“Cinema Novo”(2016)

 É fato. Os filmes brasileiros só ganharam projeção internacional com o “Cinema Novo”, o movimento cinematográfico dos anos 60 que redescobriu a realidade brasileira por meio de trabalhos críticos, dimensionando a figura do cineasta a um status de guardião da sociedade. É isso e muito mais o que mostra o belíssimo documentário de Eryk Rocha, que, além de uma homenagem à figura de seu pai, um dos ícones do movimento que ajudou a criar, presta reverência a toda uma geração de realizadores do audiovisual.

São quase 20 autores entre cineastas e diretores de fotografias, entre eles Nelson Pereira do Santos e Ruy Guerra, além dos mestres da imagem Mário Carneiro e Dib Lufti, todos diluídos num relicário de cerca de 130 filmes pesquisados. Impressionante a leveza da montagem de Renato Valloni que conseguiu condensar essa multidão de imagens num trabalho coeso e honesto. O público nem sente a hora passar.

Um jornalista francês em Cannes criticou que o filme não explicava o que era e o que representou o movimento para o público, mas não é verdade. Mesmo apostando numa abordagem experimental, lírica, enfim, num filme de montagem, Eryk Rocha consegue mostrar como nasceu o movimento, o auge com projeções e reconhecimento nos festivais de cinema da Europa, os filmes como uma radiografia de um país em conflito, a ruptura desse grupo com o endurecimento da ditadura.

Mas faz isso deixando que cenas dos filmes do Cinema Novo e os cineastas que os fizeram contem o que foi o movimento naquele Brasil conturbado. Um Brasil, diga-se de passagem, bem parecido e que dialoga com o Brasil de hoje, como bem afirmou o talentoso Eryk Rocha.

“O cinema brasileiro tem duas raízes: a Bahia eos CPcistas”, diz em dado momento Glauber Rocha, se referindo ao Centro Popular de Cultura (CPC), grupo oriundo da União de Estudantes, a gênese do Cinema Novo. “O movimento acabou quando a ditadura transformou os filmes do Cinema Novo em projetos individuais, essa é a verdade”, decreta o sempre realista Cacá Diegues.

Encanta ver as raras imagens do grupo unido explicando o que é o Cinema Novo e falando do Brasil daquela época. Para quem é um grande fã do Cinema Novo, esse documentário é um deleite do começo ao fim. Deu vontade de sair da sessão e revisitar, rever muitos dos filmes do movimento que virou de ponta cabeça o cinema brasileiro e que até hoje influencia novos cineastas.

Como disse o próprio Eryk Rocha ontem no palco do Cine Brasília: “Que esse filme vire rua, vire manifestação”. Tomara,

* Este texto foi escrito ao som de: Some Friendly – The Charlatans (1990)

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