De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo – Arthur Dapieve

cartola

Mas me diz, o que fazer quando você se identifica com o personagem a ponto de achar que a história foi escrita para você

A vida é um moinho e estamos sempre à beira do abismo, já ensinava o mestre do samba Cartola, mas parece que o personagem Dino, do romance, De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo, escrito pelo jornalista Arthur Dapieve, não tomou isso como lição. Daí a agonia latente na qual o publicitário mergulhou ao se apaixonar, loucamente, pela ninfeta Adelaide, uma ruivinha infernal de demolir catedrais. Claro, a referência óbvia é Lolita de Nabokov.

Mas a ideia de ler esse romance escrito por um dos nomes mais expressivos da imprensa cultural me suscitou algumas hipóteses. A mais deliciosa delas seria o deleite de encontrar nas entrelinhas da trama, inúmeras referências musicais e literárias do autor de títulos como BRock – O Rock Brasileiro dos Anos 80 e Renato RussoO Trovador Solitário, a primeira biografia do roqueiro brasiliense. O que de fato aconteceu com Michael Stipe, do  R.E.M., aproximando o casal da história logo nas primeiras páginas ao som de It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine ).

A outra hipótese resvalou num efeito sensorial afetivo, pois era o jeito que eu encontrei de estar mais próximo da pessoa que me indicou ao livro. “Pedra de Bolonha” de Goethe, se é que me entendem. Contudo, o que fazer quando você se identifica com o personagem a ponto de achar que o livro foi escrito pra você?

A princípio, me incomodei e até assustei com tom machista da narrativa, com esse publicitário decadente preso a um casamento morno, sedento de desejo e fome de viver diante de uma “carne fresca”. Mas, inconscientemente, havia outra coisa que me incomodava que só percebi ao me enveredar mais nas aventuras de Dino e sua musa teenage. A identificação com o personagem.

Não na parte do envolvimento de Dino com uma adolescente, mas na sua agonia de coroa decadente insatisfeito com o trabalho e no que diz respeito à baixa autoestima diante do peso da idade. O que leva ele e eu a comportamentos obsessivos, infantis e imaturos. Em vários momentos do livro foi como estar diante do espelho… Bem, vou tentar me curar dessa crise do ego buscando na minha farmácia auditiva uma série de pílulas sonoras…

Ainda bem que Satanás inventou o Spotify…

Este texto foi escrito ao som de: Tellin’ Stories (The Charlatans – 1997)

charlatans

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