Casa grande (2014)

O filme é uma reileitura moderna e urbana do clássico de Gilberto Freyre

O filme é uma reileitura moderna e urbana do clássico de Gilberto Freyre

O drama carioca Casa grande (2014), de Fellipe Barbosa, é no mínimo impactante e se faz assim de maneira simples e sofisticado. Sofisticado porque sintetiza um clássico da literatura nacional nas telas com estilo e delicadeza. E só quem leu Casa grande & senzala, vai entender que o filme é uma leitura “muderna” e urbana da obra de Gilberto Freyre. Eu, que li o livro, entendi isso e saí da sessão de cinema em êxtase. Até agora não consegui parar de falar do filme que está em cartaz ali numa das salas do Liberty Mall. Eu se fosse você, não perderia.

A casa grande do título não tem a senzala. Não fisicamente. Mas ela está representada, simbolicamente, não apenas na mentalidade direitista e hipocritamente conservadora da elite que perpassa a trama e dita as regras de conceito e comportamento. Mas também em pequenos detalhes do cotidiano, como a intimidade do filho de uma mansão de bairro nobre do Rio com a empregada da casa. Qualquer semelhança com as “safadezas” dos senhores das casas grandes, com relação às negras das senzalas, é proposital.

Bem, o diretor diz que não é bem assim, jura que o filme fala sobre um garoto que se transforma, enfim, uma figura frágil e vulnerável que esparge nas telas em pinceladas autobiográficas. Mas vai bem além ao, inconscientemente, refletir, a partir dessa figura simples e em conflito consigo mesmo e com seus familiares, sobre o Brasil de hoje.

Casa GrandeUm Brasil em crise, mas que não perde a pose. Pelo menos é o que a elite desse país parece demonstrar fazer. “Comunicação? Mas comunicação não é coisa de gente séria!”, retruca o pai vivido pelo ótimo Marcello Novaes, sugerindo que o filho faça Direito ou Economia. “Foi de onde saíram as melhores cabeças do Plano Real”, diz orgulhoso.

Contudo ele é um fracassado que vive de aparências e mergulha a família, por vaidade e orgulho, numa crise não apenas econômica, mas existencial. Jean, o filho mais velho é quem mais sofre com isso. A mensalidade da escola atrasa, o pai reclama o alto valor da conta de telefone e o tempo todo sobre as luzes acesas da casa. Um dia a mulher lhe passa uma pasta de dente vagabunda e ele resmunga, diante da explicação dela de que era a mais barata. “Barata você vai ver quando chegar a conta do dentista”, diz, preventivamente.

Daí tem a figura do motorista Severino, um homem simplório que gosta de matar o tempo livre tocando forro e que tem uma relação afetiva com esse jovem burguês gente fina, que lhe pergunta se ele tem as manhas para se chegar aos finalmente com uma garota. Um dia, por conta da crise familiar, Severino é demitido, e Jean tem que ir e voltar para escola de ônibus. O que para ele é uma aventura.

“Porque esse menino quer tanto andar de ônibus? Ninguém quer andar de ônibus nessa cidade”, comenta o pai arrogante. E é numa dessas viagens de buzão, entre a Zona Norte e Zona Sul, que Jean (Thales Cavalcanti) conhece uma bela jovem da periferia por quem ele se apaixona. Ela é inteligente, sensível, esforçada, mas pobre. Detalhe que pode ser um empecilho para relação dos dois. “Porque você pergunta isso? Por que eu estudo em escola pública? Por causa da cor da minha pele?”, questiona ela, que não é negra, mas parda, quando ele pergunta a ela como é morar na Rocinha, onde ela não vive.

Uma espécie de O som ao redor mais acessível, Casa grande é do tipo de filme que incomoda, faz questionar, refletir e fica rondando em sua cabeça durante um bom tempo, fazendo com que você se sinta um merda ou um nada. Duvido que tenha outro grande filme brasileiro dessa estirpe realizado no Brasil este ano.

* Este texto foi escrito ao som de: Rock ‘n’ Roll Sugar Darling (Thiago Pethit – 2014) Pethit

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