Aquarius (2016)

Aquarius

No filme, Sônia Braga vive uma mulher que bate de frente com a especulação imobiliária ao não querer se desfazer de suas raízes afetivas

Não vá com muita sede ao pote porque Aquarius, o novo filme sensação de Kleber Mendonça Filho, não é lá a sétima maravilha do cinema nacional. Pelo menos não do jeito que a crítica especializada está pintando ou quer que seja pintado. Ou seja, como bandeira ideológica de um momento político. Há muita superestimação em torno de um diretor que meio que se contradiz no seu discurso crítico social.

Sim, se contradiz porque ele e boa parte do público burguês que está indo conferir o filme fazem parte de uma elite esnobe e soberba que é retratada na tela. Uma elite soberba e esnobe que finge em lutar pelos fracos e oprimidos, o lado esquecido da sociedade. Há muita hipocrisia no filme, no que diz respeito ao discurso, como há muita falsidade nas relações humanas, políticas e sociais no Brasil.

Na trama, Clara (Barbara Colen/Sônia Braga), é uma mulher que venceu o câncer patológico da doença e agora enfrenta o câncer da realidade brasileira com seus problemas sociais conduzidos pela arrogância da classe dominante e do poder econômico. Uma triste situação esmiuçada quando ela, apegada a um apartamento à beira da Praia de Boa Viagem, localizada no edifício Aquarius, área nobre do Recife, não quer ser render a pressão da especulação imobiliária.

“Você fez curso de business, mas não tem formação humana, nem de caráter”, diz ela ao engenheiro civil de mais um espigão que será levantando perto de sua casa.

Um dos jovens diretores brilhantes da cena cinematográfica de Pernambuco, Kleber Mendonça Filho foi durante muito tempo figura cativa no Festival de Cinema de Brasília, onde abiscoitou vários prêmios com seus curtas-metragens inteligentes e questionadores. Um estilo que mantém desde que começou a filmar longas-metragens. Depois da aclamação de público e, sobretudo, de crítica, com “O Som Ao Redor”, ele volta à baila com o polêmico Aquarius.

 Não há dúvidas de que seu novo projeto é um filme sério, contundente e necessário, sobretudo quando põe em xeque as mazelas do poder público e revela, de forma sensível e inteligente, o fosso que separa os dois brasis em que vivemos. O Brasil da soberba e o Brasil da pobreza. Uma pena que essa reflexão seja banalizada pela rixa ideológica atrasada na qual vivemos hoje.

Usar o filme como bandeira política nos dias de hoje empobrece o cinema nacional.

* Este texto foi escrito ao som de: The Stone Roses (1989)

The Stone Roses

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