Cabra-Cega (2005)

Cabra-cega

Vencedor de seis Candangos no Festival de Brasília, filme de Toni Ventura conta com atuação impecável de Leonardo Medeiros

Delicioso esse o exercício de reler livros e rever filmes. Parece que num segundo mergulho em obras já revisitadas os olhares e impressões são mais bem recolocados, assimilados. Acho que não vejo Cabra-Cega desde sua exibição no Festival de Brasília em 2006, quando abiscoitou seis prêmios, dos quais, Melhor Diretor para Toni Ventura, Roteiro para Di Moretti e Melhor Ator para Leonardo Medeiros.

Que seja feita a justiça. Toni Ventura, apesar da curta filmografia, é um cineasta subestimado. E este talvez seja o melhor roteiro escrito por Di Moretti, que traz alguns trabalhos irregulares em sua trajetória. Na trama, mais um enredo tendo como tema a ditadura militar, mas aqui evidenciada do ponto de vista interior de um guerrilheiro em ação, no caso o arisco e revoltado Tiago, Leonardo Medeiros em uma de suas melhores atuações no cinema.

Ele acabou de cair numa emboscada com os meganhas e perdeu a companheiro que agora sofre sevícias horripilantes na mão dos torturadores. Ferido à bala no ombro esquerdo, tem que ficar enjaulado dias a fio no apartamento de um simpatizante, sem nenhum contato com o mundo exterior. Paranoico, amargurado e irritado, anda se arrastando pela casa para não ser visto da janela e escuta televisão no volume baixo.

“Fique tranquilo, só tem velho e cachorro”, diz Pedro (Michel Bercovith), o dono do “aparelho”.

O mundo lá fora lhe mostra as caras por meio da enfermeira e militante Rosa (Débora Duboc), que tenta acalmar os ânimos de um irritadiço Tiago e sua angústia de tentar salvar a revolução no peito e na raça. Mas herói morto, não ganha a batalha, não é verdade?

Suspense intimista bem dirigido e com atuações supimpas (destaque também para o veterano Jonas Bloch), Cabra-Cega traz uma reflexão subjetiva de um tema explorado no cinema com certo didatismo histórico. A forma delicada e sutil com que os dramas e conflitos políticos do personagem são apresentados e desenvolvidos são de uma beleza humanista cativante, como o encontro desse guerrilheiro solitário com uma vizinha mais solitária do que ele ou o piquenique romântico na cobertura do prédio.

“Aos muitos brasileiros cabras-cegas que tentaram atravessar a escuridão para tomar os céus de assalto”, termina o filme, depois dos personagens se jogarem, de corpo e alma, na utopia fracassada de seus sonhos.

* Este texto foi escrito ao som de: Eu Quero É Botar o Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio – 1973)

Sérgio Sampaio

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s