Otelo, O Mouro de Veneza

Otelo

A trama gira em torno da premissa da infidelidade e dos imbróglios causados pelo ciúme, segundo Shakespeare, esse demônio verde.

Há uma cena emblemática no filme Chocolate, drama com o Omar Sy sobre a história do primeiro artista circense francês que foi uma das atrações do Festival Varilux. É quando ele tem um choque de realidade, abandona os picadeiros e encara os palcos encenando Shakespeare. “Eu e Shakespeare nos entendemos muito bem”, tira sarro, indo interpretar não um texto qualquer do bardo inglês, mas Otelo, O Mouro de Veneza.  “Sou negro, perfeito para o papel”, argumenta.

Escrito por volta de 1603, a peça é um dos trabalhos mais ousados de Shakespeare, com sua trama recheada de temas atuais como amor, ciúme, traição, ambição, ódio e, veja só, racismo. Sim, porque mesmo abordado de forma velada e com menor repercussão social em relação aos dias de hoje, a questão do preconceito é um forte atenuante na história.

Tragédia dividida em cinco atos, o enredo centrado em quatro personagens se passa no reino de Veneza, onde Otelo é um general que serve a este estado em luta contra Chipre. Casado com a bela Desdêmona, ele é alvo da inveja e ambição de Iago que, mordido por ódio sem limite, urde imbróglio entre Otelo e o seu tenente Cássio.

“O Costume, esse tirano, soube transformar para mim leito de pedra e aço da guerra em colchão de plumas três vezes joeiradas”, diz o africano guerreiro, elucidando a natureza de seu ofício.

Não tem como fugir. O tempo todo o leitor se depara com a premissa da infidelidade e as confusões geradas pelo ciúme. Tema universal é abordado desde que a humanidade se deu conta de que havia um homem e uma mulher na face da Terra, mas aqui potencializado pelo feitiço do poder e da ganância.

“Diga-me: qual é o palácio onde não se intrometem às vezes coisas fétidas”, provoca o pestilento Iago, um dos vilões mais sórdidos na história da literatura.

O que mais incomoda e intriga na história de Otelo para mim é a origem dessa maldade e ódio alimentados pelo vilão da trama. Nada nesse sentido no enredo é claro ou objetivo aos olhos do leitor. Iago simplesmente odeia Otelo e pronto. “Odeio o Mouro. Vamos agir em conjunto em nossa vingança contra ele”, esclarece categórico, Iago, tecendo planos maldosos como o cúmplice Rodrigo. “O inferno e o breu da noite deverão dar à luz do mundo a esse monstro”, exagera.

E pasme, há certo machismo no texto de Shakespeare aqui, que é condizente, infelizmente, com a realidade da época, soando aparentemente “normal”. O que me faz lembrar aquela frase de um escritor árabe que nunca sei direito seu nome, eu acho que, Avorrais (1126 – 1198): “Somos mais parecidos com o nosso tempo do que com nossos próprios pais”. Acho que é isso.

* Este texto foi escrito ao som de: In a Silent Way (Miles Davis – 1969)

In a Silent Way - Miles Davis

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s