A Mentira – Nelson Rodrigues

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“Toda família tem um momento que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo”, filosofa o autor de “A Vida Como Ela É…”.

Foi a mais rodrigueanas das minhas musas quem me deu a dica, ou seja, me fez lembrar que na minha estante mágica eu tinha esse romance de um dos meus autores preferidos, há tempos ali hibernando. Tanto tempo que nem lembrava mais. Lançado em folhetim em 1953, trata-se do primeiro romance que assina com seu nome, sem a maquiagem dos pseudônimos, e estrou a Coleção Baú do Nelson Rodrigues, lançado pela CIA das Letras nos anos 2000.

O texto é de uma fúria impactante, com seus diálogos ousados e frases suicidas geniais. Isso porque, com ama ingenuidade de kamikaze, Nelson Rodrigues quebrava tabus revelando as histórias e os desenlances das subtramas dessas histórias de uma família classe média carioca padrão que era e continua sendo o espelho de qualquer família suburbana.

“Toda família tem um momento que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo”, sentenciou certa vez, no alto do seu cinismo. “A família é o inferno de todos nós”, arrematava meio que pisoteando em cima do cadáver.

Desse modo, na família de Dr. Maciel ninguém presta, ninguém é moralmente decente. A começar por ele, o chefe da família que, de “Doutor”, só tinha mesmo esse título, mais falso do que Jesus Cristo de cinema. Depois de levar a caçula ao médico, vem o susto: “Sua filha vai ser mãe”, diz o médico, depois de lamentar os catorze anos da guria.

Pronto. É a deixa para Nelson Rodrigues mergulhar num enredo onde, como o título denuncia, a mentira surge como personagem impiedoso, sempre circundado pelo fantasma do pecado, da culpa e da lascívia. Lolita em sua pureza diabólica, Lúcia nega em dizer quem foi o autor do “crime”. Possesso, Dr. Maciel sobe pelas paredes, baba na gravata e inferniza a vida da esposa, para ele uma lesma, das filhas e genros, um bando de pusilânimes.

No imaginário criado pelo autor, todos são culpados e criminosos até que prove o contrário. O que não deixa de ser verdade na vida real. Só que na vida real somos protegidos pela hipocrisia do cotidiano, o cinismo de uma verdade mentirosa. Aqui, possuído por uma teatralidade ululante e arquitetura dramática precisa, Nelson Rodrigues cria climas e suspenses cinematográficos caóticos, dominando com maestria a psicologia dos dramas da alma humana.

A moral da história vem envolvida numa áurea de farsa da vida privada, onde nada é o que aparente ser, sobretudo as pessoas. E como todo gênio que se presa, o autor tem pleno domínio de seu universo, a ponto de se repetir, no bom sentido, no que diz respeito a situações e os personagens impagáveis.

Alguém certa vez disse que Nelson Rodrigues era o nosso Dostoievski. Para mim Nelson Rodrigues é melhor do que Nelson Rodrigues.

Este texto foi escrito ao som de: Alucinação (Belchior – 1976)

belchior

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