Contos bizarros da vida urbana

Contos 2

O Nelson Rodrigues é que estava certo, a vida é, como mostra essas três  histórias estranhas, uma desagradável surpresa…

Suicidou-se com uma bala na cara depois que todos já tinham ido deitar. O estrondo do barulho não acordou apenas a família, como toda a vizinhança. Quando chegaram ao escritório, uma mancha vermelha espessa de sangue impingia todo ambiente. Uma poça escura inundava o lado da face tombada sob a mesa, sujando os papéis que estavam sob a mesa. Muitos deles, diretamente ligados com esse ato brutal e insano…

“Bom, ele devia saber o que estava fazendo”, disse algum lunático sádico na calçada, logo depois de deixar a casa. “As pessoas não sabem o que faz”, comentou um homem de bem, esbanjando sabedoria.

Uma semana depois, descobriram que Feliciano tirara a vida por causa de uma dívida enorme. E o bizarro da situação é que se ele vendesse todo o patrimônio que tinha, enfim, a loja, a casa onde morava e umas terrinhas que tinha lá nos canfundós do Judas, cobria a dívida toda e ainda sobrava um troco de R$ 3 mil. “Mas e a vergonha do fracasso?”, comentou um espírito de porco.

A amizade de Glorinha e Sílvia era uma coisa assim de outro mundo. Causava espanto entre alguns, furor entre outros e certo desconforto num terceiro grupo. Também pudera. Inseparáveis desde o momento que se encontravam no trabalho, as duas pareciam ignorar o resto do mundo quando estavam juntas. O mundo podia desabar do lado delas que elas nem notavam. Essa união fraterna entre as duas chegava a incomodar Maurício, marido de Glorinha, que volta e meia comentava de si para si: “Aí tem coisa, batata!”, pensava.

Despachada, descolada e de uma autoconfiança de herói de cinema, Sílvia metia medo com seu jeitão durão de ser. Em qualquer lugar que chegava, impunha-se não porque falava mais alto, mas por causa de seu carisma distorcido que despertava nas pessoas um misto de curiosidade sádica e preconceito velado. O ser humano é assim mesmo, uma caverna nebulosa cheia de segredos sujos.

Um dia, quando menos se esperava, as duas sumiram do mapa, não foram encontradas em nenhum lugar por um bom tempo. O que comentava na repartição era que Glorinha tinha deixado o marido e o filho pequeno para viver um romance de trama marginal com Sílvia. Sílvia?! Bem, Sílvia não tinha nada a perder…

Pediu um beijo cercado de ingenuidade e desejo intenso no meio do trabalho. Um selinho apenas, bem rápido como um piscar de olhos, só para sentir o gosto dela na boca, nas veias, em suas entranhas, enfim, só pra ir embora para casa levando um pedaço dela…

Mas na verdade, ele só estava sonhando acordado, já que tal desejo era uma utopia perigosa, deliciosamente imaginada entre o intervalo de uma canção e outra do Phil Spector que escutava no Youtube…

Contudo, enigmática, ela tirou sarro da situação apenas dizendo:

– Vamos ver…

Pois bem, aquele beijo mendigado, no meio do rush do ofício ia ter, para sempre, o gosto de uma frase contundente de um poema de Manuel Bandeira: “Uma vida inteira que poderia ter sido, e que não foi”.

Mais tarde recebeu a notícia pelos amigos. As últimas palavras ditas por aquele matusquela apaixonado, antes de morrer, debaixo de um ônibus, ali no começo da Asa Norte, foi o nome dela… Alguém disse mais tarde que o único comentário dela, ao saber da notícia foi: “Ufa! Desse eu me livrei”.

* Este texto foi escrito ao som de: CSN (Crosby, Stills & Nash – 1977)

CSN 2

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s