O polêmico Flávio de Carvalho no CCBB

Para o artista plástico, Flávio de Carvalho, os saiotes dos escoceses eram mais apropiados aos brasileiros

Um dia desses vi na Globonews foto antiga, em preto e branco, de um sujeito de saia, andando pelas ruas de grande metrópoles, mas nem me dei conta de quem era porque a televisão estava com a opção muda acionada. Bem, se você ficou curioso também em saber quem era a excêntrica figura em questão, basta dá um pulinho no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) para confirir a exposição: Flávio de Carvalho – A revolução Modernista no Brasil.

De longe um dos nomes mais significativos da nossa cultura, artista plástico de mão cheia, Carvalho era também polemista nato. Tanto é que em 1956 trocou as calças por um saiote e saiu desfilando pelas ruas do centro de São Paulo para mostrar às pessoas que o traje era mais do que adequado para os países do trópico. Os escoceses que o diga.

De alma inqueita, o artista trilhou e brilhou em outros segmentos da arte e da ciências exatas, se dando bem como arquiteto, engenheiro, urbanista, pintor, desenhista, escultor, teatrólogo, cenógrafo, músico, radialista, jornalista, antropólogo amador e ainda como, nas palavras do amigo, Le Corbusier, “revolucionário romântico”.

E eu que nem sabia que Flávio de Carvalho existia, fui ao CCBB, vi e gostei da exposição que acontece até o dia 29 de abril no espaço. Mas não faz mal, não, eu não saaber que foi Flávio de Carvalho porque a gente vive para aprender mais e mais e mais e cheguei à conclusão que quanto mais a gente ler, mais a gente se informa, mas necessidade temos de aprender. “Sei que nada sei”, já dizia o filósofo grego, Sócrates.

Estão lá, nesse exposição bacana, os trabalhos mais importantes de sua trajetória, entre ele os retratos que pintou de amigos ilustres como, Sérgio Milliet, Mário de Andrade e a famosa e incômoda “Série Trágica – Minha Mãe Morrendo”, composta de sete desenhos. Aliás, esse quadro pintado do modernista Mário de Andrade é assustador porque Flávio de Carvalho conseguiu capturar a alma angustiada do autor de Macunaíma. Lembra aquele mito assustador desenhado por Oscar Wilde em O retrato de Dorian Gray e acho que o próprio Mário percebeu isso porque escreveu.

“Quando olho para o meu retrato pintado pelo Segall eu me sinto bem. É o meu eu convencional, decente, o que se apresenta em público. Quando defronto o meu retrato feito pelo Flávio, sinto-me assustado, pois vejo nele o lado tenebroso da minha pessoa, o lado que escondo dos outros”, observou o escritor paulista.

Gostei dos traços abstrato bem colorido dele, pré-tropicalistas, diria, e os desenhos em nanquim são angustiantes, perturbadores.

Bem, filho de pais abonados, Flávio de Carvalho foi cedo estudar na Europa e se lá não estivesse, teria participado como um dos mais ativos representantes da célebre Semana de Arte Moderna, que este ano completa 90 anos de existência. Mas ao chegar ao Brasil abraçou imdediantamente os ideais da corrente, tumultuando o cenário artistico de São Paulo e do Brasil com suas posições arrojadas.

Uma delas foi a criação do Clube dos Artistas Mordernos (CAM), iniciativa de 1932 que se rebelava e posicionava de forma independente diante de instituições acadêmicas como a Escola Nacional de Belas Artes. Na exposição do CCBB, essa rebeldia é mostrada de forma descontraída, dentro de trabalho cênico que lembra um boteco de beira de estrada.

Se você nunca ouviu falar em Flávio de Carvalho corra então ao CCBB para descobrir e aprender sobre a trajetória desse artista polêmico e visionário.

* Este texto foi escrito ao som de: Jorge Ben (1969)

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