Fedora (1978)

Marthe Keller e Henry Fonda, o novo e o velho rosto de Hollywood

Marthe Keller e Henry Fonda, o novo e o velho rosto de Hollywood

Há quem diga que Fedora (1978), recentemente relançado pela Versátil Filmes, seja o último grande filme de Billy Wilder. Tenho lá minhas dúvidas, mas ainda assim é uma obra de mestre, trabalho em que ele, grande roteirista que era, externa aqui a angústia de ser artista e ser sugado pelo carinho do público. Mais do que isso, o desespero do peso da fama e de ser sugado pela máquina do sistema artístico. E da-lhe metalinguagem.
É a história de Fedora, uma atriz reclusa que é assediada por um produtor em decadência. Ela é vivida pela atriz suíça Marthe Keller. O produtor, que faz, é William Holden, e o ex-galã da época de ouro de Hollywood não está aqui de graça, já que protagonizou o clássico Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950), filme de Billy Wilder dos anos 50 onde ele debocha de seus pares.

Aqui ele se esforça para reerguer a carreira tentando convencer Fedora a aceitar o papel-título de Anna Karenina, o clássico de Tolstói que ele sonha em levar para as telas. Mas ela resiste em sair de seu exílio voluntário e, no decorrer da trama, vamos saber que é mais pelas pessoas que a cerca do que por si própria. Fedora

“É aborrecido ficar trancada com três mulheres sem álcool”, lamenta.

Logo a narrativa caminha para um clima bizarro, beirando o terror, onde a questão da identidade, da perda da privacidade e da juventude, enfim, da busca pelo sucesso eterno entra em voga com a confusão e os conflitos da relação entre mãe e filha. “Você não engana a natureza impunimente”, diz um dos personagens no velório de Fedora.

Escrito a quatro mãos com o parceiro das pretinhas I.A.L, Diamond, o filme traz uma das características célebres do cineasta Billy Wilder, o cinismo. Assim como em Crepúsculo dos deuses, o tempo todo ele tira sarro com o lado fake e ordinário do cinema, indústria que ele conheceu tão bem e fez fortuna e fama. Reza a lenda que o autor do romance homônimo, Tom Tryon, se inspirou na vida de atrizes reclusas e misteriosas para criar sua Fedora. Nomes como os das divas Greta Garbo e Marlene Dietrich, quem Wilder tentou trabalhar nesse projeto, são lembrados.

Falei em metalinguagem e são deliciosos aqui as pequenas participações do então jovem ator, Michael York, e o veterano Henry Fonda, na pele dele mesmo como o presidente da Academia de Filmes de Los Angeles. É o velho Billy fazendo troça com a nova geração do cinema à epoca e a velha guarda, da qual ele era um legítimo representante. Representante esse que cada vez mais, estava tendo dificuldade para mostrar não apenas o talento, mas o reconhecimento deste.

* Este texto foi escrito ao som de: Mona Bone Jakon (Cat Stevens – 1970)
Mona Bone Jakon

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