O amor proibido de Padre Albano

O Padre Albano aí está entre a cruz e o pecado, em Roque Santeiro...

Escrito em 1875, o romance, O crime do padre Amaro, deixou a Igreja Católica enfurecida e o escritor português Eça de Queirós em maus lençóis por um bom tempo. Mesmo assim, o novelista baiano Dias Gomes não se deixou intimidar nem um pouco com o mau exemplo do colega de pena, recriando as fraquezas da carne do religioso lusitano na televisão brasileira no sucesso, Roque Santeiro, novela de 1985 reprisada agora no Canal Viva.

Esse bíblico tema do amor proibido é representado nas telinhas pelo moderno, Padre Albano (Cláudio Cavalcanti) e a rebelde filha de Sinhozinho Malta, Tânia (Lídia Brondi). Ele irrita os poderosos da cidade de Asa Branca e o amigo conservador de batina, Padre Hipólito (Paulo Gracindo), com suas posições e ideias revolucionárias, entre elas a reforma agrária, e por isso e por outras, é ridicularizado pelos inimigos como o “Padre Vermelho”, numa referência ao personagem das crônicas de Nelson Rodrigues.

Já ela é uma menina mimada de estopins curtos que vive às turras com o jeito de coronel do pai e se metendo em roubada quando o assunto são as agruras do coração. Juntos, eles irão dá um nó na cabeça da hipócrita sociedade em que vive, além de arrumar uma confusão tremenda com ser celestial.

Grande observador do cotidiano que o cercava e sempre disposto a botar o dedo na ferida que o incomodava, Dias Gomes, autor de novelas marcantes da nossa teledramaturgia, como Bandeira 2 (1972), O Bem Amado (1973), Saramandaia (1976), entre outras, também era um artista ousado e de veia anárquica. Comunista de carteirinha, sempre que podia e quando ninguém estava olhando, dava um jeito de espinafrar o status quo, as grandes instituições brasileiras. A falsidade mórbida da Igreja Católica era uma delas.

Logo, a cena de amor proibido entre a menina Tânia e o “Padre Vermelho”, não deixava de ser uma afronta ao establishment e, mesmo eu não sabendo quem era esse tal de establishment, gostava de ver o casal junto, torcia por eles. Sobretudo porque a música tema dos dois pombinhos era linda de morrer.

Cristo, toda vez que o Altay Veloso entrava em cena com sua voz de trovão cantando a baladona, Entra e sai de amor, me arrepiava todo e vou contar uma coisa para vocês, fantasiei muitos romances platônicos ouvindo essa canção.

Hoje, revendo as cenas de indecisão, culpa, repulsa e desejos correspondidos, mas não consumados, entre esse casal amaldiçoado, me delicio com os diálogos contundentes:

- Não foge, não, me olha de frente!, diz ela brava, com a indecisão do Padre. – Eu sei que você é de carne e osso, pondera a gatinha.

- Não sei se vou poder resistir, a minha Igreja é a Igreja dos fracos, diz ele com voz embargada.

Só quem sofreu os tormentos de um amor proibido para se solidarizar com o sofrimento dessa alma. Não me lembro de qual foi o desfecho da história do Padre Amaro, que até ganhou duas adaptações para o cinema, uma com o anão mexicano, Gael Garcia Bernal, muito menos do triste dilema do Padre Albano. Só sei que eu já passei por isso, mas o meu pecado era bem maior e hediondo do que o do Padre Amaro e Padre Albano. Eu era pobre.

* Este texto foi escrito ao som de: Roque Santeiro Volume 2 (1985)

Roque Santeiro está de volta

O casal símbolo de Roque Santeiro: Viúva Porcina e Sinhozinho Malta

Já disse uma vez e vou repeti. Não fazem mais novelas como antigamente. Vendo o remake vagabundo outro dia de O Astro, fiquei revoltado com a qualidade dos roteiristas e diretores de hoje que apostam em clichês, piadas prontas e no previsível. Em 1985 eu tinha apenas nove anos, mas ainda guardo nas lembranças imagens fortes da novela Roque Santeiro, que a partir de hoje será reprisado pelo canal por assinatura da Rede Globo Viva.

Se eu tivesse sorte, teria a chance de pegar a fase de ouro da nossa televisão, período de grandes sucessos como Selva de pedra, Pecado capital, Saramandaia, Escalada, Irmãos Coragem, Dacin’ Days, Bandeira 2, O bem-amado, Gabriela, Água viva, mas… Bem, peguei um pedaço dessa fase gloriosa.

Roque Santeiro foi um fenômeno da televisão brasileira. Se você tiver tempo, deixe de ver esses programas sensacionalistas e filmes bobocas que passam nos canais por assinatura e veja a novela escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva no canal Viva. O folhetim era inspirado numa peça do próprio Dias Gomes, O berço do herói, censurada na época da ditadura, ou seja, 1975. Neste mesmo ano, Dias Gomes teve a ideia de levar para as telinhas uma história dessa mesma peça com sutis alterações, novos personagens e título diferente: Roque Santeiro.

Ele pensava que com isso iria tapear os milicos e a ideia era até boa, acontece que os meganhas tinham grampeado seu telefone e a estratégia do grande novelista foi descoberta. Assim, mesmo com 30 capítulos já gravados, a Rede Globo teve a novela vetada. Convocada às pressas, Janete Clair, então mulher de Dias Gomes, teve que tirar da cartola uma nova substituta, Pecado capital.

Ambientada na fictícia Asa Branca, Roque Santeiro gira em torno do mito do personagem-título vivido pelo galã José Wilker. Coroninha com dom para escultura, Roque vira mártir depois de ser “assassinado” pelo temido Navalhada, bandido que aterroriza a pequena cidade nordestina.

Acontece que sua morte foi um embuste total e, como bom filho pródigo que é um dia ele retorna à cidade natal, causando um verdadeiro rebu, incomodando os poderosos. Entre eles o padre Hipólito (Paulo Gracindo), o comerciante de santinhos Zé das Medalhas (Armando Bógus) e o fazendeiro Sinhozinho Malta (Lima Duarte).

As personagens desenhadas por Dias Gomes e Aguinaldo Silva entraram para história da televisão e até hoje habitam o inconsciente imaginário popular. Difícil esquecer o poderoso “Sinhozinho” Malta andando de cachorrinho para lá e para cá da novela, com sua peruca torna na careca e lambendo as mãos da tinhosa viúva Porcina (Regina Duarte). Ou chacoalhando suas grossas pulseiras tal qual um chocalho de cascavel e dizendo seu bordão para quem quiser ouvir: “Tô certo ou tô errado?!”.

Eu gostava do romance entre o “padre vermelho” Albano (Cláudio Cavalcanti) e a gatinha Tânia (Lídia Brondi), sempre embalados pela baladona Entra e sai de amor, do desconhecido Altay Velloso. Aliás, esse camarada só fez isso na vida e depois puff! Desapareceu.

E os personagens secundários eram antológicos, um sundae, como o misterioso professor Astromar Junqueira (Ruy Rezende), que por traz de tanta formalidade e sisudez, escondia uma persona nebulosa porque como dizia a velha canção de Zé Ramalho: “Mistérios da meia-noite/Que voam longe/Que você nunca/Não sabe nunca/Se vão se ficam/Quem vai quem foi”. E ainda tinham o profeta Beato Salú (Nelson Dantas) e o clássico cego nordestino, o divertido Jeremias, vivido por Arnaud Rodrigues.

Como eu estava dizendo, não fazem mais personagens como antigamente.

* Este texto foi escrito ao som de: Zé Ramalho – Antologia Acústica (Zé Ramalho – 1997)