Fim – Fernanda Torres

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No seu livro de estreia a atriz Fernanda Torres se mostra uma escritora inteligente e sensível a trazer uma reflexão pessimista, mas divertidamente lúcida sobre a velhice….

A morte… Eis aí a única certeza que temos na vida. Mas até lá, infelizmente, vamos enfrentar, pelo caminho, o peso ingrato da velhice, essa quimera insana que baila, irremediavelmente, em nosso destino. “Que a terra lhe seja leve, já que a vida foi pesada”, já dizia, se não me falha a memória, Machado de Assis. E se não for o Bruxo do Cosme Velho, whatever…

…Enfim, no ótimo romance de estreia da atriz Fernanda Torres, Fim, tanto o sentimento amargo de finitude, quanto o da velhice, surgem como reflexão sarcástica da vida. São trajetórias marcadas por excessos e certa nostalgia confrontada com a decadência do corpo e a demência da mente. “Não notei a velhice chegar. É traiçoeira, a danada”, diz Ribeiro, um dos cinco personagens masculinos do livro que norteiam a trama engenhosa da autora estreante.

Os outros quatro são Sílvio, Neto, Ciro e Álvaro, este último, a primeira persona que nasceu da imaginação da autora depois de uma encomenda do diretor Fernando Meirelles para um projeto televisivo que não vingou. Mas, empolgado com a escrita irônica, incisiva e de um pessimismo lúcido de Fernanda Torres, o diretor de Cidade de Deus resolveu mostrar o que leu para o editor da Companhia das Letras e o resultado é esse livro inteligentemente instigante.

Instigante por conta da ousada estrutura narrativa do livro que entrelaça, por meio do fluxo de consciência dos personagens – do berço até a morte -, várias histórias que podem ser contadas a partir de perspectivas diferentes. Ou seja, a mesma situação narrada de outros pontos de vistas. Isso porque elas não surgem apenas através dos cincos protagonistas em questão, mas por figuras que fazem parte da órbita deles. Um vai puxado o outro.

Então, são esposas emputecidas, filhos negligentes, amantes loucas, enfim, tem de tudo. Todos, tipos cariocas oriundos dessa fauna chamada Copacabana, que parece ser a síntese do que há de mais degradante, divertido e estranho da relação e comportamento humano. “Considerada paga a dívida moral com a cria, não iria ao enterro nem morta. Tinha o direito de retornar ao paraíso de sua solidão”, diz o narrador sobre Irene, a esposa magoada de Álvaro.

O humor cáustico, pessimista, mas filosoficamente realista de Fernanda Torres é contagiante. Tem influências dos personagens cômicos que a atriz interpretou no cinema, teatro e televisão, mas também ressonâncias da escrita de grandes observadores da natureza humana como Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e o mais nítido deles, Rubem Fonseca. Impressionante a veracidade e paixão com que ela dá vida aos dramas dos personagens masculinos.

Lendo essas histórias cheias de dramas cômicos, parece que estarmos rindo, o tempo todo, de nossa própria desgraça iminente que é a velhice. Um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

* Este texto foi escrito ao som de: Porcupine (Echo & the Bunnymen – 1983)

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