Vampiros de Almas (1956)

bodysnatchers 1956 review

Filme de ficção científica com clima de terror dirigido pelo mestre Don Siegel era contundente metáfora contra o comunismo

Você conhece o cineasta Don Siegel de filmes como Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971) e, claro, Alcatraz – Fuga Impossível (1979), ambos com Clint Eastwood. Mas, bem antes disso, ele já andava aprontando em Hollywood, realizando trabalhos de peso, mesmo que com pouco orçamento e produção matusquela. Um desses êxitos é o clássico dos filmes B, Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956), minha dica neste Halloween.

“Mas espera aí, Vampiros de Almas não é filme de terror, mas ficção científica”, dirá algum espírito de porco, e talvez seja, talvez não, depende do ponto de vista. Eu o chamo de suspense de terror de ficção científica. Baseado numa série da revista Collier’s Magazine escrita por Jack Finney, o filme é um dos prediletos de Martin Scorsese por, entre outras coisas, surgir como metáfora do clima político da época.

“Eu era jovem, mas a Guerra Fria causou uma grande impressão em mim, no sentido de ser possuído como em Vampiros de Almas. Era pior do que ser morto, de certa forma, porque pegavam a sua alma. Arrancavam sua mente. Era isso que nos diziam sobre os comunistas, quando éramos crianças”, confessou o cineasta no livro Conversas, de Richard Schickel.

Na trama, o médico interpretado por Kevin McCarthy, é bombardeado com a notícia de que a pequena Santa Mira, Califórnia, cidade onde vive, sofre de uma espécie de delírio coletivo. Todo mundo que esbarra pela rua lhe confidencia que um parente ou amigo não é mais a mesma pessoa, mas possuída por uma espécie de persona maligna. “Aí é que está. Não é visível. Mas sei que não é ele porque não tem emoção”, tenta explicar uma jovem sobre o tio.

Logo uma discussão sobre paranoia e razão, realidade e delírio é deflagrada à sombra dessa estranha neurose coletiva, trazendo à tona, mesmo que de forma velada, os sufocantes fantasmas de um tempo. “Deve ser por causa dos problemas do mundo”, tenta explicar o médico, sem bem entender direito o que está acontecendo. “Talvez por causa das reações atômicas”, emenda, quando vislumbra uma ameaça alienígena.

Sim, uma ameaça que vem dos céus prometendo uniformizar as ideais, sentimentos e emoções de todos por meio de vagens gigantes. Basta dormir para a alma ser vampirizada e um clone surgir destituído de amor, ambição e fé. “Sem essas coisas a vida é tão simples,”, argumenta um dos alienígenas que clonou a alma de um dos moradores dessa pacata cidade desnorteada. “Quero amar e ser amada” desespera-se a romântica namorada desse médico-herói vivida por Dana Wynter.

A história, contada em flashback, prende a atenção do expectador do início ao fim e, apesar dos efeitos técnicos rudimentares, passa um clima sufocante de claustrofobia e medo diante da histeria ideológica reinante naqueles tempos de Guerra Fria. “Vocês serão os próximos”, diz desesperado o médico com a câmera em close em seu rosto transtornado. Alguém duvida?

* Este texto foi escrito ao som de: Bryter Layter (Nick Drake – 1970)

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