À deriva… Sufocado até o pescoço…

À deriva

“Se sentindo à deriva em alto mar longe dos braços dela, tão confortante quanto a segurança de uma margem depois do perigo”

À deriva no meio do oceano… Sufocado pela água até o pescoço, respiração ofegante, coração fraco, o limite é um sinal de morte. De morte… Será que ele vai conseguir chegar até o outro lado da margem que são os braços dela?

O clima é de angústia no meio do mar, a luta desenfreada pela sobrevivência, e, de repente, do nada, um movimento de onda, a soberba de quem tem o controle da situação, o mar é esnobe em sua imponência e grandeza, há um toque de sadismo inconsciente e natural que o faz lembrar-se dela nos seus piores momentos… E tudo o que ele queria era chegar com vida até às margens dos braços dela…

Mesmo assim, como um bravo espadarte do romance de Ernest Hemingway, ele luta pela vida até os últimos momentos. Mas vale à pena? Bem, como diz o clichê, a esperança é a última que morre nesses suicide’s days…

 E como aquela onda de soberba que o pegou de surpresa no meio desse mundaréu de água, eis que surge do nada, uma formiga chata que caminha, displicentemente, pelo seu corpo dormente de sal. Como ela veio parar aqui?! Diante da situação surrealista, ele se desespera. Logo confunde esse minúsculo inseto com sua própria existência e então se sente não do tamanho dele, mas bem menor. Baixa autoestima pode ser pior do que depressão, câncer. Aliás, baixa autoestima talvez seja um câncer velado, uma depressão silenciosa…

A conexão com Kafka foi direta e logo ele estava se sentido tão sujo e asqueroso como uma barata desse pequeno romance absurdo. Metamorfoses kafkanianas… Ele só se sente confortável em sua imponente ilha de vítima, só assim ele é feliz, só assim ele se sente amigo do rei, quando é vítima de sua própria situação… O drama da existência…

E assim, em busca de sua fortaleza sentimental, ele tenta sobreviver vencendo seus medos mimados egoístas e a doente possessão de ciúmes daquilo que ele não tem… Daí a perfeição dessa metáfora da solidão em alto mar… É isso, ele precisava se libertar dessa triste e angustiante sensação de ter o que nunca teve…

Ele nunca vai conseguir chegar ao conforto dos braços dela que é a sua salvação. Era o que ele pensava, incessantemente, enquanto lutava pela sua própria vida, em alto mar… Tudo o que ele queria era apenas um pouco de atenção sincera dela… Por isso se sentia assim…

À deriva, com águas sufocantes até o pescoço… Morrer sufocado de desprezo talvez seja a pior das mortes…

* Este texto foi escrito ao som de: Scott 4 (Scott Walker – 1969)

Scott 4

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