Um banho de Cleópatra

Entrou debaixo do chuveiro e dizem que até hoje não saiu de lá...

Entrou debaixo do chuveiro e dizem que até hoje não saiu de lá…

A sogra era um pesadelo de chata. Diria mais. De uma chatice atroz. Daquelas que justifica não só a rima, mas o caráter com a cobra. De modo que, quando Renata sabia que a mãe do marido estava chegando para o tradicional fim de semana com o filho, a cabeça começava a doer, sentia um mal-estar medonho no corpo com uma semana de antecedência.

– É espeto! – reclamava ela de si para si.

Carioca de nariz empinado e soberba de imperatriz de império, Dona Lígia era a típica matrona que não perdia a pose nunca. Mesmo depois que o marido engenheiro, após algumas empreitadas ruins, perdeu toda a fortuna que tinha, fazendo com que o padrão de vida da família caísse esmagadoramente. O velho ficara deprimido, tristonho, desnorteado, até que o coração, combalido, não aguentou de tanta amargura e pediu arrego. Infarto fulminante, às 3h hora da tarde, no centro da cidade, sob um sol de rachar catedral.

Sem se abalar, Dona Lígia arregaçou as mangas e foi à luta. Arrumou emprego de corretora, fez nome no mercado, andou fechando bons negócios e levantou a autoestima da família. A dela também que, apesar de não ter um padrão de vida que tinha ao lado do marido, vivia com dignidade.

Acontece que, quando ela olhava no retrovisor do tempo e mirava a vida de fausto e luxo que levava, e comparava sua trajetória com a das irmãs bem-sucedidas, lamentava se lembrando de uma frase do poeta modernista Manuel Bandeira, bem oportuna para a ocasião:

– Uma vida inteira que poderia ter sido e que não foi!Cactus

E talvez movido por esse sentimento de frustração que ela esbanjava o que tinha e o que não tinha, ostentando um estilo de vida que não era o seu, se passando pelo o que não era e vivendo num mundo de fantasia à parte que só o constrangimento das dívidas que contraia lhe fazia voltar à realidade. Suas viagens a Paris, por exemplo, era uma jornada nababesca com desfecho trágico no fim do mês.

Renata, sabendo de toda essa mise-en-scène que rondava os passos da sogra, se entediava quando ela voltava de suas viagens da Europa arrotando soberba, mas depois suando sangue para colocar as contas em dias. Não se esqueceu do dia em que ela lhe cobrou, na maior cara dura, o dinheiro de um perfume que ela comprara numa loja chique da capital francesa, logo depois de se exibir de como tinha conseguido almoçar num restaurante chiquérrimo depois de ter agendado no lugar com meses de antecedência.

– Que cactus! – dizia a nora, deprimente.

Eis que chega o fim de semana fatal e lá estão as duas no meio da noite trocando impressões, desabafos e repulsas veladas mútuas. Isso porque o filho ainda não tinha voltado do trabalho e Renata, na prisão de seu tédio, tinha que fazer sala à maldita sogra.

– Que inferno, socorro! – gritava silenciosa dentro de si, soltando raios fulminantes em direção à maçante visita.

Foi quando num rompante, Renata não se conteve e disse à queima roupa para cobra, digo sogra!

– Dona Lígia, olha a Amanda aqui que vou ali tomar um banho rapidinho!

Entre assustada e surpresa Dona Lígia tomou a neta pelos braços e se manteve num silêncio de cemitério. Renata, sem se abalar, entrou debaixo do chuveiro e tomou aquele banho de rainha Cleópatra.

Dizem até hoje que ela ainda não saiu do banheiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1968)

RC - 1968

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s