Otelo, O Mouro de Veneza 2

Otelo 2

Texto de Shakespeare escrito em 1603 revela, entre outras coisas, o machismo da época, mostrando a mulher como objeto do desejo de homem

As tramas palacianas tecidas por Shakespeare em obras que li como Hamlet, Macbeth e Ricardo III estão cheias de personagens sofrendo e odiando por inveja, ambição, vaidade e poder. Otelo, O Mouro de Veneza tem tudo isso, mas duas questões que surgem no texto, mesmo que veladas me saltaram aos olhos aqui. O preconceito de cor com relação ao bravo guerreiro do título e o machismo do autor.

Shakespeare machista? Sim e nem é culpa dele porque, como disse certa vez o escritor árabe Avorrais, “Somos mais parecidos com o nosso tempo do que com nossos próprios pais”. Ou seja, o bardo inglês só estava extravasando em seus diálogos uma mentalidade comum da época. Tão comum, que a própria Desdêmona é a primeira assumir isso sem sentimento de culpa ou repreensão. É quando explica ao pai porque fugiu com o Mouro Otelo.

“O senhor é soberano em matéria de dever”, diz ela, falando da gratidão pelo velho da vida e educação dado por ele. “Mas eis aqui o meu marido, e, tanta obediência quanto minha mãe mostrou ao senhor, dando preferência ao senhor e não ao próprio pai, assim venho eu requerer o meu diretor de professar minha obrigação para com o Mouro, meu amo e senhor”, diz.

Para um bom entendedor uma reles palavra basta. Contudo, a situação acima ilustra um comportamento comum na época que hoje parece estranho aos olhos não apenas das feministas, mas também de homens decentes. Ou seja, aqueles que são indiferentes ao machismo. Mas há outras passagens no texto de Otelo que parecem não apenas ter vencido o tempo, como incrustado no inconsciente de todos os machões como um câncer.

“Vocês mulheres são uma pintura fora da intimidade do lar, guizos na sala de visitas, gato selvagem na cozinha, santas em suas injúrias, diabólicas quando se ofendem, dominam o jogo das lides domésticas e sabem ser assanhadas na cama”, diz em tom de deboche o vilão da trama Iago. “Vocês se levantam para brincar e deitam-se para trabalhar”, continua insultando.

Uma pena que essas infames ideias ainda perduram nos dias de hoje. Ou seja, o de olhar para mulher apenas como um objeto de desejo.

* Este texto foi escrito ao som de: Negro é Lindo (Jorge Ben – 1971)

Negro é lindo

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