A história da eternidade (2014)

Mais uma vez o ator Irandhir Santos rouba a cena em uma produção nordestina...

Mais uma vez o ator Irandhir Santos rouba a cena em uma produção nordestina…

Por algum motivo que desconheço, os filmes nordestinos são mais viscerais e verdadeiros que os do “Sul maravilha”, ao retratar os conflitos mefistofélicos da alma. Isso é fato. Peguemos, por exemplo, este A história da eternidade, do pernambucano Camilo Cavalcante, que ficou em cartaz um bom tempo ali no Cine Brasília, mas que só agora tive oportunidade de ver outro dia ali no Canal Brasil. Um espetáculo de desconforto. Uma espécie, assim, digamos, de Cláudio Assis lírico.

No interior do nada do sertão nordestino, moradores de um lugarejo inóspito nutrem estranhos sentimentos de várias naturezas entre si. É como se a áurea seca, abrupta e cortante do lugar fizessem com que eles se digladiassem entre si moralmente. O problema é que, como num conto de Nelson Rodrigues, ninguém escapa moralmente dessa história.

Há de tudo. O chefe de família conservador e puritano que não aceita indecências e coisas erradas em sua casa, o cego músico ardente de desejo pela mulher que foi abandonada pelo marido depois da morte de um filho, a avó carola que se flagela no escuro da igreja depois de se surpreender vendo uma revista pornográfica. O neto que vem fugido desse “Sul maravilha” superficial corrompido pela violência do sistema das grandes cidades. A sobrinha sonhadora que alimenta a chance de um dia ver o mar, tal qual aquele personagem de Deus e o diabo na Terra do Sol. E aqui a referência glauberiana é mais do que pertinente, para quem conhece a trajetória do menino Camilo Cavalcante, que exibiu vários de seus curtas-metragens ali no Festival de Brasília, que começa mais uma edição amanhã.

Um dos destaques do elenco, claro, como sempre, é o ator Irandhir Santos, com um personagem que, com sua esquizofrenia epilética confrontante, representa a sensibilidade e o juízo lírico deste lugar que parece não ter alma. A cena dele dançando sob um sol de rachar catedral, ao som de Secos e molhados, é uma das mais belas do cinema contemporâneo.

* Este texto foi escrito ao som de: 13 (Blur – 1999)

Blur 13

 

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