Adeus, Jota Pingo!

O artista gaúcho estava há mais de 30 anos radicado em Brasília

O artista gaúcho estava há mais de 30 anos radicado em Brasília

Para aqueles que não sabem, Jota Pingo era o pseudônimo de Carlos Augusto de Campos Velho. Eu não sabia disso e nem que ele era o irmão mais novo do ator Paulo César Pereio, quando fui entrevistá-lo, tempos atrás, em seu labiríntico lar, no Mercado Cultural, no Jardim Botânico, uma espécie de caverna de Ali Babá das artes com três andares e milhares de entradas e saídas para lugar nenhum, com milhares de entradas e saídas para todos os lugares. Na verdade eu nem sabia que ele era, de modo que tomei um susto com a figura extrovertida e encantadora, com aquele espaço diferente que era a cara do seu proprietário, ou seja, estranho, divertido, original.

Era ali que o ator, roteirista, dramaturgo, diretor teatral e agitador cultural gaúcho radicado em Brasília há mais de 30 anos vivia com sua família, sua arte, sua vida mundana, insana e brasiliana.

Autêntico, subversivo e inquieto, o velho Pingo agitou a cena cultura da cidade no final dos anos 70 e início dos anos 80 com irreverência e estilo inconfundível. Junto com a turma do movimento Cabeças, com os poetas Nicolas Behr e Chacal, entre tantos outros artistas emergentes e insurgentes da época, ele serviu de espelho, esteio para a garotada burguesa entediada com o marasmo que eles acreditavam existir na nova capital.

Um deles foi o imberbe Renato Manfredini Jr., que o esperto Pingo não titubeou e colocou em cima de um palco como uma das atrações da sua ópera rock, Último rango, em 1982, peça mítica e cult de uma Brasília que não existe mais, de uma Brasília que não vivi, de uma Brasília que ele sim, mesmo não sendo daqui, viveu e amou de corpo e alma.

Pois bem, fiquei sabendo da morte desse camarada das artes de Brasília via Facebook, via Zé Carlos, meu grande brother Braxíliado jornalismo, num sábado cinza de chuva tão triste quanto a notícia dessa perda. Perda irreparável, insubstituível… E, como não poderia deixar de ser, até na hora de morrer Jota Pingo foi irreverente, performático, diferente, no meio de um supermercado, cercado da mulher e netos, de gente que ele não conhecia, eternos espectadores da vida, do cotidiano que ele tanto adorava entreter com seu discurso direto e debochado.

Confesso que a ficha ainda não caiu, não dá para acreditar.  Tanta gente ruim e que não presta por aí e quis o destino levar embora logo o nosso Jota Pingo e agora, o que será de nós sem esse pingo de genialidade e inquietude nesse mar de mediocridade que é Brasília, cidade tombada pela sujeira política dos governantes?

Triste, meio desnorteado, fuço o Facebook e esbarro num texto brilhante e inconformado do meu amigo jornalista Carlos Marcelo que, assim como o nosso Jota Pingo, conhece e ama como poucos a nossa cidade. Inconsolado e tristonho, do velório do artista que acontece na 508 Sul, por onde ele esteve para homenagear essa grande figura da vida cultural da cidade, ele relata:

“Em cima do caixão, uma taça de vinho tinto. O anfitrião tem expressão serena, barba branca. Amigos de todas as idades se (re)encontram. Comida, bebida, cigarro, desenhos, mensagens de despedida. (…) Pingo falou que queria encher de vida aquele espaço: Ocupar a 508 Sul. Pois bem, olha o que você fez, Pingo: ao menos por uma noite, a 508 está ocupada”, escreve arrematando. “Quando vamos começar tudo de novo?”.

Bem, lá fora o vento frio do Natal surra a nossa cara e o fim de ano chega já com gosto de saudade de quem já se foi…  Quem dará o rango para os mendigos de nossa sociedade tão pobre e carente de cultura agora?

Adeus Pingo, vá com deus, ou seja, lá com quem for…

* Este texto foi escrito ao som de: Uma outra estação (Legião Urbana – 1997)


Uma outra estação

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