Luz de Inverno (1962)

Luz de inverno

Nesse segundo filme da trilogia de Ingmar Bergman sobre o silêncio, ele questiona a existência de deus e de um sentido para vida por meio de um religioso em conflito

Uma dica de amigo. Se você estiver depressivo então não assista a nenhum filme do Bergman. O sueco cineasta que revolucionou o cinema cerebral com sua visão pessimista, realista e existencialista da vida é um convite ao suicídio em todos os sentidos. Mas mesmo com a alma cinza por dentro nesses dias, lá fui eu encarar Luz de Inverno (1962), segundo trabalho de sua trilogia do silêncio junto com Através de Um Espelho (1961) e O Silêncio (1963).

Baseado no clássico de Robert Bresson, O Diário de Um Pároco de Aldeia (1950), o filme é uma reflexão amarga sobre a existência de um deus e o sentido da vida. Na trama, um padre (Gunnar Björnstrand) em conflito religioso tenta confortar os dramas e medos de seus fiéis. Entre eles o pescador Jonas (Max von Sydow), que entra em desespero ao ouvir no rádio que a China está prestes a construir sua bomba atômica.

“Por que devemos continuar vivendo?”, pergunta ele, sem esconder o medo da situação.

O desespero é maior quando esse humilde homem da aldeia percebe que o religioso não tem as respostas para sua dúvida, o vazio dessa busca culmina num desfecho trágico.

O recado de Ingmar Bergman é curto e grosso. Não existe um deus da misericórdia e piedade flutuando acima de nós quando estamos afogando num vale de lágrimas, nunca existiu. O que existe e o cineasta deixa isso bem claro nessa pequena crônica de angústia e dúvida é uma ideia vaga do que é Jesus e o conceito de deus, uma criatura que se mostra o tempo todo omisso e silencioso.

Aliás, a impressão que se tem é que, com sua mise-en-scène teatral, Bergman parece zombar ou duvidar dos arquétipos cristãos, quando mostra um religioso indeciso e incapaz de lidar com os seus próprios problemas, ou a figura de um Cristo barroco, feio e com aspecto de Satanás pregado na Cruz. “Deus e eu vivíamos num mundo organizado, onde tudo fazia sentido”, ironiza o Padre.

Em sua autobiografia, Lanterna Mágica, o cineasta lembra que escolheu a região de Uppland para rodar o filme, durante a passagem do inverno para a primavera, daí o título. As visitas que fazia às igrejas do lugar o ajudaram a encontrar um desfecho para esse ruidoso drama existencial. “Na maioria das vezes, apanhava a chave com o sineiro e ficava sentado durante algumas horas na nave, via a luz caminhar e em como concluiria o meu filme”, recordou. “Tudo estava escrito e planejado, menos o fim”, revelou.

Algumas boas ideias nascem da crueldade, solidão e medo que carregamos dentro de nós.

* Este texto foi escrito ao som de: Every Picture Needs a Story (Rod Stewart – 1971)

Rod Stewart - Every Picture Needs a Story

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