Teorema (1968)

teorema

No filme, o estranho Terence Stamp é um jovem que invade a rotina de uma família burguesa de Milão, deixando marcas indeléveis na moral de cada um

Homossexual com convicções marxistas-cristãs, Pier Paolo Pasolini foi um dos nomes mais polêmicos do cinema dos anos 60 e 70.  Autor do roteiro de Noites de Cabíria (1957), de Federico Fellini, estreou na direção com Acattone (1961). Rodado no final dos anos 60 a partir de livro homônimo de sua autoria, Teorema acirra o discurso do artista sobre a luta de classes e birra contra o capitalismo numa narrativa alegórica triste e soturna. O filme já começa tenso.

“Essa novidade trata-se de um fato isolado ou será uma tendência do mundo moderno?”, provoca um repórter, nas cenas iniciais da fita, quando um grande empresário de Milão doa sua fábrica para os operários.

O que se vê na sequência é o desmantelamento da família quando um estranho forasteiro (Terence Stamp) passa a fazer parte desse lar pequeno-burguês não apenas na condição econômica, mas também ideológica. O empresário desiludido, a esposa solitária, os filhos oprimidos pela visão capitalista, enfim, até a empregada meio perdida nesse ambiente tão distante de sua realidade são corrompidos por essa figura misteriosa e seus jogos libidinosos.

A narrativa seca e sem mise-en-scène oferecida por Pasolini não nos permite entender se o jovem rapaz era um empregado da fábrica ou uma alma solitária arrebatada pelas ruas de Milão em busca de uma aventura a mais. O que se percebe, nas entrelinhas, é que a nuance freudiana que perpassa a vida dos personagens aqui entra em choque com a análise política feita pelo cineasta na época.

Como acontecia com todos os filmes de Pasolini, essa visão pessimista da sociedade italiana sintetizada a partir de uma família abastada, mas caótica, chocou os hipócritas de plantão. Sobretudo a igreja. Algumas cenas do filme são incômodas nesse sentido, como aquela em que uma elegante Silvana Mangano saí pelas ruas à cata daquilo que não encontra em casa. Sem falar da censura aos mitos, políticos e religiosas, ironizada na cena da empregada santa.

* Este texto foi escrito ao som de: Listen without Prejudice (George Michael – 1990)

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