Iluminuras de Arthur Rimbaud

Rimbaud

A trajetória do francês como poeta durou pouco, apenas cinco anos, dos 15 aos 19 anos, mas suficiente para deixar sua marca como um dos inovadores do gênero

8h da manhã e eu aqui tentando escrever algumas palavras descentes sobre o Rimbaud ao som de Miles Davis. Tarefa difícil, tendo em vista que o poeta francês foi um dos artistas mais enigmáticos do seu tempo. O típico caso em que a vida pessoal atribulada de um sujeito das artes se confunde e duela com a própria obra ou até mesmo mais do que ela. Enfim, Jean-Nicolas Arthur Rimbaud nasceu em 20 de outubro de 1854 e morreu em 10 de novembro de 1891. Tinha apenas 37 anos, uma perna a menos e esquecido como poeta.

Também pudera, porque ele só se dedicaria com fervor religioso aos versos apenas dos 15 aos 19 anos. Tempo suficiente, inclusive, para se consagrar como um dos grandes do gênero, motivado por um estilo moderno e sensorial de escrever e sentir a poesia que influenciaria os beatniks e estrelas do rock como o igualmente atormentado, Jim Morrison. Aliás, foi por meio do Rei Lagarto que cheguei ao Rimbaud. Ou seja, um artista sempre leva ao outro.

O que mais chama atenção na poesia do jovem Rimbaud são os delírios imagéticos construídos por ele, como mostra o livro Iluminuras, obra que pesquei outro dia ali em minha estante mágica. Publicado, originalmente, em 1886, na revista La Vogue, contem 40 poemas em prosas e dois em versos livres de uma densidade perturbadora, refletindo suas experiências como andarilho por países da Europa como Inglaterra, Alemanha, Áustria, Itália e Suécia.

Iluminuras é, sem dúvida, a anotação madura de um poeta nômade, em transe, em trânsito”, comentam os tradutores dessa edição vagabunda que tenho. “Rimbaud quer se libertar da contemplação passiva do observador com seus objetos, e atuar poeticamente sobre eles, transformá-los em iluminuras dinâmicas”, registram.

A influência do jovem Rimbaud teria sido o poeta Charles Baudelaire, aquele a quem ele queria se superar, embora ainda estive preso a certas convenções literárias das quais ele repudiava. Para Rimbaud, as formas convencionais de metros, rimas, versos e temas ainda adotados por poetas de seu tempo não passava de “um jogo nas mãos de inúmeras gerações idiotas”, dizia.

E com esse pensamento em mente subverteu, extrapolou e reinventou, produzindo associações inusitadas e fusões metafóricas modernas. Assim como numa pintura, as alegorias líricas que criam, dão margem para várias interpretações e sensações. “Para mim é evidente: assisto à eclosão do meu pensamento: vejo-o, escuto-o”, escreveu certa vez.

Abaixo, dois trechos de poesia que captam essas impressões interior do poeta: “A cascata canta atrás das barracas da ópera-cômica. Girândolas se prolongam, nos quintais e nas aléias vizinhas ao Meandro, – os verdes e os rubros do crepúsculo. Ninfas de Horácio com perucas do Primeiro Império, – Cirandas Siberianas, chinesas de Boucher”, escreve em Festa de Inverno. “Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole que se julgam moderna porque todo estilo conhecido foi excluído das mobílias e do exterior das casas bem como da planta da cidade”, deixa registrado em Cidade, tema bastante recorrente nessas Iluminuras.

* Este texto foi escrito ao som de: Bitches Brew (Miles Davis – 1969)

Bitches_brew

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