O palhaço que não ri (1957)

Maior rival de Charles Chaplin, Keaton morreu pobre

Maior rival de Chaplin, Keaton morreu pobre

Quem foi Buster Keaton (1895 – 1966)? Ninguém menos do que o maior rival de Charles Chaplin no cinema. Mestre na pantomima, o astro do cinema mudo morreu pobre e quase no ostracismo. Admito com sincera vergonha que nunca vi um filme dele na vida e a cena mais marcante dele que tenho em mente e numa rápida aparição em Crepúsculo dos deuses (1950), clássico de Billy Wilder em que o diretor ironiza com o estilo que é bem peculiar, dos grandes nomes do cinema em decadência.

De feições melancólicas, sua trajetória de apogeu e decadência foi contada no cinema em 1957 por Sidney Sheldon em, O palhaço que não ri, o escritor de romances policiais que pelo menos três vezes na vida se meteu a dirigir filmes. Ainda bem que foi pelo menos três vezes.

Protagonizado por Donald O’Connor, o eterno parceiro de Gene Kelly na obra-prima Cantando na chuva (1942), o filme é convencional, simplista e sem clímax. Não fosse o carisma e competência de O’Connor, eu tinha desligado a televisão antes dos trinta minutos de exibição.

Buster Keaton 2Na trama, várias passagens da trajetória de Keaton vêm à tona como o início da carreira com os pais, ainda menino, no vaudeville, os primeiros passos no cinema, quando este ainda estava engatinhando e criando os primeiros ídolos – Keaton – um deles, a decadência após a chegada do som nas telas, os problemas com a bebida.

Bom, li depois não sei onde, que o roteiro do próprio Sidney Sheldon distorceu, e muito, momentos críticos da vida do artista, dando um tom novelesco tão característico às cinebiografias não confiáveis. Prova desse embuste narrativo está no desfecho meloso e condescendente demais com o propósito de Keaton, que foi consultor técnico da fita.

À revelia dos problemas do filme, não há como passar indiferente à atuação de Donald O’Connor que, versátil, ágil e bom ator, consegue dá dignidade à figura pálida de Keaton, um palhaço de alma melancólica que, de fato, não ria, pelo menos externamente. Os momentos mais quentes dessa fita morna são aqueles em que o ator reproduz nas telas cenas marcantes de Keaton no auge da carreira, com as gags do sujeito perseguido por uma cidade inteira por conta de uma banana e piada do casal que não consegue dormi juntos.

De resto, não deixa de ser um trabalho que mostre, pelo menos para aqueles que nunca ouviram falar de Buster Keaton e seus contemporâneos, que um dia já existiu cinema sem som, onde a alma do palhaço, mesmo que melancólico, era o que tinha de melhor em cena.

* Este texto foi escrito ao som de: The greatest songs of the fifties (Barry Manilow – 2006)

Barry Manilow

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