Filme de Amor (2003)

Filme de Amor

A versão popular e suburbana de Júlio Bressane sobre o mito grego das três Graças, onde três amigos realizam uma suruba celestial durante um fim de semana…

O inventivo cineasta Júlio Bressane estará de volta ao Festival de Brasília e só de ouvir a notícia fiquei de rever os trabalhos desse mestre do cinema experimental brasileiro. Saquei da minha estante mágica Filme de Amor (2003), seu trabalho mais tocante para mim e assistir a um filme de criador marginal é sempre uma experiência marcante. O que dizer de rever então.

Não lembro mais o que escrevi sobre esse projeto aqui da outra vez, mas como se trata de uma obra sensorial, a cada nova sessão, impressões diferentes. Aqui ele reinventa o mito grego das três graças na construção de uma fábula popular suburbana em que aborda questões como o erotismo, a sensualidade e o amor.

Três amigos comuns que vivem uma vida medíocre, sufocados pelo cotidiano, se trancam durante um fim de semana num sobrado na periferia do Rio de Janeiro para se libertar. Ali, entre quatro paredes, nesse mundo privado cheio de fantasia, desejo e perversão, eles podem tudo. Vencidos pela embriaguez, pelo prazer do sexo e pelo espiritismo, eles mergulham numa espécie de suruba divina e entram em contato com as três Graças.

“Abaixo da cintura somos sem visão”, diz uma das personagens. “O espírito é um vampiro”, reflete outro. Metido num transe metafísico, tal qual um pajé do além, Gaspar (Fernando Eiras) mira a câmera e constata citando não sei quem: “O animal mais feio da Terra é o homem branco.”

Rinocerontes falantes que prometem mundos e fundos, crocodilos imorais e baleias assassinas fazem parte desse mundo cheio de referências pessoais que refletem no inconsciente coletivo que adormece dentro de cada um de nós. Daí as intervenções urbanas, a voz de Gregory Peck no clássico de John Huston, reproduções das imagens sensuais de Balthus e Aracy de Almeida cantando Noel Rosa complementarem a narrativa elegante de Bressane sobre o prazer.

Filmado em apenas 10 dias, após quatro meses de ensaios, Filme de Amor, vencedor dos prêmios de Melhor Filme, Fotografia e Trilha Sonora, é um ensaio belíssimo sobre a necessidade de fuga, desse intervalo insano que precisamos entre o berço e o túmulo.

* Este texto foi escrito ao som de: Acústico MTV Kid Abelha (2002)

Kid Abelha Acúsitoc

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