação sublime da bela Isabelle Adjani. Vi o filme duas vezes no Cine Brasília, o templo do cinema em minha vida.

* Este texto foi escrito ao som de: Clube da Esquina (Milton Nascimento/Lô Borges – 1972)

Clube da esquina

“Dinossauros” no Espaço Cena

A segurança de palco dos atores Murilo Grossi e Carmem Moretzsonh é algo cativante

A segurança de palco dos atores Murilo Grossi e Carmem Moretzsonh é algo cativante

Há muito tempo que eu estava querendo assistir ao espetáculo Dinossauros, em cartaz na cidade em curta temporada no Espaço Cena, este fim de semana, em comemoração aos nove anos da montagem. Hoje é o último dia para conferir o trabalho dos atores Carmem Moretzshnh e Murilo Grossi sob direção de Guilherme Reis, antes de o trio ir para Portugal, onde participam de uma turnê teatral. Acho que só eu que não tinha visto a peça, mas na última quinta-feira, esse erro finalmente foi reparado para meu deleite. E que surpresa. Confesso que faz tempo que não via um texto tão bem interpretado. Aliás, há muito tempo que um texto no teatro não me emocionava tanto e quando saí da sessão a pergunta que me veio à cabeça foi: quem é esse Santiago Serrano, o autor? Que sensibilidade, que delicadeza!

Bem, do começo ao fim da trama a simplicidade impera em todos os quesitos e o segredo de Dinossauros mora justamente aí. Ou seja, tudo é menos, menos e menos. E por isso mesmo é que comove, sensibiliza e é de uma cumplicidade envolvente. No palco do intimista Espaço Cena, num primeiro momento, apenas um banco contra um fundo azul céu e uma mulher em estado aflitivo, é o ponto de ligação entre o público e a peça.

A fragilidade da figura sentada ali, nesse banco de praça, na calada da noite, é visível, incomoda e esse torpor de insegurança e impotência é quebrado com a chegada de um solitário estranho e seus pertences. Ele lembra a figura de um caixeiro viajante, com a maleta numa das mãos e um jornal debaixo do braço. E tudo o que ele quer mesmo é ler o seu jornal sob a luz simpática e convidativa de um poste. Mas sua figura pesada e triste assusta a jovem temerosa sentada nesse banco de praça, perdida em seus devaneios e tormentos.Espaço cena

Logo, os dois estranhos, que antes se comunicam por meio de gestos silenciosos que dizem mais do que palavras, dão início a um diálogo truncado, cheio de insinuações e suspense, mas aos poucos a distância virtual e simbólica que os separam é quebrada.  “Porque o silêncio me assusta”, justifica a jovem, interpretado por Carmem Moretzsonh com uma ingenuidade de corta o coração.

A cumplicidade, o entrosamento e a segurança de palco dos atores Murilo Grossi e Carmem Moretzsonh é algo que cativa desde os primeiros momentos de Dinossauros e, até por isso mesmo, não tem como se deixar levar pelos dramas desses personagens meio que beckettiano, meio que chapliniano, mas malditos em suas tragédias pessoais. “Sou um homem que apanha”, murmura o personagem de Murilo Grossi, quase sufocado em sua condição vergonhosa, num casamento à deriva. “Foi necessidade? Porque se foi por necessidade é menos grave”, se deixa enganar a jovem, após uma troça do companheiro de praça e banco, que se faz passar por foragido da polícia.

A doçura do texto de Santiago Serrano impacta, sobretudo nos dias de hoje, o que nos faz parecer que o dramaturgo escreveu a trama com a cabeça em uma época que não é a que vivemos. Mas numa época em que as pessoas trabalhavam em ferrovias, carimbava documentos em cartório e tocava acordeom do avô.

Emocionei muito com o espetáculo Dinossauros, que deixou solto em algum lugar da minha memória a recordação de algo que vi com essa proposta tão intimista e tocante em algum lugar. Não sei se no cinema ou no teatro mesmo. Uma pena eu ter levado tanto tempo para ver a peça. Sinto-me com a alma lavada. Não nada mais comovente, surpreendente e urgente do que o afeto entre os estranhos.

* Este texto foi escrito ao som de: Echo & the Bunnyme live in Liverpool (2002)

Echo Liverpool