Julieta dos Espíritos (1965)

Julieta dos Espíritos

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Sim, foi por causa da Julieta do Almodóvar que resolvi sacar essa obra-prima de Fellini de minha estante mágica e rever. Gozado como o gosto que temos pelas artes muda com o tempo. Lembro que quando vi essa fita pela primeira vez na faculdade não achei a menor graça. Talvez porque eu tenha ficado com medo, não sei. Agora já acho um dos melhores trabalhos do mestre italiano.

Vale lembrar que é o primeiro filme de longa-metragem a cores do cineasta. Antes ele havia trabalhado em um dos episódios de Boccaccio 70 nesse formato, mas como ele admitiria mais tarde em seu livro, Fazer Um Filme, aqui ele enfrentaria os reais problemas dessa técnica. “Em Julieta dos Espíritos pela primeira vez as cores apareceram como um problema totalmente expressivo”, admite.

Também é o primeiro filme realizado depois do clássico Fellini 8 e Meio, obra-síntese de seu cinema que nasceu de uma crise criativa. A Julieta de Fellini é vivida por Giulietta Masina, esposa atriz do diretor no primeiro papel de peso depois de sucessos como A Estrada da Vida (1954) e Noites de Cabíria (1957).

Aqui ela encarna uma esposa dedicada e fiel que mora numa casa dos sonhos que, ao descobrir a traição do marido (Mario Pisu), passa a ter visões e pesadelos que a levam rever sua vida. Impressionante como o diretor trabalha o fluxo do inconsciente de seus personagens de uma forma original e marcante aos olhos do expectador. Talvez Fellini seja um dos maiores psicanalista do cinema e desse modo as cores têm uma função sensorial importante na trama.

“No psicodrama todos devem trazer a verdade. É preciso viver um clima de verdade absoluto”, diz um dos bizarros personagens do filme, convidando a protagonista a participar de estranho jogo.

As coisas começam a parecer sombrias na rotina de Julieta quando ela recebe um grupo de amigos excêntricos e é presenteada por “espanta-espírito”, um daqueles penduricalhos com sinos colocados nas varandas de casas e apartamentos. “O amor é uma religião e o os amantes um deus”, ensina alguém na história.

Meio que exorcizando seus fantasmas do passado e demônios do momento, Julieta reflete sobre a vida matrimonial que leva, debatendo com uma fauna de imagens perturbadoras, como a de cavalos matusquelas, escravos suados, mulheres lascivas, soldados romanos e nazistas, um toureiro fã de Lorca, a nefasta figura de sua amiga de 15 anos que tirou a vida por causa de um amor.

“Vocês não os veem, não os ouvem”, se desespera ela ao ver todos brincando em seu jardim de pecado.

A ironia felliniana se faz acontecer em cenas engraçadas como a do padre que ganha vida como detetive particular. “Em meus filmes falei várias vezes da necessidade de representar a degeneração, a caricatura da relação matrimonial”, escreveu ele em Fazer Um Filme. “A intenção, a ambição do filme, sob este ponto de vista, é restituir à mulher uma independência real, uma indiscutível e inalienável dignidade”, resume.

* Este texto foi escrito ao som de: Mellon Collie and The Infinite Sadness (The Smashing Pumpkiens – 1995)

Mellon

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