Assassinou os dois filhos e se matou

Chico Buarque e Paulo Pontes, autores da peça "Gota d'água", num tête-à-tête...

Chico Buarque e Paulo Pontes, autores da peça “Gota d’água”, num tête-à-tête…

Que eu me lembre, Gota d’água é a primeira peça de Chico Buarque que li até agora. E admito que, no começo, não gostei da narrativa, toda escrita em versos. Bom, ainda não li o texto até o fim, nem cheguei à passagem macabra que ilustra o título deste post, que só escolhi para chamar atenção, mas agora que vou lá pela metade do livro, já me acostumei com o tom lírico da prosa. E quer saber, foi uma engenharia “filédaputa”, escrever uma peça toda rimada. Coisas de Chico Buarque e seus parceiros infernais.

Dividida em dois atos, a peça, escrita em 1975 por Chico Buarque a quatro mãos com Paulo Pontes, é uma tragédia carioca suburbana inspirado numa adaptação moderna de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, para a televisão, da tragédia clássica Medéia. O texto original é de Eurípedes.

Conta a história de Jasão e o seu dilema moral depois que este conseguiu emplacar nas rádios, um samba melancólico que dá título à história. Ele estava envolvido com Joana, uma mulher simples da favela com quem teve dois pequenos, mas agora está virado, deslumbrado pela mimada Alma, filha de Creonte, o poderoso empresário imobiliário que é dono de um conjunto habitacional em que moram quase todos os personagens da trama.

O drama é que a maioria deles estão pendurados com o inescrupuloso proprietário das casas e o maldito sujeito está usando o pobre do Jasão para impedir de levar calote no seu negócio. “Não leve a mal seu Creonte, mas eu tenho outra solução, outra trilha para contornar o problema…”, tenta sair pela tangente nosso herói romântico, quando seu futuro sogro tenta jogá-lo contra seus amigos da favela. “Ela é dada a macumba, estou sabendo, tem gênio de cobra, pode criar problema e eu estou só me precavendo”, diz o velho canalha, botando fogo na situação a citar a ex-mulher do genro.Gota d´água 2

Não há como deixar de perceber o tom socialista da peça, o que causou, claro, sérios problemas com a censura, mas Paulo Pontes, co-autor de Gota d’água, tal qual seus personagens, soube contornar a situação obscura da realidade, driblando os censores com habilidade e tornando o texto um grande sucesso nacional. Maroto, Chico Buarque defendeu a classe reivindicando os direitos autorais na boca de seu alter ego, Jasão. “Tem problema com arrecadação, mas já tá provado que o nosso som tem força no mercado”, reclama.

Logo de cara, me chamou atenção, a força do personagem Creonte, vivido na montagem carioca pelo formidável ator Oswaldo Loureiro. Toda vez que leio a palavra, “rapaz”, dos seus diálogos, me lembro de suas atuações no cinema e na televisão. Malandro egoísta, mercenário e oportunista, ele não admite a hipótese de levar calote de um bando de miseráveis favelados. Mas não quer dar sua cara a tapa.

“Não queira sair por aí dizendo o que pensa”, diz ele ensinado as regras da vida ao futuro genro Jasão. “Diga o contrário, esqueça o nome de seu companheiro e cumprimente o pior salafrário, que ninguém é inútil por inteiro”, continua com sua filosofia de vida.

Bom, até onde estou ninguém matou os filhos e se suicidou, mas a história já está eletrizante o suficiente.

* Este texto foi escrito ao som de: Chico Buarque de Hollanda N. 4 (1970)

Chico 4.2

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