O Cangaceiro Trapalhão (1983)

O Cangaceiro Trapalhão 3

“Sou nordestino, moça. E o que o nordestino mais faz é trocar o certo pelo duvidoso”, personagem do Didi, ao deparar com a bruxa Bruna Lombardi…

A magia lúdica dos filmes dos Trapalhões, com sua mistura de Charles Chaplin, arte circense e influências da cultura pop do momento, é algo que vai perdurar por muito tempo no inconsciente das gerações que tiveram a oportunidade de acompanhar o sucesso do fab four do humor brasileiro. O mais legal é que esse estilo de fazer rir vem “popotizando” às gerações precedentes, como me fez notar minha sobrinha de seis anos, apaixonada pela trupe.

Volta e meia estamos sempre revendo os filmes de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias e nos divertindo pacas. Outro dia mesmo, quase tivemos uma overdose de gargalhada ao ver O Cangaceiro Trapalhão, filme de 1983 que fez quase 3 milhões e 900 mil espectadores. Na trama, uma paródia do mito de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Superprodução com direção de Daniel Filho, diálogos de Chico Anysio e participações no elenco de Regina Duarte, Bruna Lombardi, Tânia Alves, Nelson Xavier e Tarcísio Meira, o filme tira sarro com todos os arquétipos da cultura cinematográfica nordestina ao contar a história do simples pastor de cabras, Severino do Quixadá (Renato Aragão, o nosso Didi), que salva o destemido fora-da-lei de alcunha, Capitão (Nelson Xavier), de uma emboscada arquitetada pelo atrapalhado Tenente Zé Bezerra (José Dumont).

“Que cabra?”, pergunta a personagem de Tânia Alves, ao saber de um novo integrante do bando. “O cabra das cabras”, resume Capitão, personagem de Nelson Xavier.

É ele que, para proteger o bando, se veste igual ao líder dos cangaceiros e se transforma em Lamparino, um falso cangaceiro que confunde a polícia com suas atrapalhadas.

Como em todas as tramas dos filmes dos trapalhões, o enredo é costurado por uma miscelânea de referências que vão desde passagens clássicas da literatura ou cinema, passando por sucessos do momento. As cenas iniciais do filme, por exemplo, é reprodução bem montado de um autêntico bang bang e os personagens remetem ao mítico filme de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). O fenômeno de bilheteria da época, Indiana Jones não é esquecido, com o valente Didi reproduzindo a famosa cena do herói fugindo embaixo não do caminhão, mas de uma carroça.

Um elemento sempre pertinente nos filmes da trupe, os efeitos especiais são usados aqui como função narrativa inteligente. Basta conferir a cena da casa da bruxa, com Bruna Lombardi e Renato Aragão subindo pelas paredes como se fossem duas lagartixas humanas. “Não faz isso não dona. Sou nordestino e o que nordestino mais faz é trocar o certo pelo duvidoso”, diz Didi, numa reflexão que persegue a sina de seu povo.

Três anos depois, Os Trapalhões iriam produzir outro filme com temática nordestina, este talvez um de seus melhores filmes, uma adaptação trapalhônica do texto de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida.

* Este texto foi escrito ao som de: Por Onde Andará Stephen Fry? (Zeca Baleiro – 1997)

Zeca Baleiro - Por Onde Andará Stephen Fry

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