O mundo acabou! – Sessão nostalgia

Sou de um tempo em que não se usava e-mail, mas cartas...

Nem sou tão velho assim, mas sou do tempo em que se escrevia carta. Cartas de amor, cartas de amizade, cartas de despedidas, cartas de solidão. De um tempo em que as amizades se formavam ao sabor do sincero afeto, da espontaneidade solícita, do coração verdadeiro. De um tempo que não era preciso ser filho de diplomata ou andar com uma gravata italiana para cima para ou para baixo para solidificar amizades eternas, nem mesmo ostentar poderes biônicos.

Como todo mundo, eu escrevia cartas e as enviavam naqueles envelopes pequenos que tinha as cores do Brasil. Lembro que quando sair da minha cidade para morar em Brasília, para ganhar a vida, tentar a faculdade, singrar novos horizontes, matava saudades dos amigos, da família, da namorada com as cartas que escrevia e mandava nesses envelopes com as cores do Brasil.

Não, na época e-mail, o correio eletrônico ainda era uma novidade estranha, restrita às poucas almas, utilizados mais para fins profissionais. Hoje temos não só o e-mail, mais também o facebook, o MSN, o twitter e não sei mais o quê. E o mais curioso é que, embora estejamos inteiramente conectados, nunca nos sentimos tão só nos dias de hoje, perdidos nessa solidão das redes, do vazio cibernético, da superficialidade virtual.

Lembro que quando a gente escrevia essas cartas que enviávamos pelos envelopes com cores, verde e amarelo, como elas demoravam chegar, Santo Cristo. Levava semanas e semanas para que elas chegassem e fossem respondidas. Talvez por isso que os laços afetivos eram mais intensos, sólidos, sinceros. E tinha todo um ritual que era ir ao correio, passar a cola arábica no envelope, comprar o selo, selar a carta com a mesma cola arábica e aí, sim, enviá-la ao destinatário.

Um pouco dessa nostalgia das coisas, dos momentos inesquecíveis podem ser relembrados no livro O mundo acabou!, do jornalista Alberto Villas. O título, lançado em 2006, pela editora Globo, estava esse tempo todo escondido na minha estante, até o dia em que vi uma entrevista com o autor na TV Câmara outro dia. Gostei do bate-papo, fiquei com vergonha e resolvi limpar a poeira do livro e começar a ler. Já estou terminando e, tal qual uma madeleine, muito da minha infância e adolescência foram revisitados ao folhear essas páginas.

...De um tempo em que a estrela do Fantástico era a zebrinha da loteria esportiva...

Mineiro de Belo Horizonte, com passagem por Brasília e Paris, Alberto Villas hoje faz parte da equipe do Fantástico, o programa dominical da Globo que um dia, como a Sessão da Tarde, o Vale a pena a ver de novo e as novelas da emissora carioca, já foi bom, muito bom. Isso eu sei por que eu era de um tempo em que o Fantástico tinha a zebrinha da loteria esportiva, os clipes musicais com as novidades nacionais e internacionais, quadros com o Chico Anysio e o Luiz Carlos Miele, e apresentadores como o Léo Batista e o Cid Moreira. Não esse almofadinha exibido e afetado do Zeca Camargo.

Bem, em O mundo acabou!, Villas não fala sobre o Fantástico, claro, mas apela para a memória emotiva, afetiva que cada um de nós temos guardados em algum lugar do nosso incosnciente e, cheio de nostalgia, constrói um divertido mosaico de sensações visuais, sonoras e físicas.

Assim, junto com o autor, vamos recordando dos tempos em que víamos o indiozinho da TV Itacolomi (um índio que mudava de “tribo” de acordo com a região) aparecer nas telas de cada lar antes da programação de todo o dia, de quando brincávamos no fundo do quintal com os primos – que chamávamos não de quintal, mas de terreiro -, e de quando andávamos pelas ruas da cidade na monark pneu balão.

Do tempo em que tomávamos não Coca-Cola ou Guaraná Champagne Antártica, nem mesmo o de laranja Fanta, mas o seu concorrente Crush, que vinha numa garrafa toda estilosa, mas também de quando íamos à feira com o papai ou a mamãe para comprar um frango ainda vivo que iríamos traçar no almoço de domingo.

...E íamos dormir cedo com medo do bicho-papão, embrulhados nos cobertores Parahyba...

De uma época em que se batia Neocid para matar os insetos em casa e os piolhos que passeavam pela nossa cabeça. De quando os Beatles faziam sucessos nas paradas junto com os Rolling Stones, mas também o quinteto  Herman’s Hermits, com os sucessos No milk today e Bus stop. Muita gente ainda guarda em casa aquele vinilzinho com duas faixas de cada lado. Eu não sou dessa época, mas tenho um em casa.

Do tempo em que novela boa era Roque Santeiro e Vale tudo e que o carro da moda eram os imponentes Aero-Willys e Simca Chambord, além do Corcel 73 e da camionete Rural. Numa época em que fazíamos tarefas e trabalhos da escola com folha de papel almaço e levava merenda em lancheiras. De quando comprávamos os presentes nas lojas Jumbo, aquela com a logomarca do elefante, e íamos para cama bem cedo, com medo do bicho-papão, depois de tomar aquela gemada, embrulhados nos cobertores Parahyba.

De um tempo em que a inocência era o verdadeiro bálsamo da vida e a maldade na tinha endereço.

* Esse texto foi escrito ao som de: Tudo novo de novo (Paulinho Moska – 2003)