Uma vida cheia de som e fúria…

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“De repente, no meio da tarde, um beijo molhado com gosto de saudade matada”

A vida é cheia de som e fúria. Foi o que descobriu quando leu o seu primeiro Faulkner. Depois soube que se tratava de uma frase de Shakespeare, quando o bardo inglês ironizava sobre os contrastes da vida. Ou seja, beleza e escuridão. Felicidade e melancolia. Enfim, algo como borboletas líricas e um deus da carnificina bailando dentro de si. Tudo ao mesmo tempo.

De repente, no meio da tarde, um beijo molhado com gosto de saudade matada lhe fez tremer por dentro. Envolvido pelos braços cálidos e firmes dela, teve vontade de chorar, a alma quase derreteu de desejo. Enfeitiçado por seu cheiro de George Harrison’s Song, não conseguiu conter as lágrimas. Apesar da mágoa que guarda, ela ainda mexe com ele como se fosse aquela eterna musa renascentista de sua adolescência, seu amor platônico de sonhos distantes. A vontade que tinha era de descansar para sempre em seu corpo perfeito feito de carne e ternura. Mas o deve lhe chamava… Ignara opressão do sistema…

O príncipe do ridículo, com seu semblante de Maomé de quinta, é uma sombra em seu caminho. Ele não consegue enxergar a razão desse deslumbramento boboca dela diante do irrisório, banal e patusco. Num piscar de olhos, e lá foi ele descartado tal qual uma reles tampinha de refrigerante. Ela sempre faz isso, lhe troca pelo primeiro idiota que aparece em sua frente. “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”. Shakespeare novamente, agora sem filtro…

…Mesmo assim, ela é uma febre terçã em seu coração, mente e estômago… E o gosto molhado de seus beijos não lhe sai da cabeça, não quer tirar o cheiro do corpo dela que ficou impregnado no seu…

À noite, no conforto do seu lar reflete. Nada lhe dá mais prazer na vida do que o conforto aconchegante de seu quarto cheio de livros, músicas e filmes. Só faltou ela, com seu corpo transcendente cheio de sardas e pintas, curvas deliciosamente de malícia e encanto. Um sorriso de arco-íris irradiante na boca. Sim, a vida é mesmo cheia de som e fúria…

(Ela é a musa do nono andar. A que fica do outro lado da rua. Não sabe seu nome, não sabe o que ela faz, não sabe nada, apenas que ela deixou seu perfume impregnado em suas entranhas, em sua existência, na parede mais recôndita de sua memória como se sua vida dependência dessa essência, dessa fragrância).

…Os doentes e os mortos da sua mãe, a solidão sufocante e deprimente de seu pai, de repente, uma vida toda que poderia ter sido e que não foi… Só lhe resta, então, como afago, a deliciosa fantasia da presença de sua musa de curvas delirantes e sorriso mágico, a anestesiante playlist do seu spotify formidável, que lhe salva a alma todas as noites como um sagrado remédio… Convicto dessa certeza, ele dorme então abraçado com o rechonchudo ursinho Godard imaginado que é ela que esta ali, com a contagiante mentira de sua presença…

* Este texto foi escrito ao som de: The Gilded Palace of Sin & Burritos (The Flying Burritos Brothers – 1969)

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